Viagens

2 Capítulo 1 - Vermelho Como Sangue


Notas iniciais
Agradeço já por ter escolhido esta leitura! Peço, por favor, se possível, que deixe no final um comentário dizendo o que achou do capítulo, mesmo que seja para escrever uma ou duas únicas palavras. P.s.: Eu sempre respondo! Obrigado, e boa viagem!

São Paulo. Brasil. Terra. Cosmus.
01 de janeiro de 2014. 00h00min.

Alguém bateu na porta bruscamente. Marcos, assustado, ainda estava na cama à frente da entrada; paralisado, sem reação. Quem ou o que poderia ser? Ele já se preparava para o pior embora não tivesse ideia do que o estaria aguardando. O medo infestava seu corpo e junto dele a curiosidade. O que o aguardava por detrás da porta? Bom ou ruim? A questão lhe invadia a mente sem pedir licença, apenas se intrometendo e se acomodando em algum lugar bem exposto, de modo que não havia escolha a não ser encará-la.

Novamente batem na porta, dessa vez com mais força. Começam a virar a maçaneta. Seja o que for, está com pressa e está entrando. O garoto se espreme contra a parede, tentando fugir do inevitável. Mesmo que o menino tivesse a certeza de que estava trancada, a porta se abre e surge nas sombras uma tenebrosa criatura cor de sangue. O coração de Marcos dispara, mas então logo se acalma ao perceber que à entrada do quarto a figura que se apresenta é apenas sua amiga Cappy usando o que parecia ser um capuz vermelho que se estendia numa capa da mesma cor indo de suas costas até o chão. "Talvez esse ano a 'tradição' se quebre!" pensou o garoto. Mas estava errado e logo percebeu, pois na face da amiga, havia uma expressão diferente de tudo o que já vira.

Uma face nova e sombria predominava onde antes havia apenas alegria e sorrisos. No rosto, a pele debaixo daquele capuz parecia completamente sem cor; branca como a própria lua. Os lábios, tingidos num vermelho vivo imponente. Os olhos, emitindo sua própria luz, destacavam-se: completamente vermelhos, como o sangue de uma fera abatida. Os cabelos, ainda negros como a própria noite, caiam em suaves ondas pelo dorso da garota. Por debaixo do capuz escarlate, vestia uma camiseta de manga comprida branca e uma calça jeans simples. Cappy emitia uma beleza diferente e arrebatadora, porém, estava definitivamente estranha. Mas por quê? Era o que Marcos queria saber, apesar do medo.

— Cappy! — começou o menino. — Você está... Diferente. Aconteceu alguma coisa?

— Sem tempo para perguntas, garoto. Vamos. Temos de sair agora! Merly não vai aguentar por muito tempo.

— Como assim vamos? Pra onde? — mal terminou a frase e Cappy o agarrou e puxou-lhe o braço grosseiramente, pondo-se a caminho de onde quer que fosse o seu destino.

Partiram pela porta do quarto e passaram pela sala em direção à saída. Quando chegaram ao quintal, a garota parou e ficou examinando todo o local, como se procurasse alguma coisa. Seus amigos e familiares que saíram para apreciar a apresentação noturna estavam admirados, absortos em todo aquele show de fogos no céu, típico da festividade. Também se cumprimentavam, desejando um feliz ano novo e muitas felicidades.

Porém, algo sobrenatural estava acontecendo: não havia sons! Sem barulho dos fogos, ou gritos, ou "Feliz ano novo!". Nada! Apenas o silêncio. Marcos percebeu também que tudo, menos ele e Cappy, agora parecia envolvido por uma camada azul, gélida e estática. Até onde a vista alcançava, tudo parecia estar vestindo tons cor-do-céu. Pessoas, prédios, o próprio chão, tudo parecia imerso nessa atmosfera monocolor. Apenas os dois companheiros estavam em suas próprias cores.

