— Seja bem-vinda!!!

Cat empurra a porta da entrada e grita toda empolgada. No final do nosso turno, ela perguntou se eu queria uma carona até em casa, e disse que na verdade tinha passado a noite na casa de uma amiga, mas não poderia voltar lá porque a companheira de apartamento dela não me queria lá. E como foi com a maquiagem, Cat simplesmente decidiu que eu iria para casa com ela, e poderia ficar lá até Anna sair do apartamento de Libby.

— Entra, entra. Bem, aqui é a sala, aquela porta ali é um lavabo, vira aqui é a cozinha, que dá pros fundos onde fica a piscina e churrasqueira. Agora vem, subindo as escadas tem o meu quarto a esquerda, o do meio do meu irmão Max, e da direita minha irmã, Annika.

Ela vai falando e me mostrando a casa, fazemos um tour completo e acabamos em seu quarto, onde eu a ajudo a colocar um colchão e arrumar meu canto para dormir.

— Ah! E esse é o Thor. – ela pega um gato gordo no colo e o levanta para me mostrar, ele parece nem um pouco incomodado pelo gesto, e quando ela o coloca de volta na cama, ele apenas se espreguiça e volta a deitar todo enrolado. Ele têm a barriga e as patas brancas, e as costas e o rosto um malhado branco e cinza, seu pelo parece ser muito fofo, mas não é longo.

— Vem, preciso te mostrar a garagem e você pode deixar seu baixo lá também.

A garagem é um tipo de anexo ao lado da casa, Cat parou seu carro em frente dela, quando nos aproximamos ela aperta um controle e o portão abre, ai entendo por que nã coloca seu carro lá dentro. Está tudo montado, a bateria, os amplificadores, as guitarras e baixos estão em seus estandes, o microfone apoiado também. No fundo têm algumas prateleiras com uma variedade e bagunça de coisas, e na parede da direita tem um sofá grande e um frigobar bem ao lado. A garagem inteira parece que foi vedada para som, e realmente lembra um estúdio.

— Pode deixar onde preferir, se quiser acho que temos um estande sobrando por ai, ou o Max pode guardar um de seus baixos e daí você pode usar o que estava ocupado. – Ela dá de ombros como se nada disso fosse eu problema, como se eu não estivesse sendo folgada e invadindo sua casa.

— Não, obrigada, está perfeito assim. Na verdade é tudo ótimo, obrigada. Não estou te atrapalhando mesmo?

Ela abre o frigobar e puxa duas cervejas, abre uma e me entrega, abre a outra e toma um longo gole.

— Se liga! Estou me divertindo, é ótimo ter uma companhia e de quebra ainda estar ajudando. – ela levanta sua garrafa e a inclina em minha direção, — A vida nova!

Eu sorrio e bato levemente minha garrafa na dela.

— A vida nova!

*

— E é isso! – eu digo tímida no fim do nosso ensaio.

— YEAH!!! – grita Libby acompanhado de um acorde qualquer de sua guitarra. Ela está ansiosa e eufórica, e por incrível que pareça Cat está praticamente igual.

— UHUL!! É isso! Vocês são perfeitas, exatamente o que o Porão precisa.

— Siiiim!! – Annika concorda animada, eu a conheci hoje antes do ensaio, ontem ambos os outros moradores da casa estavam fora trabalhando, então ficamos apenas eu e Cat assistindo clipes de música na tv, rindo e fazendo comentários. Como o nome indica ela tem cara de alemã, nariz curto e quadrado na ponta, olhos verdes limpos, e o cabelo um loiro escuro acinzentado, liso levemente ondulado que chega até os ombros. Ela é alta e larga apesar de ser magra.

— Bom, é exatamente disso que precisamos, então vocês têm seu lugar no sábado! Vou só confirmar o horário das bandas, mas vocês serão a segunda. É um total de cinco bandas.

— Ótimo que está tudo resolvido. Então vejo vocês sábado. Preciso ir. – diz Anna e simplesmente sai andando, podia ver em seu rosto que estava satisfeita que arranjamos um show, ainda mais em algum lugar importante, mas ela nunca nos daria essa satisfação, de ter algum tipo de sucesso em algo que ela não ajudou.

