Vida Após A Morte
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ele nunca havia sentido tanto calor em sua vida. O que mais chegou perto disso, foi o último golpe que sofrera antes de assumir sua forma atual. É claro que ele passou os últimos meses evitando o Sol, e isso o fez esquecer o quão desconfortável era essa sensação. Era agoniante. Estava desesperado. Precisava fazer alguma coisa, precisava pensar em algo. Não podia simplesmente acabar ali. Mas seu tempo estava acabando. E não se pode parar o tempo.
Nos instantes seguintes, tinha ainda mais certeza de que havia escolhido o hospedeiro certo. Seus grandes braços musculosos apertavam sua cabeça, embora pudesse sentir a vida se esvaindo lentamente deles. Mas era lento. E pedaços de madeira já tinham começado a cair em um intervalo maior. "Por que, JoJo?", pensou. Se ele tivesse aceitado, tudo seria mais simples. Todos estariam salvos. Com uma rude explosão do navio, o corpo de Jonathan se moveu alguns metros, e Dio não hesitou em juntar toda a sua força para aproveitar esse momento e tentar se libertar. Com a firmeza abalada, os braços se abriram mais, e a cabeça do vampiro rolou até ficar entre as pernas do irmão. Céus, essa era a oportunidade que esperava! Mas, o que fazer agora? Como proceder? Mais balanço, e mais destroços. E fazia calor. Muito mais calor. Como poderia pensar quando parecia estar na mais profunda camada do inferno? Mudando sua expressão de desespero com os dentes afiados expostos, Dio tenta se acalmar, com a respiração muito ofegante. Nem mesmo se deu conta que talvez nem precisasse respirar em sua forma atual.
Nesse instante, lembrou-se que Jonathan fazia de tudo para não perder o fôlego, e encarou os orifícios que ele mesmo fez no pescoço de JoJo. Ofegar era perder a energia Hamon, que era tão crucial. Dio passou todos os seus últimos momentos lutando contra ela, e, agora, sentia na pele aquilo que o Sol faz de melhor. Mal conseguia deixar os olhos abertos, com o suor escorrendo. Se balançou para afastar esses pensamentos e enfim se concentrou. Com bastante esforço, estendeu seus tentáculos, enroscando-os lentamente em volta do pescoço de Jonathan. Seu rosto tinha um olhar vazio, a boca semiaberta, com um pouco de sangue escorrendo. Dio se preparou, precisava gastar suas últimas energias nisso, e tinha que ser rápido. E, de repente, ele para.
Sem mesmo pensar no porquê de ter feito isso, a cabeça simplesmente cessa todo o seu movimento, assim que acaba de ouvir um barulho diferente do já usual som da destruição do navio. Estava ouvindo passos. E também podia jurar que ouvia um choro. Choro de bebê. E os passos estavam se aproximando. Novamente, não pensou muito no motivo de ter se fingido de morto, mas queria evitar quaisquer complicações. Não sabia o que Erina faria ao vê-lo se mexendo. Talvez ela teria alguma chance de reagir ou fazer alguma outra coisa para o atrapalhar ou até o matar. E enquanto pensava nisso, com olhos semicerrados, pôde ver a silhueta dela o encarando, um olhar desolador estampado no rosto. Ou estaria encarando JoJo? Ela se aproxima lentamente, tremendo em seus movimentos. Quase se desequilibrou enquanto acariciava o rosto de seu amado uma última vez, devido a mais um balanço e estrondo. Mas, com um mínimo de alívio, conseguiu fechar os olhos daquele que não tivera nem tempo de chamar de marido. Se Dio ainda podia sentir algo em suas entranhas, ele sentiu. Como alguém poderia perder tanto tempo assim, sabendo que pode estar prestes a ser esmagada, ou queimada viva? Uma grande explosão que selou o destino do navio acabara de ocorrer, e por algum motivo ela se salvou, junto com uma criança, aparentemente. Por que se arriscar assim? Será que, para ela, ainda restava esperança de que seu marido teria resistido? Enquanto ele retomava seus movimentos lentamente, Erina corria em direção ao choro. Dio percebeu o que estava acontecendo. A moça havia se protegido no caixão que Dio havia preparado. "Mulher esperta. Talvez eu não devesse ter explicado como eu iria escapar com meu plano na frente deles…", pensou. Mas ele não se importou muito com isso. Então, respirou fundo, pois sabia exatamente o que deveria fazer. E, apesar de tudo, sabia que não seria agradável nem bonito de testemunhar. Nem mesmo para um vampiro.
