Vida com Dragões

11 Um Presente de Adeus


Notas iniciais
Bem vindos a mais um capitulo de fortes emoções onde muitos corações irão precisar de reparos ao seu final.

O dia novamente amanhecia em Berk e Soluço admirava o nascer do sol sobre seu povo. Seu discurso havia funcionado, a moral estava alta entre os vikings e dragões e seus aliados haviam encontrado algumas informações sobre Harlock.

Pelo que descobriram, já fazem gerações que os Caçadores caçam os Fúrias da Noite e houve um dia em que pensaram tê-los extinguido; sua frota de navios é maior e mais resistente que a frota dos Beserkers; ao que tudo indica Drago faleceu a poucas semanas; e que eles possuem habilidosos contatos e informantes à paisana espalhados para dentro e além do arquipélago.

A mais preocupante informação, apesar de tudo, foi descobrir que com certeza ele não perderia a chance de caçar cada um dos dragões de Berk e revirar os arquivos em busca de todos os mais raros e inéditos dragões que já encontrarão. Ainda bem que tudo já estava no Domínio do Dragão fora do alcance e seus aliados estavam com seus dragões se povos em segurança.

Fazendo uma lista, sabiam que os dragões mais raros e valiosos seriam: Banguela, o Fúria da Noite de Soluço; Pula Nuvem, o Cortador de Tempestades de Valka; Grito, o Grito da Morte de Alvin; Scorpion, o Ataque Triplo de Dagur; e o Eruptidão dos Defensores de Asa. Assim tiveram certeza que, pelo menos Berk, Exilados e Defensores de Asa já estavam listados para invasão.

Sabendo disso e unindo estas com suas conclusões sobre Harlock após seu encontro, Soluço pode concluir que deveria preparar um grande plano para surpreender e combater seu adversário. Além de também concluir que, com tanta preparação e gasto de recursos que ele iria precisar, haveria um grande espaço de tempo até que se encontrassem novamente.

Tudo isso já estava encaminhado e previamente organizado, então Soluço podia voltar seus pensamentos para sua atual aflição: Banguela.

Desde que encontraram a Fúria da Noite branca, Banguela vinha estado mais agitado e, as vezes, esquecia os comandos de seu treinamento. Então conhecera Harlock e agora ele estava quase que completamente agressivo e permanecia totalmente alerta ao seu redor. A situação chegou ao ponto dos outros dragões sentirem sua agitação e tensão e ficarem agressivos também – a infeliz causa da comoção dois dias atrás na praça central de Berk.

Mas, o pior ainda estava por vir!

Com Harlock atrás de Banguela, Soluço decidiu não voltar a Ilha Esconderijo da Cachoeira para procurar a dragão branca. Banguela ainda não voava perfeitamente sozinho, então precisava que Soluço o levasse; mas ele não arriscaria a vida da mais nova amiga de seu grande amigo e de todos os dragões do viveiro.

Esta foi a gota d’água para o dragão. Estava agitado, confuso e querendo voar até sua mais nova amiga, mas Soluço, seu grande amigo e aquele em quem mais confiava, não o levaria.

Soluço já havia tido mais de uma discussão com seus amigos, sua mãe, Bocão e o Conselho sobre o comportamento de Banguela; mas sua decisão realmente veio naquela manhã em que Astrid o pegou sozinho e longe do vilarejo.

— Soluço. – ela procurou chamar sua atenção, após esperar, sem sucesso, que ele notasse sua presença.

— Oi, Astrid. Bom dia. – ele se recuperou do rápido susto e a cumprimentou de volta colocando uma de suas mãos sobre a que ela mantinha em seu ombro.

— Bom dia. – ela roubou um rápido beijo na bochecha que fez ele conseguir sorrir rapidamente – Eu e você temos que conversar. – ela tirou a atenção de Soluço do horizonte o virando em sua direção.

— É sobre o Banguela, certo? – Soluço suspirou e se sentou na grama do morro em que estavam.

— Sim. – ela não sabia como ser delicada com aquele assunto tão complexo e triste, mas tinha que falar com Soluço sobre isso – Eu acho que pode ser hora de pensar em reavaliar o relacionamento de vocês. Ele está muito agressivo e não está seguindo nenhum comando do treino ou mantendo os dragões calmos. – ela parou ao reparar na tristeza de Soluço.

