Vices Or Virtues
1 Único.
Notas iniciais
ARQUIVO DE CONSULTAS GRAVADAS (12/06)
Paciente: Matsumoto Takanori
“Eu... Tenho um grande problema.
Imagino que o senhor, como psicólogo, já deva estar cansado de ouvir isso de todos os seus pacientes, e peço as mais sinceras desculpas por tomar seu último horário. Confesso que pensei muito antes de vir, mas era necessário que eu me livrasse disso de alguma forma... Normal, permita-me colocar assim.
Sou Matsumoto Takanori, ou, para todos os casos, Ruki. Idade que não lhe diz respeito, cantor e viciado. Viciado em uma substância chamada amor, fornecida por um cara conhecido como Reita. Mas a quantidade que ele me deu não foi suficiente para suprir todas as minhas necessidades. E, pra ser sincero, estou cansado de receber tudo pela metade. Por que fazem isso? É pelo meu tamanho?
Desculpe, mas... O senhor está bem? Ficou pálido quando mencionei o nome de Re-- Oh, espere um pouco! É mesmo! Foi o senhor o médico que apresentou aquela gravação à polícia, como demorei tanto a perceber? Mas que prazer reencontrá-lo, doutor! E pensar que eu estava nervoso... O senhor já conhece a história, isso torna tudo mais fácil!
Hn, o cigarro...? Permite que eu fique com ele? Obrigado, obrigado! Fumarei aqui perto da janela para que a fumaça não o incomode. Apesar de tê-lo reconhecido, ainda não estou tão à vontade, sabe...? A nicotina me ajuda a relaxar. Sim, sou viciado nela também, tanto quanto sou em álcool.
Sabe doutor, às vezes só o que me vem à mente é "Reita é um grande filho da puta". Depois de me estuprar, o maldito simplesmente foi embora. Tive lá meus problemas depondo contra ele já que, em parte, eu havia consentido com o abuso. Muito falatório, o advogado movendo os palitinhos e enfim veio a notícia: seis anos de reclusão. Uma parte de mim conseguiu ficar aliviada por saber que meu caminho jamais tornaria a se cruzar com o daquele homem. Eu poderia ter ido embora e recomeçado minha vida em outro lugar.
O problema era a outra parte... A parte que implorava para revê-lo. Para sentir mais uma vez aquela dor e, ao mesmo tempo, sentir prazer. A experiência que tive com Reita foi traumática, não nego! Passei os últimos anos evitando toda e qualquer relação que pudesse levar a um possível envolvimento sexual. Até mesmo o toque mais casual era capaz de me assustar, uma coisa horrível, horrível! E então, vieram os pesadelos. A mesma cena, repetida infinitas vezes na minha mente por noites a fio, fazendo com que eu acordasse nervoso e dolorido. Mas... Aconteceu uma coisa estranha, doutor. Em uma dessas madrugadas perturbadoras, acordei com uma ereção e, mesmo chorando pelo horror que aquelas cenas ainda me causavam, eu me toquei e senti um prazer diferente. Eu não saberia explicar ao senhor como foi, só sei que me fez bem. Como se meu corpo estivesse aprovando todo o sofrimento daquela noite. Não não, isto não aconteceu uma vez só... Depois da primeira noite, todas as outras passaram a ser iguais. Pesadelos, ereção, masturbação, orgasmo. Sempre assim. Acabei me viciando naquela dor que tornava a sentir cada vez que era estuprado por Reita em meus pesadelos, e pelo prazer tão intenso que conseguia proporcionar a mim mesmo ao me tocar pensando naquelas imagens.
Como já diz o ditado, tudo que é demais faz mal. Pior que álcool, cigarro ou drogas mais pesadas, é quando a gente se vicia numa pessoa. Passa a pensar nela, desistir de se mudar por ela, viver para ela... O grau de dependência é de uma porcentagem absurda! E quando estamos chegamos a este nível aí, só pode-se dizer que estamos no fundo do poço e que faremos qualquer coisa para conseguir mais uma dose.