Dio deu a primeira mordida, os dentes muito afiados. Mas, para seu infortúnio, JoJo não era um homem comum de tamanho normal. Seu corpo grande e definido era resistente, e Dio percebeu isso enquanto continuava com os dentes cravados. Nem mesmo pensou em como fora sortudo de não ter nenhuma energia Hamon restante passando por ali. Ele aperta a mordida o máximo que consegue, e então, segundos depois, puxa. Como esperava, foi difícil ter uma parte de seu rosto que não ficasse ensanguentada. Com seus tentáculos, ele tenta levantar a cabeça de Jonathan, e apesar de conseguir, ela sobe apenas alguns centímetros. Tinha que continuar. E então fez mais uma rodada de mordidas, sempre um pouco mais ao lado da anterior. Talvez isso ajudaria a remover a cabeça com mais facilidade, ao invés de focar apenas em um ponto. E, novamente, jatos de sangue eram jorrados. Ele adorava sangue, e por Deus, o sangue de um Joestar era simplesmente delicioso. Ele apenas lamentou só poder tê-lo provado nessa desagradável ocasião. Queria poder degustar, aproveitar cada segundo em que ele estivesse em sua boca. Mas não agora. Agora precisava sobreviver. Mas a cabeça não saía. Ele continuou.
Quando parou para se recuperar da exaustão, em meio ao balanço nauseante do navio em chamas, entrou em choque. Ao olhar para o que havia feito, não conseguiu ver JoJo ali. Estava desfigurado. Ele colocou muita força e desespero nas mordidas. Seu rosto estava a mais pura agonia. Era tanta, que sentiu um pingo de algo que nunca havia sentido antes. Algo brotando lentamente na sua consciência. Arrependimento? Não podia ser. Não agora. Mas ele não conseguia parar de sentir.
— JOJO! Como ousou não ficar ao meu lado nos momentos finais de sua vida?! POR QUE NÃO ACEITOU A MIM?!?!
Seu berro foi de rasgar a garganta. De olhos marejados, a boca torcida em desgosto, ele novamente coloca alguns tentáculos para segurar o cabelo de Jonathan, e alguns ao redor de sua testa. E então, puxa. E com a força do puxão, mais sangue era derramado. E a cabeça estava por um fio de ser decapitada totalmente. Mas aquela era uma visão que nem mesmo Dio conseguiu não deixar de desviar seu olhar. E o desgosto aumentou. Nunca teve problemas em admitir que era um monstro, ele adorava isso. Mas tinha plena certeza que de todos os atos terríveis que cometeu, este fora o pior. Pelo menos, para ele. Foi o que ele sentiu. E o calor aumentava. Suor e sangue por toda parte. Precisava executar a decapitação a qualquer custo. Em um ato de fúria e desespero, gritou violentamente uma última vez, enquanto atingia o pescoço de JoJo com os raios que saíam de seus olhos em alta velocidade.
***
— É, isso foi incrível. Você estava certo!
— Hehe, eu sabia que ia gostar. Essa é a melhor atração daqui. Escuta, quer tomar sorvete?
Erina concordou de imediato. Desde que começou a se encontrar com o jovem JoJo, sempre esperava ansiosamente pelo tempo que passaria junto com o garoto. Eles tinham acabado de sair de uma montanha russa em um pequeno parque de diversões em Londres, os dois cheios de manchas de terra em suas roupas.
— Quer de chocolate ou baunilha? — Perguntou o rapaz, animadíssimo. A menina não correspondeu:
— Escuta… Você não se incomoda com isso?
Jonathan ficou confuso, e ambos pararam de andar para se olharem. Ele continuou:
— Isso? Do que está falando, Erina?
— Bem, eu… Sabe, você é de uma família importante. Não tem preocupações. Seu futuro está assegurado! E eu não tenho nem certeza do que vou fazer da vida… Do que vou ser na vida… E provavelmente não será algo grande…
O garoto a interrompe rapidamente, com as mãos nos ombros dela.
— Erina… — disse suavemente, sorrindo — Você está pensando muito além. E só por ter se preocupado assim, tenho certeza de que você é muito inteligente. Você vai encontrar sua vocação, em algum momento. E vai ser a melhor no que escolher fazer! Já tem todo o meu apoio! Então, não se preocupe com essas coisas agora, temos muitos anos pela frente. Muitas coisas vão acontecer ainda!
