Vida
3 3. Apolo
Ao contrário do ano anterior em que recebeu o convite de Félix para passar as férias em Guaratuba, Tita está praticamente abandonada em casa porque Horácio e Meire voltaram a trabalhar depois do recesso de fim de ano e para piorar, parece ser a única criança do mundo que detestou a nova novela infanto-juvenil que estreou no final da tarde.
Para que não a acusem de estar julgando algo que não conheceu, Tita acompanhou os primeiros capítulos da novelinha, porém não gostou da protagonista nem do mocinho, não viu “química” nesse casal, está irritada com as músicas grudentas que estão começando a tocar nas rádios e já viu várias cenas onde determinados preconceitos ocorrem e ninguém parece se importar.
Solitária, Tita está ouvindo Sailing na versão do NSync, deitada de barriga para cima no chão do quarto com um livro na mão e Cricri está mordendo um patinho verde de borracha que ganhou de presente para parar de roer os chinelos de pano da amiga.
Nesse horário crianças e adolescentes não brincam mais na rua, estão dentro de casa hipnotizados pela novela que tem deixado a RPN preocupada porque em alguns minutos chega a roubar o primeiro lugar de audiência do até então intocável Tarde Pop que entre janeiro e fevereiro exibe os melhores momentos do ano enquanto Samantha Saldanha tira férias.
Tita sabe que a mãe só volta para casa depois das sete da noite, então agora que terminou de ler mais um livro, abre a primeira gaveta do seu criado-mudo e apanha o aparelhinho mágico, ligando-o para saber se tudo aquilo que viveu na virada do ano foi um sonho ou se aquelas mensagens existiram de verdade.
Está tudo exatamente como ela deixou.
— Não foi um sonho, Cricri! Definitivamente, não foi um sonho! — conclui Tita, que desliga o rádio no botão para se concentrar no aparelho mágico.
Tita descobre a câmera e nem imagina que com um simples toque faz retratos de si mesma sem precisar de rolos de filme, nem de negativos para revelar fotos.
— U-A-U! UAU! Cricri vem cá! Isso é DEMAIS! Sabe esse troço? Ele tira foto!
Tita se vê na fotografia e descobre que dá para fazer vários efeitos.
— Queria tanto ter alguém pra quem mostrar essas coisas, mas quem acreditaria que eu tenho um aparelhinho que tira foto sem precisar de filme? Ninguém acreditaria em mim!
Tita descobre o ícone da internet. Logo ela que via computador como um sonho distante, está digitando no Google "sorriso de anjo", se surpreendendo por encontrar um lugar chamado blog onde uma pessoa disponibiliza informações, curiosidades, trilha sonora completa, elenco, cenas antológicas, índices de audiência, resumo dos capítulos, enfim, TUDO sobre sua telenovela favorita.
Ela clica no vídeo do primeiro beijo da personagem Yara e sente os pelos do braço se arrepiarem. A emoção toma conta dela.
— Não posso acreditar, isso é incrível!
Aí ela digita o nome de uma música da Laura Pausini que era tema da Yara e não só aparece a letra como sites onde há a tradução, além de assistir ao clipe cantando junto, com lágrimas escorrendo pela face.
— Tomara que em 2018 as pessoas sejam mais legais do que agora. Que o mundo seja melhor do que está hoje. Que a Tita de 30 anos possa saber o que é ter bons amigos e realizar sonhos. Ah Cricri, por mim eu queria que você vivesse até 2100, mas não depende de mim... Será que você aguenta até 2018? Você acha que meus pais vão estar vivos em 2018? Será que eu ainda vou morar aqui?
Tentando tirar fotos do pequeno Cricri, se diverte porque ele corre da câmera.
— Bom, Cricri, em 2018 ainda vai existir o Programa do Rubão. Será que as pessoas em 2018 ainda não terão encontrado nada melhor pra assistir no domingo, não? Pelo jeito, não! Vai ter gente que em troca de dinheiro vai mandar vídeos de cacetadas pra ele. Ei, não me olhe assim, é o que diz aqui nessa tal de Wikipédia. Que ele PREMIA as melhores cacetadas que as pessoas mandam por um tal de whats... um lugar lá... outro negócio de nome estranho que as pessoas em 2018 parecem não viver sem... UAU! Vai dar pra participar dos programas sem precisar mandar cartas nem nada? Isso é que eu chamo de revolução! Hummmm... Vamos ver se ainda vai ter Tarde Pop em 2018?
O navegador trava.
— Bom, 2018 é muito tempo, não? Olha, 18 anos atrás era 1982. Se eu aparecesse pra alguém com a minha idade em 1982 e fosse contar tudo o que aconteceu, essa pessoa no mínimo acharia que eu sou louca, mas você acha que alguém acreditaria em mim se eu contasse que o Programa do Rubão vai continuar no ar até ele morrer? Que as pessoas mandam vídeo de suas próprias cacetadas em troca de dinheiro ou para ficarem famosas? Que esse aparelho aqui tira foto sem precisar de filme, tem um negócio chamado Google que acha quase tudo, que dá ver clipes e até tradução de música? Sei não!
