Viagens de um olhar atento
1 Ofende os bons, quem poupa os maus.
Notas iniciais
Parei a moto, desengatei, tirei o capacete, desci. A uma da manhã numa madrugada chuvosa fazer isso tudo num movimento só é digno do Schwarzenegger.
Pela viseira embaçada pude ver de canto de olho o tapa na garota prensada contra o poste, vai bater na moça parceiro? Não hoje. Não ligo se na minha frente era o curinga ou o super-man, eu era o Batman num dia ruim: "você sangra? Pois bem..."
Peguei ele pelo ombro, puxei, não sobrou tempo pra perguntar o que houve, ele piscou, a esquerda entrou em cheio, boom! Quem já sentiu sabe.
O efeito nocaute acontece porque depois de uma porrada suficientemente forte seu cérebro chacoalha dentro da caixa craniana, chegando a conclusão que é melhor reiniciar pra não causar problemas maiores. Socos no queixo tem um potencial de alavanca maior, sua cabeça chacoalha mais e mais chances de beijar o chão, dividindo os homens de queixos de concreto dos meninos de queixo de vidro.
Não ainda. Esse foi no nariz, reto, colocado, pra causar outras sensações menos nobres que ser apagado por um soco bem dado.
Pude imaginar a confusão na cabeça do traste pelo quanto ele arregalou os olhos... "that's life kid" uma hora vc bate, todas as outras vc apanha.
A moça foi para trás, mãos estendidas, como se buscasse abrigo para entender o que acontecia. Ele de pé, estático, na minha frente fez o alvo para a mão direta. Em uma luta mão que bate retorna para a linha do queixo protegendo o rosto, numa briga você sobe mais, mais fechado consegue proteger a fronte, interessante porque golpes aí podem matar.
O gancho de direita vai swingado, costela, ele sentiu fundo e soprou o ar pra fora como quem sopra um dente de leão na primavera europeia... ok... talvez não tenha sido tão doce.
As vezes a adrenalina bate, ela faz milagres. Olhando pro chão, de pé, curvado pela falta de ar ele lança a mão para o meu rosto, não bem um soco, não mal um tapa, esquivo, acerta a minha orelha, ouço um som agudo, familiar de se levar porrada do lado do rosto, tô tranquilo, sorrio, afinal, que graça tem lutar sem apanhar pelo menos um pouco? É pra parar de se besta!
Esquerda de novo, menos rápida, mais potente, giro o quadro, gancho na ponta do queixo, chão, talvez um pedaço de dente a menos.... Lembrei do mestre. Não brigue na rua jamais!! Mas se tiver que brigar, enlouqueça!
Eu não pirei, não apanhei, fui o cirúrgico efeito surpresa, tomei um meio tapa, acontece, agora de volta a vida real de ter tomado a decisão estúpida de atacar um estranho que pode estar armado esperando eu virar de costas pra me dar onze tiros.
Ele dormiu, o sonho dos anjos junto a sarjeta veio acompanhado do gosto de ferro do sangue, dormiu pesado. A cena de um cara desconhecido caído aos meus pés depois da luta me é tão familiar quanto estar caído no ringue, aos pés de um cara desconhecido depois de ter sido vencido. Não teria juiz dessa vez.
A moça tenta me agradecer mais de uma vez, não sabe bem como, e eu não a culpo.
"Ei, fica tranquila, não precisa agradecer... Só se cuida"
Subo na moto e acelero pra casa, a porta da garagem fechada é a prova da minha segurança, vou pro banheiro sentir o leve ardor do sabonete nos arranhados da mão, limpo o sangue, seco a mão na toalha. Confiro a dor no pescoço que vinha comigo desde sexta, quando passaram um rolo compressor sobre mim no treino e descubro que ela não está mais lá.
Talvez eu precisasse daquilo mais do que a donzela em apuros.
Vou dormir o sono dos justos, dos vencedores, dos que sonham.
"O mal só prevalece quando o bem não faz nada"
—Lutador
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