Ela também sorri, olhando para baixo, sem graça.
— Eu não sei se você entendeu o que eu quis dizer, JoJo.
A jovem garota tinha noção de que o histórico de pessoas de origem humilde se misturando e mantendo amizades com pessoas da nobreza não era grande, se é que existia. A vida não dava muitas oportunidades para os pobres crescerem ou seguirem seus sonhos e vocações. Coçando sua cabeça de leve, sem jeito, ele conclui:
— Eu tenho certeza que não, então. Mas o que eu disse é verdade! E você não sabe o quanto eu fico feliz por estar aqui com você. Depois do Danny, você é a minha única amiga.
A menina abraça Jonathan. Fazendo carinhos no cabelo do rapaz, ela diz com pesar:
— Danny está muito feliz de te ver contente assim, JoJo. Onde quer que ele esteja.
— Obrigado… — O rapaz agora tinha uma expressão melancólica. O ocorrido com seu querido cão ainda o deixava abalado.
— Mas e o Dio? Não posso ser sua única amiga quando ele convive com você, não é? — Ela pergunta encarando o garoto, ainda segurando seus braços. O que era melancolia, agora era frustração, e estava estampada no rosto de JoJo. Com os punhos cerrados, ele desabafa:
— Argh… Não gosto nem de ouvir esse nome...
Vendo o amigo virar o rosto de lado, Erina pergunta o motivo, mas o garoto diz que só quer aproveitar o momento de alegria com a amiga. E assim o fizeram, se lambuzando de sorvete momentos depois. Mais tarde naquele dia, Erina teria seu primeiro encontro inesperado com o irmão de seu parceiro de aventuras. E naquele dia, também acabara de ter o que seria seu último encontro com Jonathan em sete anos.
***
Dio sentia sua energia revitalizar enquanto penetrava seus tentáculos pelo pescoço de Jonathan, criando sua conexão. Depois de rolar, a cabeça do irmão o encarava, os olhos e a boca meio abertos. Mas havia algo estranho. A sensação gratificante do seu poder que retornava estava diminuindo. Sentia queimar. Ora, era óbvio, a energia Hamon ainda circulava algumas últimas vezes no corpo, após seu derradeiro suspiro antes de morrer. Era difícil de se levantar, e os nervos ainda estavam se adaptando. Dio fez movimentos leves e rápidos com a ponta dos dedos e com os pés, e logo poderia se mover. Seu plano foi um sucesso. Agora, ele tem um novo corpo, pronto para se regenerar. Mas ele logo lembra que não tem muito tempo antes de o navio ser completamente destruído. Com suas últimas forças, dedicou a regeneração ao reparo de seu pescoço, e uma cicatriz de textura elevada apareceu ali, um círculo completo e irregular. Dio encara a marca da estrela... E sorri. Ele e JoJo são um só. Finalmente, ele se levanta com muita dificuldade e vai em direção ao seu caixão, mancando. De repente, para. Volta alguns passos e se abaixa, pegando e levantando a cabeça decapitada. Com uma expressão angustiada, ele fecha sua boca e olhos com um movimento brusco de sua mão, retornando o semblante pleno dos últimos momentos de vida do irmão. Ele a coloca no chão novamente, cuidadoso. O navio balança mais uma vez.
Aos tropeços e ainda completamente molhado de suor, mesmo com o novo corpo, Dio se aproxima mais de seu caixão, mas percebe que ele estava em uma posição um pouco diferente. Claro, ele deve ter balançado com todo o caos acontecendo ali. Nesse momento, se lembrou de Erina e o que havia pensado sobre seu esconderijo, e a confirmação veio imediatamente: ao abri-lo, ele pôde vê-la em seu interior, sem consciência. Mas não estava sozinha. Em seus braços, ela carrega um bebê, que estava acordado, mas não chorava. Seus olhos encaravam Dio, que se viu outra vez desesperado. Ele pensou em muitas coisas muito rapidamente, sem conseguir focar em nenhuma ideia, e não sabia se tinha tempo nem energia para executá-las. Rapidamente, o pensamento de matar veio à tona, é claro, mas algo o fez hesitar. Erina dormia em uma profunda paz, contrariando a dor que sentia em seu coração. O bebê não sentia medo, e não parava de o encarar, curioso. Com os dentes cerrados de ódio, medo e confusão, ele fecha o caixão, batendo com força em cima dele logo depois, de punho fechado. "Melhor não arriscar", pensou. Apoiando-se no caixão, avançou mais um pouco. Ele tinha um plano "b" caso algo desse errado. E ele torcia com toda sua fé que seu lacaio, Wang Chan, tivesse se lembrado do seu pedido. Mais madeira cai do teto, e mais a sala se despedaça. Está mais quente do que ele poderia ter imaginado.
