Vida
5 5. Chorar no primeiro dia de aula já virou tradição
Notas iniciais
O primeiro dia de aula de Tita chegou. Uma quarta-feira nublada, chuvosa e fria. Ela não está tão animada para a volta das férias porque continuará estudando na mesma escola cuja infraestrutura é decadente e na companhia de Cássia Reis. Perspectivas nada animadoras.
Enquanto Tita vê Aline chegando ao lado de Cássia e as amigas, revira os olhos. Aline tingiu os cabelos de loiro, mas o tom não combinou com ela, ressecou os fios e a despersonalizou.
Todas riem alto e cochicham entre si. Cássia tem uma risada estridente e irritante porque costuma fazer piadas maldosas com os outros, não poupando ninguém. Um de seus maiores passatempos, como bem se sabe, é zombar de Tita na escola, porém fora dela outras pessoas sofrem com apelidos idiotas.
Aline migrar para o grupinho de Cássia somente para agradar o namorado é considerado por Tita um ato de traição. Estar rindo de alguma piada imbecil contada pela abelha-rainha do sétimo, ainda mais.
— Eu. Não. Vou. Ter. Paciência. Pra. Isso.
Tita passa alguns minutos sentada no primeiro degrau do andar onde se situam as turmas de sétimo ano, situado no bloco onde estão alocados os alunos que cursam o segundo ciclo do ensino fundamental (ou ginásio, para os mais antigos), que são quatro, esperando encontrar Adolfo ou ser chamada por ele, no entanto o sinal soa e não tem aula porque a diretora Norma discursa pelo microfone na diretoria e anuncia que no intervalo todos estão liberados.
O discurso de Norma foi prolixo e todas as melhorias são de fachada, pois os problemas que tornam a escola uma das piores da região continuam sem resolução e a diretora não demonstra a menor afetação com a falta de professores porque julga mais conveniente falsificar notas para mandar para a Secretaria de Educação (a fim de não reprovar ninguém) e fazer vista grossa aos inúmeros casos de vandalismo ocorridos dentro daquela instituição.
— Não tinha como o ano começar melhor! Melhor que isso, só se a Naná morresse! — exclama Cássia, esfregando as mãos.
— Ai, credo! Assim também não! — diz Aline.
— Esse ano está incrível! Por mim eu nem viria pra essa joça até depois do carnaval, mas a vadia da minha mãe me obrigou a vir...
— Você chama sua mãe de vadia? — Aline arregala os olhos, pois por mais que esteja em uma fase complicada em que até o diálogo com Nice se tornou problemático, não admite tamanha falta de respeito com a progenitora.
A grande novidade da ruiva é ter chegado com um piercing no umbigo, levantando a camiseta da escola para mostrar a todos.
— Como é que você teve coragem? — pergunta Alessandra, uma das asseclas fieis de Cássia.
— Eu tenho moral! — declara Cássia, olhando Tita por cima do ombro.
— Minha mãe jamais me deixaria entrar em casa com um troço desses... — comenta Emilly, que apesar disso, está desejosa para colocar um piercing também.
— Ah, você conta tudo pra sua mamãezinha, vê se cresce! — bronqueia Cássia.
Tita olha para Erick, que olha para ela. Uma carteira está vazia.
Quando a turma se dispersa, animada por não ter aula, Tita guarda o material escolar dentro da mochila e pensa em voz alta:
— Ótima amiga eu tenho! Eu não sou invisível, não! — suspira tristemente. — Mudar tanto assim por causa de um menino! A água oxigenada deve ter matado todos os neurônios, porque pra achar graça das asneiras que a Cássia fala, só pode...
Tita está entristecida porque ouve a turma comentando de relance sobre a novelinha teen da tarde que está incomodando a RPN na audiência e não há uma só pessoa que não acompanhe o folhetim, porque ultimamente está mais reflexiva a respeito do país, se a comemoração dos 500 anos faz sentido ou é apenas um estratagema para desviar o foco dos problemas estruturais que ainda fazem do Brasil um país de terceiro mundo, e porque queria ter aulas, aprender o conteúdo programático e nesse sentido pode-se dizer que ninguém concorda com ela, tão logo Norma anunciou que após o intervalo todos estariam liberados, a algazarra tomou conta da classe.
