Viajantes - O Príncipe de Âmbar
9 Capítulo VIII
Notas iniciais
“Pátio”. Então era assim que eles chamavam a praça.
O único pátio com que Dean estava familiarizado era o da escola e ele nunca se preocupara em pesquisar o seu significado em um dicionário, então ele não sabia qual era o contexto da da palavra naquela situação, mas não pensou muito a respeito.
Enquanto andavam por ali, Dean percebeu que algumas das pessoas começavam a se agitar. Enquanto as outras continuavam conversando ou brincando, essas carregavam tigelas com diferentes tipos de vegetais.
Katherine sugeriu a ele que explorasse um pouco as redondezas enquanto ela ajudava a preparar as refeições. Porém, seus pais haviam lhe ensinado desde pequeno a sempre oferecer ajuda quando fosse visitar alguém, então Dean pediu para ir junto. Katherine gostou da gentileza e respondeu com outro de seus sorrisos espontâneos e contagiantes. Ela e Ty realmente sorriam muito — Dean tinha quase certeza de que nunca conhecera alguém tão alegre quanto os dois.
Ty se separou deles para ajudar Lina a arrumar as tigelas em cima de um enorme pano esticado, como uma toalha de piquenique, que havia sido disposta no pátio mais ou menos perto do penhasco, enquanto Kath pegou duas das cumbucas maiores vazias que já estavam dispostas ao lado desse pano e ela e Dean seguiram por uma trilha que adentrava a floresta atrás de um dos casebres.
As marcas no chão e a quantidade diminuta de folhas que nasciam naquele caminho mostravam que ele era percorrido com bastante frequência. A floresta em si começava bem densa, mas conforme avançavam Dean deve impressão de que as árvores começavam a ficar ligeiramente mais espalhadas. Além disso, quanto mais longe daquela praça, mais altas elas pareciam ficar. Eles não avançaram tempo suficiente para que pudesse ter certeza, mas ele se perguntou o que aconteceria se continuassem seguindo naquela direção.
Durante todo o trajeto, Katherine ficou de olho em Dean. Sempre que ele começava a mostrar sinais de que estava ficando sem fôlego, ela diminuía o ritmo ou parava de andar e esperava-o recuperar-se pacientemente.
Seu destino não ficava muito longe do início da trilha. Dean era horrível quando se tratava de senso temporal, mas ele não imaginava que tivessem andado mais do que cinco ou dez minutos. Talvez algo no meio disso.
Embora a cor verde continuasse predominante, as espécies de plantas eram muito diversificadas, dos arbustos às árvores, das folhas do chão às das copas das árvores. Pequenos detalhes que faziam com que nunca houvesse duas iguais.
Quando finalmente pararam de caminhar, estavam sob uma árvore bastante peculiar. Seu tronco retorcido ficava bem no centro do que parecia um antro recoberto por cortinas de folhas descendentes, como inúmeras gavinhas sem apoio que cresciam sem parar em direção ao chão. Porém, elas eram inteiras cobertas de folhas, que, embora pequenas, formavam uma cobertura bem mais eficiente do que apenas cordões verdes. Ao invés de uvas, Dean percebeu minúsculos grânulos brancos permeando as superfícies das folhas, como as gotas de chuva que manchavam a rua no início das garoas.
Embora a luz que conseguia penetrar as copas das árvores fosse pouca, os grãos eram tão brancos que pareciam emitir luz própria. A imagem era encantadora de um jeito singular, e sua visão tinha um efeito quase hipnótico.
— O que é isso? — perguntou Dean, tocando com cuidado numa das gavinhas e deslizando o dedo pela folha.
— É uma planta venenosa.
— O quê!?
Dean saltou para trás com urgência, sacudindo a mão. Katherine começou a rir.
— Brincadeira! — disse ela, enxugando uma lágrima de riso enquanto equilibrava as tigelas na outra mão. — Não sei se essa espécie tem nome. Shira com certeza saberia. Se quiser, pode perguntar para ele.
— Shira é um amigo seu? — perguntou Dean, enquanto se recuperava do susto.