— Eu sei que ele está agindo de maneira mais selvagem desde aquele dia. – nada mais ele conseguiu dizer. Estava exausto dos últimos dias de trabalho e com sua preocupação por Banguela.

— O problema não é ele estar ficando selvagem, mas as consequências disso. Você já se machucou quatro vezes voando com ele e ele não parece estar se importando, os dragões tem ficado mais tensos e agressivos com a mudança de humor do alfa deles e ele vai acabar sendo capturado e morto se continuar assim! – ela parou para ver se ele a responderia, mas nada aconteceu – Soluço, você precisa tirar ele da ilha. Está na hora de avaliar opções para ele caso ele não volte a se comportar de maneira que possa viver com todos. – ali estava! A única coisa que ela jamais pensou ter que dizer a Soluço.

— Astrid, eu não sei se consigo fazer isso. – sem entender, ela o olhou em dúvida e surpresa.

— Você já tem um plano? – ela precisava questionar. Com todo o tempo que ele estava gastando pensando no assunto, talvez já tivesse ideias que poderiam ajudar.

— Não. Porque ele é meu amigo eu tenho que confiar nele, tentar entende-lo. Nossa amizade significa muito para eu simplesmente ignorar. Tem algo errado com ele, mas eu não consigo admitir o que! – ele se levantou e começou a andar de forma compulsiva enquanto agitava os braços. Era claro que aquela situação o estava deixando mentalmente desgastado.

— Pare, por favor. – ela o puxou pelo braço para que ele tentasse conter um pouco daquela agitação. Quando ele pareceu tentar se acalmar, ele suspirou e prosseguiu – Você entende os dragões melhor do que ninguém nesse mundo. E o Banguela é especial de muitas formas para você. Se você diz que ele está diferente e que você precisa assumir qual é o problema, então vou acreditar. Se você precisa passar por isso sozinho, eu vou esperar você conseguir suas respostas. – ela o envolveu em um carinhoso abraço – Apenas lembre-se de que eu estarei aqui para o que você precisar. – tendo dito o que queria, ela soltou o abraço e se foi, deixando Soluço novamente sozinho com seus pensamentos.

Aquele tinha sido o momento decisivo. Era hora de Soluço realmente encarar os fatos e assumir o que realmente estava acontecendo com Banguela.

Durante toda a tarde e noite daquele dia, Soluço ficou trabalhando em desenhos e esquemas, avaliando a disponibilidade de material na forja e organizando tudo para estar livre no dia seguinte. E assim foi feito.

No dia seguinte, Soluço fechou a forja de Berk para um projeto pessoal. Ele saiu extremamente cedo de casa! Quando Astrid acordou ele já estava vestido, de café tomado e saindo pela porta. Ela apenas ficou ali imaginado qual iria ser o resultado de sua conversa com Soluço – ela e todos haviam notado a diferença em seu comportamento depois daquela manhã.

Dentro da forja, todos os materiais de Soluço estavam separados e servindo a seu propósito. Havia um Gronkle e os ingredientes para fazer Ferro de Gronkle (um tipo mais leve e resistente de metal), pedaços de âmbar de Canção da Morte (dragão da série), vários pedaços de couro de iaque, pregos, engrenagens... Parecia um caos que apenas ele realmente entendia e que deveria resultar em todas as peças esquematizadas que ele pendurou na parede.

Trabalhando duro e sem parar, Soluço conseguiu terminar tudo antes do final da tarde! Era hora de chamar Banguela para que ele experimentasse seu mais novo e ousado projeto. De dentro da forja, Soluço imitou o chamado do Fúria da Noite.

Ele saiu e viu que seu povo e os dragões se aglomeravam na frente da forja para ver o que estava acontecendo e qual seria o grande projeto que seu líder estava planejando. Banguela pousou na frente da multidão e de Soluço.

— Vem mais perto amigão! Eu tenho um presente para você. – Banguela fez como Soluço pediu e parou próximo a janela da forja; onde Soluço começou a tirar todo seu equipamento.

Ele removeu o acessório da cauda, as cordas e articulações presas nos membros e o sistema de estabilização de voo solo. Com Banguela e ninguém entendo o que estava acontecendo, decidiram apenas esperar para ver o que seu líder estava aprontando.

— Agora eu preciso que você levante as patas e colabore comigo. – Soluço havia saído da forja com um incrível e novo equipamento para Banguela.

