Vida & Morte

1 Capítulo único - Vida e Morte


Notas iniciais
Após anos, quando eu pensava que nem voltaria mais aqui, cá estou. A história foi um presente para uma amiga que o (antigo) Nyah me trouxe. Ao longo desses anos, entre momentos bons e ruins, ela esteve ao meu lado mesmo que distante, sempre me incentivando a colocar para fora as ideias loucas que moram na minha cabeça. Espero que vocês gostem ❤

Vida E Morte

Uma história de Edythe e Bella


Capítulo Único

Edythe



Não havia nada de diferente naquela feira de livros antigos, como sempre. Provavelmente meus olhos já teriam passado por muitos daqueles exemplares ali expostos, então a leitura não era o que me levava àquele lugar, realmente.

Ver gente, sentir os cheiros e me sentir parte de algo era o que importava; por isso eu fazia questão de participar dos pequenos eventos que ocorriam na cidade.

O barulho incessante não me incomodava mais; com o passar do tempo aprendi a bloquear tudo ao redor e prestar atenção apenas ao que eu queria, sem distrações, sem me sentir perdida e confusa. Levou tempo, mas era maravilhoso.

Para me sentir mais normal, mais parte de alguma coisa, eu tinha um café em minha mão. O gosto é bom e, na verdade, é uma das poucas coisas que consumo por prazer — além, é claro, de sorvete de menta.

Passo em frente a uma pequena loja e não posso deixar de observar meu reflexo no vidro da janela: cabelos ruivos caindo por minhas costas em ondas brilhantes, bochechas rosadas, lábios cheios, cílios longos e naturalmente curvados adornando meus olhos dourados. As pessoas dizem que pareço uma boneca de porcelana.

Tudo em mim é feito para atrair: minha voz, meu cheiro, minha aparência. Perfeita. Letal.

Deixo tais pensamentos de lado e continuo a andar, seguindo pela rua de paralelepípedos, entre as várias barracas onde pessoas compram, vendem, negociam livros antigos e até mesmo alguns exemplares raros. Uma das barracas chama minha atenção, pois ouço uma voz jovem soar completamente triste e chateada ao falar com a vendedora sobre seu desejo de encontrar um exemplar realmente impossível de parar em uma feira.

— Bella, por Deus! É uma velharia sem valor, e olha que amo livros e vivo deles! — A vendedora replicou enquanto reorganizava alguns exemplares. — Há tantas histórias por aí! Vá atrás de algumas delas, descubra coisas novas, viva sua própria história.

Ouvi os pensamentos da mulher e eles eram genuínos; ela desejava que a menina fosse feliz, que vivesse a vida real e não apenas aquelas descritas nos livros.

Olhei para a menina com mais atenção, tentando pegar alguma coisa, mas sua mente era uma tela em branco, só havia paz e silêncio, ao contrário de seu coração, que batia em um ritmo constante e regular. O som produzido era o mais perfeito que ouvi em muitos anos.

As bochechas levemente salientes exibiam um tom naturalmente rosado, assim como os lábios cheios e perfeitamente desenhados.

Os olhos, de um castanho quente e profundo, eram adornados por cílios longos, daqueles que fariam algumas mulheres gastarem rios de dinheiro para terem.

As sobrancelhas franzidas, que emolduravam aquele rosto tão bonito e delicado, lhe conferiram um ar aborrecido que chegava a ser engraçado. Ri baixinho, não querendo atrair a atenção de nenhuma das duas antes da hora.

— Sue, não fale assim! Livros não são velharias; eles contam uma parte da história, eles são parte da história.

Não precisei de habilidades especiais para sentir o amor daquela menina pelos livros; sua defesa apaixonada era o suficiente para mim.

— Não falei por mal, querida. Desculpe. — Rebate a vendedora com sinceridade.

— Eu sei. Está tudo bem, Sue. Vou continuar procurando.

A voz de menina soou desprovida de esperança e isso aguçou minha curiosidade, porque nunca vi uma pessoa tão triste por causa de um livro, ainda mais aquele.

— Qual é mesmo o nome do livro? Vou ficar de olho para você, prometo.

O coração da menina bateu mais rápido devido a excitação que sentiu ao ouvir a promessa da senhora tão disposta a ajudá-la.

— Vida e morte, de Edy Masen. É um livro de poesias do século XVIII e, pelo que se sabe, é o único da autora do qual se tem conhecimento. Mas quero o manuscrito original, não um exemplar de editora. É quase impossível achar.

Bem, o século XVIII não foi fácil para muitas pessoas, inclusive para quem chegou ao ponto de escrever um livro de poesias. Era o tal Emo da época.

As duas continuaram conversando por um tempo e foi realmente gratificante saber que aquela mulher não pensava mal das pessoas. Usei sua mente para saber um pouco mais de Bella e descobri que ela era filha de Charlie Swan, chefe da polícia de Forks. Elas já estavam perto de se despedirem, mas eu precisava me aproximar de alguma forma, antes que eu saísse pela cidade seguindo o cheiro de alguém.

— Olá! Boa tarde! — Saudei com animação controlada, não querendo chamar muito a atenção. Minha voz tinha esse poder. — Você tem algum livro de poesia?

A senhora prontamente separou alguns exemplares para mim, sob o olhar atento de Bella, que não falava nada.

Dentre os livros que recebi para escolher, havia um de Robert Frost, o poema Fogo e Gelo sendo o primeiro naquele exemplar. Aquelas palavras me eram conhecidas, eu não precisaria reler para me lembrar com perfeição — tudo aquilo que já passou por meus olhos ou ouvidos alguma vez na vida, jamais seria esquecido.

Enquanto eu recitava as palavras do poema, mantendo minha voz em velocidade normal e tom baixo, Bella citava as palavras um milésimo de segundo antes de mim — e ela nem acompanhava nada com os olhos. Sorri minimamente quando chegamos ao final, pois a menina parecia realmente feliz.

— Olá! Eu sou Isabella Swan, mas todos me chamam de Bella — ela se apresentou e me estendeu a mão.

— Edythe Cullen — respondi ao seu cumprimento com um aperto controlado, mas sua reação me pegou de surpresa mais uma vez; ela estremeceu completamente, como se tivesse sido atingida por um raio.

— Isso foi estranho.

Concordei e retribuí o sorriso, me sentindo um pouco perturbada com aquilo.

Acabei ficando com o livro de Frost, apenas para ter algo ocupando minha mão.

— A menina Bella aqui ama livros, os de poesia mais que qualquer outro. Coisa de moça romântica.

Eu não poderia ser considerada uma moça, embora minha aparência fosse de uma. Tampouco havia muito romantismo em mim, ou eu não tive uma vítima para fazer de alvo, mas sorri concordando com Sue.

Nós nos despedimos da bondosa senhora e andamos mais pela feira, embora estivéssemos mais atentas a nossa conversa que qualquer outra coisa. Foi engraçado, porque não nos perguntamos se queríamos companhia, apenas seguimos juntas pela rua, entre as muitas barracas.

Isabella era divertida e uma comilona inveterada; ela já tinha comido um pretzel enorme acompanhado por refrigerante, algodão doce, biscoitinhos de queijo, sorvete... Eu recusei a maior parte dos alimentos, mas não resisti ao sorvete de menta com chocolate. Ainda era maravilhoso.

Há anos eu não via nem ouvia ninguém tão interessado pela obra de Edy Masen, tanto que eu mesma quase havia esquecido, só não sendo possível por eu ser a própria.

Era revigorante ouvir sua voz tremular de raiva enquanto ela dizia não entender como as pessoas não conheciam uma autora tão maravilhosa, como sua genialidade ficou relegada a parcos exemplares vendidos em lojas e feiras duvidosas e como não tinham certeza de que Edy Masen era uma mulher.

De fato, não havia nada de especial no livro, eu apenas me deixei influenciar pelos sentimentos alheios e escrevi palavras de amor e sofrimento — mais do segundo.