— Sim — respondeu ela. — Ele mora lá no Norte, mas eu e Ty vamos para lá em dois dias. Pode vir com a gente, se quiser.
A primeira reação de Dean foi de responder “sim”, mas assim que falou, hesitou. Depois disso, ele ficou quieto. Katherine percebeu imediatamente.
— O que foi? — perguntou ela.
— ... eu estava pensando nos meus irmãos. — respondeu Dean. — Ty me disse que poderíamos falar com eles quando os Protetores chegassem, mas…
Ele não sabia como terminar a frase. Em silêncio, tornou a tocar as folhas. Katherine o observava também em silêncio, como se o esperasse terminar, mas sem apressá-lo. Então, uma pergunta ocorreu a Dean. Ele virou a cabeça para Kath.
— O que são “Protetores”?
— São criaturas feitas de energia. Todos os Viajantes têm um — respondeu ela, ainda observando-o. — Eles nascem com e para determinada pessoa, e permanecem ao seu lado até a morte. Os Protetores e seus Viajantes quase sempre se tornam bons amigos.
— “Viajante”? — repetiu ele. Ele sabia o que era um viajante, é claro, mas por algum motivo teve a impressão de que não era àquilo que a garota se referia. Do jeito que ela falava, parecia mais uma espécie de nome, com “V” maiúsculo. — O que é isso?
— Isso é um pouco complicado — ela deu um sorriso torto. — Eu gostaria de explicar melhor quando os nossos Protetores estiverem de volta. Mas, em suma, Viajantes são pessoas que podem viajar entre os mundos, como eu e Ty. E como você.
Ao ouvir o último adendo, Dean sentiu alguma coisa dentro dele. Um sentimento estranho, confuso. Ele ainda não acreditava totalmente no que estava acontecendo e no que estava presenciando ali, mas quando ela falou, por um momento, ele sentiu-se como se tivesse alguma coisa especial. Seu ceticismo e seus instintos lutavam dentro de sua cabeça; a sensação de estar em um sonho maravilhoso e um tanto inacreditável do qual acordaria antes que pudesse se dar conta e a compreensão profunda e inerente de que aquilo era real.
Seus pensamentos estavam difusos como filetes de tinta em uma bacia de água ao serem misturados com um pincel.
Tentando distrair-se da confusão que sucedia em sua mente, Dean tentou preencher o silêncio momentâneo.
— Esse poder… pode estar relacionado a sonhos, certo?
— Sim, com certeza.
— Mas… como isso é possível?
Katherine deu outro sorriso torto.
— Essa é a parte complicada — respondeu. — Mas prometo que vou lhe explicar assim que nossa companhia chegar.
— Companhia… Você disse que todos os… “Viajantes”... tinham um Protetor — disse Dean, em dúvida. — Mas, se é assim, eu não posso ser um. Eu nunca nem ao menos tive um animal de estimação. Meus pais não deixavam.
Pela primeira vez, Katherine exibiu uma expressão surpresa.
— Ah, você não sabia? Isso é incomum. Não são muitas as pessoas que passam a vida inteira sem notar.
— Notar o quê?
— É claro que você tem um, Dean. A minha e a de Ty já estão com ele.
Dean sentiu a cabeça girar um pouco com a resposta. Ele ainda não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, e a conversa não o estava levando a lugar nenhum. Ainda mais confuso do que antes e um tanto pensativo, ele tornou a desviar o olhar.
Bom, Katherine prometera explicar mais tarde. Talvez as coisas fizessem sentido, e ele apenas não podia ver. De qualquer forma, ele continuou tentando se distrair das perguntas que brotavam em sua cabeça.
— Afinal, o que viemos fazer aqui? — perguntou.
— Ah, isso é fácil de responder — brincou a garota. Ela estendeu uma das grandes tigelas para ele. — Aqui, segure esta. Tente pegar o máximo possível.
— Ahn?
Com um sorriso intrigante, Katherine virou-se para o tronco atrás de si. Enquanto todas as vinhas ou o que quer que fossem aqueles galhos verdes e maleáveis formavam uma enorme abóbada ao seu redor, um único cordão, mais grosso do que os filetes que formavam a cobertura, pendia próximo ao centro. Com gentileza, a garota ergueu a mão para pegá-lo e puxou-o uma única vez.
