Coral. Sua mãe lhe disse que o nome vinha de um tipo de formação biológica, um ecossistema aquático. Quando pequena, de sua casa ela podia ouvir o oceano. As ondas quebravam nos rochedos e ela podia ouvir conchinhas e pedrinhas — como aquelas que colecionava — que a chamavam lá em baixo. Coral. Coral. Coral.

Vivia na Inglaterra, aos 10 anos mudou-se com a família mais para o interior da ilha, onde passou a viver num subúrbio de uma cidade mediana. Era perspicaz desde nova e conseguiu vagas em boas escolas, seus pais não tinham muito dinheiro, mas apoiavam os estudos e não a deixavam trabalhar a sério para não prejudicar seu futuro acadêmico.

Para ajudar como pudesse, Coral pegava então pequenos empregos aqui e lá por uns trocados. Podia cuidar de crianças por uns dias, aparar gramados, auxiliar o projetista no cinema municipal ou, e foi o que fez por mais tempo, entregar jornais.

\\t\\t\\t Esse especialmente foi seu trabalho favorito. Andando de bicicleta, jogava os jornais nas portas, ou sobre as cercas ou os entregava em mãos quando via os moradores. Gostava de sentir o vento nos cabelos curtos ruivos, de descer ladeiras à toda velocidade, praticar sua mira com os jornais e, acima de tudo, colecionar coisas.

Sua coleção básica era de pequenos objetos que encontrava. O livro de um anão de jardim quebrado, um pequeno crânio de pássaro, uma rústica pulseira de relógio e, lógico, suas conchinhas que trazia da infância.

Mas colecionava outras coisas também. Fatos e números por exemplo. Já jogara 496 jornais, dos quais acertara 282, e aumentava a freqüência de seus acertos. Conhecia por nome e localização 28 ruas de sua cidade. Caíra 4 vezes seriamente de bicicleta, uma das quais lhe rendeu uma tala de gesso e uns bons arranhões pelo corpo...

Foi durante um turno de seu trabalho, e logo após uma pequena queda, que aconteceu.

Ela ia, com um pequeno corte no lábio, meio mal-humorada jogando jornais. A rua não tão homogênea e o som de uma sirene bem ao longe a irritavam. Num bairro nobre, na última casa da rua, desviou-se do carro amarelo estacionado e estava prestes a atirar o jornal quando entreviu a Sra. Roberts pela fresta da porta. Ela parecia apreensiva, mas Coral não deu atenção a isso na hora.

Pousou a bicicleta cuidadosamente na cerca viva e atravessou o gramado com o jornal em mãos. Avistando-a, a Sra. Roberts começou a mover os lábios sem emitir som e lançar um olhar arregalado pela fresta da porta.

Aos 17 anos, Coral podia até não carregar sempre consigo seus livros, ou suas coleções, ou seus jornais, mas sempre carregava sua curiosidade. Começou a aproximar-se mais lentamente e tentando divisar algo por entre a porta e a Sra. Roberts, que por algum motivo parara de mover os lábios e apenas a fitava, quase apática. Aproximou-se das janelas e não viu nada, então foi até a porta, quase pensando se imaginara o comportamento estranho.

Parada em frente a porta, estendeu em silêncio o jornal. A Sra. Roberts não se moveu e apenas fitou tristemente a garota. Sem entender, Coral aproximou-se mais um passo e sussurrou.

- Sra. Rober..

Mal iniciara e a porta se abriu de uma vez, assustando-a. Ela saltou para trás instintivamente, mas uma mão agarrara a alça da sua sacola de jornais. Tentou desvencilhar-se, mas outra mão a segurou.

Agora os via. A Sra. Roberts parada, com as mãos nas costas. Um homem alto e com um pano na cabeça logo atrás dela, com uma mão às costas da mulher. E o outro homem com pano a cabeça, de olhos azuis tão claros quanto podiam ser, que a segurava pelos braços.

Foi puxada para a frente, batendo na lateral da porta e derrubando seus jornais. Viu pela mudança de claridade que a porta atrás de si voltava à posição inicial.

Ouviu uma vez:

- Quem é você?

E outra vez o mesmo, dessa vez aos gritos, mas não respondeu.

Um terceiro homem encapuzado se juntou ao Olhos Azuis e a mirou de frente.

Segurada fortemente pelos braços, não fez mais que uma pequena tentativa de desviar-se do golpe que se seguiu. Sentiu alguns dentes racharem-se e sangue escorrer por sua mandíbula, mas prosseguiu quieta, o fitando obstinada.

