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4 Capítulo 3 - Escape Mortal
Notas iniciais

Cappy aprendera a matar quando ainda era uma criança e desde então nunca mais parou. A garota com roupagens vermelhas descia a passos rápidos uma das ruas perpendiculares à Rua Gregório e não sabia exatamente o que a aguardava embora já tivesse ouvido uns poucos boatos sobre eles.
Os R-CET. Seres mecânicos responsáveis pelo Controle Espaço-Temporal, criados desde os primórdios da existência do planeta azul têm como função impedir qualquer anomalia no plano terráqueo. Os humanos comuns ainda não estavam preparados para a infinita realidade que os cercava e o objetivo daquelas máquinas era garantir que tudo continuasse normal para esses serzinhos, mesmo que isso significasse morte ou destruição.
A rua estava escura e os poucos carros estacionados eram iluminados pela fraca luz amarelada vinda dos postes que ainda funcionavam. Sem movimentação alguma, todos os habitantes da pequena cidade do interior de São Paulo festejavam em suas respectivas casas enquanto a transeunte rubra corria pelo asfalto mal pavimentado.
Apressada, tentava ao máximo fugir do confronto. Não que tivesse medo, nunca temera uma batalha por mais difícil que fosse. Fugia por responsabilidade, queria dar o máximo de segurança e tempo para que seus amigos conseguissem se salvar. Embora preferisse enfrentar os adversários prontamente, sabia que o melhor naquela situação era evitá-los para não causar piores consequências. Desde sua infância, aprendera da pior maneira sobre a Morte e isso a fez não querer passar pela mesma cena novamente. Não podia deixar que mais alguém se machucasse às suas custas e por isso se apresentou, sendo a mais preparada para enfrentar aquilo que a aguardava. Ela não gostava de falar sobre o que a transformara naquele monstro, mas as lembranças nunca a abandonaram. Não queria. Ela as usava como encorajamento para tudo o que tinha que fazer. Eram seu suporte e ali estavam novamente.
As mãos fechadas com força e os lábios vermelhos cerrados por debaixo do capuz externavam a raiva que sentia. Raiva pelo o que acontecera há quase dez anos atrás. Raiva por tudo aquilo que passou e por tudo aquilo que sabia que ainda teria que passar. Por todos aqueles olhares assombrados voltados para ela. Todos que a viram a odiaram por medo. Não. Não todos. Não Merly. A velha amiga foi a única que conseguiu ver além dos seus olhos sanguinários. Cappy nunca seria capaz de demonstrar tamanha gratidão.
Foi quando tinha sete anos. Aquilo que mudou sua vida completamente tinha acabado de acontecer. A garota de cabelos escuros estava escondida na floresta nevada, soluçando sentada entre as árvores, tentando se perder de tudo e de todos. Os olhos avermelhados de tanto chorar. A boca aberta por conta das narinas obstruídas exalava o ar gélido de forma vacilante. As lágrimas ainda escorriam por seu rosto deixando um caminho frio em suas maçãs por baixo do capuz branco, agora manchado de vermelho. Queria enxugá-las, mas as mãos inundadas de sangue não permitiam. E aí ela apareceu. Uma menina com cerca de dezesseis anos, cabelos loiros quase brancos, grandes olhos azuis brilhantes e um sorriso afetuoso surgiu na Floresta Solitária de Azzarin, limpou o rosto molhado da pequena, pegou em suas mãos sujas e a levou em direção ao seu destino. Souberam desde então que estariam juntas até o fim. Cappy só esperava que esse fim demorasse um pouco mais para chegar.
Seus passos continuavam velozes, porém, não importava o quanto andasse, ela seria alcançada. Ninguém nunca conseguiu escapar de um R-CET por conta própria e essa com certeza não seria a primeira vez. O som de passos ferrosos fazendo rápidostec-tecscontra o asfalto já podia ser ouvido e estava cada vez mais perto. A menina fez um movimento com o punho e um arco prateado em forma de lua crescente materializou-se em suas mãos. Seus ouvidos apurados como os de um lobo pressentiam o perigo e três dedos da mão direita puxaram a corda quase invisível da arma fazendo surgir uma flecha vermelha tremulante. Já devia estar a uma distância segura. Ela se dirigiu até o canto mais escuro da rua e se agachou entre uma árvore e um poste quebrado, podendo ver pela lateral de um carro qualquer estacionado à frente. Não era o melhor esconderijo, mas era tudo o que precisava, pelo menos até se livrar dos primeiros robôs.
O som apontava que estavam bem próximos. O ritmo dos passos diminuiu, provavelmente devem ter percebido algo. Foi então que ela a viu pela primeira vez: uma criatura do tamanho de um cachorro grande apareceu em sua frente, mas não aparentou notar sua presença. Nunca tinha visto nada como aquilo. Tinha uma forma aracnoide, com seis patas revestidas de um brilho metálico e um farol azul iluminando na frente, como um olho, observando o fim da rua. Superiormente, uma espécie de carapaça mineral em roxo escuro trazia espinhos para uma maior defesa do bicho.