Inúmeras ondulações percorreram todas as ramificações da árvore enquanto ela balançava com o fluxo, e milhares e milhares de pequenos grãos se soltaram de suas folhas. Os grânulos não eram pesados, e desciam com tanta leveza que pareciam flutuar no ar, à semelhança de flocos de neve. Eram de uma cor tão clara que, quando passavam pelos filetes de luz que penetravam a copa, pareciam cintilar, e um show de pequenas luzes de deu entre aquelas cortinas de folhas.
Katherine segurou sua tigela na mão e pôs-se a colher os grãos que caíam, deixando que flutuassem em direção a ela. Depois que se recuperou da sensação de deslumbramento, Dean pôs-se a fazer o mesmo.
As duas tigelas não chegaram a encher, mas havia bastante ali. Mais do que Dean imaginara inicialmente. Aquilo daria facilmente uma refeição para ao menos algumas pessoas, e isso sem qualquer acompanhamento.
— Isso deve ser o suficiente. — Katherine sorriu, satisfeita. — Vamos indo?
No caminho de volta, Dean notou que a floresta parecia mais viva do que na vinda. Movimentos nas folhas, olhos espreitando nas sombras. Porém, embora fosse um tanto inquietante olhar em volta sem ver o que o encarava, ele não sentia medo. Divagando em pensamentos, ele ponderou que, mesmo à noite, aquele dificilmente seria um lugar a ser temido. Enquanto trilhava o caminho que tantas pessoas haviam trilhado antes dele, a ponto de marcá-lo no chão, ele sentia como se andasse entre seres ao mesmo tempo solenes e serenos, pacíficos e acolhedores. Aquele lugar tinha algo de especial. Não parecia ser algo antigo ou magnânimo, mas não era recente. Aquelas árvores e plantas já haviam vivido muitas coisas. Por um momento, Dean ponderou que, se algum dia precisasse de abrigo, não se incomodaria de se esconder ali.
Quando voltaram à vila, várias pessoas já haviam se reunido no pátio.
— Ei, onde é que vocês estavam? Já íamos começar a comer sem vocês! — brincou um rapaz alguns anos mais velho que Dean.
— Desculpe, Tari! Acabamos nos distraindo! — respondeu Kath, rindo.
Dean e Kath se dirigiram a onde estava o pano e depositaram suas tigelas no fim de um verdadeiro banquete de grãos e frutas, além de alguns outros alimentos que Dean imaginou também terem sido tirados da natureza. Algumas massas haviam sido moldadas na forma de bolas, como algum tipo de pão que não vai ao forno; lembravam vagamente as massas de pizza com que Dan, Dean e Simon brincavam quando a família se juntava para ir à pizzaria, mas ele torcia para que o gosto fosse melhor.
Dois dos outros potes traziam substâncias viscosas semelhantes a mel, um trazia o que parecia ser uma espécie de geleia e um quarto estava preenchido pela metade com um líquido quase negro que aparentava a mesma consistência de uma calda densa. Alguns recipientes de formas variadas e pontas esculpidas estavam cheios em diferentes níveis com água, sucos e algo que Dean imaginou ser chá. Do lado, uma pilha de folhas um pouco escuras e de aparência resistente havia sido arrumadas de maneira impecável, imediatamente ao lado de algumas cumbucas menores de algo que parecia cerâmica, que Dean deduziu que deviam ser usadas para beber ou talvez colocar as caldas.
Com tantas comidas de cores diferentes dispostas ali, era difícil não associar a imagem à de um arco íris, mas a imagem que Dean tinha de um arco íris era algo irreal e simplista, como o desenho de uma criança, enquanto a variedade que o banquete apresentava trazia uma impressão muito maior de realidade, fazendo com que as cores combinassem bem com o ambiente. Ele podia facilmente imaginar tudo aquilo vindo da floresta da qual ele mesmo acabara de sair.
— Bom, acho que com isso podemos começar — disse Kath, colocando as mãos nos quadris, parecendo satisfeita. Virou-se para Lina, que se ajoelhara para arrumar uma pilha de frutos que desabara em uma das tigelas. — Vamos tocar?