Talvez fosse o momento de impressionar àquela garota — e não me pergunte o motivo disso, eu só sentia uma enorme necessidade de estar perto dela.

— Eu tenho o exemplar de Vida e Morte que você quer. Se me acompanhar até em casa, posso dá-lo a você.

Ouvi seu coração bater errado pela primeira vez, o som se tornou confuso por um instante e então retomou os batimentos quase normalmente; estava levemente acelerado, nada preocupante. Um leve calor começou a emanar de seu corpo e imaginei que o rubor de suas bochechas também tivesse espalhado por outras partes.

Os olhos castanhos ainda brilhavam bastante, mas havia uma ponta de apreensão. Garota esperta.

— Ah! Você tem o livro! Não é uma coincidência estranha?

Você nem imagina o quanto...

(...)

Arranquei mais uma folha do bloco de desenho e amassei em uma bola disforme, jogando na lixeira do outro lado do quarto. Até aquele momento, todos os desenhos eram do rosto de Bella, e não era o que eu queria retratar.

Sendo filha de um policial, obviamente ela recebeu todo o tipo de informação sobre não aceitar nada de pessoas estranhas, nem convite para ir à casa de alguém, então voltei para casa sozinha e não obtive qualquer tipo de informação. Em alguns momentos tive ímpetos de ir atrás dela, mas sempre consegui retornar ao meu estado normal e me deter antes de fazer algo precipitado.

Meu humor estava péssimo e música emo da melhor qualidade estourava nos alto-falantes das caixas de som em meu quarto.

Ouvi quando meu pai chegou e imediatamente a voz cristalina de Edward, meu irmão, soou em minha cabeça, pedindo que eu falasse com Carlisle.

Sim, eu falaria com ele, pois sua preocupação também gritava.

Desliguei o som, afastei as desnecessárias cobertas e me levantei de minha desnecessária cama confortável para seguir até a sala. Edward se retirou de casa para nos dar privacidade e eu agradeci por isso.

Andei com calma por nossa casa, apreciando toda a beleza do lugar. As obras de arte, dignas de um museu, sempre me alegravam um pouco.

— Como você está? — Carlisle questionou com voz tranquila, o leve toque curioso bem disfarçado.

— Não sei — declarei por fim, entrando em seu escritório.

Ele sorriu e me abraçou carinhosamente, me oferecendo seu amor e conforto.

— Seu coração está ligeiramente acelerado, quase com batimentos normais. Será que teremos o primeiro caso de infarto em nossa espécie?

Eu ri disso, mas ele tinha razão, claro.

— Se fosse realmente possível... — resmunguei de mau humor, causando risos em Carlisle.

— Prefere conversar com Esme? Ela vai chegar logo.

Neguei com um aceno, mas não sabia ao certo para o quê — se para a ideia de falar com ela ou se para o fato de, entre tantas ocupações, ela ter escolhido ser professora. Talvez Esme fosse o primeiro e único caso de vampiro com problemas psiquiátricos.

Sentei no sofá preferido de meu pai enquanto ele se apoiou contra sua mesa de trabalho, seus olhos calmos sem perder um movimento meu.

— Sabe que jamais a pressionaria e que, de fato, temos todo o tempo do mundo, mas seu estado tem me preocupado, Edythe. Pensando em emoções humanas, posso dizer que você tem se parecido muito com uma pessoa em depressão.

— Bem, talvez seja isso mesmo. Embora sejamos diferentes, nossa parte humana permanece preservada, inclusive o que diz respeito às emoções.

Ele concordou com um aceno, mas realmente não me pressionou por mais. Claro que eu falaria tudo, só estava procurando uma forma de dizer isso sem causar problemas.

— Conheci uma pessoa. Uma pessoa completamente humana.

Vi os olhos verdes brilharem de felicidade e expectativa. Para um vampiro, mudanças são quase impossíveis de acontecer, então algo assim era realmente — realmente mesmo — grande.

— Eu estava na feira de livros e, por mais incrível e inacreditável que possa parecer, seu amor por Vida e morte é genuíno. Seus olhos conseguiram captar todas as nuances que eu mesma deixei de perceber com o tempo. Puxei assunto, ofereci um exemplar, mas claro que voltei sozinha para casa.

Assumindo a posição de pai, Carlisle sentou-se ao meu lado e pegou minha mão entre as suas em um aperto suave e amoroso.

— Pela forma como seu coração bate, posso dizer que há uma paixão por aí?

Pai sendo pai.

— Não sei! Estou tão confusa! Há tanto tempo não me interesso por ninguém... E nunca por alguém como ela.

Os olhos verdes se voltaram para mim, muito abertos após minha revelação. Mais uma vez: era difícil surpreender e assustar a um vampiro, mas eu estava quebrando todas as regras de uma vez só e em um único dia.

Em uma ação humana, ouvi meu pai limpar a garganta e eu quis rir, pois ele bloqueou todos os seus pensamentos para que eu não tivesse a mínima ideia do que viria pela frente.

— É alguém que eu conheço?

Bom, nada ruim para uma primeira pergunta.

— Creio que sim. Bella Swan, a filha do chefe de polícia.

— Sim, sim. Está no último ano e é excelente aluna; Esme dá aula para ela e a ajudou em suas candidaturas à faculdade.

Sorri bobamente para isso. Isabella certamente era bem inteligente e já tinha seu futuro planejado, como ir para a faculdade, casar e ter filhos.

— Talvez seja melhor manter distância. Eu não teria como me aproximar dela, uma vez que escolhi assumir uma identidade ligeiramente mais velha dessa vez.

Deus me livre de passar pelo suplício do ensino médio outra vez.

— Dois anos não é tanta diferença assim, querida.

Senti a ironia em suas palavras e acabei rindo com ele. Dois anos...

— Não é, mas não acredito que o chefe Swan seja muito confortável com sua filha única tendo amizade com uma menina de vinte anos que não estuda.

Obviamente Carlisle percebeu que eu estava tentando desviar do assunto principal, mas como todo pai, ele fingiu não perceber.

— O que você sente por essa menina? De verdade.

Como uma adolescente, bufei e revirei os olhos. É claro que eu sabia o que sentia, tive tempo para racionalizar as emoções que surgiram, mas não queria dizer que era fácil aceitar — não pelo fato de a outra pessoa em questão ser uma mulher, mas sim pela situação que nos envolvia.

Bella era uma menina com a vida toda pela frente, eu não tinha o direito de querer me aproximar para virar tudo de cabeça para baixo. Por mais que vivêssemos bem com os humanos, ainda éramos predadores, imortais e totalmente antinaturais. Uma aproximação entre nós, ainda que por mera amizade, poderia desencadear muitos problemas.

Mas eu devia uma resposta ao homem que me criou e orientou por toda a minha vida como vampira.

— Gosto dela mais do que deveria e sinto que posso estar enlouquecendo por causa disso. Foi tolice ter me aproximado naquele dia; sei que nossas interações com os humanos são bem fáceis até, mas nada recomendáveis pelos mais diversos motivos.

Se eu fosse humana, com certeza estaria corando e suando de nervoso. Não importava a forma, eu era uma filha diante de seu pai, dizendo a ele sobre sua paixão por uma menina proibida.

Muito Romeu e Julieta para o meu gosto. No fim, a tragédia seria a mesma, com alguém morrendo e uma família sendo destruída.

— Querida, eu deveria ser o responsável aqui e dizer a você para se afastar dessa menina, mas o romântico em mim está gritando mais alto e pedindo para que eu dê todos os conselhos errados — eu ri dele, mas continuei apenas ouvindo. — Você é minha garotinha e não gostei de vê-la tão triste como nas últimas semanas. Se Isabella é a pessoa que a fará feliz e colocará o sorriso de volta em seu rosto, então eu já gosto dela.