Nunca me esqueci daquele número de telefone... E hoje de manhã, seis anos depois daquele julgamento, tomei coragem de telefonar. Percebeu que dia é hoje, doutor? Doze de junho. O mesmo doze de junho onde o conheci, e o senhor também.
Síndrome de Estocolmo? É esse o nome? Ohh! Não sabia que existia uma denominação para essa loucura que é se apaixonar por um estuprador. Haha, que coisa engraçada. O cara me sentou a vara com gosto, me feriu por dentro e por fora e acabei conseguindo amá-lo. Dizem que amar é uma virtude, não é? Mas doutor, eu realmente não entendo...
Por favor, empreste-me aquele cinzeiro ali... Obrigado, Obrigado. Hn, acha mesmo que eu posso ter confundido o vício com a virtude? Não sei se concordo com o senhor mas, considerando minha situação, é a explicação mais plausível. Tudo bem, tudo bem! Uma virtude não é um vício. Enfim, sem mais delongas! Deixe-me lhe contar o que houve.
Vi pela TV a notícia de que Reita foi solto. Não acredito nessas recuperações milagrosas, em que a pessoa passa anos numa cela e quando sai está regenerado e sem vontade de retornar ao crime, seja qual for a merda que tenha feito para ir preso. Reita não me parecia o tipo de pessoa que sentia remorso e, admito, aquela feição em muito me agradava. Seis anos na prisão o deixaram ainda mais bonito do que eu me lembrava. Mais macho, não sei. Eu estava nervoso, tremia tanto que tive medo de derrubar o celular! Então, reuni coragem sabe-se lá de onde – da meia, talvez – e disquei, rezando para que o número ainda fosse dele. Um toque, dois toques, e no terceiro aquela voz forte atendeu dizendo “eu sabia que um dia você me ligaria”. É... Fiz essa mesma cara de idiota que o senhor fez agora.
A conversa não foi muito longa, afinal, eu precisava dele e esperava que ele precisasse de mim também. Marcamos um encontro no mesmo bar onde tudo começou... Reita veio de mochila, o que me deixou curioso, mas não perguntei nada. Vinte minutos depois, estávamos aos beijos entrando num motel próximo dali.
Enquanto trocávamos carícias mal-intencionadas na beira da cama, tentei empurrar as alças da mochila dele. Estava pesada e, com as alças deslizando pelos braços fortes do loiro, a mochila caiu no chão fazendo um barulho estranho. Não aguentei, tive de perguntar o que tinha ali dentro e, se quer mesmo saber, estava morrendo de medo da resposta. Reita pediu para que eu fechasse meus olhos por um segundo. Excitado pelo simples pensamento de que poderia ser uma surpresa pra mim, eu o obedeci.
Uma venda foi colocada em meus olhos. Um tecido negro, bastante macio... Acho que era cetim. A princípio fiquei assustado, mas a voz de Reita foi o suficiente para que eu pudesse voltar a relaxar. Em meio a toques carinhosos e beijos cálidos, minhas roupas eram tiradas com lentidão... Quis perguntar o que estava acontecendo, passei seis anos me masturbando pelo cara que me estuprou e me largou sozinho num carro, e naquele exato minuto o mesmo cara estava me tratando como se eu fosse uma virgenzinha recém-casada?
Ah, doutor... Não se afobe. Também cometi o erro de julgar a situação rápido demais.