Lina terminou os últimos frutos e, também satisfeita com seu trabalho, colocou-se de pé. Ela virou o tronco para mexer em uma pequena bolsinha que Dean não tinha visto costurada do lado esquerdo de sua camisa, deslizou o nó que a fechava e de lá tirou duas esferas metálicas do tamanho de pequenos tomates.
Com uma facilidade que espantou Dean, ela segurou uma das esferas entre os dedos indicador e médio e a segunda entre o polegar e o anelar, e, com um único movimento preciso, bateu-as uma contra a outra.
O som liberado pelo impacto lembrava em muito o de um sino. Não, não só um: vários. Vários pequenos sinos tocando em harmonia. O som era limpo e intenso; se fosse para comparar as notas a alguma outra coisa, Dean diria que aquela poderia muito bem ser a sinfonia das flores de uma campina primaveril. Se a natureza fosse uma criança, aquela seria a sua risada.
Ao ouvir o tilintar, uma agitação positiva tomou conta do grupo que aguardava no pátio. Por todo o lugar pessoas começaram a se levantar de seus círculos de conversa e dirigir-se ao pequeno banquete.
Não havia pratos ou talheres, então aqueles que queriam frutas maiores simplesmente pegavam uma ou duas nas mãos e se afastavam para comer, enquanto quem queria os grãos ou frutos menores pegava um punhado com a mão e usava as folhas como uma espécie de travessa maleável. Parecia ser um pouco difícil de não derrubar, mas Dean achou interessante o fato de que a única coisa que usavam além das tigelas fosse algo tão fácil de encontrar e descartar. Seria legal se houvesse uma forma de fazer o mesmo com as bebidas e as pilhas de comida, mas ele ponderou que deveria ser difícil conseguir algo impenetrável e com formato prático o suficiente para que os líquidos não vazassem ou forte o suficiente para carregar aquela quantidade de alimento sem rasgar.
Quando várias pessoas já haviam se servido e agora tornavam a sentar-se para conversar, Kath e Lina sorriram. Lina tornou a guardar as esferas na bolsa.
— Ok, nossa vez! — disse Kath, descendo sobre os joelhos e passando a língua nos lábios com uma empolgação ansiosa.
Dean ficou parado enquanto a observava escolher o seu prato, até que a menina virou a cabeça para olhá-lo.
— Hey, desça também! Você não vai comer? — chamou ela, divertida.
— Ah! — Dean se ajoelhou ao seu lado.
Sendo mais alto que ela, ele não tinha que se esticar muito para ter um panorama completo das opções. Porém, ela já conhecia cada uma daquelas comidas, então não se preocupava muito em olhar para todas, se contentando em inclinar-se mais para perto daquelas que lhe pareciam mais tentadoras e esperar que os aromas ou alguma luz divina a fizessem decidir-se por uma.
— Ahn… o que são essas frutas? — perguntou o garoto, olhando para Kath.
— Depende de qual você está falando — Katherine devolveu o olhar. — Qual você quer saber?
— Hm…
Dean passou os olhos por todas as opções. De toda aquela variedade, reconheceu apenas as três que Ty lhe oferecera mais cedo. De resto, era tudo uma incógnita.
Depois de pensar um pouco, apontou uma.
— Essa daqui. — a que escolhera era de um vermelho rosado cujas sombras tendiam para um vinho ou cor de sangue. Embora esse não parecesse ser um padrão, ela também aparentava um interior instável e suculento, assim como as que comera antes. — Como ela é?
— Essa é muito boa — disse Kath. — No começo ela é bem docinha, mas depois fica um salgado na boca. Quanto mais perto do inverno é colhida, mais doce fica, e quanto mais perto do verão, mais salgada. Nos auges da primavera e do outono, o gosto é bastante equilibrado. Como estamos saindo do equinócio de primavera e entrando no começo do verão, o salgado deve estar mais forte — contou.
A descrição deixou Dean bastante curioso, e ele sentiu um impulso de pegar uma e experimentar. Porém, queria saber mais sobre as outras também, e se demorasse muito Kath poderia decidir que queria comer logo e deixá-lo decidir-se sozinho.