— Vamos ter que dar a volta. — disse Cappy retomando o passo, contornando o grupo de pessoas no centro do quintal.

Quando já estavam perto da saída, Marcos não pode evitar dar uma última olhada nos familiares, principalmente em seus pais. Porém, tudo parecia tão sem graça e mórbido quando envolto naquela camada azulada, que o garoto quase se sentiu bem em estar "fugindo" (era o que parecia) com Cappy. A garota agora abrira o portão com cuidado e estava saindo para a rua. Todas aquelas pessoas envoltas nesse azul pareciam não perceber a cena que ocorria logo à frente: dois adolescentes saindo de casa, desacompanhados e sem permissão, no início da madrugada. A camada monocromática que pairava sobre todos, e parecia tapar a visão dos outros, ressaltava os misteriosos olhos vermelhos da garota.

— Não olhe nos olhos. — alertou Cappy, irrompendo do silêncio.

— O que? Não! Eu não estava...

— Não digo os meus! Os deles! Não olhe nos olhos deles.

— Ah! Mas por quê?

— Depois Merly te explica tudo. Vamos, nosso tempo está acabando. Logo eles estarão aqui.

Lá fora, tudo continuava no simples azul. Eles seguiam a Rua Gregório, apressados, até que Marcos viu, um pouco mais adiante, seu amigo André caminhando rua abaixo, provavelmente esperando encontrar o amigo em casa para desejar-lhe um feliz ano novo. Seus pais, dois grandes empresários, estavamatolados no serviço – como disseram – e não poderiam se dar a honra de participar de quaisquer eventos comemorativos novamente. Até tentara participar de uma festa com os colegas da escola, mas nunca fora alguém carismático e não suportava multidões. Por isso, ficou lá por pouco tempo e depois que o ano novo chegou resolveu visitar seu único verdadeiro amigo, Marcos.

Os belos cabelos dourados de André estavam azuis como todo o resto e ele parecia não ver as duas figuras andando em sentido contrário. Andava com uma expressão desconsolada, tipo de expressão que esconderia se soubesse que alguém estava por perto. Marcos, ao ver o rosto triste do amigo, pensou em tentar ajudá-lo e assim cometeu o grande erro de olhar em seus olhos. Foi então que o tom azul do garoto se dissolveu e sua cor normal retornou. Na visão do garoto loiro, tudo mudou: o mundo agora estava nesse tom azul e surgiram, de repente, bem na sua frente, Marcos e Cappy. André não pôde se conter e soltou um berro de surpresa ao ver os dois amigos.

— Eu mandei você não olhar nos olhos de ninguém! — exclamou Cappy, revoltada.

— Desculpa! Como eu iria saber que isso aconteceria? Você não me disse que ele iria se... Se dasazular! Além disso, ele é meu amigo. Nosso amigo! E se vamos para algum lugar ele deveria, no mínimo, saber.

— Marcos? Cappy? O que aconteceu contigo? E por que está tudo azul?

— Perfeito! Como se já não bastasse umcósmico, agora tenho doispra tomar conta!

— Dois o quê? O que vocês estão falando? Alguém me explica alguma coisa, por favor!

Porém, antes que André recebesse resposta para qualquer uma de suas perguntas, já estava sendo arrastando por Cappy, assim como o amigo. Continuaram caminhando rua acima até que chegaram num campo aberto. Não havia nada no quarteirão inteiro, apenas o gramado. A menina sabia para onde ia, porém, a situação era diferente para os dois garotos. Ser arrastado à força pela amiga estranha até um campo não estava nos planos deles. Continuaram andando e quando estavam chegando perto do centro do campo, a garota de vermelho começou a gritar para o nada:

— Merly! Merly! Chegamos! Estamos aqui! Podemos acabar com isso!