— E aí, Tita? Tudo belezinha? — cumprimenta Erick.
— Tudo beleza, e você?
— Queria mais tempo de férias, mas fazer o quê, né?
— Ei, será que o Adolfo foi esperto e gazeou o primeiro dia?
— Que gazeou que nada! — conta Erick, sentando-se no tampo da carteira a frente de Tita.
— Como assim?
— Você se lembra daquela famosa lista que ele vivia falando?
— Como não lembrar se ele falava dela quase todo dia?
— Pois então, guria! Ele foi chamado, acredita? Anteontem ligaram pra casa dele e hoje também começaram as aulas dele lá no Militar.
— E aí? Ele ficou contente?
— Estava pulando de alegria na linha...
Tita reflete consigo mesma se é pretensioso demais perguntar a Erick se Adolfo fez alguma menção a ela durante o telefonema.
Erick não sabe o que dizer para aliviar o pesar que Tita não consegue sequer esconder. Com as outras meninas ele tem uma facilidade enorme em manter uma conversa, porém com ela recai o receio de soar tolo e frívolo, sendo que o que a menininha mais anseia é ter alguém que goste de estar perto dela.
— Você vai superar, Tita. — diz Erick. — Menino nesse mundo é o que mais tem.
Uma lágrima molha a mochila de Tita.
— Ah, cara, se eu soubesse que você ficaria assim, nem teria te falado!
— E aí eu saberia da verdade quando? Por sinal de fumaça? — ralha Tita.
Erick não sabe o que dizer, tampouco se deve se aproximar mais e demonstrar que está chateado pela perda pessoal de Tita, pois bem sabe ele que Aline está andando com o grupo de Cássia e Adolfo era o único amigo dela na turma.
— Foi tudo tão rápido... — explica-se Erick. — Ele já tinha desistido de ser chamado e iria tentar o teste no final do ano que vem...
Tita dá de ombros.
— Você vai ficar bem? — pergunta Erick, ajeitando uma das alças da mochila no ombro esquerdo.
— Vou. — responde Tita, sabendo que está mentindo mais ainda para si mesma.
— Não parece muito...
— Como você se sente agora?
— Também estou meio chateado porque eu sempre me encontrava com o Adolfo perto do terminal e a gente vinha junto pro colégio. Vai ser bem esquisito a partir de agora, mas a vida prega essas peças na gente...
— Se a Aline usasse o que chama de cérebro, quem sabe eu tivesse uma amiga...
— A Aline tá muito mudada mesmo... — concorda Erick. — Sei não, mas menina nova que se mete com menino mais velho não termina bem.
— Sério mesmo, se ela quiser fazer merda com a vida dela, que faça. Eu lavo as minhas mãos. Se ela troca uma amiga por um menino e por popularidade, pode me esquecer, porque se der merda, as outras todas irão sumir e aí é no meu ombro que ela vai chorar.
— Fico até arrepiado com a sua profecia.
— Ah Erick, eu posso até ter cara de idiota, mas não sou idiota não, sei muito bem que esse menino mais velho aí não vai querer ficar só no beijo, mas isso é entre a Aline e a consciência dela!
— Você não se deixa dobrar...
— A dignidade fala mais alto...
Erick pensa em dizer que admira a personalidade forte e madura de Tita, mas não consegue se articular para exteriorizar o pensamento.
— Não fica triste, viu? Eu... eu gosto de você... — diz ele, com um sorriso tímido. — Mas vou indo nessa. — O garoto acena. — A gente se vê!
☼
Cida, a bibliotecária, saúda Tita quando a menina adentra a biblioteca:
— Bem-vinda de volta!
— Obrigada!
— Aproveitou bastante as férias?
Tita, gentil, diz que sim.
— Leu muito nessas férias?
— Queria ter lido mais, mas li tudo que pude.
— Tenho algumas recomendações a te fazer. — Cida dá uma volta da mesinha dela e acompanha Tita pelo corredor onde se situam as obras voltadas para o público infanto-juvenil.