Com o canto do olhar, Dean viu os grãos que tinham pego pouco tempo antes. Do lado de fora da floresta e em pleno ar livre, seu branco intenso diluía-se, mas a cor não deixava de ser bonita.
— E aquilo? — perguntou ele, indicando as cumbucas.
— Ah, aquilo é algo bastante especial — disse a garota. — Não tanto aqui, talvez, mas acho que você não deve estar familiarizado com isso. As flores e as sementes daquela árvore evoluíram até se tornarem uma coisa só. Parece um grão, mas na verdade é um conjunto de pétalas bastante compactas, então é mais macio do que parece. O gosto é bem leve. Docinho. — ela inclinou-se sobre a tigela, inspirando profundamente. Soltou um suspiro sonhador. — O cheiro também é maravilhoso. Queria poder carregá-lo comigo o tempo inteiro.
Dean olhou para a pilha de grãos — flores — com os olhos bem abertos de interesse. Realmente, não se lembrava de já ter visto algo assim antes. Se aquilo existia em seu mundo, ele não estava sabendo.
Dean continuou apontando as diferentes opções de comidas por um longo tempo. Para a sua surpresa, Katherine não perdeu o entusiasmo nem depois da metade; ela continuava explicando cada uma em detalhes, ansiosa para ensinar.
Depois do último suco, Dean agradeceu pelas explicações, ao que Katherine respondeu com mais um sorriso sincero, e os dois se separaram para montar suas refeições.
Depois de ver muitas pessoas se servirem, Dean percebera que era costume ali pegar apenas um pouco de cada vez, servindo-se novamente mais tarde se ainda quisesse comer. Ele pegou uma das folhas e pinçou um pouco das flores-sementes com os dedos, colocando em um dos lados da superfície. Do outro, colocou um pouco de um dos grãos, também branco, e derramou um pouco do caldo escuro por cima, com cuidado para não errar o lado do bico. Salgado, Katherine dissera. Bom para comer com alimentos de gosto mais suave. Como aquele grão em especial quase não tinha gosto, era uma escolha comum para acompanhar os caldos e a espécie de geleia, que Dean descobrira ser feita com orvalho, um pouco de grama e uma substância incolor que se conseguia apertando o pecíolo das folhas que caíam de uma das espécies de árvores que cresciam ao lado de uma lagoa perto dali. Ele ficou curioso para saber qual seria o gosto, mas decidiu que ficaria para depois, então completou o prato com uma das frutas vermelho-rosadas. Em seguida, pegou uma das cumbucas vazias — agora que vira outras pessoas usando-as, tinha certeza de que eram para beber — e encheu-a com três quartos de água. Só depois de já tê-la enchido percebeu que seria complicado de carregar tudo — sua comida não estava arrumada em uma pilha caprichada como a dos outros, e por isso precisaria das duas mãos -, então acabou decidindo que levaria a cumbuca com os dentes. Não foi uma coisa muito bem planejada, pois logo que se levantou grande parte do líquido já tinha se derramado sobre sua camisa, mas tentou disfarçar o rosto quente de vergonha e começou a caminhar, procurando algum lugar para se sentar.
Curioso, ele percebeu que, ali, a idade não importava muito. Em seu mundo, era muito comum ver as pessoas agrupadas em mesas de adultos, de jovens ou de crianças, sem se misturar. Mas ali era diferente: crianças sentavam-se ao lado dos adultos, jovens faziam companhia aos mais velhos, adultos sentavam-se com os jovens e idosos compartilhavam o espaço com as crianças. E não apenas se sentavam, mas também conversavam animadamente, trocando opiniões e comentando diversos assuntos.
— Aqui, Dean! — ele viu o braço de Ty balançando no alto para chamar a sua atenção. Com tantas pessoas reunidas, todas sentadas na areia ou no gramado, era difícil andar sem correr risco de pisar em algo, mas as pessoas abriam passagem assim que ele se aproximava, então logo conseguiu alcançar o menino no gramado entre a areia e um dos casebres.
