Notas iniciais
Mais um capitulo saindo do forno, queridos leitores e queridas leitoras :)

V – Drake

–Você não é bem vindo no meu castelo

Queria ter soado imponente, talvez até amedrontador, mas só consegui soar como eu estava no momento. Decrépito.

O ultimo de minha raça. O ultimo de um dos povos que mais próximo já chegou de governar o mundo. Com milhares de anos de história, cultura e poder. Tudo agora reduzido a eu e um castelo tão vazio quanto meu espírito. Apenas espíritos vagavam, almas de pessoas a muito mortas ali dentro para o banquete de meus ancestrais:

–Não pode fugir para sempre, Drake. A guerra ainda não acabou – a voz do demônio ecoou pelos corredores gerando um eco bizarro e ouvi morcegos voando assustados

–Nem acabará, demônio idiota! Retorne a sua mulher enquanto tem tempo e aproveite com ela seus dias finais de vida. O deus dos deuses retornou, acabou para todos nós – falei com minhas últimas forças, desde a morte de Caim e extermínio de meu povo eu não me alimentava, a maioria dos vampiros já teria entrado em estado de frenesi por comida ou simplesmente adormecido, mas eu continuava em pé, o ultimo baluarte dos vampiros não podia sucumbir a nada, incluindo sua fome

–Se você nos ajudar talvez não

–Só porque vem até mim acompanhado de uma pedra você não tem vantagem alguma

–Não é uma pedra, chupador de sangue ignorante e moribundo

–Além disso, vem com xingamentos mesclados com palavras bonitas

–Prefere um vá se fuder? – o sangue dentro de mim queimava de ódio e podia sentir o ar ao nosso redor esfriando, estava usando meus poderes e isso não era bom, aumentava a sede rápido demais – Alimente-se e ai quando estiver pelo menos próximo do normal conversaremos direito

–Vem a minha casa para me dar ordens?

–Vim pra lhe por bom senso na cabeça, não é só porque é o ultimo de sua raça que pode se desligar do mundo como o primeiro dela fazia

–É exatamente por isso que faço. Você não sabe como é a minha situação

–Deixe de hipocrisia, seu bastardo nojento, nós dois sabemos que você não se importava com ninguém do seu próprio povo além do seu pai e talvez uma amante ou duas

Minhas mãos voaram em direção ao pescoço dele. Tentava apertar com o máximo de força possível, mas William não parecia nem se incomodar, estava fraco demais para feri-lo e aquele salto imprudente só prejudicou minha situação mais ainda.

Rolei para o lado respirando pesado, precisava comer ou iria definhar até a morte por inanição e isso não era nada bom para um vampiro:

–Ajude a si mesmo e então venha nos ajudar, vampiro imbecil – disse o demônio se levantando com calma do chão e observei a pedra que ele trazia rolando pelo chão até ficar do meu lado

Tocando ela agora com meus dedos realmente não parecia uma pedra. Era liso e completamente azul, mas não de um simples tom de azul como meus olhos, ele parecia ficar oscilando do mais claro ao mais escuro em movimentos e lembravam ondas se chocando contra o mar:

–O que é isso? – indaguei recebendo forças incompreensíveis pelo meu corpo e me erguendo do chão com a aquela coisa oval em mãos

–É um ovo, não percebeu? – não precisava da fala dele para confirmar aquilo, tinha o formato de um, mas que criatura geraria algo assim? – Ovo de dragão

Queria ter falado que aquilo era impossível. Que aquele lagarto vermelho dele era o ultimo que ainda deveria existir junto do seu pai. Mas sentindo o poder daquela coisa eu não conseguia negar. Meu corpo antes parecia um mar em fúria, mas só em ficar tocando o ovo agora eu parecia uma calma lagoa. Era bizarro. E bom:

–O que você quer trazendo isso aqui? – perguntei literalmente esquecendo da minha sede por sangue, aquele poder era absurdo demais..... quase divino

–Nada – a resposta dele veio com um dar de ombros tão sincero que acreditei no mesmo momento – Ele é seu, é sua responsabilidade. Se ainda fosse o orgulhoso vampiro de antes diria para cuidar dele até que chocasse e usasse seu poder ao lado do resto de nós para impedir os deuses. Se tornar o que chamam de um draconiano e limpar o mundo daqueles que o limparam de sua raça. Mas você não é mais nem sequer a sombra do que foi então o máximo que posso pedir é que cuide dele com o carinho que nunca deve ter nutrido por nada na sua vida vampiresca. Tente dar a ele o calor que sua família humana lhe deu quando era humano. Se é que lembra como era aquilo.

Não notei quando ele saiu, não sentia mais solidão nem qualquer outra coisa. Só tristeza. Lágrimas de sangue escorrendo do meu rosto enquanto pela aura azul que ovo emanava começavam a surgir memórias. Era como se aquela aura tivesse se tornado um espelho d’água refletindo as memórias que tanto quis apagar ao me transformar. Fui levado de um campo de concentração para a parte de experimentos e sempre me forcei a esquecer o rosto de todos do campo. A tristeza. A dor. As lágrimas de todo mundo. E agora aquilo estava simplesmente e literalmente explodindo para fora.