A indignação fica estampada na cara de Tish e Maggie, enquanto no rosto de Annika, Cat e Libby está o nojo. A minha provavelmente deve mostrar o que eu sinto, indiferença. Estou tão feliz com esse show, que nem Anna pode estragar meu humor. Já basta tudo que deixei Ivan estragar, Anna não merece essa atenção.

— Hey! Tive uma ideia, por que não vamos no shopping arrumar uns looks legais para sábado? – Cat diz empolgada, completamente mudando de humor. E como magica sua energia toma conta de todo mundo, pois todos os olhos estão brilhando e todo mundo concorda de algum jeito.

Cat está em uma missão, anda pelas lojas decidida, como se já soubesse exatamente do que está atrás. E claro, é tudo para mim, quando a questionei recebi apenas um “já tenho coisas demais”. Então basicamente Cat está brincando de boneca comigo, enquanto Libby e Annika ficam conversando sem parar e Tash e Maggie analisam meus looks escolhidos por Cat, Maggie com as piadas e Tash dizendo que algo está caro ou “é um achado!”

— Eu não sei não... me sinto exposta. – digo da roupa que estou provando, é uma calça de cintura alta mostarda, justa da cintura até o joelho, onde ela abre até o pé, fazendo aquele formato de sino. E uma blusa cropped azul com amarração, ela tem mangas ¾ e ombros de fora, amarra na frente e deixa um grande decote, que nunca uso.

— Vamos começar com o que VOCÊ acha, e como se sente. – diz Libby, como sempre vendo bem através de mim.

— Foi o que disse. – tento fingir que não tem razão, afinal não estou sozinha com Libby. Mas ela não se importa, e deixa tudo a mostra.

— O que você sente e acha Ruby, não o que o Ivan acha, ou o que você acha que ele vai achar, ou você com medo da reação dele. Só o que você acha. – ela insiste.

Mordo meu lábio nervosa, não queria que vissem o Ivan desse jeito, claro, não estava mais com ele, mas ainda tinha sentimentos. E ok, alguns eram ruins e tudo, mas toda nossa história... Sinto como se tivesse o abandonado, não sei se está bem, tudo que fiz nesses últimos três anos juntos era para o ver bem, e de repente só abandonei isso e fui atrás de desenvolver a banda. E se ele não estivesse bem? Eu fugir já não era o bastante? Ainda teria que ser odiado por todo mundo que se importava comigo?

— Ruby.

Levanto os olhos e encontro os cinzas quase brancos de Cat, ela está séria e me encarando, foco nela e é como se nada estivesse a minha volta.

— Ele está bem, ele sempre esteve. Isso eu te garanto. – engulo seco e não questiono mais como Cat sempre parece saber o que estou pensando. Aceno a cabeça esperando que todos pensamentos ruins caiam no chão e foco de novo em mim no espelho.

O que eu acho? Nova vida. Nova mulher. Eu acho que posso ser assim. Todo o look me lembra vagamente da minha mãe, muito mais arrumada claro. Minha mãe é hippie e vive em uma comunidade alternativa, ela e meu pai não estão mais juntos, mas são grandes amigos. Saí de casa assim que fiz 18 anos, arranjei um trabalho e morei em uma casa com várias meninas, que era o que conseguia pagar. Ai então conheci Libby e me mudei com ela, alguns meses depois conheci Ivan, e logo estava morando com ele. Quase cinco anos depois aqui estava eu, experimentando uma roupa que era quase minha raíz, parecia que tinha saído de uma versão atualizada do musical Hair, meu cabelo enrolado ainda, bagunçado, era só colocar alguns enfeites e estava completa.

— Eu gostei. – admito finalmente. – Mas vocês não acham que está muito decotado? Talvez fique melhor em alguém com menos peito. – digo, e é realmente o que acho, tenho seios médios para grandes e acho que precisam de muita sustentação, e essa blusa, bem não dá.