Para demonstrar seus sentimentos paternais, Carlisle me apertou suavemente entre seus braços, fazendo como que eu me sentisse imediatamente confortada.

— Estou com medo — declarei em voz extremamente baixa, me sentido muito humana depois de tanto tempo. — Não quero fazer nada errado e causar problemas.

— Sei disso, querida, mas confio em seu julgamento.

Que bom, porque eu não confiava em mim mesma naquele momento.

(...)

Aproveitando o final do ano letivo e as férias, minha família saiu para uma curta viagem de caça. Eu preferi ficar em Forks, pois não tinha paciência para nossa família do Alasca — e eu não merecia passar meus dias ouvindo as atividades sexuais de Edward com as irmãs Denali. Esme mandava mensagens todos os dias, mesmo sendo completamente desnecessário; o que poderia acontecer a um vampiro? Alguém poderia tentar nos matar com suco de alho, nos exorcizar ou o quê?

Mantive a normalidade andando por Forks, comprando uma ou outra besteira e respondendo às perguntas das pessoas sobre meus pais e irmão — cidadãos exemplares. Tudo estava muito bem para mim, mas é claro que a vida de Edythe Cullen não seria de todo fácil: Isabella estava em uma das lojas que entrei.

Ser uma vampira não ajudou em nada com tal situação; eu queria apenas usar minha ultra mega power velocidade inútil e fugir dali.

Tentei fingir que não notei a presença dela, mas de nada adiantou e acabamos dentro do seu carro, conversando sobre o “nada que não aconteceu”.

— Me senti uma tola pela forma como agi; sua mãe é minha professora, tenho aulas com seu irmão, seu pai é médico... Eu não tinha motivos para ser tão rude com você naquele dia. Desculpe-me por isso.

Autopreservação nunca é demais, Bella.

— Está tudo bem, não foi rude. Estranho seria se você, sendo filha de policial, não tivesse o mínimo senso de segurança.

Senti uma onda de calor vindo dela e, quando olhei em sua direção, vi suas bochechas vermelhas.

Adorável.

— Se você ainda quiser me dar aquele livro...

(...)

Passar todo o trajeto do centro de Forks até minha casa, dentro da minúscula cabine da velha caminhonete de Bella, levou de mim mais do que pensei. O calor de seu corpo tornava seu cheiro muito mais potente, mais apelativo para mim. Meu autocontrole nunca foi tão testado antes, nem quando eu era apenas uma recém-criada.

Às vezes eu fingia estar distraída com a paisagem do lado de fora e quando voltava meu olhar em sua direção, sempre a pegava me fitando, mantendo os lábios vermelhos presos entre os dentes. A música soando meio chiada através dos alto-falantes antigos era uma boa desculpa para mantermos o silêncio — e agradeci mais uma vez, pois eu não me sairia bem na tarefa de manter o controle sobre as palavras.

Nunca antes me senti tão vulnerável e nervosa perto de alguém e, levando em consideração que Bella era apenas uma humana, chegava a ser ridículo tal sentimento. Também foi ridículo mentir que meu carro estava no mecânico, mas foi essa desculpa que usei para aceitar sua carona de volta.

— Acabei me esquecendo de te avisar: estaremos sozinhas aqui em casa. É um problema? — Soltei de uma vez, prendendo a respiração.

— Não! Problema nenhum! — Ela exclamou soando exasperada.

Deveria ter.

Quando entramos e ela se deparou com os quadros adornando as paredes brancas, sua expressão se tornou absolutamente contemplativa.

— Uau! São incríveis!

— Sim. Meus pais se empenharam muito para conseguirem algumas dessas obras, eles gostam muito de todo tipo de arte. Venha, vou te mostrar o restante da casa.

Passamos pelo corredor até chegarmos à sala ampla, onde as paredes de vidro permitiam a iluminação natural. Não havia muitos detalhes, Esme focou no minimalismo para decorar aquele ambiente, mas não deixou de ser acolhedor e completamente parecido com um lar normal. Vimos o escritório de Carlisle, a sala de TV, a cozinha bem equipada e nunca usada e, por fim, a biblioteca, onde havia mais algumas obras de arte e pequenas esculturas.

— Confesso que estou com medo de andar aqui dentro e quebrar algo. Não sou exatamente equilibrada.

Eu ri de sua fala um tanto tremida e ouvi seus batimentos acelerarem quando me aproximei um pouco mais.

— As esculturas são réplicas, não haveria grande prejuízo financeiro. Mas seria péssimo vê-la ferida.

Mais uma vez ela prendeu o lábio inferior entre os dentes enquanto me encarava. Qualquer sombra de autocontrole me abandonou e levei meu polegar ao seu lábio, o libertando daquele ataque.

Embora eu reconhecesse os sinais, me recusei a crer no que eu via e ouvia: suas pupilas dilatadas, respiração e batimentos cardíacos alterados, mamilos túrgidos sob o tecido fino de sua blusa de mangas longas.

Ela estava excitada!

— Vai acabar se machucando assim — falei baixo, roçando levemente seu lábio macio com meu polegar. — Não precisa ficar nervosa, Bella, as peças possuem seguro.

Obviamente seu nervosismo não tinha a ver com as obras de arte e eu sabia disso, mas não a constrangeria de forma alguma.

— Estou bem — disse ela em voz fraca.

— Certo. O livro está lá em cima. Vamos?

Ela assentiu silenciosamente, mas o som absurdamente acelerado de seu coração denunciava sua ansiedade. O meu também sofreu uma leve alteração, mas o esforço para parecer completamente humana era tão grande que eu nem sequer me dava conta do que acontecia comigo. Apenas naquele breve momento pude perceber que a tensão e a ansiedade também se instalaram em mim.

Percebi, perto dela, que era fácil demais me esquecer de quem e do quê eu era, e isso só tornava as coisas ainda mais perigosas.

Bella ofegou quando entramos no ambiente amplo e claro do meu quarto. Uma das paredes era completamente de vidro e dava para a floresta que rodeava a casa, uma estante grande tomava a outra parede; livros, CDs, aparelho de som e pequenas bugigangas dividiam espaço. Era ali, em um pequeno cofre, onde eu guardava meus manuscritos.

— Repetitivo, eu sei, mas: uau!

Minha risada saiu baixa, mas atraiu sua atenção completamente. Senti um pouco de calor nas bochechas, mas nada perto do que acontecia a ela.

— Minha mãe tem muito interesse por decoração e tudo mais... Deu nisso. Ela realmente ficará feliz por saber que você gosta.

— Há algo para não gostar por aqui?

A pergunta poderia ter sido totalmente inocente e despretensiosa, contudo, o olhar em minha direção dizia que ela se referia a mim, especificamente.

Se ela soubesse o que causava em mim por simplesmente existir...

Retirei a pequena caixa do cofre e peguei o exemplar de dentro dela; as folhas sofreram com as ações do tempo, então, para minimizar os danos, restaurei algumas partes, tratei as folhas e encadernei em couro. Também reescrevi o livro em diversos tipos de papel, todos devidamente encadernados e preservados.

— Aqui está — falei estendendo o livro para ela. — O manuscrito original de Vida e Morte.

Eu teria abdicado da imortalidade se isso me permitisse ver mais daquele sorriso maravilhoso. Isabella brilhava mais que o sol, e simplesmente por ter ganhado um livro velho.

Seus dedos passaram pelo couro com cuidado, como se acariciassem algo extremamente delicado e raro. O tremor poderia ser imperceptível aos olhos humanos, mas estava ali quando ela abriu a capa e traçou os dedos pela primeira folha. O castanho de seus olhos não me pareceu tão brilhante, ela não pareceu tão feliz quanto naquele momento.

— Não sei como agradecer, Edythe. Tem certeza de que quer me dar o livro? É algo tão especial, tão valioso...

— É seu. Ele estará em boas mãos, tenho certeza.