Fui deixado apenas de cueca no meio do colchão. As unhas curtas de Reita marcavam meu peito e minhas coxas com força me tirando alguns gemidos arrastados, até que ele se afastou e meus ouvidos captaram o barulho de algo... Metálico? Hn, sim, é isso. Um som metálico. Meus pulsos foram erguidos e, quando me dei conta, estava sendo algemado na cabeceira da cama. Não é necessário que eu explique como deduzi que eram algemas, certo? Bom, os lábios dele capturaram os meus em um beijo voraz, aquela língua atrevida invadiu minha boca com tal falta de pudor que foi como se ela estivesse sendo estuprada. Foi um beijo dolorido, meus lábios foram sugados com tanta força que pude senti-los um pouco inchados quando o contato cessou.
Senti o peso daquele corpo sobre o meu e ofeguei. Eu estava temporariamente cego, algemado e os dentes de Reita maculavam minha pele em mordidas dolorosas. Seus chupões não eram nada controlados, sabe? Tive certeza de que ele desejava que suas marcas fossem visíveis a todos no dia seguinte. Estranho, mas excitante. Reita estava sem camisa, deduzi que ele se livrava de uma das vestes a cada vez que se afastava. E a surpresa não parou por aí! Seu braço se estendeu, devia estar querendo alcançar algo na mesinha próxima à cama... E logo ele se levantou e um chicote cantou na minha coxa esquerda. Até mostraria a marca ao senhor, mas achei que ficou meio feia. Preciso dar um jeito nela, ardeu bastante enquanto eu caminhava até aqui...
Eeh, doutor, preciso perguntar novamente. Está se sentindo bem? Parece meio fora de si... Talvez esteja cansado demais. Prometo agilizar a conversa e deixar que o senhor vá para casa.
O que eu dizia? Ah sim, o chicote... Levei mais alguns golpes ao longo de minha perna e também em eu tórax. Doeu, ah se doeu. Só que quanto mais dor eu sentia, mais excitado ficava. Meu membro já tinha chegado ao limite dentro da cueca e Reita deve ter percebido no mesmo minuto que eu, pois, quando ia abrir a boca para pedir uma ajudinha, senti sua mão grande massageando meus testículos por cima do tecido.
“Desta vez não é um estupro”, ele disse. Todas as imagens do acontecido de seis anos antes me voltaram à lembrança... Pela primeira vez, acabei rindo delas. É doutor, eu ri mesmo! Pareceram coisas tão banais. Reita deixou escapar um murmúrio duvidoso e eu disse “faça parecer um”. Sim, foi isso mesmo que eu disse. Ele também riu... Seis anos atrás, eu não tinha reparado no quanto aquela risada sádica era viciante.
Minha cueca foi puxada e a glande úmida de Reita foi posicionada em minha entrada, ele se roçava em mim de um jeito tão libidinoso que não pude aguentar por muito tempo. Abracei seus quadris com as duas pernas e o puxei para dentro. Ah, aquela dor absurda... Lancinante! Gritei da maneira que pude e ele, satisfeito com minha recepção nada agradável e mal dando tempo para que eu me acostumasse, imediatamente começou a se mover. Como da última vez... Uma lágrima quente escorreu pelo meu rosto e foi colhida pela língua de Reita, que me beijou logo após. Aquele gostinho salgado em seu beijo me encantou. Depois, com uma mordida um pouco descontrolada, um novo gosto atingiu meu paladar. Algo ferroso. Era sangue, sangue saindo do corte que aquela mordida estúpida tinha causado em meu lábio superior. Pressionei o local com a língua e aquela porra ardeu pra caralho. Acabei me contorcendo e gemendo de incômodo, e aquilo pareceu animar Reita que, colocando minha perna esquerda em seu ombro, virou-me um pouco de lado e voltou a me estocar com tudo o que tinha.