De frente para ele, estava sentada uma garota que Dean ainda não conhecia. Seus cabelos fugiam do padrão castanho e loiro dali; um tom de vermelho-cobre marcava-os da raiz à ponta, e lembravam Dean da imagem que lhe vinha à mente quando os livros descreviam alguém como tendo “cabelos cor de fogo”. Porém, embora tão vermelhos quanto qualquer outro “cor de fogo”, os dela pareciam mais uma espécie de fogo frio, de um tom um pouco escuro e uma cor mais desbotada. Talvez tivesse um pouco mais de vermelho e menos laranja do que o padrão, o que por sua vez tinha um encanto próprio. Em matéria de singularidade, seu cabelo se equiparava ao dourado único de Kath. Seus olhos, por sua vez, eram de um castanho um pouco mais claro do que os de Dean. Sua pele tinha uma cor distinta do claro tom de dourado ou salmão que predominava ali, pairando vagamente na direção do rosa pálido ou desbotado.
— Então, esse é o garoto que chegou nas Correntes? — perguntou a garota, erguendo o rosto para olhá-lo por cima dos ombros, com um sorriso que deixou Dean ligeiramente inquieto. Ela parecia examiná-lo, como alguém que está pensando em pregar uma peça.
— Prazer em conhecê-la — Dean tentou dizer. Porém, com a tigela ainda em sua boca, ele duvidou que ela tivesse entendido uma palavra do que dissera. Então, sentou-se e apoiou a folha no chão. Finalmente com uma mão livre, ele apoiou também a combuca e continuou: — Meu nome é Dean.
— Eu sei, eu ouvi — brincou ela. Dean sentiu o rosto esquentar de vergonha. Ty não conseguiu conter uma risada.
— Ignore, ela só está te provocando — disse ele. Virou-se para a garota. — Sim, esse é o garoto, como você também já pôde notar. — brincou de volta. — Dean, esta é Rowan. Ela é uma grande amiga da Kath. Não tão agradável quanto, porém...
— Ei! — protestou ela, fingindo um tom de indignação, sem conseguir forçar-se a deixar de rir.
Conforme eles conversavam, Dean sentiu um pouco do seu nervosismo se dissipar. Apesar da impressão inicial, Rowan na verdade era bem gentil.
— Você se recuperou bem — comentou ela, em determinado momento, em um tom de elogio. — Sabe, dependendo do tempo que ficasse lá, poderia ter perdido um dedo. Ou a mão. Ou o braço…
— Ele já entendeu. — interrompeu Ty, tentando não rir da expressão assustada de Dean.
Tentando disfarçar a reação, Dean baixou a cabeça e pegou alguns grãos de sua folha para pôr na boca. Porém, antes que o fizesse, ele lembrou-se de algo.
— Por falar nisso, — ele ergueu o rosto para Ty. — Quando você me disse que a Katherine…
— Pode chamá-la de Kath. — interrompeu Rowan. Colocou uma fruta inteira na boca.
— … tá. Quando você me disse que a Kath era quem tinha me tirado da água, você disse que “só ela podia nadar ali naquela hora”. — disse ele. — O que quis dizer com “naquela hora”?
— É que, a nor-nordeste daqui, tem uma ilha muito pequena, que fica quase o tempo inteiro coberta de gelo — explicou o garoto. — Durante a manhã, as correntes geladas contornam o litoral e chegam até aqui, e a direção se inverte ao entardecer, quando as nossas correntes mais quentes derretem parte do gelo. A noite lá é muito fria, então a água congela novamente e o ciclo continua no dia seguinte.
— Ah, entendi. — disse Dean.
Ele não sabia se a história toda da inversão das correntes fazia algum sentido. Na verdade, se lembrava de algo parecido quando estudara sobre ventos, mas isso não queria dizer que o mesmo valia para a água. De qualquer forma, resolveu acreditar em Ty.
Por alguns minutos, o trio ficou em silêncio, cada um comendo o prato que montara. Quando estava quase terminando o seu, Dean olhou ao redor.
— O que foi? — perguntou Ty.
— Eu só queria saber onde a Kath está — respondeu Dean, ainda olhando. — Não a vi quando estava procurando vocês.
