Viajantes
1 Nós
Isabelle estava habituada com o ambiente: dormia em uma rede, numa pequena construção que dividia com outros quinze estudantes, sem energia elétrica, um travesseiro, seu celular e até mesmo um repelente. Apesar da experiência com esse tipo de viagem, o tédio e a insônia pareciam pior do que nunca. O desconforto era necessário, precisava terminar sua pesquisa e provar para seus pais que sua graduação estava valendo alguma coisa. Era complicado. Momentos como aquele eram suficientes para que cogitasse voltar a São Paulo e fazer qualquer outra faculdade que seus pais quisessem.
Levantou-se, tentando fazer o menor barulho possível, e ao perceber que as redes de seus amigos estavam vazias, xingou-os mentalmente. Saiu da oca e sentou-se num banco próximo. Suspirou. Precisava relaxar. Ficou um bom tempo ali, pensando no quanto gostaria de sumir por um tempo e voltar como se nada tivesse acontecido. Tirar um tempo para si, descansar. Um sonho impossível.
Ouviu uns barulhos de riso próximos e resolveu ir atrás. Sabia que se tratava de seus amigos e queria saber o que eles estavam aprontando dessa vez. Caminhou alguns poucos metros adentro do campo arborizado, e logo foi possível ver o clarão de uma fogueira. Aproximou-se.
— Não acredito que não me chamaram – disse, antes de sentar-se ao lado de Janaína. – Qual a boa dessa vez?
— A gente ‘tá decidindo qual vai ser o ritual de hoje – respondeu André, enquanto mexia no seu tablet – Selecionei umas bem brisadas dessa região.
— Quero a pior. – disse Jana, antes de pisar levemente no pé de Isabelle – Tá na sua vez, nenê. Na última viagem você disse que faria qualquer coisa se a Mari cortasse o cabelo.
— Vocês são uns bostas – Isabelle retrucou, levantando-se. – Já vou avisando que não faço nada que possa me levar pra cadeia.
André sorriu e pegou um graveto do chão.
— Aqui, eu vou falar e tu vai repetir com esse graveto enfiado no...
— Vai se foder, mano.
— Tá, agora é sério. Você só tem que ir lá no meio do campo onde os índios fizeram a oração hoje e repetir o que eu falar.
— Só?
— Se der certo você some, se der errado, o próximo rolê é você de Freddie Mercury prateado. E com o cabelo igual. – disse André.
Isabelle revirou os olhos e seguiu adiantada até o círculo. Sentou no chão e soltou os cabelos, que estavam antes presos com uma caneta. – Espero que eu vá pra bem longe de vocês.
André então se encostou junto de Janaína numa das ocas e começou a ditar frases num latim sujo. Isabelle repetia na mais baixa animação. Era um texto longo, e ao segundo coro a garota começava a se cansar. Era como um sono, seus olhos fechavam-se aos poucos mesmo com todas as tentativas de mantê-los abertos. Começava a sentir sua mão formigar, e mesmo sentada, não conseguia manter-se firme. Caiu para o lado. Ouvia sons que poderiam aproximar-se de gritos estridentes, mas que não lhe doía a cabeça. Estava nervosa. Queria levantar, parar, mas as palavras saíam automaticamente de seus lábios.
Aos poucos, apagou.
*
— Não teve um dia essa semana que não sonhei com isso — disse Violet, enquanto carregava a cesta de maçãs para dentro de casa. — Você deve estar me achando louca, mas juro, é tudo tão real... — concluiu, virando-se para Isaac.
— Você acha que eu sou louca?
— É claro que não. — respondeu o moço, que parara pouco antes da porta. Violet odiava não entender o que seu olhar expressava. Parecia confuso, mas ao mesmo tempo acolhedor. — E eu já preciso voltar ao castelo. Lord Murray está planejando um jantar e preciso cuidar dos cavalos. Assim que der arrumo um tempo para você me contar mais sobre esses sonhos. Se cuida. — despediu-se, colocando uma segunda cesta com frutas próximo ao batente da porta de entrada antes de despachar-se.
Violet assentiu e esperou que o amigo chegasse à estradinha antes de entrar em sua casa. Ele com certeza me acha louca, pensou. Colocou as cestas de frutas sobre a mesa e voltou-se à janela, pensativa.
Sua vida sempre esteve dentro dos padrões mais simples possíveis. Vivia com seu pai, Collum, um agricultor de poucas palavras. Um casal de meios-irmãos mais velhos, Jade e Phillip, que não eram tão presentes quando Violet gostaria que fossem. E também havia Effie, sua governanta.
Suas responsabilidades eram simples: cuidava do jardim, das tarefas básicas de casa e ajudava seu pai com as colheitas. Também frequentava semanalmente a igreja, mesmo que interiormente não se sentisse tão confortável em meio às pesadas doutrinas e às histórias que pareciam cada vez mais distantes da realidade.
Sabia que sua imaginação não poderia ir tão longe. Era só uma camponesa. Não viajava, não tinha contato com o mundo real. Por que então aquilo estava acontecendo?