André e Marcos se olharam com uma expressão de espanto e curiosidade, como perguntassem se sua amiga havia enlouquecido. Primeiro arrasta os dois garotos para um campo vazio em trajes estranhos e macabros e depois começa a falar sozinha! Mas tudo estava para ficar mais estranho. No meio daquela imensidão azul, um sorriso muito branco apareceu no meio do nada. Se você já viu um pedaço de papel pegando fogo, entenderá o que aconteceu a seguir. Como uma pequena chama num pedaço de jornal que vai crescendo até que tudo se torne cinzas, uma pequena fagulha de cor branca que se iniciou naquele sorriso no meio do nada se expandiu, revelando um rosto, depois um tronco feminino e então braços e pernas.

Os garotos agora podiam ver a figura, de mãos erguidas ao céu, projetada logo à frente. Era uma garota de pele clara e cabelos loiros, quase brancos, presos num rabo de cavalo, usava um vestido azul brilhante com detalhes em branco. O sorriso desapareceu do rosto da garota ao mesmo tempo em que os seus olhos se abriram emitindo uma luz branca muito forte, como faróis. As mãos erguidas se fecharam, como se tentasse pegar a leve brisa noturna e tudo agora estava normal. As cores encheram o ambiente. Mesmo em meio à luz amarelada dos postes da rua, tudo agora parecia mais vivo e colorido quando comparados com a estática atmosfera azul. Ao longe, uma sirene policial mostrava que os sons também haviam retornado. Tudo como deveria ser.

— Ufa! Finalmente! — disse a garota de azul ofegante, deixando os braços caírem e abrindo seus belos olhos azuis, o misterioso brilho havia cessado — Se demorassem mais um pouco, acho que não iria aguentar!

— Quais são os parâmetros de P.I.T.E.? — perguntou Cappy, dando início a uma conversa nem um pouco normal.

— Marcos, — sussurrou André, se aproveitando do tempo de distração das garotas — o que aconteceu com a Cappy? E quem é essa de azul? E como vocês apareceram do nada? E quem é esse tal de Pitty?

— Não me pergunte. Eu só sei o que você sabe, cara.

— E eu só sei que quero sair daqui o quanto antes!

— Nem pensem nisso! — interveio Cappy, se aproximando com a garota de azul ao seu lado — Garotos, essa é Merly. Merly esse é Marcos Guanetti, o Grande, e seu amigo.

— Por Merlin! Não acredito que possa ser ele! É uma honra pra mim, poder conhecê-lo e servir contigo, Grande. — a alegria e animação de Merly eram evidentes.

— Tá legal. Alguém poderia me responder algumas perguntas?

— Não se preocupe, Grande. Prometo responder-lhe todas as suas questões assim que possível. Se tudo ocorrer bem, ainda andaremos juntos por muito tempo. Mas agora temos de nos apressar. O Velho Carvalho nos espera.

— Vamos parar de papo e continuar com o que interessa. É o seguinte, Merly só poderá levar três de nós para Heliar e logo os R-CET estarão aqui. Como sou a mais preparada, eu ficarei e tentarei aguentar o máximo possível. Chegando em Yocä vocês devem ajudar Merly a ir para a Central de Magia. Daí pra frente, eu espero já estar com vocês.

— Eu realmente não entendi galhadas do que você falou. — disse André.

— Eu não esperava que entendessem. Tenho que ir agora.

— Boa sorte, cara amiga. Sobreviva! — gritou Merly, sorrindo como se fosse uma piada antiga que só as duas entendiam enquanto Cappy corria para uma das ruas e desaparecia na escuridão.

Num campo vazio, no final da Rua Gregório, estavam dois amigos e uma garota desconhecida. Mais um final de ano normal para o jovem Guanetti.

Notas finais
Muito obrigado pela leitura! Espero que tenha gostado! Deixe seu comentário dizendo sobre o que achou da leitura e do que espera para sua continuação. Respondo SEMPRE a TODOS os comentários! Os comentários são combustível para eu continuar escrevendo, então me ajude a continuar e mostre a história para que seus amigos também possam participar. Muito Grato!