— Vou adorar!
— Eu li na minha época e acredito que você também vá gostar... — diz Cida, estreitando os olhos para procurar um título especial para Tita, que é uma das poucas frequentadoras assíduas da biblioteca a qual a diretora Norma já pensou até em fechar, por não ter interesse, remanejando a funcionária para outra função qualquer na administração.
— Cadê o Adolfinho?
— O Erick me contou que o Adolfo saiu do colégio.
Tita dá de ombros.
— Ih menina, não fica assim não! Menino é o que mais vai aparecer na sua vida!
☼
Tita volta para casa e nem mesmo esquenta o almoço, corre para o quarto chorar. Cricri pula na cama para se ajeitar no travesseiro onde a garotinha deposita as lágrimas e a lambe e choraminga.
— O ano 2000 está sendo a maior cilada do universo! Aquela novela ridícula está fazendo o maior sucesso, a Aline ESTRAGOU o cabelo dela para agradar esse namoradinho e, olha essa, Cricri, o Adolfo saiu do colégio. O único amigo que eu tinha naquele colégio foi para o Militar e eu vou ter que ficar naquele inferno pelo menos até o final do ano que vem, se tudo correr bem.
Cricri lambe o rosto de Tita.
— Sinto muito, Cricri, mas não posso te levar junto.
Cricri dá um pulinho para trás a fim de ganhar impulso e se jogar em Tita, tentando animá-la.
— Suas intenções são muito boas, meu camarada, mas você nunca vai entender como é triste ser deixada de lado pelos seus amigos. — Tita se senta na cama. — Você se sente tão pequena porque se entrega tanto para as outras pessoas que quando se dá conta de que nada é recíproco, se sente esgotada.
Tita abre a gaveta para desabafar no diário, mas encontra a caixinha do aparelho e não resiste à tentação de liga-lo. Sentada com as pernas cruzadas na companhia de um cachorrinho que não se cansa de querer carinho, a garotinha recebe mensagens novas de Vida.
“Até Jesus chorou. Ninguém precisa fingir que é uma máquina de sangue frio, sem sentimentos nem emoções. De vez em quando, chorar é recomendado. Lava a alma, arrasta para longe as impurezas que machucam o coração. Torna os olhos mais sensíveis para enxergar o que realmente importa.”
“Ninguém é fraco por chorar. Nunca pense isso. Prender o choro é engolir a emoção que mais francamente te representa num dado momento. Pense comigo: é desleal com você mesma. Uma boa sessão de choro é capaz de deixar a alma leve e tal fato se refletir num sono de qualidade.”
“Você sabe que eu queria estar aí do seu lado para te abraçar forte, para chorar junto com você, para cuidar de você, meu pequeno beija-flor. Estou distante neste instante, distante demais para encurtar tudo que nos separa, para te oferecer meu colo, meu calor para te aquecer do frio, do medo, da angústia. Quando eu abraço o travesseiro, sinto seu cheiro, porque fecho os olhos e faço de conta que você está do meu lado.”
“Seu colo é meu lugar preferido no mundo todo. Quando te abraço, gosto de me demorar, para sentir seu calor, as batidas ritmadas do seu coração, me confortar porque se tem alguém com que não tenho vergonha de ser quem realmente sou, esse alguém é você.”
Tita relê as mensagens.
— Até Jesus chorou... Bom, o Padre Chrispiniano sempre fala que não tem nada de errado em chorar, pois até Jesus chorou...
Tita procura “jesus chorou” naquele lugar que encontra quase tudo. Em 2018, muitas pessoas devem procurar o mesmo. Como Meire apenas a batizou na Igreja Católica e nunca lhe impôs uma religião, a garotinha procura pela passagem bíblica em que Jesus Cristo chorou e transcreve tudo numa folha de papel para guardar na agenda.
Chega outra mensagem de Vida.
“Você gosta de Up where we belong? É uma música maravilhosa, eleva a alma! Se você nunca escutou, eu te recomendo! Verifique a tradução também!”
Tita conhecia a melodia por tê-la ouvido na rádio algum dia, mas nunca a tinha ouvido com a alma, se encantando com a tradução.