O vampiro sente como se fosse derreter a qualquer momento. Seu corpo não funciona direito. Muitas sensações estranhas e inexplicáveis se espalham por ele. Ele não esperava que custaria tanto se acostumar após a transição. Ele precisa de descanso, e rápido. Mas também precisa garantir sua sobrevivência. O poder da imortalidade sequer passava pela sua cabeça enquanto ele desesperadamente procurava algo. Por fim, ele encontrou. Em um canto, onde mais cedo esperava por JoJo, Wang Chan havia deixado um outro tipo de caixão, parecido com o que já estava sendo usado, para ele se proteger. Era como se soubesse que o antigo amigo seria capaz de fazer algo extremo para impedir seus planos, então achou melhor garantir sua futura segurança. Não gostava do fato de se sentir fraco e impotente, muito menos depois de deixar de matar alguém, mas ficou grato por ter se precavido. Erina… Ele não podia tê-la matado ali mesmo? "Não!", ele pensou. Ele não pode se dar ao luxo de usar seus poderes agora. Não sabe o quanto seria necessário para apagá-lo de exaustão ali mesmo. Mas então, subitamente, ele sorri. Sangue Joestar corre em suas veias... Irônico. E agora o poder do Sol de nada adianta. "Estaremos atrelados até o fim de nossas vidas, JoJo. Não há nada que você possa fazer agora".
Junto de um grande e último estrondo, ele rapidamente abre e se joga no esconderijo, fechando-o de imediato. Agora teria uma oportunidade para se aprofundar em seus pensamentos. Agora poderia repousar até que estivesse pronto. "Estou no meio da droga de um oceano. Mesmo se isso aqui não se partir ao meio com os destroços, o que devo fazer depois? Acho que meu destino está nas mãos do tempo". Não demorou muito para que ele caísse no sono, o mais profundo que já tivera. Ele nem percebeu o momento em que a destruição aconteceu de vez e tudo se afundou. E como afundou. Agora nas mãos das marés, o caixão de Dio se perdeu pelo oceano, e sabe-se lá o que vai ser dele agora. Seu destino era incerto, mas em seu descanso, ele sorria. Mal podia esperar para voltar com suas atividades e seus planos. E ele sabia que esse momento chegaria, de alguma forma. Mas esse não era o único caixão em alto mar.
Erina teve mais sorte, e seu abrigo não se perdeu, ficando perto dos destroços de madeira do navio. Seria fácil um resgate aparecer por ali, e foi nisso em que ela depositou sua fé ao abrir o tampão e ver o horizonte à sua volta. O bebê começou a chorar, e lágrimas também caíam de seu rosto. Mal tivera tempo de lamentar a morte de seu marido, e já teria que enfrentar outro desafio. Mas tudo bem. Erina leva uma mão ao rosto e limpa suas lágrimas, um pequeno sorriso nascendo em sua boca. Ela vai se dedicar a deixar essa criança segura, em nome de sua falecida mãe, que se sacrificou para salvá-la, e em nome de JoJo, já que esse foi seu último pedido à ela. Juntamente com a criança que se desenvolve em seu ventre, ela faria questão de dar o melhor futuro possível a eles. A linhagem continua. Dio não é mais um pesadelo em suas vidas. Agora esboçando um olhar de esperança, ela percebeu que tem uma história e tanto para contar a Speedwagon... Ela só torce para que essa maldição que começou com a Máscara de Pedra se desembarace de sua família a partir de agora. Mas só o tempo poderá dizer se o destino desse sangue, dessa herança, terá essa paz reservada para seu futuro.
“A vida de Jonathan Joestar… Caiu no esquecimento… Sua história se perdeu nas sombras, desconhecida por todos… O grande público jamais ouvirá sua honrada história de vida, mas… Seus descendentes a ouvirão […]”
— Erina Joestar, 7 de fevereiro de 1889
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