— Ah, ela está ali — ele apontou para algum lugar atrás de Dean.
Dean seguiu a direção indicada com os olhos.
Realmente, lá estava ela. E, ao seu redor, um enorme grupo de crianças havia se reunido; com idades que variavam entre cinco e dez anos, quase todos mostravam a mesma energia de Simon quando ia passar a tarde no parque.
Se não soubesse, Dean poderia pensar que todos eles eram caçulas da garota. Eles certamente pareciam vê-la como uma irmã mais velha. Eles contavam e perguntavam coisas, enquanto Katherine respondia gesticulando tanto que poderia estar apresentando uma peça de teatro. Ele também percebeu que sua popularidade não se limitava aos pequenos, pois volta e meia algum adulto passava pelo amontoado bagunçado e trocava algumas palavras com o grupo. Alguns inclusive bagunçavam de maneira brincalhona o cabelo de Kath, que, quando solto, despenteava-se com facilidade.
— As crianças gostam bastante dela — comentou Dean para Rowan. — Por quê?
— Provavelmente é porque ela é feliz. — respondeu ela, sem parar de comer. — É gostoso conversar com ela. Ou passar um tempo com ela. É um ímã para crianças. — a garota parou para tomar um gole de água. Quando ela olhou para o grupo, Dean viu um ligeiro sorriso formar-se em seus lábios, enquanto os olhos acompanhavam com um carinho profundo que parecia vir do fundo de sua alma. Porém, ele percebeu que havia mais alguma coisa. — É muito difícil não amá-la.
Por alguns momentos, Dean tentou compreender o que Rowan não estava dizendo, mas não conseguiu. Ele nunca tinha sido bom em esconder seus pensamentos, então era muito difícil para ele descobrir os de outra pessoa sem que os ouvisse de sua boca.
Em seu círculo de admiradores, Katherine deu uma gargalhada. Seu riso era engraçado e contagiante, e fez várias crianças rirem também.
— Acho que vou dar um oi para eles — disse Ty, se levantando. Ele acenou para os dois. — A gente se vê depois, Dean!
Desviando das pessoas sentadas, o menino conseguiu chegar até o agrupamento, cruzando as pernas ao sentar-se com sua folha sobre o colo. As crianças logo o introduziram na conversa.
Por um momento, Dean se contentou em observá-los. Então, sem saber muito bem o porquê, desviou o olhar.
Percebendo que era um dos poucos que ainda não tinha terminado de comer, Dean voltou-se para o próprio prato. Uma substância cremosa envolveu a ponta de seus dedos ao pegar um punhado dos grãos com o caldo. O gosto do conjunto era maravilhoso — principalmente o caldo. Ele não conseguiu evitar lamber os dedos salgados, tal qual uma criança depois de uma porção de batata frita.
Enquanto comia, de tempos em tempos, alguns ruídos do outro lado do pátio os alcançavam. Trechos de exclamações, risadas incontidas. Nesses momentos, por uma fração de segundo, seu olhar era atraído para aquela direção, mas logo que se dava conta, tornava a olhar para frente, retomando sua refeição.
Enquanto isso, Rowan o observava minuciosamente. Ela já tinha acabado de comer, e como só tinha comido algumas frutas grandes, não tinha nenhuma folha ou tigela à sua frente.
Ela o olhava com um misto de curiosidade e impaciência, como alguém que assiste a uma peça interessante cujo enredo se desenrola de maneira arrastada demais.
Inclinando-se para frente, ela se pôs a encará-lo intensamente. O longo minuto que ele demorou para reparar foi mais uma prova de que a cabeça dele estava em outro lugar.
— O que foi? — perguntou ele.
Sua expressão abobada foi a gota d’água; Rowan pôs-se de pé em um salto, agarrou a manga de Dean e colocou-o de pé também.
— E-ei! — exclamou Dean, desconcertado.
— Ah, vem logo! Por que vocês, novatos, são sempre tão contidos? — resmungou ela para o céu.
Dean não conseguiu dizer nada. Antes que se desse conta, já estava sendo arrastado pelo ombro através da multidão sentada em direção ao outro lado da praça.
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