Viagens
1 Prólogo - Já é Quase Meia Noite
Notas iniciais

São Paulo. Brasil. Terra. Cosmus.
31 de dezembro de 2013. 23h58min.
Em uma casa simples e comum, a família Guanetti estava celebrando a virada de ano. Parentes e amigos, próximos e distantes, vieram festejar, rever o pessoal e se aproveitar da comida e bebida. Alguns se encontravam na sala, sentados no sofá, rindo e conversando, ou até mesmo de pé, sendo, vez ou outra, empurrados por uma das crianças que corriam pela casa toda. Outros se encontravam na cozinha, comendo e bebendo à vontade e perguntando “De quem é essa torta?" ou "Como está bom o bolo, não é?". Todos estavam alegres e ansiosos pelo ano novo que logo iria chegar. Exceto Marcos.
O adolescente de 15 anos estava em seu quarto, preocupado com outros assuntos que não permitiam tempo para comemorações. Os presentes das últimas festividades estavam ainda embrulhados ao redor do garoto e logo iriam, assim como os mais antigos, para o quartinho – um pequeno cômodo, no fundo da casa, reservado para guardar qualquer coisa que fosse 'boa demais para jogar fora e ruim demais pra ficar dentro de casa', como sua mãe sempre diz.
Os cabelos, castanhos e ondulados, caiam sobre os belos olhos cor de mel do garoto, lembrando-o de que já havia marcado de ir ao cabeleireiro na próxima sexta-feira. Usava uma roupa clara, como manda a tradição, e estava sentado em sua cama. Em suas mãos estava seu bem mais preciso: uma velha caixa de madeira nas dimensões de uma folha de papel e com pouco menos de 10 cm de altura. Quase ninguém sabia da existência da caixa, apenas duas pessoas: André, seu melhor amigo, e Cappy, uma grande "amiga". Ali estavam guardados alguns instrumentos antigos: um canivete suíço, um binóculo pequeno e uma antiga folha de papel dobrada já amarelada, sem nada. As únicas lembranças sólidas de seu avô, que foi dado como desaparecido no fim de ano de 2011. Também havia um anel prateado simples e uma pétala seca de rosa. Lembranças, essas, de sua amiga Cappy. Marcos tinha certo carinho especial por ela desde que se conheceram, no fim de 2012.
Creio que nesse ponto, você já possa ter descoberto o motivo dele estar tão preocupado. O suor frio escorria de sua cabeça e deslizava por sua pele clara até o pescoço. A respiração ofegante e o coração acelerado eram outros sintomas de seu evidente nervosismo. Todo ano, mais especificamente na virada, algo acontecia. Não algo simples, mas algo extraordinariamente surreal. As lembranças dos anos passados surgiam junto com o medo. Lembrou-se de oito anos atrás, com sete anos de idade, quando às 0h, no início do ano de 2006, avistara ao longe uma silhueta de lobo do tamanho de uma picape. Também se lembrou de como todos o chamaram de criança quando, já com 12 anos, contou-lhes que havia uma moça verde em casa. Não queria passar por isso novamente então se trancou no quarto. Mas isso não o ajudou a amenizar seu medo.
Agora faltava apenas um minuto. Todos na casa se dirigiam para o quintal a fim de apreciar o show dos fogos iluminando o céu nublado. Nas mãos de Marcos, a velha caixa parecia tremer por conta própria. Seus dedos se agitavam. O coração pulava. Seus pés formigavam. Uma vontade imensa de gritar invadia o peito. Algo iria acontecer, sem dúvida. Mas o que seria? Não havia palpites. Ele só tinha a certeza de que dessa vez seria muito maior. Estava atento a qualquer movimento. Ainda se ouviam risadas e todo o barulho característico de uma festa de fim de ano. Os últimos segundos. Mas para Marcos, nada daquilo importava. Cinco... Era possível ouvir a contagem regressiva nitidamente. Quatro... Seus olhos estavam fixos no relógio da parede; o ponteiro mais veloz se aproximava do grande número 12. Três... Faltava pouco. Muito pouco. Dois...Seus olhos se fecharam involuntariamente temendo e tentando evitar sem êxito o que estaria para acontecer. Um... Era agora, a grande virada.
Zero!
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