Vida e Morte de Zachary Walker
5 Capítulo IV
Era uma tarde qualquer, e Zachary preparava uma mistura de água oxigenada e suco de morango em pó com auxílio de um pincel.
—Isso não vai dar certo — alertou Andrew, que estava sentado no tapete do quarto de Zac lendo alguma coisa.
—Claro que vai — respondia Walker confiante, passando a mistura de cheiro adocicado nos cabelos.
Zachary havia descoberto a água oxigenada no ano anterior. Ele sempre teve os cabelos loiros, mas como era de se esperar eles começaram a escurecer gradativamente conforme ele crescia. Então, um belo dia, ele e os antigos amigos roubaram água oxigenada e pó descolorante do banheiro de suas mães e apostaram quem iria ser a primeira cobaia. Claro que as longas madeixas de Zachary foram o alvo principal. Mas o resultado havia ficado tão bom que ele resolveu aderir permanentemente. E quando enjoava, inventava de pintar com algum sabor de suco diferente.
Quando Zac finalmente estava com a pasta vermelha por todo o seu cabelo, Andrew foi abrir a janela, porque o cheiro havia invadido o cômodo e era realmente enjoativo.
—Você consegue imaginar que a gente toma esse tipo de coisa? — Zac questionava se olhando no espelho.
—Bem vindo à sociedade moderna, amigo.
Cerca de quarenta minutos depois Zac foi para a ducha, e o banheiro ficou todo tingido de rosa. O resultado fez Andrew rir: seu cabelo, ao invés do glorioso vermelho idealizado, ficou manchado irregularmente com diversos tons róseos, principalmente nas pontas. Mas Zac até que gostou, orgulhoso de sua obra. Ele ficou com o cabelo grudento e cheirando à morango por uma semana.
Sua mãe achava graça, seu pai nem tanto. Na mesa de jantar naquela noite, ele passou a refeição toda dando sermão sobre como daquele jeito ele nunca arrumaria um emprego, o que fazia sentido pois ele nunca iria atrás de um mesmo, já que sua mãe sempre lhe sustentaria e daria dinheiro conforme necessário, entre outras coisas do tipo. Quando Zac se cansou de ouvir, levantou-se da mesa bruscamente e saiu pela porta dos fundos, com os gritos do pai sobre ele não encarar seus problemas de frente e sim fugir deles.
No jardim dos fundos, Zac resolveu pular a grade de trás. Ele cavou uma leve depressão na grama, suficiente para caber a ponta de seu Converse, e escalou habilmente a grade negra pontuda. Uma vez do outro lado, que era mais alto, observou sua casa taciturno. Percebeu que as luzes da escada se acenderam, e depois a janela do quarto dos pais se iluminou. O garoto observou que atrás da cortina percebia-se a silhueta da mãe, que provavelmente havia discutido com seu pai — coisa que se tornava cada vez mais frequente — e teria ido depois para o quarto chorar sozinha. Zachary odiava aquela situação. Desejou poder proteger a mãe, mas ele sabia que não conseguiria proteger nem a si mesmo.
Pôs-se então a vagar sem rumo pelo bosque, até que começou a escutar estalos de algo sendo queimado e viu labaredas ao longe. Como o bom amante das chamas que era, seguiu o som, cauteloso. Percebeu que sob seus pés havia uma trilha: ele estava à caminho de alguma coisa, mas nunca havia estado por ali. Zac continuou no caminho, que terminou em uma série de árvores encobertas por erva passarinho formando uma parede verde. Ele podia ouvir vozes vindas do outro lado, e a luz das chamas parecia vir de lá. Cuidadosamente, ele afastou algumas folhas, e então a paisagem oculta se revelou:
Ali havia uma clareira com diversas pessoas reunidas. Uma enorme fogueira estava acesa bem no meio, e ao seu redor haviam troncos que serviam como bancos, organizados de maneira tal que pareciam estar ali há muito tempo. Um homem de cabelos negros muito longos e barba — igualmente comprida — estava de pé falando, como se desse um sermão, e as pessoas em torno da fogueira ouviam atentamente, com certa reverência. Todos estavam vestidos com túnica escuras, e o homem que falava segurava um cajado de tronco retorcido com uma pedra negra na ponta.
Zac não conseguia crer naquilo que via. Uma daquelas pessoas então lhe chamou a atenção: dentre aquele mar de cabelos escuros, havia um cujo tom vermelho era comparável às chamas. A garota estava sentada do lado do homem barbudo que falava, e seus cabelos ruivos iam até sua cintura em ondas charmosas. A lembrança da garota ruiva de Bloomfield lhe veio em mente. Ele afastou logo o pensamento, conforme se afastou das folhas e cessou sua visão.
Ele voltou para casa prestando atenção no caminho, já sabendo que pretendia voltar ali muitas vezes. Já havia lido sobre mitologia, tinha certeza que aquelas pessoas ali reunidas eram de algum grupo pagão da cidade. Tudo era muito encoberto, mas os boatos místicos da cidade então eram reais. Sua curiosidade estava maior do que nunca, e isso raramente resultava em algo bom.