Comprovando minhas palavras, ela abraçou o livro junto ao peito e me deu um sorriso bonito, acompanhado de um suspiro.

— Obrigada. Ler as palavras dessa forma, com a letra da autora, faz com que eu me sinta próxima a ela, como se eu compartilhasse de seus sentimentos, suas angústias, esperanças, amores...

Sem me conter, me sento ao seu lado e escuto os batimentos de seu coração acelerar.

— Ninguém sabe nada sobre quem escreveu, mas você fala com tanta certeza que é uma mulher... Por que pensa assim?

Ela sorriu outra vez, me deixando feliz.

— Os poemas falam de amores perdidos, reencontros. Falam das dores causadas por amar alguém que só existe em nossa imaginação, da impossibilidade e da esperança. Apenas uma mulher poderia usar tais palavras para falar de amor; um homem diria que perdeu sua musa inspiradora, não seu amor.

Se você ao menos soubesse, Bella...

— Bem, você é boa nisso! Agora tenho ainda mais certeza de que o livro estará em ótimas mãos.

— Obrigada, mais uma vez. Onde você o encontrou? Até as cópias são difíceis de achar...

O toque estridente de seu celular me salvou de ter que inventar uma mentira, mas me deixou frustrada também. Charlie precisava dela em casa, então eu não teria como convidá-la para assistir a um filme qualquer, apenas para ter mais tempo ao seu lado.

— Edythe — chamou Bella, já acomodada sobre o assento gasto da caminhonete —, eu achei que querer me dar o livro fosse um código para outra coisa.

Assim, sem mais nem menos, ela se foi. Teria sido absurdamente fácil segui-la e até mesmo parar a velha caminhonete, mas achei melhor agir como um humano agiria e a deixei partir, mas suas palavras não me deixaram.

(...)

Obviamente não me mantive afastada o restante da semana; nós nos comunicamos por mensagem de texto e, é claro, eu a observei de longe.

Todas as emoções humanas transbordavam de mim, me deixando completamente perdida e sem saber como agir. Eu me sentia nervosa, eufórica e apavorada, ainda mais por termos um encontro. Quanto mais a hora de sair se aproximava, mais aquela história me parecia absurda; o perigo existia, era real, e eu fui a responsável por colocar Isabella em tal situação.

Mesmo que não fosse necessário, meu pai retornou da curta viagem para me dar apoio.

Eu estava deitada em minha cama, olhando as notícias em meu celular, quando ele bateu à porta e perguntou se poderia entrar.

— Por que está tão nervosa? As batidas do seu coração estão realmente aceleradas.

— Tudo está errado! — Exclamei e me levantei em um átimo, parando de frente para Carlisle. — Eu não deveria ter me aproximado de Bella, mas o silêncio de sua mente era tão atraente que me deixei levar. Agora estou aqui, prestes a levá-la para um passeio na floresta, longe dos olhos humanos e perto demais de minhas presas.

Meu pai sorriu para mim e me abraçou pelos ombros, nos levando para o sofá. Sua mente estava em branco sobre Isabella, seus pensamentos todos em Esme.

— Quantas vezes você desejou atacá-la desde que a conheceu? Quantas pessoas você atacou desde sua transformação?

— Nenhuma! Nunca ataquei ninguém nem cheguei perto disso, também nunca quis fazer isso à Bella. Mas não posso continuar assim, agindo como se eu fosse humana, como se não houvesse perigo. Como se eu não fosse o perigo.

— Nem nós estamos a salvo, querida. Já quase fomos exterminados uma vez.

Estremeci ao ouvir aquilo e relembrar o fato. Escapamos por muito pouco, mas conseguimos.

— Não subestime Isabella, não a coloque em uma posição de vítima, de presa. Agora, desça, pegue suas coisas e vá para o seu passeio. Tenho certeza de que não será preciso, mas estarei aqui.

(...)

Com certeza eu não era a única ansiosa por ali, pois Bella já me aguardava, encostada a um dos pilares de sustentação da varanda de sua casa. Absurdamente maravilhosa em suas roupas quentes.

— Você veio!

Eu ri de seu entusiasmo e de como ela se deteve para não correr até mim.

— Sim. Nós temos um horário, não temos?! — Ela assentiu levemente, corando. — Seu pai está em casa? Eu gostaria de me apresentar e deixá-lo ciente de onde vamos.

Ela gemeu e escondeu o rosto entre as mãos, me fazendo rir mais.

Infelizmente o chefe Swan não estava em casa, e eu fiz questão de conferir, então não havia mais motivo para enrolar. Entramos no carro e logo entreguei para Bella um copo de café.

— Obrigada. Para onde vamos?

Não respondi e ganhei uma careta e língua estirada em minha direção.

O caminho era curto, dez minutos após sairmos da casa dela, chegamos ao limite da via que nos separava da pequena trilha que nos levaria até a clareira tão apreciada por mim. Claro que fiz uma visita ao local antes e limpei o caminho, porque Isabella realmente tinha um sério problema com seu equilíbrio e eu não queria causar nenhum tipo de acidente.

Sua alegria ao ver a cesta de piquenique foi genuína, e isso afastou certos pensamentos pessimistas que surgiram de repente. Mesmo limpando o caminho, ainda havia galhos e árvores o bastante para causar algum tipo de machucado, e isso seria um imenso problema.

— Oh, meu Deus! É tão lindo aqui! — Bella exclamou quando se deparou com a clareira. — Como nunca vi esse lugar antes?!

— Você costuma andar pela floresta? Explorar as trilhas?

Sua negativa veio com um leve menear de cabeça, o que acabou nos causando risos.

Precisei me refrear enquanto arrumávamos tudo, pois Isabella estava perto demais e qualquer deslize seria notado; fiz tudo em velocidade humana e sem usar muita força também. Quando terminamos, retiramos nossos sapatos e nos sentamos sobre o cobertor macio, o sorriso bonito fez meu coração disparar e, se fosse possível, eu estaria suando de nervoso. O coração dela também batia levemente acelerado, o calor emanando do seu corpo indicava que não eram apenas suas bochechas que estavam coradas.

— Está animada com o fim do ensino médio? Você vai para qual universidade? — puxo um assunto qualquer apenas para ouvir sua voz.

— Nada animada. — Diz ela com o semblante triste. — Fui aceita em algumas universidades, mas a ideia de me afastar de Forks não é agradável; há muito aqui para que eu simplesmente vá embora.

Ela está verdadeiramente triste, o sentimento transborda em suas palavras e está estampado no rosto bonito. Quero fazer algo para animá-la, mas sei que de nada adiantará; afastar-nos de nossa família é realmente doloroso.

— Mas está tudo bem. A propósito, obrigada por me trazer aqui — disse ela ao se aproximar um pouco mais. — Me sinto parte do livro de Edy Masen, parte das palavras e sentimentos dela. É incrível pensar que ela pode ter escolhido uma clareira tão linda quanto essa para escrever alguns de seus poemas.

Sim, eu fiz isso naquela época.

— A maioria dos poemas fala de dor, perda, amores impossíveis... Algumas dessas situações te são familiares? O que tem de tão especial neste livro, particularmente?

Oh, sim! Vampiros também podem ser curiosos, ainda mais aqueles que não possuem a facilidade de ouvir os pensamentos alheios.

— Se eu te contasse, seria apenas mais uma tolice sendo dita.

Ela prende o lábio entre os dentes e me vejo rapidamente interrompendo seu ataque. Passo tempo demais tocando sua pele, sentindo seu calor e maciez — e nunca seria o bastante, mas logo afasto minha mão.

— Jamais diria que você é uma tola, Isabella. Diga.

As batidas do seu coração soam mais altas e aceleradas quando digo seu nome. Sei que ela gosta, vejo o pequeno sorriso brincando em seus lábios macios.