Cricri apenas olha para Tita.
— Eu sempre sonhei em gravar um noticiário, mas agora assim de improviso no máximo eu poderia inventar um boletim extraordinário... o que você acha?
Tita olha para a janela aberta do quarto e dá um sorrisinho:
— Imagina que você está esparramado no sofá vendo qualquer coisa na RPN quando entra o Boletim Extraordinário comigo... É, é sim!
Cricri se deita no chão enquanto Tita ataca de "Noviça".
— Interrompemos a nossa programação para...
Tita se assiste no vídeo e rola de rir.
— Caramba, é muito divertido falar no vídeo! Eu não pareço nada do que a Cássia diz. Não sou nada feia. Não vi nada de errado em mim nesse vídeo, não sei se ele deixa as pessoas mais bonitas ou se no fundo todas as pessoas são bonitas, mas conhecem Cássias da vida e começam a se sentir feias. É isso que a Samantha Saldanha faz todo dia, com a diferença de que faz isso num estúdio e plateia, mas ela fala com as câmeras. Até parece que eu não sou eu porque CONSIGO falar coisas que eu nunca consigo. É demais, esse negócio é demais!
Tita ouve batidas na porta.
— Tá falando com quem, menina?
Pela entonação nada amistosa, na certa é Meire. Tita apenas aperta o botãozinho do aparelho e às pressas o guarda dentro da gaveta, assim quando a troglodita entra no quarto, encontra a filha fazendo cócegas na barriga de Cricri.
— Ah, falando com esse cachorro idiota... Anda, vá lavar as mãos que a janta está pronta!
Tita tenta esconder o sorriso, mas não consegue.
— Eu já disse que não quero mais esse cachorro dentro de casa!
— Mas o Cricri é tão bonzinho...
— Eu nunca quis cachorro nenhum, quanto mais dentro de casa, mas já aviso que se ele destruir alguma coisa, VOCÊ vai ter que repor...
Tita, para desanuviar a conversa, comenta:
— Mamys, como você acha que vai ser a vida em 2018?
Meire se espanta com a pergunta da filha.
— 2018?
— É, mamys, como é que você acha que vai ser o mundo em 2018? Como você acha que vai ser daqui a uns 18 anos?
— Você faz cada pergunta idiota, menina!
— Não é uma pergunta idiota!
— Em vez de ser útil, fica aí trancada dentro desse quarto pensando em idiotices, por isso ninguém gosta de você.
Tita sabe que a mãe está lhe dando uma indireta porque não preparou o escalda-pés como faz todos os dias desde que Meire voltou a trabalhar, mas insiste na pergunta.
— Olha, quer saber, fedelha? Eu não quero nem estar viva em 2018, quanto mais imaginar como será a vida nessa época, então não me venha mais com inutilidades pra não me tirar a paciência...
— Puxa vida, mãe! Eu só te fiz uma pergunta, não precisa ser tão grossa! Quando você era mais nova não tinha curiosidade de saber como seria o mundo no ano 2000, se seria que nem nos Jetsons?
Meire faz de conta que nem ouve.
— Mente desocupada, oficina do diabo!
Mais tarde, no diário de papel, Tita desabafa:
Será que eu sou uma pessoa tão chata e insuportável assim para que nem a minha mãe goste de mim?
Eu não confio no juízo das outras meninas, tampouco no critério dos meninos porque sei que as pessoas da minha turma são idiotas. Não quero acreditar que sou o problema, que não há nada de positivo em ser quem eu sou. No fundo eu sei que não existe nada de errado comigo, são as pessoas que querem me convencer disso. A razão, não sei. Nas novelas a vilã faz a mocinha se sentir mal porque sente inveja de algo que a mocinha tem e ela não, mas o que eu teria que geraria tanta inveja na Cássia? Ou que a abelha-rainha do meu ano não teria? ELA TEM TUDO!
Eu me esforço para que a minha mãe me ame, tento fazer tudo certo o tempo todo, mas ela só me trata mal. Meu pai não se importa comigo. Sinto vontade de que esse aparelho me leve de uma vez por todas para 2018.
Minha mãe nem sentiria a minha falta se acaso o aparelho me engolisse. Ela nunca percebe nada de bom do que eu faço, sempre coloca um defeito, faz algum comentário grosseiro. Seria um alívio se eu sumisse da sua vida para sempre.
Tomara que amanhã eu acorde em 2018. Não gosto muito de pensar que a sétima série está chegando, me dá dor de barriga só de pensar.
Tita, ainda chorando, abandona a caneta pink em cima do diário e ouve um zum-zum estranho, quando abre a primeira gaveta, se sente estranhamente aliviada ao ver que a mensagem é de Vida que lhe enviou uma imagem em preto e branco do mesmo gato que está na foto de exibição. Na borda da imagem, a inscrição: APOLO ✰ 2006 — ✞ 2018.
A foto de um gato branco de pelo curto e olhos bem azuis olhando para o janelão de um apartamento muito bonito.