Podia ouvir pelas paredes o eco do choro de alguém e demorei segundos até notar que era meu e não ecoado pelos fantasmas amaldiçoados daquele local. Aquilo era simplesmente cruel demais, lembrar do rosto dos meus pais, dos meus colegas, das torturas, dos experimentos, dos corpos sendo despejados, de tudo sobre aquela época............

Cada pedaço do meu corpo se retorcia de dor enquanto as lágrimas de sangue já geravam uma poça que se congelava sob a minha pele. A dor e a tristeza teriam me consumido se eu não tivesse socado o chão de tanto ódio. O que antes me deixava fraco agora queimava a fúria que mantive selada durante todo aquele tempo. O único membro da minha família a escapar daquele lugar. O único membro do meu batalhão a sair vivo da nossa ultima missão. O único vampiro ainda vivo. Estava cansada de ser a droga do único!

Meu próximo soco partiu o chão e ergueu pilares de gelo por toda a extensão do salão. Podia ouvir pisos caindo de outros cômodos do castelo e que tudo ao meu redor parecia estar congelando. Meu poder exalava do meu corpo congelando o ar ao meu redor enquanto o ovo parecia pulsar se alimentando de tudo aquilo:

–Você se alimenta do frio – refleti mais para mim mesmo e por um momento o pulsar do poder não me pareceu apenas ondas, mas também um sim – Mas não é qualquer frio, apenas o frio que os mortos podem te proporcionar.

Reparei pela primeira vez que o castelo estava vazio, nenhum som de almas murmurantes ou choro do último de sua espécie. Havia agora apenas minha respiração pesada e um ovo ansiando por mais:

–Fez que reviver minhas piores memórias apenas em busca do meu gelo? – não obtive resposta, mas não fiquei com raiva, na verdade estava absurdamente calmo – Então não se preocupe, vou te proporcionar muitos mais corpos frios do que imagina, ovo

O poder dele pulsou pelo meu corpo circulando pelas minhas artérias e veias como sangue quente e a última coisa que lembro foi de pular.

Quando dei por mim estava dilacerando uma garganta. Não podia negar que estava com saudade daquele gosto e daquele calor que apenas uma boa dose de sangue podia proporcionar. Deixei o corpo cair lentamente. Uma garota. Ao olhar ao meu redor havia outros cinco corpos espalhados ali, outras duas garotas e dois caras. Todos nus num quarto apertado com apenas duas camas de casal enquanto uma musica horrível tocava e uma fraca luz no teto iluminava tudo. Um quarto de motel. Mas como diabos fui parar ali eu não dava a mínima.

Sentei no chão não de cansaço, mas de êxtase. Cada célula minha parecia se banquetear naquele momento. Dias sem beber e havia conseguido cinco corpos de uma vez. Pelo menos eu só via cinco ali. Meus músculos formigavam, uma sensação idêntica a de um orgasmo me enchia, meu cérebro parecia estar numa tremenda alucinação ate que tudo aos poucos foi se desfazendo como uma pintura sendo molhada e dou de frente ao ovo de dragão.

A peça azul parecia me encarar mesmo sem olhos e a única coisa que oferecia a ela em troca era um sorriso. Podia reparar em gelo cobrindo tudo emergindo de mim e em como o ovo parecia tremer de prazer sentindo a temperatura baixa. E como eu tremia de prazer.

Levantei com calma e peguei o ovo com uma mão, era bem pesado por sinal, mas naquele momento sabia estar forte o suficiente para erguer toneladas. Apenas sorri e parti dali. Algo me chamava e sabia de quem se tratava.

A sensação que me chamava logo me deixou no meu destino. Uma enorme cidade murada no meio do nada. Podia ouvir corações batendo do outro lado e vozes conversando até que desisti de ficar parado e resolvi bater na porta do local. Assim que fui tocar na madeira do portão tudo se abriu revelando seu interior para mim.

Andei pelos corredores vazios da cidade rumo ao castelo que havia no seu centro e logo confirmei minhas suspeitas de quem havia me chamado. Parado a poucos metros dali estava o demônio que mais odiava no mundo deitada ao lado da sua namorada na barriga de um agora enorme dragão vermelho que bufava fumaça do nariz ao expirar. Próximo dele podia ver um grupo de pessoas realizando um bizarro ritual, algo meio indígena. Mas pelo cheiro era obvio que eram lobisomens:

–Chegou mais cedo do que eu havia previsto – disse o demônio entregando com calma uma moeda na mão de Amy que apenas riu em resposta – Ela ganhou por quinze minutos

–Apostou sobre a minha chegada? – perguntei tentando soar ofendido, mas o poder dentro de mim não deixava, estava forte demais para demonstrar qualquer coisa que não fosse destruição

–Vamos, precisamos da sua ajuda

–Para o que?

–Para nossa primeira investida contra os deuses.

Notas finais
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