Vida de Quem?
1 O Menino Mais Estranho da Praça
Notas iniciais
Você o conheceu quando tinha sete anos. Nunca vai se esquecer daquele dia, como poderia? Ele parecia tão diferente dos outros meninos, sentado no chão da praça onde as crianças dos arredores costumavam a brincar, com aquela touca mesmo que não estivesse frio o suficiente para isso, nunca fazia frio o suficiente naquela cidade. A touca azul que ele parecia nunca tirar da cabeça. O objeto que te faria, para sempre, o achar em qualquer multidão.
Naquele dia, ele usava um macacão jeans claro, quase azul, por cima de uma blusa simples e toda branca, sem falar da touca. Parecia ao mesmo tempo ter a sua idade, ser mais velho e ser mais novo, o que te deixou muito confuso. Você, usando seu bermudão e se sentindo o menino mais bem vestido do mundo com sua blusa da Seleção que já tinha as quatro estrelas, não demorou a se aproximar. Não hesitou, não era tímido. Nem um pouco tímido. Só sentou na frente dele sorrindo bobo. Você sempre foi bobo, não é mesmo?
– Oi! – Cumprimentou como se fossem conhecidos de anos. Era outra de suas... coisas, como ele costumava a dizer. Para você nunca existiu desconhecidos, falava com seus amigos da mesma maneira do que com um desconhecido na rua. Nunca aprendeu a não falar com estranhos, não é mesmo Marcos?
– Oi – Ele respondeu, não tão seguro, mas com um sorriso nos lábios. Era seu oposto, hoje você não acredita em como ele não te ignorou como fazia com... todo mundo. Agora que você parou para pensar, ele nunca falou com mais ninguém. Nunca tinha sequer imaginado que ele deveria, sim, falar com outras pessoas. Sempre foi egocêntrico demais para notar que a vida dele se resumia a você.
– Qual seu nome? Do que você ‘tá brincando? Posso brincar também? – Disparou suas perguntas e o fez rir aquele riso único que um dia você acharia bonito e que a cada ano ficaria mais raro.
– Cláudio. Desenhar. Pode. – Foi sua vez de rir. Ele sempre respondia sua série de perguntas com uma série de respostas curtas, o que para você era estupidamente divertido.
– Desenhar? – Olhou para o chão, notando finalmente as folhas e lápis de cores. Você sequer notou o que tinha desenhado, só empurrou tudo para longe com o pé sem o menor cuidado. – Não, vamos brincar de algo melhor. Deixa para desenhar quando eu não estiver por perto.
Você o puxou pela alça do macacão sem o menor cuidado, o chamando para levantar e poderem brincar de algo que você considerasse bom, que naquele momento se resumia a futebol. A final da copa do mundo ainda estava na sua cabeça, então não foi incomum te ouvir narrar o jogo usando nomes famosos enquanto fazia gols imaginários. Hora era Cafu, hora Taffarel, hora todos os jogadores ao mesmo tempo. Cláudio sequer conseguia te acompanhar, não era um adversário bom, afinal não sabia jogar. Isso só te fez gostar mais dele, pois pode gritar animado “é tetra, é tetra” enquanto corria pela praça, sem se importar com os olhares das outras crianças ou mesmo com o menino cansado que te seguia.
Você o deixou exausto naquela tarde e nas outras que se seguiam. Fazia de propósito. Gostava de o ver cair no chão já sem conseguir andar de tão cansado depois de correr, te fazia se sentir superior, melhor e mais forte. Era essa sensação de superioridade que te levava toda tarde depois da escola para ver aquele menino estranho na praça. Você sequer se importava com ele ou gostava dele ou até mesmo lembrava o nome dele. O chamava de Estranho, era uma ótima descrição.
Algum tempo depois você o chamaria de Touca. Nunca o chamou de Cláudio.
[ Hey brother, there's an endless road to rediscover]
Fale com o autor