A estrada é longa
Existem montanhas em nosso caminho
Mas nós escalamos um passo a cada dia
— Que letra linda, Cricri! — exclama Tita. — Seria insanidade se eu contasse a alguém que o amor da minha vida, direto do futuro, me dedicou essa música?
Tita se deita na cama e aumenta o volume da canção, fechando os olhos, como se fosse uma águia que chega ao cume da montanha e, de onde está, contempla a grandeza do mundo.
Poderia ser Erick a figura que atende por Vida?
A questão é complicada: Erick é fanfarrão, quase reprovou em Língua Portuguesa, odeia ler, quando a Prof.ª Naná aplica ditados costuma se dar mal, detesta músicas antigas e Tita pode até se lembrar de uma ocasião, no ano anterior, em que todos tiveram que ficar na sala e alguém trouxe um rádio portátil para ouvir música. O aparelho estava apoiado numa cadeira próxima à única tomada que funcionava.
Eis que começou uma briga daquelas: a grande maioria das meninas queriam dançar axé, alguns meninos preferiam pop rock e quando Cássia, de zombaria, passou na estação voltada para o público adulto, onde toca MPB, easy listening, soft rock e disco music, todos caem na gargalhada com as gesticulações exageradas da garota em frente à lousa, pois está tocando Up where we belong.
Erick rola de rir com Adolfo.
— Que música brega! — dispara Erick.
— Quem ouve um negócio desses? — comenta Adolfo.
Como a música ainda não tinha nenhum significado especial para Tita, ela não levou agravo do comentário, mas apesar de parecer um fato corriqueiro, a garota também se recorda de que Erick odeia gatos e fala deles como se fossem as piores criaturas existentes.
— Quando te abraço, gosto de me demorar, para sentir seu calor, as batidas ritmadas do seu coração, me confortar porque se tem alguém com que não tenho vergonha de ser quem realmente sou, esse alguém é você. — lê Tita, sentindo o gosto das lágrimas tocarem os lábios. — Quem será essa pessoa que escreve coisas tão lindas para mim... quer dizer... para o meu eu do futuro?
Tita cobre o rosto e chora.
— Eu entendo que a vida muda o tempo todo e que nem toda mudança é necessariamente ruim — reflete a garota, agora que a música acabou. — Eu mudei de escola na quinta série e foi muito bom pra mim. Fico pensando em como eu seria muito mais feliz se a mamãe não tivesse cismado de me mudar de escola só de pirraça, o que foi uma mudança ruim, por que quem é que merece acordar cedo e aguentar a Cássia Reis relinchando a manhã inteira?
Tita faz uma careta, olha as mensagens de Vida, sente aquele calorzinho gostoso por dentro e sorri, pois gosta de ver a foto do Gato Apolo, imaginando o porquê de ele assim se chamar, a importância que ele tem para a pessoa amada do futuro, pois seria mais fácil escrever uma história em que todos esses detalhes enchessem as pessoas de curiosidade do que chegar para qualquer um e contar o que há. Ninguém jamais acreditaria.
— Pode ser que tudo isso não passe de um sonho e acorde lá na virada do ano, mas gosto de pensar que algum dia alguém vai me amar. Que seja o meu segredo, ninguém se importa comigo mesmo, então quero me iludir de que em 2018, se eu chegar a viver tudo isso, tem alguém que ama meu cheiro, meu colo, meu abraço, que fala de mim como se eu fosse uma poesia, algo bonito, não como se eu fosse uma fracassada, uma idiota. Todo mundo merece amar e ser amado, Cricri. E eu tenho certeza de que esses namoros de escola não têm futuro. Bom, posso estar sendo chata porque ainda não amei ninguém e nem sei se tenho idade pra isso, mas acho que esse amor tão bonito e tão forte que desperta o melhor que existe dentro de cada pessoa não é coisa que se arranja. Deve ser legal encontrar o amor quando ele vem de surpresa, não quando você tem que mudar tudo o que você é para se encaixar no mundo de alguém. Vida deve gostar de mim do jeito que eu sou. Será que o meu eu de 2018 tem algo do meu eu de hoje?
Fale com o autor