A lua nova não podia ser vista, mas seu intenso poder era sentido. Com a flecha preparada, ela mirou precisamente; prendeu a respiração e lançou. Em outra fera ou máquina qualquer, aquele ataque teria sido fatal, mas aquelas coisas ou eram muito resistentes ou simplesmente invencíveis, e Cappy acabara de descobrir isso de uma maneira nada agradável. A flecha cor de sangue apenas servira para produzir poucas faíscas e revelar sua posição. O bicho virou o seu farol frontal para ela e então o voltou para cima alternando entre vermelho e azul enquanto emitia um som mecânico agudo, chamando seus companheiros. Mais flechas foram lançadas rapidamente, mas foram inefetivas como a primeira. A garota não perdeu mais tempo, se levantou rapidamente e começou a correr rua abaixo tentando pensar em alguma forma de se salvar, já que o combate não seria uma opção.
Corria com o arco em mãos o mais rápido que podia. Virou algumas ruas na tentativa de despistar os animais robóticos, mas foi inútil. Aqueles não eram inimigos como os outros que já enfrentara — e eram muitos os que já tinham se curvado perante a Filha da Lua. Dezenas, talvez centenas de passinhos estavam se aproximando rapidamente. Os olhos de rubi olharam para trás por cima da capa vermelha e puderam ver ao longe um mar de aranhinhas perseguindo-a, tentando executá-la. Aquelas coisas foram programadas para manter a normalidade na Terra e naquele momento ela era a anomalia e tinha que ser eliminada.
Numa tentativa de se esquivar do rumo das máquinas, a moça de carmim virou à direita em uma encruzilhada, mas isso só serviu para perder algum tempo de vantagem, pois outra frente de inimigos, idêntica à primeira, se apresentava ao final do caminho escolhido. Tentou voltar atrás, mas agora já era tarde e ela estava no centro do ataque. Das quatro ruas que a cercavam apareciam hordas de aracnídeos ferrosos com um único objetivo: matá-la.
Esperou alguns segundos, fechou os olhos, respirou fundo, e quando os R-CET estavam prestes a por suas garras nela, num pulo acrobático, Cappy saltou para trás por cima das máquinas, atirando flechas que apenas tinham o impacto absorvido. Caindo sobre os cascos espinhosos, começou a correr até atingir o solo urbano e não parou. As criaturas não perderam tempo e continuaram sua perseguição. Apesar da agilidade da menina, o extenso rio mecânico era mais rápido e logo estaria novamente em cima dela.
Sempre afirmara que era melhor usar força e táticas físicas do que se aproveitar da magia, mesmo que esta estivesse impregnada nela em grande escala. Porém, aquele momento necessitava de medidas desesperadas. Ela se virou para trás, na direção de seus resistentes adversários, levantou o arco e em um grito de fúria fincou-o no chão. A arma brilhou de forma intensa e então uma onda de luz pulsou, arremessando as aranhas pelo ar. As ondas compassadas jogavam os bichos mais próximos a vários metros de distância, mas mesmo assim eles continuaram vindo, se aproximando aos poucos nos intervalos entre uma pulsação e outra. Aquilo não fazia dano algum, mas desse modo ganharia um pouco de tempo.
A garota aproveitou que estavam ocupados e se pôs novamente a correr. Seguiu reto por um momento e então começou a ziguezaguear por entre as ruas da pequena cidade. Por instantes chegou a acreditar que conseguiria despistá-los, mas a deviam estar vigiando, pois logo se ouviu novamente o som dos passinhos de ferro anunciando que haviam vencido a barreira pulsante. Como tudo que já está ruim pode piorar, numa curva errônea Cappy se achou de frente para uma rua sem saída. Parece que o acaso e o destino estavam aliados àqueles seres mecânicos.
Quando voltou-se para trás, o batalhão robótico já havia se mostrado. A menina se espremeu contra o prédio no fim da rua e invocou seu arco que rapidamente sublimou em sua mão. Ela o ergueu em direção aos céus e a lua emitiu uma luz prateada em sua direção transformando a arma em um véu iluminado que a cobriu como uma redoma suspensa no ar. Os R-CET estavam a poucos metros de distância, mas quando chegaram perto foram barrados por aquela espécie de escudo luminoso que acobertava a menina. Era uma boa defesa, mas não duraria para sempre. Embora fossem apenas máquinas, aqueles adversários pensavam e eram bastante espertos. Logo perceberam que tal cobertura era sustentada pelo brilho lunar e começaram a agir. Barulho de metal com metal e o giro de engrenagens era ouvido enquanto alguns aracnoides se uniam e formavam uma barreira horizontal de ferro. Os faróis, agora voltados para baixo, começaram a emitir um brilho quente e a soltar algo parecido com chamas azuladas. Em poucos segundos aquela parede estava fora do solo e se deslocava no ar na tentativa de bloquear o brilho do luar.
A heroína sabia que quando isso acontecesse sua defesa estaria arruinada. Só existia uma forma de sair dali sem perder a honra. Ela tentava evitar isso a qualquer custo, mas naquela situação era a única solução. Praguejando ela levanta a capa vermelha e pega uma adaga feita de uma única peça de prata. Fecha os olhos hesitante, levanta o punhal e o encrava no meio do peito soltando um inaudível grito abafado. A dor da arma presa em seu tórax faz com que suas pernas oscilem e ela cai de joelhos no chão. As duas mãos molhadas pelo próprio sangue procuram apoio no solo deixando a peça ainda fincada em seu colo. O arrependimento bateu em seu coração estacado. Queria voltar atrás, mas agora era muito tarde. Não tinha mais nada a fazer. Matou tantos em vida e agora matara a si mesma. Em poucos segundos não haveria mais nenhuma garota ali.
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