Fui penetrado assim por alguns minutos até minha próstata ser atingida e eu acabar gozando e ele, bem... Quando sentiu que estava próximo de gozar também, retirou-se de dentro de mim e se sentou em meu tórax, apontando o membro para minha boca. Pude sentir sua glande quente roçando em meu queixo. A julgar pela movimentação e pelos sons roucos que saíam de sua garganta, ele estava se tocando. Cada vez mais depressa, e mais, e mais... “Abra a boca, chibi”, ele pediu. Aquele jato de sêmen adentrou minha boca de tal forma que quase engasguei. “Engula”. Fiz o que pude para obedecer e, tendo feito isso, recebi um ardoroso beijo em troca. Havia uma fragrância diferente no ar. Um cheiro de sexo misturado a perfume de homem. Atordoante demais para o nariz de uma pessoa comum. Viciante, totalmente viciante.
Fui liberto... Estava cansado demais para tirar a venda dos olhos, meus braços mal podiam se mover sem me causar uma dor horrenda. Ele a tirou para mim, acariciou meu rosto e perguntou se aquilo era meu modo e dizer que o perdoava. Acabei chorando, doutor... Contei a ele sobre o que passei nos últimos seis anos, e sabe o que ele me disse? Que não deixou de pensar em mim enquanto estava naquela cela nojenta, e que esperava que eu telefonasse. Que sentiu que daríamos certo quando me viu vacilar ao depor contra ele. Eu vacilei mesmo, meus olhos eram puro arrependimento quando pedi que o prendessem... E se ele foi capaz de perceber isso, era porque realmente estava prestando atenção em mim de uma maneira que os policiais não souberam fazer.
Se eu acreditei nele? Claro, por que não? Reita pode ser um cavalo batizado, sem escrúpulos e outra porrada de coisa ruins, mas... Mentiroso? Não, desculpe. Esse não é o tipo de mentira que ele contaria a alguém que quer levar para a cama. Se fosse o caso, teria usado o mesmo truque para me convencer a entrar naquele carro.
É isso, amigo. Fiquei feliz de descobrir que essa coisa tem nome. Síndome de Estocolmo... Não vou me esquecer mais, e... Hn? Doutor, o senhor está... O que está fazendo? Doutor, o parapeito da janela é-- Meu Deus! Alguém, por favor! O doutor acabou de pular da jan--”
A capacidade de gravação da fita terminava ali. O som do gravador a rebobiná-la automaticamente assustou o pequeno que, incrédulo, correu para fora da sala à procura da secretária, anunciando em alto e bom som que o psicólogo havia se atirado da janela.
Tirou o celular do bolso, discando os números já tão bem memorizados e levando o aparelho ao ouvido, mordendo o carnudo inferior em mostra de seu extremo nervosismo.
– Pronto.
– Reita, Reita! – Afobou-se o loirinho ao ouvir a voz forte do maior.
– Sim, Ru-chibi?
– Reita, lembra-se daquele psicólogo com quem você conversou?
– Jamais esqueceria. Aconteceu algo com ele?
– Ele acabou de se matar! Pulou da janela do oitavo andar, Reita!
– Tsc... Pobre homem – Lamentou Reita claramente entristecido, balançando a cabeça em negação. – Talvez lidar com os problemas dos outros tenha o deixado maluco... Espere aí pequeno, estou indo te buscar.
– Certo. – Ia desligar quando, vacilante, aproximou mais uma vez o celular do ouvido direito, torcendo para que o rapaz ainda estivesse na escuta. – Hn, Reita...?
– Meu nome.
–... Você me ama?
A resposta foi imediata, sem sombra de hesitação.
– Sempre amei.
A ligação foi encerrada. O pequeno procurou se acomodar em uma das cadeiras presentes junto à mesa da secretária que, desesperada, corria de um lado para o outro buscando o número de uma ambulância, da polícia ou e quem aparecesse primeiro. Encolheu-se um pouco, abraçando o próprio tronco devido ao ar frio que circulava naquele oitavo andar. Deixando que o olhar se perdesse além da janela, sorriu simplista.
– Só gostaria que o senhor tivesse me respondido se um vício pode ser uma virtude, doutor...
Notas finais
Obrigada a quem leu, de verdade. Agora, que tal reviews contando o que acharam, hn? ♥
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