— Quer saber de uma coisa? – diz Annika, me preparando para o golpe. – Você está uma grande gostosa. – declara naturalmente, como se fosse uma verdade universal.

— Ela está completamente certa, — Maggie concorda, dessa vez sem nenhum tom de piada em sua voz. Tash inclina a cabeça como se pensando e complementa.

— Você parece sua mãe.

Os olhos de Libby arregalam e ela grita.

— É mesmo! Vamos levar essa, e então por favor, vamos ver como você fica de seu pai? – Ela bate palmas para ela mesma e sai correndo pela loja decidida. Eu deixo minha cabeça cair e coloca a mão na testa, a Libby as vezes não tem limite.

— Se sua mãe é tipo... hippie, como é seu pai? – Annika me pergunta. Eu aperto os lábios e chacoalho a cabeça só de lembrar, mas respondo mesmo assim.

— Minha mãe É hippie, e bem, meu pai é punk.

— HÁ! Essa vai ser ótima! – diz Cat, olhando avidamente pela loja tentando localizar Libby.

Ela volta com as roupas e mais várias, Tash e Maggie também decidem escolher roupas para mim no estilo delas, e no final acabo experimentando tantas que acabo esquecendo de quais gostei e quais não gostei. Cat estava prestando atenção porque leva uma pilha de roupas para o caixa e ela e o resto das meninas dividem a conta, eu insisto que devo pagar, mas ninguém deixa, acabo aceitando porque também não é como se eu tivesse dinheiro sobrando.

Cat deixa as meninas em suas casas e Annika no trabalho, assim acabamos só nós duas no carro.

— Uau, então mãe hippie e pai punk, como foi isso? – me pergunta curiosa, dou de ombros, mas respondo.

— Foi diferente, mas também normal. Meu pai é anarquista e minha mãe fugiu de casa nova para morar em uma comunidade alternativa. Cresci nisso, então para mim sempre foi o normal e comum, com 18 anos sai de lá e vim para a cidade, só então realmente vi como era diferente.

Ela acena a cabeça como confirmação que ouviu, mas não fala nada. Parece pensativa, alguns minutos passam e ela finalmente compartilha.

— Minha mãe também era cheia das ideias diferentes, mas no caso essas ideias eram ditadas pelo “amor” atual, — ela faz as aspas com os dedos, e parece dizer a palavra com asco, — nos mudamos tantas vezes, diferentes cidades, países, lugares, todo tipo de coisa que possa imaginar. Um dia dois anjos apareceram na minha vida, — ela me olhou intensamente, fazendo um ponto, — eles sempre estiveram lá, eram os pais da minha melhor amiga, sempre cuidavam de mim, eu estava quase sempre na casa dela, fugindo da minha própria casa, minha mãe e os namorados dela. A cada um, ela era uma mulher diferente. Chegou um ponto que nem sabia mais quem era minha mãe.

Ela suspira e continua.

— Então, no meu aniversário de 13 anos meus dois anjos vão falar com minha mãe. Eles me defendem, dizem que preciso de segurança e estabilidade, e como estou sempre lá eles gostariam de me adotar, e eu poderia morar com eles. Minha mãe surtou, saiu de lá pisando forte, me arrastando e batendo portas. Mas ela sabia que eles estavam certos, então no dia seguinte apareceu na casa deles comigo e minhas malas. Ela só disse “me mande os papeis que assinarei”, e para mim disse que me amava e seu eu tinha certeza que queria isso. Eu disse que sim, que a amava e me despedi.

O silêncio se instalou mais uma vez, estávamos chegando em casa já quando ela voltou a falar.

— Fui resgatada, uma vida nova. – Ela parou o carro e olhou para mim com significado nos olhos. Eu sabia o que ela estava falando, ela era o meu anjo. – Os pais de Annika e Max me deram tudo, uma casa, uma família, amor, estabilidade. Os agradeço todo dia, e quero passar tudo isso que recebi para frente. Multiplicar.

Eu aceno a cabeça, minha garganta contorcida e fechada, dolorida. Meus olhos ardem, minhas narinas tremem e sinto uma lágrima escorrer, a primeira de muitas.

— Obrigada, Cat.