— Digamos que, assim como nos poemas, perdi pessoas e também sofro por um amor impossível de acontecer.

Pela forma como fala, sei que há algo mais, mas não consigo captar o que poderia ser. Isso me deixa, de certa forma, angustiada. Isabella faz com que eu me sinta completamente no escuro. Para disfarçar a vergonha, ela pega algumas uvas da cesta e dá total atenção a elas.

— Eu não quis ser indelicada, desculpe. Mas, se me permite, acho que você deve fazer o que seu coração manda; se achar que vale a pena, então vá atrás desse amor, não deixe que ele escape. Os poemas escritos em Vida e Morte foram inspirados em uma época sombria, onde não havia esperança, apenas guerra, destruição e mortes; nada pode ser feito quanto ao que está registrado nas páginas gastas, mas você tem um livro todinho em branco, só esperando para ser preenchido por suas maravilhosas histórias de vida.

— Uau! Você poderia facilmente ser Edy Masen, e não me pergunte o porquê disso.

— Sim? Bem, e se eu fosse?

Nada como testar e observar o campo inimigo.

— Você estaria muito bem conservada e tudo mais, mas seria impossível, não é?

Se você soubesse, Bella...

— Não é? — Ela insistiu, diante do meu silêncio.

— Quem sabe? Se eu contasse, teria que te matar — finalizei dando de ombros, minimizando algo que era realmente sério.

De todas as reações, não imaginei que ela quase explodiria de tanto rir. Tão boba! Eu ri com ela, claro, porque era impossível não rir ou sorrir em sua presença, e num momento de distração, me pegando com a guarda completamente baixa, Isabella segurou meu rosto em suas mãos e me beijou.

(...)

Paralisada.

Em choque.

Congelada.

Transformada em pedra.

Assim me encontrei após aquele beijo — que retribuí com muita empolgação, devo dizer.

Foi impossível resistir àqueles lábios macios contra os meus.

Foi impossível resistir à Isabella e sua língua exploradora.

Sim, ela quase queimou de vergonha quando nos separamos; então quando me recuperei, eu a beijei mais uma vez e outra e outra, até que seu corpo parou de superaquecer. Pelo menos o calor emanando dele já era mais aceitável e menos perigoso; afastar meus lábios de seu pescoço parecia uma tarefa impossível e deixava minhas presas perto demais.

— Parece que sou boa em seguir o que meu coração manda — rio do que ela diz e me afasto, encontrando um sorriso bonito em seu rosto. Quero aproveitar o máximo que puder, pois sei que logo tudo chegará ao fim.

— Então eu sou seu amor impossível? — Hesito ao perguntar, mesmo sabendo a resposta.

— Sim. Eu posso parecer desatenta, mas sei que há algo fora do comum com os Cullen, por isso você se manteve afastada por tanto tempo.

Droga! Eu disse a Carlisle que ela era mais atenta que a maioria.

— Fora do comum? Sério? E quais as suas teorias?

Mais uma vez: é melhor observar o campo inimigo.

— Vocês são absurdamente brancos, então pensei que pudessem ter algum tipo de albinismo. No entanto, apenas isso não seria suficiente para te manter afastada. Também pude observar sua mãe e seu irmão na escola e, por mais que vocês fossem albinos, não teriam um tipo de super força ou super velocidade.

Merda! Ela era realmente uma ótima observadora.

— Albinos, hein? Pensei que ouviria sobre aranhas radioativas, androides ou extraterrestres. Estou chocada!

Claro que ignorei a questão da força e da velocidade — o que era um problema para nós, porque, em algum momento, acabamos por subestimar os humanos e abaixamos demais nossa guarda.

— Não, nada assim me passou pela cabeça — disse ela, sorrindo para mim. — Acho que sou mais uma garota de poemas e fantasia. Pensei em metamorfos e vampiros. Cheguei perto?

E como!

— Bem, você é criativa, não se pode negar. Estou tentando ver onde tudo isso se encaixa, porque Edward é lerdo para tudo e Esme não é tão forte nem tão rápida, sem contar a ausência de presas.

Porque elas estão bem guardadas.

— Não faça isso, Edythe. Eu posso não ser um gênio, mas meus olhos funcionam perfeitamente bem. — Se fosse possível, eu teria corado nesse momento. — Já vi Esme empurrando e carregando objetos pesadíssimos na escola, daqueles que precisariam de algo realmente potente para movê-los, já a vi chegar de um lado a outro em menos de um segundo e agir da forma mais natural possível. Com Edward é a mesma coisa nas aulas de educação física, sem contar que eu nunca o vi comer absolutamente nada! No refeitório, ele enrola com o que quer que tenha escolhido e depois joga fora sem tocar numa migalha sequer.

Porra! Porra! Porra! Como eles não a percebem? Os humanos não costumam estar tão perto de nós a ponto de prestarem atenção a essas coisas.

— Em sua casa, quando esbarrei na escultura perto da entrada, vi como você chegou perto de mim e segurou o objeto com facilidade. Por mais que sejam réplicas, são bem pesadas para uma garota colocar no lugar com o toque de um dedo.

Sim, isso aconteceu quando ela foi embora, mas não pensei que tivesse ficado tão evidente, já que ela ficou bem aborrecida após seu pai ter ligado.

— Tem outra coisa que chamou muito minha atenção: dentro do manuscrito que você me deu havia uma pintura absurdamente antiga, datada de 1.523, e a pessoa representada é ainda mais absurdamente parecida com você. Sem contar a carta presa entre uma folha e outra do livro, datada do ano 2.000, com seu nome assinado e caligrafia idêntica à do manuscrito.

Puta merda! Porque ela tinha que ser linda, gostosa, boa beijadora e tão absurdamente inteligente e observadora?

Fazia tanto tempo que aquelas coisas estavam guardadas que perderam a importância; não era algo que eu quisesse revisitar, relembrar... Ficaram, de fato, relegadas ao esquecimento.

Pela primeira vez desde que me tornei uma vampira, fiquei sem saída diante de uma situação. Isabella conseguia me desarmar completamente. O que eu diria? Não havia explicação plausível para aquela situação e mais que nunca, desejei ter Carlisle por perto; meu pai saberia conduzir muito bem aquela conversa.

— Mesmo achando que eu pudesse ser algum tipo de monstro ou ser mitológico, você não pensou em se afastar? Não pensou que eu poderia machucá-la de alguma forma?

Em silêncio, ela se move de forma que fica sentada de frente para mim, com suas pernas ao meu redor. Estamos tão perto uma da outra que posso ver claramente micro pintinhas douradas nas íris de um marrom profundo, além das sardas em suas bochechas, as gotículas de suor acumulando em sua pele, os reflexos avermelhados nos cabelos castanhos...

Cada mínimo pedaço dela está nítido para mim. Por um momento preciso cortar o fluxo de ar para meus pulmões, porque o cheiro dela é muito mais potente àquela distância — uma provocação as minhas papilas gustativas. O veneno acumula de forma rápida, queimando minha garganta. Ele não será necessário naquele momento.

Sinto meu coração bater errado e minha respiração falhar por um instante, a expectativa por não saber absolutamente nada do que passa por sua cabeça me coloca em uma situação de presa — não que eu me importasse totalmente com isso, mas não era normal que uma humana pudesse afetar tanto assim a um vampiro.

— Você quer me machucar? Quer que eu me afaste?

Recebo a pergunta como um soco no estômago, a simples ideia de machucá-la causa dor em mim mesma, porque é algo completamente absurdo.

— Por Deus, não! É claro que não quero nada disso, mas é perigoso, Bella. Só de estarmos sozinhas aqui já é um grande risco para você.

Obviamente ela me ignorou e me puxou pelo suéter, sua boca tomando a minha em um beijo capaz de derreter as calotas polares em questão de segundos. Por que raios eu ficava inerte perto dela? Era como se Bella neutralizasse as habilidades vampíricas, me tornando um ser quase comum.

