Vida e Morte de Zachary Walker
7 Capitulo VI
PARTE II — TERRA
Outono, 1992
O tic-tac do relógio da parede parecia ensurdecedor no silêncio agonizante. Zac estava na conhecida sala de detenção: tapete velho sob a mesa de madeira velha, onde uma senhora — também velha — vigiava tudo com olhar severo rodeada por quadros muito, mas muito velhos. Era assim que ele via tudo no velho Masefield, pelo menos. Ele segurava sua touca em sua mão, a qual foi solicitada que tirasse ao entrar na sala. Havia uma garota cheia de pierciengs sentada na mesa ao seu lado, aparentemente tão entediada quanto ele. A aula havia acabado a cerca de vinte minutos, mas faltava ainda quinze para o fim da detenção. Sentiu-se em The Breakfast Club, filme que adorava ver na infância, quando seu sonho era ser um dos desajustados do colégio que enfrentava as autoridades. Talvez não tenha amadurecido: ele ainda adorava isso.
A garota ao seu lado se espreguiçou e largou um pequeno papel sobre sua mesa. Zac olhou para a senhora a sua frente, que parecia distraída lendo alguma coisa, e observou o papel com mais atenção, onde se lia em uma caligrafia floreada:
"O que você fez, valentão?"
Zac riu silenciosamente e virou-se para a garota. Ela o olhou para ele pelo canto dos olhos e deu uma piscadinha. Ele então pegou a caneta sobre a mesa dela sorrateiramente, e escreveu embaixo com sua caligrafia rabiscada:
"Vandalismo ao Patrimônio Histórico. E você, criminosa?"
A garota sorriu ao receber o papel e lê-lo, e rabiscou em baixo rapidamente:
"Atos obcenos no banheiro com um garoto" seguido com uma carinha de sorriso.
Mas quando ela ia devolver o papel para Zachary, a senhora subiu o olhar severo por cima dos óculos e imediatamente ordenou que ela o jogasse fora. Zac nunca soube o porquê da garota estar ali.
Quando finalmente pôde voltar para casa, usou seu atalho pelo bosque economizando longos minutos de caminhada convencional. Ele sempre caminhava de maneira ágil e despreocupada, arrancando folhas ocasionalmente ou pulando algum tronco. Ainda não era época de cogumelos, mas quando encontrava algum, colhia imediatamente. Ele gostava de observá-los por baixo, onde formavam-se linhas simétricas em direção ao centro. O rosa de seus cabelos já estava quase que todo desbotado por baixo da touquinha vermelha que ele usava, e ele já planejava qual seria sua nova cor.
Quando estava quase chegando na ponte, tropeçou em alguma coisa dura no chão. Imediatamente parou, aquilo não era um tronco nem uma pedra. Voltou e se agaixou no monte de folhas proeminente, afastando-as com as mãos até que sob todas elas, um baú se revelou.Ele nunca havia visto aquilo ali, sendo que sempre fazia aquele caminho. O baú estava parcialmente enterrado, apenas a tampa ficava acima da superfície da terra escura. O cadeado da fechadura estava muito corroído pelo tempo, então não foi preciso muita força para o quebrar. Quando Zac o fez e abriu, já sentado no chão úmido do bosque, um cheiro forte de cânfora e umidade saiu de seu interior.
Lá dentro havia uma lâmina de dois gumes em um cabo prateado, repleto de figuras forjadas: um punhal. Ele o pegou e ergueu até a altura de seus olhos, e a lâmina, muito polida, refletiu seus olhos surpresos. Havia lido nos livros de mitologia que os celtas utilizavam punhais, ou athames, como eram chamados, durante seus rituais. O punhal estava descansando em algo preto lustroso, que Zac descobriu se tratar de duas capas pretas, praticamente do seu tamanho. Lembrou-se do Mago e da garota ruiva, e das pessoas que vira um dia na clareira. Zac recolocou tudo no baú de maneira desordenada, deixando o athame por cima. Fechou a tampa e chutou algumas folhas por cima como estava antes de ele o encontrar, como se nada houvesse acontecido. Ele agora era dono de um tesouro, e certamente saberia como o encontrar novamente.
x x x x
Já em casa, Zac ia se dirigindo ao seu quarto quando seu pai apareceu na escada, obstruindo seu caminho. Zac tentou desviar dele como se ele não estivesse ali, mas Peter apoiou os dois braços um em cada corrimão, bloqueando a passagem.
—O que foi? — perguntou Zac irritado.
—Seu colégio me ligou, de novo. Você causou mais problemas — o homem alto disse sério.
—E o que você pode fazer sobre isso? — respondeu, impertinente.
—Sabe o que eu deveria fazer, garoto? Eu deveria é te mostrar disciplina de verdade. Você tem de tudo, e por isso é assim mal agradecido. Eu dou duro para pagar aquele colégio, já pensou nisso? E já pensou que eu simplesmente não precisava fazer isso?
—Então por que o faz, Peter? — Zac respondia em tom de desafio, o que deixava o pai furioso.
—Garotos, parem — disse a mãe vindo da cozinha, já aflita.
Lenore odiava ver os dois homens que amava brigando, o que era frequente.
—Você não se meta, Lenore. Isso é tudo sua culpa. O garoto não me respeita porque sabe que tem você para defendê-lo até o impossível — disse Peter dando um soco no corrimão.
—Isso, quebra tudo. Vamos, esse soco poderia muito bem ser em mim, não é? É de correção que eu preciso, certo?
—Zachary Walker, por favor! — Lenore intervia aflita.
—Mãe, você não vê? Esse homem desconta em você as próprias falhas como pai! — Zac jogava a mãe contra o pai frequentemente, mas achava que a defendia dessa forma.
Peter então segurou o filho pela gola da camisa, e disse entre os dentes:
—Mais uma dessas, Zachary. Mais uma dessas e eu juro que vou por um fim nessa sua vidinha fácil e imprudente. E eu te garanto, o apelo de sua mãe não será suficiente para me fazer parar.
Ele então soltou o filho violentamente, e seguiu descendo a escada. Lenore correu até Zac, chorando e o abraçando. Zac se soltou rapidamente dela, e se trancou em seu quarto pelo resto do dia. De sua janela, observou o pôr do sol cinzento. Eram as primeiras semanas de outono, e a neblina já obstruía as montanhas no horizonte. No fundo da prateleira entre seus livros, ele pegou o pequeno saquinho transparente com o tão estimado pó branco cristalino recém adquirido, coisinha que Alex vendera para ele em sua última vinda. Separou em quatro carreiras com auxílio de um cartão, e aspirou as quatro com uma nota de um. Sentiu os olhos lacrimejarem, seguido da ardência em seu nariz. E depois daquilo, sentiu euforias inexplicáveis e alegrias violentamente prazerosas.
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