Desde a partida de sua mãe, os sonhos vinham ficando cada vez mais frequentes. Via a si mesma em um mundo completamente diferente do que conhecia. Tudo era novo a um ponto que não conseguia descrever. Eram grandes cidades, com luzes que saiam direto de vidros sem que fosse necessário o fogo. Poucas árvores, que davam lugar a casas enormes, com mais de dez andares, de paredes espelhadas. Pessoas com roupas desproporcionais, mulheres de calça e outras vestimentas que no mundo real seriam facilmente confundidas com roupas íntimas. Imagens que saiam de espelhos como pinturas em movimentos, entre diversas outras coisas que não conseguia apagar de sua mente. Era tudo extraordinário demais para ser real. Eu definitivamente preciso parar de sonhar e viver a vida real. Já estou na idade de casar... pensava, mesmo odiando a ideia.
Seus pensamentos dispersaram-se com o barulho da chuva. Correu afora a fim de guardar as toalhas estendidas, esperava não ter de esfregá-las novamente. Tudo corria como o esperado, até que, pouco antes de entrar novamente em sua casa, ouviu um alto grito, e em seguida, uma ventania capaz de lhe derrubar.
Jogou as toalhas ao chão, seguras da chuva, e dirigiu seu olhar à entrada de seu quintal. Assustou-se e dirigiu-se o mais rápido possível até a estradinha. Jazia ali uma moça caída, desmaiada, vestida como as mulheres em seus sonhos. Violet sentiu suas mãos congelarem, e seu coração parecia prestes e sair por sua boca. Poderia ser real. Poderia ser tão real quanto desejava que fosse. Era real.
*
A sala de jantar enchia-se rapidamente. As enormes mesas de madeira já se apresentavam decoradas com flores e com os pratos prontos a serem servidos. Isaac permanecia sentado na mesa principal, junto de seus superiores. Esse era um momento em que se sentia plenamente aliviado. Sabia que o lugar que ocupava era desejado, e sabia principalmente que aquilo era dádiva do bom uso de seu conhecimento.
Chegara ao Castelo Leoch havia pouco menos de três anos. Viera como um adolescente em busca de aventuras, mas portava-se como um modelo de homem. Fazia o que fosse necessário para manter sua reputação e, mais ainda, para manter seu disfarce. Ter de voltar para seu tempo era algo que não desejaria tão cedo – talvez nunca. Gostava do ambiente em que vivia. Mesmo não tendo a facilidade que tinha em sua casa, junto de sua família, conseguia se sentir ainda melhor. Era como se vivesse um sonho.
Decidira por conta própria tentar viajar no tempo. Ouvia histórias das batalhas enfrentadas por seus ancestrais e tinha sede por saber tudo por um ponto de vista diferente. E conseguiu. Via-se em meio a rebeldes jacobitas que lutavam pela sua cultura, pelo seu berço. Nunca em sua vida pensara que um dia poderia sentir todas essas emoções não como um mero ouvinte, mas como um protagonista.
Observando os convidados se dirigindo a seus lugares, começou a pensar no que ouvira de Violet. Todos aqueles sonhos que a moça estava tendo eram religiosamente condizentes com o futuro em que viveu. Estranhava aquilo, já que, em questões tecnológicas, as décadas de 1730, 1740 estavam infinitamente distantes dos anos 2000. Uma pessoa que nunca saíra de seu campo de conforto até mesmo imaginar qualquer uma daquelas coisas era completamente improvável.
Ela definitivamente não era uma viajante.
As intuições de Isaac geralmente eram certeiras. E se de uma coisa ele tinha certeza, é que não precisava de mais de uma hora com alguma pessoa para saber se ela seria ou não como ele. Naquele local, havia apenas um outro viajante: Peter Fitzgibbons.
Peter era o século XXI em forma de homem. Não apenas em aparência, mas todas suas ações, expressões e modos deixavam evidente que ele não pertencia àquele tempo. Isaac se surpreendia sempre que o via, pensando em como conseguia manter-se tão seguro ali se não se esforçava nem para agir minimamente como os homens do século XVIII. Mal sabia ele que o segredo estava no tempo: enquanto estava há apenas três anos vivendo nas highlands escocesas, Peter estava há mais de seis.
Era criança quando seus sonhos começaram; era como Violet, mas ao contrário: via-se no passado. Tudo começou com meros flashes durante as noites. Com o tempo, transformou-se em uma nova vida da qual Peter não conseguia abandonar. Dormir em seu mundo era como acordar no passado. Vivia duas vidas. Se a situação já era ruim o suficiente para o moço evitar ao máximo dormir, piorou quando, em uma noite de muito cansaço, não acordou. Continuou ali, quase trezentos anos atrás.
Apesar da prévia que tivera, precisou reaprender a viver. Não acordaria mais, não tinha mais sua casa de verdade, seu carro, e todo seu conhecimento já era amplamente desnecessário. A única coisa que tinha certeza era do inferno que sua vida tinha se transformado. Mesmo após todo aquele tempo, ainda sentia-se perdido, deslocado. Não tinha paciência para com aquela falta de informação. Finamente pudera entender que realmente a ignorância era uma bênção e odiava não poder desfrutá-la.
A única coisa que lhe mantinha em paz era a fé de um dia acordar e voltar à sua vida real. Não tinha ideia de como isso poderia acontecer, mas exalava confiança e, enquanto vivia, nunca desistiria.
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