Viagem para a perdição
8 O dono chegou
Versão – Iasmim
– Iasmin, vamos nos esconder debaixo dessa mesa. – disse Marcelo perto dos meus ouvidos – e não vai dar para nos ver porque o pano toca até o chão.
– Verdade, vamos...
Eu e Marcelo nos agachamos e ficamos debaixo da mesa. Não conseguíamos ver nada pelo pano, só podíamos ver borrado. Nós ficamos em silêncio total ouvindo os passos que iam diminuindo por um tempo, ficamos tranquilo e suspiramos, mas de repente o som dos passos veio se aproximando, a pessoa iria entrar na cozinha.
– Ai meu Deus vão nos achar – Marcelo começou a tremer.
Eu bati em suas costas suavemente que logo olhou pra mim e acabei colocando o dedo na boca, avisando para ficar em silêncio. Nós nos olhamos e depois focamos o olhar para a porta, ela se abriu lentamente e vimos duas pernas, andavam lentamente.
Marcelo ia falando alguma coisa mas consegui colocar a mão em sua boca, mesmo assim acabou fazendo um barulhinho de tapa. As pernas, que estavam de costas, agora viram para a direção da gente. Ela vai se aproximando cada vez mais, se dobram e aparece uma mão no pano, estava se preparando para puxar o pano da mesa.
– É agora...- disse Marcelo bem baixo, quase não conseguia ouvir.
As mãos puxam o pano e vimos o rosto da pessoa. Ela nos encontrou.
Versão – Lucas
Eu andei adiante para o barranco e olhei para baixo, por sorte Taine estava segurando um galho que estava preso no barranco.
– Taine, segura aqui! – ergui o meu braço para ela agarrar.
– Não! – disse ela segurando com a maior força no galho – me deixa...eu me viro sozinha.
– Pelo amor de Deus Taine, deixa de orgulho – me deitei para meu braço ir o mais perto possível dela – rápido pegue na minha mão.
Taine não me respondeu e olhou para baixo, olhei também para baixo e percebi que só tinham árvores e algumas matas com espinhas, a altura de onde estava até lá era de uns 20 metros, perigo total.
– Taine, se não quer minha ajuda, então se vire, você que pediu...- me levantei e fiquei a olhando, estava desesperado para ajudá-la, mas ela rejeitava a todo momento e tinha cansado disso. Do nada ouvi um som de “galho quebrando”, Taine agora pedia socorro.
– Pelo amor de Deus, Lucas me ajuda! – gritava ela querendo se aproximar de onde estava.
Me deitei novamente o mais rápido possível, forcei o meu braço para perto dela, Taine forçou o seu braço esquerdo para alcançar a minha e quando tocamos nossos dedos o galho quebrou totalmente. Nossas mãos se separaram e a vi caindo, parecia cair de um prédio. Gritei que nem um louco e tampei os meus olhos. Ouvi um som abafado, Taine chegou ao chão.
Versão – Talita
Eu e Michel conseguimos voltar para onde a turma tinha se separado, começamos a seguir um caminho reto e avistamos uma casa, chegamos lá e vimos Taiane sentada numa cadeira de balanço.
– Taiane, Taiane você tá bem? – disse Michel que mexia no corpo dela para tentar acordar.
– Ela está dormindo Michel, com certeza Iasmim e Marcelo devem estar por aí...
Michel olhou para mim por uns segundos e disse: — Onde será que estão Talita? – me olhava com uma cara de safado.
– Devem estar dentro da casa né Michel...vai lá dentro que eu tento acordar a Taiane.
Michel concordou e entrou na casa. Eu olhei para Taiane e percebi que ela estava querendo abrir os olhos.
– Taiane, está me ouvindo?
– Talita...onde estamos? Já chegamos na praia? – disse Taiane meio confusa, ainda estava pálida.
– Não Taiane, tivemos aquele acidente no ônibus. Você não lembra?
– Ai é....- ela parecia confusa – morreram muitos...também morreu a...- ela começou a chorar – a Laura...
Por um momento quase comecei a chorar com ela, eu tinha até esquecido que muita gente que conhecíamos tinha morrido, mas não podia ficar lamentando, tinha que sair desse inferno.
Meu pensamento foi interrompido com as vozes que saiam da casa.
Versão – Michel
– Gente o que vocês faziam debaixo daquela mesa? – perguntei a Marcelo e Iasmim.
– Pensamos que era o morador da casa...
– Hum...sei não — respondi.
Michel, esse não é o momento para brincadeiras...– disse Iasmim, que logo olhou para Talita e correu em direção a ela – como está Taiane Talita? Ela piorou?
– Não Iasmim, ela está ficando melhor, ela acordou mas parece que está delirando um pouquinho nas ideias.
Taiane apontou para a casa e falou bagunçando um pouco a fala: — Porque...porque estamos na roça? eu quero a praia!
– Pelo menos está acordada...- eu disse.
Marcelo se aproximou da turma e lembrou: — Gente, na cozinha tem dipirona, vou pegar para Taiane...- olhou para mim e Talita — e também tem uns pãezinhos na manteiga, que está uma delícia que só.
– Então vou com você Marcelo, preciso acabar com minha fome – disse entrando com Marcelo. Talita e Iasmim entraram com a gente e seguimos até a cozinha. Pegamos os pães e começamos a comer, estava uma delícia.
– Que maravilha...- disse Talita – posso ficar sem comer agora por três dias, minha barriga tá toda inchada.
– Gente...- eu disse mastigando – esquecemos a Taiane lá fora.
– E temos que levar o remédio para ela – lembrou Iasmim – pelo menos para cessar aquela loucura dela...
Marcelo pegou o remédio na prateleira e eu peguei a água, todos foram indo em direção a sala, quando íamos sair, ouvimos o som roco de um homem cantando a música de Chapeuzinho vermelho “Pela estrada a fora”.
– Gente saiam da frente da porta! – disse Marcelo, se encostando na parede.
Todos nós começamos a andar silenciosamente até a parede para nos encostar, ficamos em fila. Iasmim parou de frente para a janela.
– Se abaixa, Iasmim! – Sussurrou Talita.
Iasmim se ajoelhou. Marcelo estava mais próximo da porta, ele ergueu sua cabeça lentamente para o canto da porta para ver quem era.
– Gente, eu não tô vendo ninguém! — fala Marcelo tentando olhar direito novamente, mas sem sucesso.
Olhei para Iasmim e disse: — Tenta olhar pela janela Iasmim, com cuidado!
– Mas se ele me ver? – disse ela com medo – gente não quero fazer isso.
– Olha Iasmim, você tá mais perto da janela, e não é bom nos mexermos agora. – respondi.
–Está bem...-
Iasmim se levanta na maior calma e olha pela janela, alguns segundos depois ela põe a mão em sua boca e dá um grito abafado. Talita a pegou pelo braço e puxou ela de volta para perto dela.
– O que foi Iasmim? Tá ficando louca? Quer que nos veja? – disse Talita.
Iasmim estava chorando fixando o olhar para o nada, parecia estar traumatizada com o que viu...
– O que aconteceu? O que você viu? – perguntei.
– Tem um homem...- ela engoliu em seco – apertando o pescoço de Taiane... – todo mundo olhou pra Iasmim – ele está matando Taiane! – gritou Iasmim.
Agora o homem com certeza ouviu os prantos de Iasmim.
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