Mais uma vez me deixei levar e aproveitei cada segundo daquele beijo e daquela proximidade; aproveitei meus dedos entre os cabelos macios, o calor de seu corpo, seu cheiro, a pele macia. Aproveitei a forma como ela confiava em mim para se entregar tão completamente, ainda que em apenas um beijo — mais um.

— Me conte a verdade, Edythe — ela pede em um tom baixo, ainda ofegante.

Ela não se afastaria de livre e espontânea vontade, então eu tinha que contar e dar a ela a chance de seguir em frente ou enlouquecer com a verdade.

— É complicado, Bella... Qualquer pessoa pensaria que sou louca.

— Me deixe julgar isso, sim? — Mais um beijo. — Me conte.

Nunca precisei contar a ninguém quem ou o quê eu era. Nunca um humano foi tão amigável.

— Pois bem. — Digo antes de iniciar minha história. — Meus pais acharam interessante mandar pintar um retrato meu, então, sim, sou eu aos dezoito anos naquela réplica que você encontrou. A carta é minha também, assim como o manuscrito. Meu nome real é Edythe Masen, adotei o Cullen quando Carlisle me acolheu em sua família.

Por mais incrível que pudesse parecer, Bella não se afastou de mim; ao invés disso, ela afastou alguns fios de cabelo que caíam sobre meus olhos e se apertou ainda mais ao meu redor. Era impressionante como ela estava tranquila, com seu coração batendo num ritmo compassado e perfeito.

— Até que você está bem conservada para a idade que tem. Nada de rugas ou cabelos brancos, sem sinais de artrite, reumatismo... Você está bem gostosa; eu daria, no máximo, uns 200 anos.

Tentei manter a seriedade, mas não consegui. A gargalhada foi impossível de conter, e eu não queria refrear também.

— O que eu vou fazer com você, Bella? Como pode estar tão tranquila?

Ganhei um beijinho de esquimó e um lindo sorriso. Eu poderia morrer por eles.

— Espero que você queira fazer muitas coisas comigo, mas, por ora, me conformo em ouvir sua história. Não se preocupe, não vou sair correndo nem vou perder a sanidade. Continue, por favor.

Sim, senhora!

— Meus pais não sabiam sobre a natureza do tal pintor e, mesmo se desconfiassem de algo, não teriam a mínima chance contra ele, pois seu poder de sedução cegava a todos e ninguém percebia o perigo. — Embora não precisasse, parei para tomar fôlego. — James Hunter não era um pintor qualquer da época, ele era um vampiro muito antigo, vindo da Itália. Sua sede de sangue era desmedida, a crueldade de seus atos causou pânico por onde ele passou. Havia rumores sobre o demônio sugador de sangue, mas naquela época era dificílimo checar qualquer coisa.

Ainda doía relembrar aqueles tempos, mas seria a última vez, eu tinha certeza.

— Ele pintou meu retrato em pouquíssimo tempo, claro, pois as habilidades de vampiro lhe favoreciam. Meus pais, encantados com a presteza e excelente trabalho, decidiram oferecer um jantar como forma de agradecimento e para apresentá-lo a todos. Havia trinta pessoas reunidas, o que foi muito para ele suportar; a sede de sangue falou mais alto e, aproveitando-se de que o jantar fora servido em uma sala reservada, ele nos trancou lá dentro e nos atacou.

Se eu pudesse dormir como os humanos, com certeza teria pesadelos com aquela noite. Mesmo depois de séculos passados eu ainda ouvia os gritos, sentia as dores, o medo... O sentimento de desamparo nunca passou.

— Acordei alguns dias depois, na casa de Esme e Carlisle, sem entender o que eu era e como aquilo era possível. Eles foram amorosos e pacientes comigo durante todo o processo de transformação e aceitação; foi muito difícil controlar a incessante queimação em minha garganta, controlar a força, a velocidade, a capacidade de ler/ouvir todos os pensamentos ao redor... Achei que eu estivesse completamente louca.

Recebi um afago em minha bochecha, o toque era reconfortante, e só então percebi que eu poderia estar chorando. Fazia tanto tempo...

— Naquela época Carlisle e Esme faziam parte dos Volturi, uma espécie de polícia do mundo vampiro — que serve para manter a ordem e evitar certos comportamentos — e eles já estavam atrás de James por causa dos inúmeros corpos deixados pelo caminho, sem contar os recém-criados largados à própria sorte e sem um pingo de orientação. O intuito era capturá-lo e levá-lo vivo até Volterra, mas, diante da barbárie cometida, não houve alternativa a não ser exterminá-lo.

Se James estivesse vivo, eu mesma o mataria.

— Minhas roupas e objetos pessoais foram levados para a casa de Carlisle e, logo em seguida, ele ateou fogo em minha casa para encobrir os corpos drenados. Toda a minha família estava lá dentro, amigos, pessoas queridas... E James. Tudo aquilo que eu conhecia deixou de existir de uma hora para outra. Como fui dada como morta no terrível incêndio que ocorreu na casa dos Masen, eu passei a viver com os Cullen, que me ensinaram tudo o que sei sobre ser uma vampira; graças a eles nunca cheguei perto de atacar ninguém e aprendi a lidar com minhas habilidades. Pronto, agora você já pode correr para as montanhas.

Finalizei com um sorriso triste, esperando que ela realmente se afastasse, mas era Bella ali, completamente fora do padrão. Claro que ela nem se moveu.

— Eu sinto tanto! É tão triste que você tenha passado por algo tão terrível, baby... E eu não vou embora, já falei.

Sorri feito uma boba pela forma carinhosa como ela me chamou. Se antes eu tinha alguma dúvida, agora era certeza que eu estava irrevogavelmente apaixonada por Isabella Swan.

(...)

Isabella era completamente louca, eu tinha certeza. Mesmo após saber sobre mim, ela estava ali, me abraçando com sua força quase inexistente e deixando seu pescoço perto demais de minhas presas. Eu estava preocupada, claro, mas sentir seu coração batendo contra o meu era maravilhoso, assim como receber seus carinhos, seu beijos e promessas de permanecer sempre por perto.

— Tenho algumas perguntas, você se incomoda? — Ela questionou baixo, olhando em meus olhos. Neguei com um aceno e vi o alívio em seu rosto. — Como você sobreviveu e os outros não? Como seu coração bate e você é quente? Vampiros não estão mortos, de certa forma?

Ri disso. Claro que ela perguntaria algo assim. Mas eu não daria todas as respostas sem ganhar algo em troca: dei a ela uma garrafa de suco e um sanduíche. Certamente ela não havia comido nada antes de sairmos e já fazia um tempinho que estávamos na clareira.

— Se o vampiro quiser se alimentar, ele vai atacar a presa e drenar todo o sangue. Se quiser transformar alguém, ele injeta seu veneno com uma mordida. No caso de James, ele queria se alimentar, então drenou todo o sangue dos outros, menos o meu.

Ele realmente teve seu banquete.

— Eu estava quase morta quando Carlisle me encontrou, então ele tentou me salvar injetando seu veneno em mim. Pelas pesquisas que fizemos ao longo dos séculos, constatamos que esse tipo de veneno apenas impede que nosso corpo entre no processo natural de envelhecimento e deterioração; nossos órgãos continuam preservados e funcionando, ainda que muito, muito lentamente. Devido a isso, a digestão de certos alimentos não é agradável, então a maioria de nós só come quando é estritamente necessário; de qualquer forma, o sangue nos alimenta por vários meses.

— Uau! E seus olhos, por que são dessa cor e não vermelhos? A força? A velocidade? Vocês podem realmente ouvir os pensamentos das pessoas?

O rubor em suas bochechas denunciava que os pensamentos não eram nada inocentes. Ah, Isabella!

