O ônibus estava prestes a cair, e todos que estavam dentro tentavam escapar. Eu só conseguia olhar o rio pela ribanceira, estava tudo acabado pra mim, até eu ouvir o grito de Marcelo.

– Gente passem por esse vidro da janela, eu consegui abrir! – disse ele.

De repente todo mundo foi em direção aquela janela, ninguém iria conseguir sair daquele jeito, um querendo ir antes do outro. Eu me afastei daquela multidão e fui tentar abrir as outras janelas, foi em vão. Fiquei desesperado e fui para o banheiro me afastar daquela agonia, nunca pensei que essa viagem acabaria daquele jeito.

Minhas lamentações cessaram quando vi uma janelinha de vidro acima do vaso sanitário, era esquisito, como pode ter uma janela dentro de um banheiro? Era uma coisa tão sem lógica, que eu até entendi de ninguém ter buscado socorro ali dentro. Abaixei a tampa do vaso e subi em cima, puxei com força a janelinha que logo abriu, exagerei tanto na força que quase quebrei, mas pensei que não ia conseguir abrir, pensei que ia ser duro que nem as outras janelinhas do ônibus.

Cheguei na porta e avistei muita gente ainda em cima daquela janela querendo sair, e bem no fundo vi a Iasmin e comecei a fazer um barulhinho para chamar a atenção dela. “Psiu! Psiiiiu!” , na segunda chamada Iasmin olhou pra mim, e eu fiz sinal para que ela fosse em minha direção, e obviamente ela chamou Lucas e Taine no meio da confusão para acompanha-la.

– Gente, passem por aqui – disse para eles – rápido! Esse ônibus vai cair!

Primeiro quem saiu foi o Lucas, que na mesma hora foi para o lado onde estava a outra janela no meio do ônibus para ajudar quem estava saindo por lá. Depois saiu Taine, mas dessa vez ela ficou nos esperando sair do lado de fora.

– Vai Iasmin, sua vez rápido – nessa hora o ônibus escorregou com mais força – rápido vai!

– Michel eu tenho que chamar a Taiane – disse chorando – sai agora que vou chama-la.

Não falei nada, naquele momento eu só queria escapar, era o extinto de sobrevivência no meu sangue, mas até nessas horas Iasmin soube ser bondosa e eu não podia impedi-la. Subi em cima do vaso e passei pela janela.

– Lucas. – Gritei indo em direção a ele. – Iasmin foi chamar a Taiane, não quis sair!

– Mas eu já escapei Michel. – disse Taiane, estava com uma cara de maior desespero, percebi que não conseguia chorar.

–Meu Deus, ela está te procurando em vão! – disse Lucas, ajudando a tirar Talita de dentro do ônibus.

Olhei para a pista e não vi nenhum movimento.

– Meu Deus, como nessa hora ninguém passa para ajudar, ninguém!

– Deve ser porque é 6 da manhã ainda né Michel... – disse Taine.

Nesse mesmo instante ouvi um barulho de estrondo. O ônibus estava escorregando para cair, descia agora sem parar. Os gritos que já eram alto, agora foi de ensurdecer.

Corri em direção a janela do banheiro e comecei a gritar pelo nome de Iasmin, não tive nenhuma resposta.

– Iasmin deve ter se apertado no meio daquela multidão, mal dá para andar ali. – disse Taine.

– Sem falar que ela está procurando a Taiane sem parar, sabe como ela é... – respondi.

Quando ia desistindo Iasmin grita:

– Michel, eu não encontrei Taiane!

– Ela já está aqui fora Iasmin, pelo amor de Deus sai daí, que o ônibus vai cair agora. – gritei desesperado.

Quando Iasmin botou suas mãos na janela o ônibus desceu a ribanceira.

– Nãaaaaooo.... – gritei

Taine se ajoelha no chão e grita:

– Iasmiiiiinn!!!

Avistei Iasmin soltando a janela e sumindo de dentro do ônibus, que logo se deitou lateralmente no meio da ribanceira causando maior barulho na área, foi escorregando que nem skate até pousar no rio. Ainda dava para ouvir os gritos de longe.

De repente lembrei que meu pai pescava por aquela área, e que tinha me falado que aquele canal do rio era muito fundo.

– Meu Deus vai afundar! – gritou Taine desesperada.

Não olhei mais pra nada a não ser ver aquele ônibus cheio de pessoas conhecidas sendo levadas para o fundo do rio. Desci naquela ribanceira e fui indo em direção ao ônibus que estava afundado lateralmente, a janela do banheiro estava na parte de cima.

Tropecei umas duas vezes na estrada, perdi minhas sandálias e me furei com um espinho que estava no chão, na mesma hora parei para ver o meu pé, não podia correr com aquele espinho na área do pé. Tirei ela e voltei a correr com dificuldade. Outro susto.

O ônibus tinha sumido, aquele tempo que vi o ônibus cair no rio até onde eu corria em direção a ele, estava afundando lentamente, mas pela água que entrava no ônibus fazia ela ficar mais pesado e afundar cada vez mais rápido.

–Nãaoo!! – Olhei para cima da ribanceira e vi o outros olhando em direção a mim, olhei para o rio, e me joguei nele, mergulhei.

Eu não conseguia ver quase nada debaixo daquela água, mergulhei mais fundo e vi a parte do fundo do ônibus, logo após a janelinha. Entrei nela. Não consegui ver quase nada, peguei um acessório que estava no chão do banheiro, aproximei dos meus olhos e percebi o que era. Os óculos de Iasmim.

Percebi que a porta do banheiro estava fechada, e o banheiro era muito pequeno. Iasmin na hora da queda ou no desespero passou para o outro lado e a porta se fechou. Eu poderia procura-la, mas o medo de ver tanta gente querendo ajuda ou já mortas do outro lado me impediu, além do que estava ficando sem fôlego. Não tinha jeito, tive que subir.

Sai desesperado da janela do banheiro e fui emergindo, botei minha cabeça para fora e dei aquela pegada de oxigênio. Olhei para frente e lá em cima estavam todos em pé me olhando, esperando minha resposta. Me senti um fracassado, não consegui ajudar uma pessoa sequer e principalmente a Iasmim. Mas tinha que dizer.

– Não encontrei a Iasmim! Ela ficou fora do banheiro, não pude salvá-la. – gritei, sem saber se eles realmente me ouviram.

Então do nada todos começaram a aplaudir e a gritar, percebi de longe a alegria daqueles que estavam lá em cima, e eu sem entender nada. Mas depois de alguns segundos acabei descobrindo o motivo daquela alegria.

Notas finais
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