Atrás de si, ouviu uma voz grossa. “Ele chegou”, foi o que disse.

Foi puxada de novo para a frente e tentava soltar-se como podia, mas sem efeito.

Ouviu um som de conversa sussurrada enquanto era arrastada por um corredor, debatendo-se. Na sua mente algo estalou. As sirenes.

Mal pensara e elas apareceram, mais próximas a cada momento.

A dupla que a arrastava parou de súbito. Seguiu-se um alvoroço meio indistinguível na penumbra da casa. As sirenes se aproximavam e logo uniram-se a elas o som de pneus.

Após o que pareceu uma freada brusca, seguiram-se alguns sons no exterior. Uma voz forte fez-se ouvir ao longe.

“Deixem a Senhora ir, nós...”

E foi o pouco que entendeu antes de seu mundo entrar em completa escuridão.

Os policiais haviam chegado, trazidos por uma denúncia de alguém que estranhara dois homens desconhecidos descendo de um carro e adentrando a casa, enquanto a dona de casa permanecia à porta. Aparentemente houvera algo como uma tentativa de fuga, ao que se seguiu um golpe vindo de algum lugar de dentro da casa.

Mas ninguém vira a entregadora de jornais. A dona de casa seria libertada e os policiais, achando ter tomado o controle da situação, tentariam uma abordagem, talvez quebrando um acordo prévio feito para a libertação da refém. Porém aí os assaltantes teriam um trunfo. A segunda refém, a leve Coral, desacordada.

Eles pediriam passagem segura até o carro e talvez uma vantagem, prometendo a libertação dessa também após um tempo, já que o primeiro acordo não fora cumprido. E talvez, por um problema na burocracia da polícia ou na hierarquia do comando, ou mesmo por conta do individualismo de um capitão que se encontra no local e quer ser o herói, o novo trato seja aceito.

Os ladrões seguiriam com o carro e com parte dos espólios. A polícia seguiria atrás, mas poderia ocorrer dos assaltantes despistarem-na. E talvez, pela raiva de um dos integrantes, ou pela desforra do descumprimento do primeiro ou dos dois tratos com a polícia, ou pela bebedeira que poderia ter se seguido, resolvessem que não a soltariam afinal.

O problema é que as vezes, por qualquer motivo que somente Gan poderia explicar, uma sequencia errada de possibilidades, de “talvezes” seguidos, acontece. E foi assim que Coral acordou, com os membros doloridos, no porta-malas de um carro que chacoalhava.

O mundo continuava escuro, mas seu ouvidos explodiam em sons diversos e sua cabeça se embaralhava tentando situá-la. Ela chacoalhava tanto que pensava que ela própria desmontaria a qualquer momento, o crepitar do chão assomava às dores de novos machucados que não lembrava-se de ter sofrido. Tentou mover-se fracamente mas não conseguiu, sentia o toque do plástico em seu rosto. Respirar era difícil e o ar estava pesado e quente.

Não teve muito tempo de recobrar-se e sentiu parar o movimento. Um som de clique ouviu-se e uma luminosidade disforme penetrou no espaço que estava. Foi levantada quase como um peso morto, não conseguia esboçar nenhum movimento, sua cabeça doía.

Nas suas lembranças, o barulho das ondas. Uma conversa seguiu-se, mas parte de sua consciência já não estava mais lá. Sonhou que voava, estava tão leve. Voava e deixava para trás sua casa e seus pais, que a esperavam com o jantar feito. Talvez não precisasse decidir-se sobre a faculdade, não precisasse se desculpar com a Sra. Roberts por um motivo que já não lembrava, não precisasse explicar para a mãe aquele novo corte no lábio e a calça esfolada nos joelhos pela queda de bicicleta, talvez não precisasse nem mesmo terminar o trabalho de Estatística... Poderia só voar para sempre, não era difícil acreditar nisso... Sentiu-se triste por seus pais, por suas coleções, mas não sabia o motivo... Só sentia a velocidade de voar, como quando o vento batia em seu rosto ao andar de bicicleta, apenas que agora ouvia um leve som plástico ao redor. É... Poderia apenas voar para sempre.

Um, dois, três... Colecionaria os seus segundos de vôo. Poderia voar para sempre.

Mesmo que estivesse voando para baixo. Mesmo que o som das conchinhas ficasse mais alto em sua mente.

Mesmo que... Mesmo que sua cabeça acabasse rachada em uma das pedras lá em baixo.

E demorassem alguns dias para encontrar o corpo da garota, sendo jogado de um lado para o outro pelas ondas, que cantavam seu nome. Coral. Coral. Coral.

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