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No dia seguinte, ao invés de assistir a aula de Álgebra, Zachary se enfiou na biblioteca do Masefield em seu setor favorito, de mitologia e história local. Ali passou horas em sua pesquisa, lembrando da cena que vira na noite anterior. Passou pelos livros de mitologia celta os quais já havia lido, e caminhando por entre outros corredores chegou até os livros de bruxaria moderna, os quais deu uma breve olhada mas não encontrou nada satisfatório. Por fim chegou à uma sessão afastada, denominada de ciências ocultas. Nela, havia uma subdivisão intitulada "Tradições". Aquilo chamou a atenção de Walker, principalmente por conter apenas livros muito antigos e surrados.
O livro mais imponente de todos tinha a capa negra, sem nenhuma intitulação aparente. Zac o retirou com cuidado, e o abriu, revelando as páginas amareladas e finas. Na primeira página lia-se com uma letra manuscrita, floreada como se feita por pena e tinteiro: "Os Tenebris". Abaixo havia a assinatura do autor, e então Zac ficou atônito. Ao esfolhear rapidamente o pesado livro, percebeu que ele era inteiro manuscrito, e continha diversas ilustrações. Era como se fosse um diário pessoal, pois era escrito em primeira pessoa. Ele se perguntou como algo assim podia estar ali, deveria ser o único no mundo. Só depois se deu conta de que estava em um corredor restrito.
O sinal bateu só então Zac se deu conta que havia passado toda a manhã ali. Ele não poderia levar o livro para casa, então passou a ir de fininho todas as manhãs até o corredor restrito e se sentar no chão para continuar sua pesquisa. Ele levou Andrew com ele no dia seguinte para mostrar sua recente descoberta, e contou sobre sua visão na clareira, já certo de que se tratava do mesmo grupo, ou Tradição, como narrava o livro. O amigo achou tudo muito estranho, mas ouvia atento. Andrew gostava de aprender coisas novas.
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Naquele dia após a aula os dois foram até a loja de bebidas da cidade, Andrew imitava seu pai fingindo degustar um vinho — Sr. Parks era um grande apreciador — enquanto Zachary escolhia as bebidas que levariam.
—Sim sir, eu realmente tenho 18 — insistia ele para o velho do caixa, que por trás de seu bigode esboçava uma expressão desconfiada.
—Não posso lhe verder sem sua identidade, filho — respondia o velho.
—Ah, foda-se isso — Zac bufou finalmente, e correu para a porta com as bebidas em sua mão.
Andrew ficou ali parado confuso por algumas frações de segundo, e por fim pareceu entender a fuga e seguiu o amigo ainda com o vinho em sua mão. O velho tentou correr atrás dos dois, mas em segundos eles já haviam desaparecido por entre as pessoas da ruela, e atravessavam a praça central para então desaparecerem no bosque.
—Por que eu ando com você mesmo Zac? — perguntava Andrew ofegante atrás do outro, desviando das raízes da trilha. Já caminhavam fazia dez minutos.
—Porque você me ama — respondeu Zac se virando e parando subitamente no caminho.
Ele abriu uma garrafa de whisky e pediu para que o amigo abrisse a boca, despejando um pouco do liquido dourado nela e rindo quando Andrew franziu a testa:
—Se ia roubar bebidas podia roubar uma com um gosto melhor — ele dizia ainda com o cenho franzido.
—Andrew, Jack Daniel's é uma coisa que se vale a pena roubar — e dito isso bebeu um pouco do líquido diretamente da garrafa também.
Andrew deu mais uns goles pelo caminho por insistência de Zac, e alguns passos à frente os dois já estavam cambaleantes pela trilha.
—Ok, digamos que isso seja hipoteticamente bom — disse Andrew com a fala arrastada, rindo do súbito efeito.
—Assuma logo que você gostou — zombava Walker.
Ele então tropeçou em uma pedra e caiu sobre o amigo, os dois terminando encostados no tronco úmido de um carvalho.
Seus rostos estavam próximos.
—Andy, voce é muito bonito assim de perto sabia? — disse Zac baixinho com seu hálito de whisky.
—Ah dá licença Zachary — respondeu o amigo rindo e o empurrando.
Zac caiu sentado e se deitou contorcendo-se de rir.
De repente, os dois ouviram vozes e se calaram subitamente. Em volta deles havia uma porção de carvalhos, os troncos e raízes formavam um imponente corredor verde. Eles se arrastaram desajeitados para trás de um deles e, logo em seguida, duas pessoas se aproximaram com passos lentos pelo local. Zac arregalou os olhos, reconheceu aquelas silhuetas mesmo sem as capas negras.
—Esta é a área mais sagrada de nosso bosque. Sinta a magia emanada desse lugar, a aura soberana dos carvalhos.
Quem dizia com uma voz grossa e imponente era aquele mesmo homem de longos cabelos e barba negra da clareira. Ele segurava seu cajado de tronco como se este o guiasse pelo caminho. Ao seu lado, a garota ruiva ouvia tudo atentamente, vestindo jeans e camiseta, não muito diferente ou mais velha do que as garotas que Zac conhecia.
—Mago, quando eu poderei me iniciar na Tradição? — ela perguntou, sua voz era baixa.
—Somente o tempo dirá — respondeu o mago, enigmático.
Os dois caminharam até que sumiram do campo de visão dos garotos. Um leve odor almiscarado ficou no caminho. Zac ainda se sentia tonto. Ele e Andrew ficaram ali deitados até conseguirem estabilidade suficiente para se levantar de novo e irem para casa.
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