"Meu coração está quebrado em milhares de pedacinhos mesmo sabendo que um dia isso aconteceria. Sei que agora Apolo não sente mais dor, descansa em paz. Espero ter proporcionado a ele uma ótima vida porque meu amor por ele nem a morte será capaz de ceifar."
"Ainda me lembro de quando estava voltando do trabalho e encontrei aquela gata atropelada na esquina da minha casa e esqueci o dia pesado, o cansaço, a vontade de enfiar a cara no travesseiro, não pude fingir que não estava vendo a dor daquela criatura, a levei para o veterinário e mesmo que não tenha podido salvar a vida dela que estava grávida, ao menos ganhei o Apolo porque ele ficou órfão e provavelmente teria o mesmo fim da mãe."
"Vi o Apolo dar o seu primeiro miado, aqueles olhinhos se abrirem, me emocionei com cada travessura dele, dei muitas broncas, porém ele e eu nos entendíamos tão bem que eu não me sentia idiota por conversar com ele que se mostrou mais confiável do que muitas pessoas de carne e osso."
"Inúmeras vezes abri meu coração para pessoas que o quebraram, distorceram minhas palavras, me deram as costas quando mais precisei. Apolo me amava do jeito que sabia e para mim bastava. Agora a casa está estranhamente vazia. A solidão me toma de tal modo que o ar se torna rarefeito e a angústia escorre pelos olhos. Apolo está em todos os cantos. De fato, está. Não mais ao alcance dos meus olhos. Não mais."
"Quero te agradecer por me abraçar, me ouvir, me amar, por entender que a morte de um animal de estimação é uma grande perda porque eles se tornam parte da família. É por isso que me apaixonei por você. Porque além de ótima amiga, tem uma alma linda, um coração repleto de ternura, capaz de sentir a dor das outras pessoas sem fazer piada com isso. Fico feliz por saber que posso contar com você incondicionalmente."
"A saudade será grande, você está certa, cada amigo que se vai deixa um buraco no coração da gente e só quem é capaz de entregar o coração para um animal pode entender a dor que estou sentindo. Não consigo voltar para casa, não quero. Hoje eu não vou voltar. Hoje, não. Eu nunca te pedi nada, mas posso passar a noite com você aí na sua casa?"
A pessoa em questão mudou a foto do perfil do whatsapp para homenagear o gato falecido colocando uma imagem do filhote e ali atende por Vida, deixando difícil para Tita saber quem é essa pessoa que a chama de Meu Amor.
Tita se levanta e dá uma olhadela no espelho da parede. Os olhinhos ainda estão inchados de choro e apesar de o corpo estar se transformando, ainda tem resquícios da infância que se despede.
— Que mundo engraçado esse em que as pessoas tiram foto sem precisar de filme, de horas esperando a revelação e as mandam pros outros. Que mundo doido esse em que as pessoas têm telefone e escrevem em vez de falar. Será que em 2018 as pessoas não gostam de falar ao telefone?
Tita relê a mensagem e se alegra, conversando baixinho com Cricri, guardando o diário debaixo do travesseiro e colocando-o ao seu lado.
— Nossa! Quer dizer então que um dia a vida vai ser diferente? Um dia vai ter alguém que me ama de verdade? Que confia em mim ao ponto de chorar a morte do seu gato e pedir colo pra mim? Alguém que na certa conta tudo pra mim, não me exclui de nada e não se vendeu para a Cássia? Não que eu esteja pensando em amor, romance, mas quando alguém te chama de Meu Amor é uma sensação tão engraçada, você se sente importante, especial, ainda mais quando essa pessoa diz as palavras certas quando você mais precisa delas. Em 12 anos de vida, tirando a Profª Daniela que sempre tinha uma palavra amiga, ninguém disse tantas coisas bonitas assim pra mim.
Tita começa a chorar e Cricri vai lamber o rostinho dela.
— Na maioria do tempo eu me sinto tão feia, tão desengonçada, tão inadequada, como se não merecesse existir porque parece que tudo que eu faço é errado, ridículo, que ninguém se importa comigo, que eu não sou a melhor amiga de ninguém, aí aparece esse troço que me mostra um pouco sobre o futuro e eu vejo que nesse futuro vai ter alguém que vai me amar. Tem alguém em algum lugar do mundo que vai me amar, me amar de verdade e mesmo que você fique enciumado porque o Apolo é um gato, pense pelo lado bom: tem pessoas que assim como Vida e eu no mundo e enquanto vocês tiverem pessoas como nós, nunca sofrerão porque vocês não são apenas animais que ficarão enjaulados, são amigos, amigos que merecem todo amor do mundo porque embora agora você só saiba morder meus chinelos e seja meio estabanado, sei que me ama, como o Apolo amou Vida nesse futuro. O problema é que até o futuro vai chegar ainda vai demorar tanto tempo. Poxa, eu queria poder dar um abraço numa pessoa que está triste, dizer sinto muito... Sabe Cricri, só tem um jeito de saber se Vida é um sonho ou não...
Tita tenta descobrir como é que se telefona, porém bem na hora em que a pessoa vai atender, Meire bate na porta e a menina tem sorte de conseguir esconder o aparelho debaixo do travesseiro.
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