Vida
4 4. Como eu gostaria que você estivesse aqui...
— Pra fora, guapeca!
Meire faz isso toda noite, enxota Cricri do quarto de Tita e no fim das contas ele acaba voltando para o aconchego da cama da amiga.
Cricri não obedece.
— Já disse pra você se mandar, guapeca! Vai me obedecer ou não vai?
Cricri se esconde atrás de Tita que ainda tenta fazer uma negociação amigável com a progenitora:
— O Cricri é muito comportado, gosto que ele fique aqui comigo!
— Mas eu não gosto de cachorro, ainda mais dentro de casa. Será que você é retardada ou faz isso pra me provocar?
— Tem alguma coisa nessa vida de que você goste, mãe?
— A senhorita está querendo levar um tapa nessa cara, é? Tá querendo, não tá? Anda muito respondona para o meu gosto!
— Ué, só queria saber qual é o motivo pelo qual você odeia o Cricri se ele não te fez nada... É porque algum cachorro te mordeu quando você era mais nova?
Meire abre uma carranca.
— Te juro que o Cricri é super bonzinho e quer ser seu amigo!
— Depois você não entende por que ninguém gosta de você. Fica aí falando sozinha com esse cachorro idiota. Sabia que eu podia te internar? Ele nunca vai te responder, menina. Eu vejo as outras meninas da sua idade tão normais que chego a ter vergonha de você... Por que você não se esforça pra ser normal?
— O que é ser normal, mãe?
— Não ser como você é... Vejo todas as meninas falando da tal novelinha, você diz que detesta, pra ser do contra. Fica aí com esse cachorro ridículo conversando com ele como se ele fosse gente, falando sozinha...
— Eu sou anormal porque tenho senso crítico e sei que aquela novela não vai me ensinar nada de bom e porque consigo sentir amor por um cão e trata-lo com carinho? Porque se for, quero continuar sendo anormal, esquisita, estranha ou que quiserem me chamar, pois é melhor do que ter um coração de pedra que nem o seu.
Tita leva uma bofetada no rosto.
— Quando você menos esperar eu vou sumir com esse maldito cachorro e te colocar nos eixos... — surta Meire. — Saiba que eu nunca quis cachorro dentro de casa, foi tudo obra do Horácio, mas sua farra não vai durar muito tempo. Eu vou sumir com esse cachorro, espere só!
— Se você sumir com o Cricri, eu também sumo dessa casa.
— Que não seja por falta de adeus, queridinha! — devolve Meire com um sorrisinho sarcástico. — E você, vê se durma logo que não é hora de pirralha estar acordada, tá? Durma se não quiser levar uma surra porque fazer por merecer você faz, mas eu estou cansada e sua voz me irrita de tal maneira que eu não vejo a hora que minhas aulas na faculdade comecem pra ficar longe de você o máximo de tempo que puder...
— Tomara um dia seu sonho se realize, mãe.
Meire, que ia saindo do quarto, retorna com passos duros.
— Ué, você não diz que seu maior sonho é que eu vá embora? Vai que bem agora seu anjo da guarda esteja passando por aqui e diga “amém” ao seu desejo? Nunca se sabe...
Tita dá de ombros.
— Aguardo ansiosamente! — declara Meire, impassível a dor que causa à própria filha quando a agride gratuitamente, lembrando também ao leitor que a troglodita jamais pede desculpas pelos abusos psicológicos, faz com que a menina se sinta culpada por tudo.
— E talvez um dia você queira muito o meu carinho, mas eu já não esteja mais aqui. O mundo costuma dar muitas voltas: hoje você me trata como um trapo porque sabe que eu não tenho pra onde ir, mas pode ser que um dia eu tenha.
— Que bom! Embora eu duvide que algum dia você vá se casar. Se você arranjar alguém, já fique com essa pessoa porque com certeza é o melhor que você vai conseguir.
— Eu não vou precisar de homem nenhum pra vencer na vida, vou ter tudo o que eu quero por mim mesma.
— Você? — Meire gargalha com deboche. — Você é uma inútil, não faz nada direito, se algum dia namorar vai ser um milagre...
— Só porque no seu caso foi?
Meire cerra os punhos para dar um murro no rosto de Tita que sai correndo pela casa e pula no colo de Horácio que apazígua a briga.
— Pelo amor de Deus, eu não aguento mais ver tanta briga nessa casa! — desabafa Horácio que não doura a pílula para Meire. — Por que você vai provocar a menina? Que mal tem que ela converse com o Cricri? Pare de criar problemas, mulher! Não desconte seu mau dia no trabalho na coitadinha!
Horácio orienta Tita a ir se deitar e quando a menina tem certeza de que Meire já está dormindo, verifica o aparelhinho e encontra novas mensagens de Vida.
"Amore, você me ligou? Aconteceu alguma coisa?"
“Fala comigo, meu amor.”
“Você sabe que pode contar comigo SEMPRE!”
Tita sente vontade de telefonar para Vida, porém não quer arriscar sua sorte e desliga o aparelho, espantada. Se tem algo que ela não quer é perder esse aparelhinho mágico e não importa se tudo não passar de um sonho, com certeza essas mensagens adoçam dias amargos e lhe dão esperança, lhe mostram que um dia sua vida será diferente.
Sem conseguir dormir, Tita olha para o teto e reflete em pensamento:
— Ninguém acreditaria se eu contasse! Nem a Aline! Ninguém acreditaria sequer que alguém pode gostar de mim. Mas quer dizer então que no futuro eu vou ser feliz, vou ter amigos legais, uma pessoa que me chama por apelidos carinhosos, que gosta de estar comigo até nos piores momentos, que em algum instante desses dezoito anos eu vou encontrar... Será que se eu souber não vai perder a graça porque aí quando essa pessoa aparecer, eu já vou saber de tudo o que acontecer e não vou ter o frio na barriga? Bom, mas saber que em algum momento essa pessoa vai aparecer e gostar de mim já me conforta, me faz acreditar que o amor existe e vai me pegar. E eu vou ficar bobona, melosa, tão melosa que vou chamar alguém de Vida, Meu Amor, mas se irei ficar melosa é porque gosto muito dessa pessoa e ela de mim.
Sob essa perspectiva, a Tita de 2000 adormece pensando que a Tita de 2018 existe em algum lugar do universo.
— Não vai ser sempre assim, não vai sempre assim...
Essas foram às últimas palavras de Tita antes de romper em lágrimas ao pensar que embora Vida em 2018 a ame, o ano 2000 a espera e para chegar a 2018 será preciso enfrentar a sétima série.
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