— Meus olhos são dessa cor naturalmente, não é algo que mude após a transformação. Todos os nossos sentidos são potencializados, ficamos mais atraentes epraticamente indestrutíveis. Quanto a ouvir pensamentos, não é comum a todos da minha espécie; alguns possuem outras habilidades, como visões, manipulação das emoções, dos elementos, entre muitas outras. E não, eu não consigo “ouvir” você, e isso me deixa completamente no escuro, porque nunca aconteceu antes.

O alívio em seu rosto só reforça a ideia de que seus pensamentos não eram nada puros.

— Por que você não consegue me ouvir? Será que tem algo de errado comigo? E vocês não precisam de oxigênio, né? Você falou pra caramba e nem ficou cansada.

Inacreditável! Era com esse tipo de coisa que ela estava preocupada? Sério?

— Eu digo que minha família e eu somos vampiros, que há mais de nós por aí e que eu posso realmente machucá-la de alguma forma, mas sua preocupação é com o fato de eu não poder ouvir seus pensamentos?

Ela assente com um leve sorriso, o que me faz sorrir também. Antes dela, eu nunca tinha rido e sorrido tanto.

— Bem, eu não sei por qual motivo não posso ler seus pensamentos, talvez meu pai tenha alguma explicação. De fato, não ficamos cansados e nunca dormimos, nós precisamos de oxigênio, mas não como vocês; não morremos se ficarmos sem respirar.

Pela primeira vez há uma pequena alteração em seus batimentos cardíacos, nada preocupante, mas não deixo passar.

— Seu coração está bem? As batidas estão levemente aceleradas.

O rubor espalhou por seu corpo, deixando a pele quente e extremamente convidativa. Novamente o veneno queima minha garganta e me esforço para mudar o foco.

— Droga! Você consegue ouvir, não é? — Assinto levemente, sem querer me mover muito. — Mas meu coração está bem, acho que só... Não sei, acho que senti ciúmes.

— Ciúmes?! — Quase grito, mas nem isso faz com que ela se afaste. — Do quê?!

Os olhos castanhos não desviam dos meus, mesmo que ela esteja queimando de vergonha.

— Você tem um tipo? Sabe, para se alimentar? Sei que não tenho nada de interessante e que você já deve ter conhecido vampiras e humanas muito melhores por aí, mas... Não sei...

Ela engasga e se atrapalha com as mãos na tentativa de esconder o rosto. Lágrimas brilharam nas íris castanhas, fazendo meu peito apertar. Ela jamais deveria se sentir diminuída, não importa o motivo.

Com cuidado, limpo as lágrimas de seu rosto bonito e afasto os cabelos que caíram sobre seus olhos. Ainda posso ouvir os batimentos acelerados de seu coração, posso perceber a força que ela faz para não chorar outra vez.

— Você é tão interessante e preciosa, Bella... — Arrasto meus lábios por sua bochecha, sinto o calor, o sangue correndo mais rápido em suas veias. Deposito um beijo em seus lábios e me afasto quando ela finalmente relaxa. — Conheci muitos vampiros e humanos, tanto homens quanto mulheres, mas nunca me alimentei deles, então não tenho um tipo para isso.

— Nunca?! — Ela questiona com espanto e sua reação me faz rir. — Do que você se alimenta?

— Sangue animal. Alguns vampiros ficavam fora de controle e matavam desenfreadamente, dizimavam pequenas cidades, transformavam pessoas e simplesmente partiam, deixando um bando de recém-criados sem controle para trás. Os Volturi perceberam que isso seria um problema, sem contar que não queriam que nossa espécie fosse vista como monstros, então testaram o sangue animal. Após constatarem ser perfeitamente possível, proibiram que qualquer um de minha espécie se alimentasse de um humano. A pena para quem descumprir a lei é a morte.

Dou a ela um tempo para digerir a informação e até tento me afastar de seu corpo, mas ela aperta as pernas ao meu redor e desisto, pois não quero que se machuque. Aceito seu abraço, a cabeça em meu ombro, a respiração em meu pescoço. Não há espaço entre nós, então sinto as batidas perfeitas de seu coração contra o meu, o cheiro de sua pele, do seu shampoo. Ela é perfeita, quente, mutável.

O silêncio de sua mente me deixa inquieta e aliviada na mesma medida. Não saber o que ela pensa e não poder antecipar sua próxima ação ou reação é completamente desconcertante, mas ao mesmo tempo me deixa em paz.

Isabella é isso: a paz em meio à confusão dos pensamentos ao redor.

Agradeço por tê-la conhecido, por ela se manter por perto mesmo após saber de tudo. Eu não sabia que precisava daquele tipo de paz e tranquilidade até Isabella; era o tipo de coisa que só se acha em outra pessoa.

Isabella era meu lar.

— Você não é um monstro, Edythe. Você é perfeita no meu mundo.

Sorrio ao ouvir suas palavras. Ela é perfeita no meu mundo.

(...)

Eu poderia passar a eternidade apenas daquele jeito, observando Isabella. Depois de fazê-la comer alguma coisa, acabamos deitadas sobre cobertores macios. Ela passou o braço sobre mim, nos mantendo muito próximas.

Errado até poderia não ser, mas perigoso? Com certeza!

— Parece que ainda estou sonhando ou vivendo uma realidade paralela, onde seria normal alguém como você se interessar por alguém tão sem graça quanto eu.

Meus olhos reviraram dramaticamente com suas palavras, revivendo a adolescente em mim.

— Por qual motivo você se menospreza tanto, Bella? Eu vejo uma garota interessante, inteligente, esperta, observadora, engraçada, gostosa, linda e que tem os melhores beijos. Seu altruísmo realmente me deixou tocada, pois você seria capaz de anular sua ida para a universidade apenas para permanecer perto daqueles que ama. Seria impossível enumerar tudo o que te torna tão especial.

Suas bochechas vermelhas não me impediriam de continuar, não quando ela se colocava em uma posição tão inferior.

— Sabe o que você disse sobre sentir ciúmes? Não precisa, porque dentre todos os seres que já conheci, sendo humanos ou vampiros, você é a única que tem meu coração e meu amor.

Era um risco expor meus sentimentos daquela forma? Sim, era, mas valia a pena. Por Bella, tudo valia a pena.

— Nunca pensei que algo assim pudesse acontecer, não com uma humana. Vampiros são imutáveis, nossas vidas dificilmente sofrem alterações, mas, desde que a conheci naquela feira, tudo aquilo que eu julgava imutável virou de cabeça para baixo. Você me faz feliz pelo simples fato de existir no mesmo mundo que eu, você me faz feliz por sorrir, por me permitir estar tão perto e ouvir as batidas perfeitas do seu coração, e é um dos sons mais lindos que já ouvi, junto com o som da sua gargalhada.

Um breve sorriso escapa de seus lábios, mas ela ainda se esforça para não chorar. Preciso me empenhar mais.

— Amo a forma como você defendeu um livro do qual ninguém nem se lembra, amo sua sensibilidade e como teve a certeza que uma mulher o havia escrito. Não há nada de especial naqueles poemas, só escrevi sobre o que acontecia naquela época, mas você foi lá e encontrou um significado, encontrou algum conforto. Eu amo você, Isabella Swan, e jamais duvide disso.

(...)

Tivemos um pouco de choros e risos, abraços e beijos salgados. Isabella corava sempre que me pegava olhando para ela, mas era simplesmente impossível ignorar sua presença.

Depois de tantos séculos vagando por aí, eu finalmente me sentia inteira e absolutamente feliz. Sempre me senti feliz com minha família, mas estar com Bella... Era uma sensação completamente diferente, como se meu peito tivesse sido preenchido de um sentimento infinito.

Morri quando James me atacou. Mesmo tendo sido transformada, não achei que tivesse alguém esperando por mim, não achei que pudesse amar e ter ao meu lado uma pessoa que me amasse também.