O equipamento novo vinha com articulações acolchoadas para os quatro membros, conexões de corda, couro e metal para encaixar perfeitamente em cada centímetro do corpo do dragão e não atrapalhar com seu flap das costas e vinha com uma cauda novinha. E tudo pintado de preto para camuflar no couro de Banguela.

— Pronto! Ficou perfeito em você. – Soluço levou mais de meia hora para conseguir colocar o novo equipamento em Banguela, mas quando terminou o dragão se sentia diferente.

Banguela começou a olhar seu novo traje de voo e acabou parando na frente de Soluço grunhindo sem entender ao certo o que significava o presente.

— Eu fiz tudo com uma mistura de Ferro de Gronkle e âmbar de Canção da Morte, então tudo é mais leve e resistente. Feito para ser à prova de calor, pressão e outros dragões, não atrair raios com o revestimento de couro e tecido, tem um pequeno acolchoado de lã para as suas articulações, facilidade de movimento, equilíbrio perfeito dos dois lados, tem cinco pontos de segurança para não se soltar com facilidade e você pode ajustar sua cauda movendo a base dela, seu ombro ou sua cabeça. – ele explicou todas as novas características do equipamento e surpreendeu a todos – Vamos, pode testar. Tente alçar voo aqui e manobrar no ar.

Banguela não pensou duas vezes em testar o novo equipamento. Moveu seu ombro e abriu as asas em um único e rápido impulso para chegar aos céus. Aquilo era incrível! Estava com os movimentos mais livres, conseguia manobrar como quisesse, o ajuste de sua cauda era mais fácil e discreto e podia voar muito mais alto do que com o outro equipamento – sendo que esse nem o pinicava como o outro fazia as vezes.

Descendo de volta para o chão, Banguela se esfregou muito feliz em Soluço, grunhindo animado e dando giros e baixos saltos com sua língua para fora.

— Que bom que você gostou e deu tudo certo. – Soluço suspirou e não foi capaz de esconder sua tristeza. Banguela percebeu e parou perto dele de cabaça baixa e um pouco inclinada para o lado. – Você gosta da dragão branca que encontramos, certo? – ele encostou no focinho dele – Eu e você passamos por muita coisa juntos desde que nos conhecemos e eu jamais poderia pedir por um companheiro como você. O Harlock deixou você muito irritado e acuado, você, na verdade, quer matar ele. – ele viu Banguela abaixar seu olhar – Não precisa ficar envergonhado. – agora Soluço estava agachado na mesma altura que ele – Você é um excelente dragão alfa e é livre para decidir para onde ir e o que quer fazer. Eu confio que no final você fará o que é certo! Meu presente para você é te devolver sua habilidade de voar sozinho, a liberdade e a segurança que você tinha antes de me conhecer.

As palavras de Soluço foram tocantes e profundas. O povo sentia que aquele momento de surpresa na verdade era o adeus de dois grandes amigos. Uma emocionante cena, que teve sequência quando Banguela abraçou Soluço com sua cabeça e foi retribuído pelo mesmo.

As palavras escapavam, lagrimas escorriam, grunhidos de tristeza eram ouvidos dos dragões; o silêncio entre eles parecia embalar os sentimentos dos dois amigos que se despediam.

— Eu nunca vou te esquecer. – Soluço se soltou do abraço de Banguela e ficou em pé – Eu vou sempre me lembrar de tudo que vivemos e torcer pela sua felicidade. Apenas me prometa que você vai ter muito cuidado com o Harlock.

Banguela o entendeu e deu um rápido rugido com um balançar positivo de sua cabeça. Soluço se afastou, retirou a sela de Banguela, abriu espaço para ele voar e ambos trocaram um último sorriso rápido, antes dele realmente alçar voo para além do horizonte do arquipélago.

Soluço não pode mais se conter! Aqueles oito dias haviam o desgastado muito e agora estava em pedaços. Suas lágrimas escapavam e, por mais que a felicidade de tudo que viveram e compartilharam juntos fosse estar para sempre ali com ele, nada mudava que naquele exato momento seu coração estava em pedaços e nada poderia conter aquela tristeza.

Notas finais
Espero que todos ainda estejam vivos e possam se recuperar para continuar a ler esta história que cada vez mais se aproxima de seu climax!