Vida de Princesa
7 O frio não vai mesmo me incomodar.
Notas iniciais

“Livre estou, livre estou, com o céu e o vento andar...”.
Sim, eu estou dançando Livre Estou de Frozen no meio de um monte de futuros personagens de parques da Disney. Os passos são difíceis, mas consigo aprender e fazer no automático. As coisas ficam difíceis com Danielle do meu lado mexendo sua bunda totalmente enorme parecida com de brasileiras. De fato, eu soube que ela tem certa descendência brasileira...
– E... Para. – fala Henry, que estava a nossa frente realizando os passos enquanto tocava a música, mas ela para assim que ele fala. – Pois bem, agora é a vez de vocês. Façam a coreografia para eu ver se esses dois meses aqui na faculdade valeram de alguma coisa.
Agora que me toco que de fato passaram dois meses. Tudo passou tão rápido, e nesses dois meses falei poucas vezes com Danielle e preferi manter outras amizades além de Jade, já que ela vai trabalhar em um cruzeiro. Arranjei uma amizade com uma futura princesa Tiana. Ela chama-se Charlotte, por ironia ou não, já que a melhor amiga fresca da princesa Tiana chama-se Charlotte. Mas pelo menos ela não é fresca. As trocas de olhares comigo e Danielle parecem “soltar faíscas”, pelo menos é o que todos dizem, já que é muito raro haver um mocinho e um vilão no mesmo treinamento e que irão para o mesmo parque. Neste momento vejo Jade de longe totalmente concentrada, ela de fato não é muito boa em danças. Charlotte está mais atrás, e consegue dançar graciosamente. A música começa.
“A neve branca brilhando no chão, sem pegadas pra seguir...”.
Abro meus braços, fazendo um movimento gracioso.
“Um reino de isolamento...”.
Abaixo-os, e sinto o braço de Dani encostar no meu. Por que acho que isso não foi um acidente? De qualquer forma, ignoro e continuo a coreografia. Agora chegou a parte que eu mais odeio.
“Não podem vir, não podem ver...”.
Faço com meus braços formas de ondas, andando de forma graciosa e leve. Essa parte tem muitos detalhes. Mãos no rosto, mãos na cintura, rodar, levantar os braços, e então...
“Livre estou, livre estou...”.
Esta parte é fácil, abro os braços e fecho e abro minhas mãos como se estivessem piscando.
“O frio não vai mesmo me incomodar”.
Agora chegou a hora mais aprumada. Formamos um círculo e rodamos como em uma ciranda. Cada uma entra na ciranda fazendo acrobacias. Pelo menos minhas aulas de ginástica da quinta série serviram para algo. Jogo-me no meio e dou uma cambalhota.
“Os medos que me controlavam, não vejo ao meu redor...”.
Voltamos á posição inicial, e corremos ao som do refrão.
“Livre estou, livre estou, com o céu e o vento andar...”.
Dou meu melhor, corro, abro meus braços, bato os pés ao som do...
“Aqui estou eu, e vou ficar...”.
Ao bater meus pés, começa a parte mais complicada da dança.
“O meu poder envolve o ar e vai ao chão...”.
Dou minhas duas mãos a Dani, fazendo um formato de casa. Sinto suas unhas grandes perfurarem minha mão. Será que isso é de propósito? Bem, não tenho tempo para isso.
“Um pensamento se transforma em cristais...”.
Nossa dupla linha faz uma troca, não sei muito bem como explicar isso, mas fica muito bonito. A única parte ruim é que temos que subir nas costas do colega afrente, e no meu caso é a rapariga da Dani.
“Livre estou, livre estou, com o sol vou me levantar...”.
Dani roda pelo auditório comigo em suas costas, rodando e rodando enquanto faço movimentos graciosos com os braços. Vejo Jade nas costas de um menino que interpretará o Príncipe Eric no parque da Califórnia. Charlotte está nas costas de um Balu, do filme Mogli, que irá para o parque de Shangai. No final, a parte mais bonita...
“ Tempestade vem... O frio não vai mesmo me incomodar.”.
E para. Era para ficarmos assim o tempo todo, mas sinto meu corpo ser jogado para trás, e minhas costas dão no chão. Olho para Dani a minha frente e a vejo olhando para mim com faíscas nos olhos. Agora u não posso mais aguentar isso, levanto-me e olho em seus olhos, dizendo:
– Quem você pensa que é? –grito, e percebo olhares á minha volta.
– Emily, me desculpe, não foi minha intenção... – Fala ela, com um falso olhar arrependido, dá para ver que ela está atuando claramente.
– Não seja cínica. – digo, apontando o dedo para seu rosto. – Desde o primeiro dia você tem me fitado achando que vai me derrubar. Não sei qual seu problema comigo, Danielle, mas é melhor você parar. A Princesa Aurora pode ser sem sal, mas eu sou até muito salgada.
– É? Então venha experimentar a fúria da Malévola. – fala Dani, abrindo seus braços.
Não aguento, parto para cima dela puxando seus cabelos negros para baixo. Sinto ela puxando meus longos cabelos enquanto me chuta. Caio no chão, levando-a junto enquanto cuspo em sua cara. Sinto mãos em meus ombros, e vejo mãos em seus ombros, puxando-nas para longe uma da outra.
Olho para quem me puxou e vejo Jade olhando para mim assustada com as mãos em meus ombros.
– Emily, você está louca? – fala ela. – Estamos estudando para sermos personagens da Disney, não lutadoras de UFC.
Vejo que quem segurou Danielle foi o futuro Gaston do parque da Califórnia.
Vejo Henry aproximar-se furioso de nós, e pressinto algo muito ruim acontecer.
– O que vocês duas acham que estão fazendo? – grita ele, e assusta todos no auditório. – Eu estou lidando com adultos ou crianças?
– Um pouco dos dois. – ouço Danielle falar.
– Calada! – grita ele. – Ou quer perder seu emprego?
Danielle se acanha, e ele volta a falar aos berros conosco:
– Vocês pensam que isso aqui é um filme da Disney? – pergunta ele, e dessa vez ele olha para mim e diz: — Hein, Emily? Você acha que eu não sei quando alguém é do mal? Por que você acha que eu escolhi Danielle para o papel da vilã mais icônica de todas? Ela é má, ela é perversa. E eu percebi isso no primeiro teste dela.
Fico parada apenas escutando Henry falar de Danielle enquanto ela está do outro lado quase espumando de raiva.
– Você acha que isso é que nem um filme da Disney, é? – pergunta ele aos berros olhando para mim. – Pois eu vou lhe dizer uma coisa: não é! Você não vai fazer merda e ser perdoado depois só porque é uma boa pessoa, você será demitido!
Eu olho para ele pensando no que ele falara. Será que serei demitida?
– Você já chegou muito longe para ser demitida, e não podemos nos dar ao luxo de dispensar a Bela Adormecida personificada. – fala ele, acalmando a voz. – Mas que isso sirva de lição para você: não vamos lutar contra os vilões, vamos mantê-los perto, afinal, vilões estão em alta. Mas deem mais uma escorregada, as duas, e estarão no olho da rua! Estamos entendidos?
Fico calada assim como Danielle, consentindo. Henry sai de perto, e olho bem nos olhos da Malévola. Ela está espumando de raiva. Se solta do Gaston e sai andando para sua posição nas arquibancadas, esperando a próxima instrução de Henry. Sei que não será a última vez que eu tive uma briga com ela, mas eu tenho que ficar na minha. Pelo menos por enquanto.
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