Voltei à vida quando conheci Bella naquela feira. Carlisle tinha razão quando pediu que eu não a subestimasse; ela era simplesmente o ser humano mais incrível que já conheci. Finalmente entendi sobre o que tanto Esme e Carlisle falavam; entendi o que era viver por alguém, amar alguém.

Talvez dissessem ser rápido demais, mas, para quem viveu tantos anos quanto eu, era apenas o tempo certo.

— Edythe? — Bella chamou e me tirou dos meus devaneios. Olhei para ela, esperando. — Um dia eu serei igual a você?

Porra! Achei que essas questões ficariam mais para frente e eu teria tempo de pensar em algo.

— Não estou pedindo para que seja feito agora, mas não gostaria que demorasse muito tempo, porque não quero que as pessoas achem que sou sua avó. — Acabamos rindo com seu tom entre o desolamento e o desespero. Completamente louca.

Bem, temos uma ideia, afinal...

— Certo. Então eu tenho uma proposta a fazer: eu não gostaria que você perdesse nenhum tipo de experiência humana, assim sendo, poderemos voltar a essa conversa quando você terminar a universidade. O que acha?

Ela faz um bico manhoso e me arranca uma risada. Nada de bicos, eu não vou cair nessa, mocinha. O tempo na universidade é o suficiente para que ela decida se quer realmente ser como eu.

— Muito tempo, Edythe! — Ela diz com voz triste, mas não me faz mudar de ideia e ela percebe isso. — Bom, pelo menos eu ainda estarei gostosa e jovem, ninguém pensará que sou uma sugar mommy.

Quê?! Se fosse possível, eu teria morrido de rir, pois a gargalhada que dei me deixaria com falta de ar.

— Você é hilária, Bella! Obrigada por me fazer rir tanto! Mas não precisa se preocupar com isso, de nós duas, eu que estou na idade de ser sugar nanny.

Ela ri e me abraça, ficando ainda mais perto. Eu amo ver como seus olhos estão brilhantes e felizes.

— Você estará lá comigo?

— Sempre. Eu jamais deixaria minha garota sozinha. Nós estaremos lá, baby.

Mas claro que não falei que eu não estaria estudando... Deus me livre de passar por aquilo novamente! Eu queria pelo menos mais cem anos de férias escolares/universitárias.

— Nós seremos para sempre?

Sorrio para ela. É um bom começo.

— Para sempre está ótimo para mim.

— Para mim também. Eu te amo, Edythe.




Fim



Uma espiada no futuro

Edythe


Não importava quanto tempo passasse Bella sempre seria a minha garota. Eu jamais me cansaria de olhar para ela, de ver seus lindos olhos castanhos, ouvir seu coração... Agora ele batia no mesmo ritmo que o meu, mas ainda era o som mais perfeito do mundo.

Era nosso aniversário de casamento e decidimos passar o dia em uma clareira, como sempre fazíamos. Não importava onde nem quando, aquele sempre seria nosso lugar especial.

Bella estava deitada confortavelmente sobre cobertores macios, com um livro nas mãos e mais linda do que nunca. Ela ainda sentia vergonha com meus elogios, mas eu seguia sem me importar com isso e continuava exaltando sua beleza e todas as coisas boas que a faziam ser ela.

— Está animada para mais tarde? Esme e Carlisle estão se empenhando com a festa. — Pergunto rapidamente sem querer atrapalhar sua leitura.

— Pelo amor de Deus... Animada para ouvir a briga de Tanya, Irina e Kate sobre quem é a preferida do seu irmão? Edward poderia ter resolvido essa questão há séculos, mas não... Ele continua com as três irmãs, com quem mais aparecer pelo caminho, e ainda se faz de sonso.

Ele jamais resolveria isso, a diversão da vida/morte dele era justamente ficar com as três, jurar amor a todas e não ficar realmente com nenhuma.

— Acho que ele jamais deixará de ser um adolescente, não importa quanto tempo passe.

Bella ri e fecha seu livro, me dispensando total atenção.

— As questões familiares não me animam, mas é claro que estou feliz. Muito feliz. — Em um átimo, estou deitada de costas e Bella está por cima de mim, com uma perna de cada lado do meu corpo e o rosto a centímetros do meu. — Há trezentos anos nós dissemos sim e, desde então, sou a mulher mais feliz do mundo.

Aceito seu beijo com entusiasmo, sem mais temer machucá-la de alguma forma. Antes ela não se importava, dizia que confiava em mim e sabia que eu jamais a machucaria, mas havia sempre muita cautela em mim.

De fato, eu jamais poderia machucá-la, nem nenhum outro vampiro. Nós levamos um tempo pesquisando sobre sua habilidade, pois nunca tivemos um registro de qualquer humano ou vampiro que fosse um escudo. Bella simplesmente possuía a habilidade de se proteger, se blindar de qualquer ameaça, e, se ela quisesse, seu escudo poderia se estender a quem estivesse próximo. Por isso Esme e Edward nunca a perceberam perto demais, por isso eu ficava tão desarmada perto dela.

Sua mente estava inclusa no pacote, claro. Se ela não me permitisse entrar, eu jamais poderia saber o que passava em seus pensamentos. E ela permita. Sempre que queria me mostrar a intensidade de seus sentimentos, ela dividia seus pensamentos e memórias comigo.

— Eu te amo, baby. — Ela diz ao findar o beijo e agradeço por realmente não precisarmos de oxigênio. Poderíamos passar horas nos braços uma da outra.

— E eu amo você, baby. Mesmo após todos esses anos, você continua gostosa e boa beijadora.

— Isso eu sou mesmo! E nós bem que poderíamos ficar por aqui, não é? — Diz ela enquanto abre lentamente os botões da minha blusa. — Afinal de contas, é nosso aniversário de casamento; nada mais justo que apenas nós duas comemoremos.

O sorriso sem vergonha quase me ganha, mas temos uma festa a comparecer.

— Podemos ficar, mas não por muito tempo mais. Minha mãe está preparando tudo com tanto amor, nossos amigos estão vindo também. Não é todo dia que se comemoram trezentos anos de casamento.

Humanos e vampiros viviam em quase harmonia agora, então teríamos presente alguns amigos que fizemos aqui na Itália, além de Charlie. Sim, meu sogro era um de nós — ele sofreu um grave acidente enquanto pescava e Bella não aguentaria perdê-lo; ela implorou para que Carlisle o transformasse e assim foi feito. Não posso negar que os Swan eram criaturas peculiares; tanto ele quanto Bella não tiveram o mínimo problema em ouvir sobre vampiros.

— Todo ano você fala a mesma coisa, baby. Tudo bem, sem fugir dessa vez, mas ano que vem seremos nós duas apenas.

Tudo com Bella vinha acompanhado de alguma negociação, não importava qual fosse a questão. Ela aceitou esperar sua formatura para que eu a transformasse, mas, se era para ter todas as experiências humanas, ela não abriu mão das atividades sexuais.

Justo.

Pedido de casamento? Ela aceitou prontamente, sem piscar, mas nos casamos em seu segundo ano na universidade, com direito a seu pai a levando ao altar, festa e muitos vampiros reunidos, assim como humanos desavisados.

Justo.

Lua de mel? Nas férias da universidade. Afinal de contas, era uma experiência humana, não?

Justo.

Não posso reclamar; foi maravilhoso dividir a vida com a Bella humana, aquela que falava dormindo o quanto me amava, que não importava quão grande nossa cama fosse, ela sempre dormia agarrada a mim. E era maravilhoso dividir a vida com ela agora.

Estar com ela sempre seria maravilhoso, não importava como, quando ou onde.

Ela deitou sobre mim, como gostava de fazer, e então pude participar de seus pensamentos, pude ouvir tudo aquilo que ela sentia.

Seríamos para sempre.

Eu e minha garota.


OUTRO FIM

Notas finais
Se chegou até aqui, diga o que achou 💕
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!