Viagem para a perdição
1 O inesperado
Versão — Michel
Era noite em Itamarati, um distrito localizado no sul da Bahia. A lua e a neblina deixavam a cidadezinha no clima frio e tenso. No morro da cidade, estava uma rua vazia, e de todas as casas nessa rua, apenas uma estava com a porta da frente aberta, a minha, é claro.
Eu estava pegando umas roupas e acessórios e pondo em minha mochila, pois as quatro da manhã eu iria viajar com a minha turma do terceiro A. Quando a professora disse que iríamos viajar para a praia ficamos todos alegres, pois desde o início do ensino médio, nunca viajamos para nos divertir. O que me deixou muito contente também, foi a permissão da diretora de podermos levar qualquer pessoa que já foi nosso colega no ensino médio. Claro que pensei logo na Edimaria e Taine. Decidimos que eu ligaria para Taine, e que meus amigos Iasmin e Lucas iria avisar a Edimaria. “Nossa claro que eu vou! Amanhã estarei aí, farei o que puder. ” Disse Taine quando eu a convidei por telefone.
– Michel, você pegou sua escova? – disse minha mãe passando minha calça.
– Peguei mãe – respondi.
Estava tudo pronto, marcamos de nos encontrar na praça o mais cedo possível, assim não iríamos chegar tarde em nosso destino.
Deitei na cama para dormir e do nada o despertador tocou avisando que era quatro da manhã. Não consegui dormir nem um pouco, minha mente ficou cheios de ideias do que eu posso fazer na viagem e só de pensar que estava perto das quatro me atordoou mais ainda.
Pulei da cama, tomei banho e fiz o resto da higienização, peguei minha mochila que já estava toda pronta e sai de casa.
– Tome cuidado meu filho. Preste atenção nas coisas. – disse minha mãe, já com a cara preocupada por ter saído naquele horário.
– Tchau mãe, depois te ligo. – Respondi enquanto descia aquela ladeira vazia e cheio de neblina.
Chegando na praça percebi que só estava o ônibus que iriamos viajar, e uma pessoa que não consegui ver direito. Mas quando cheguei perto o reconheci.
– Oi Lucas, nossa marcaram pra mais tarde e eu não sabia? – disse.
– Isso é uma palhaçada, se marcarem alguma coisa num horário eu vou chegar duas horas depois para ver se esse povo gosta. Palhaçada demais. – disse Lucas, que estava com uma cara de sono, tanto que os olhos mal queria abrir direito, e que segurava uma sacola com alimentos.
Ficamos esperando por uns 5 minutos e de repente ouvimos uma voz:
– Oi gente.
Eu e Lucas viramos e vimos Iasmin se aproximando da gente. Ela estava vestindo uma camisa verde, saia preta e uma sandália meio que diferente, estava com seu penteado comum e com seus óculos de grau, que a deixava com estilo a todo momento.
– Oi Iasmin – disse eu e Lucas, depois cada um a abraçou.
Ficamos conversando, com o passar de uns minutinhos chegou um carro, que ficou parado por um momento, ficamos até tensos. Mas tudo passa quando a porta de trás se abre e sai uma garota pulando aos berros em nossa direção.
– Aaaaaa genteeee!!! – gritava Taine num tom baixo, indo em nossa direção. Estava usando um vestido verde meio que apertada pra ela, mas ela gostava de qualquer jeito.
– Você não trouxe nada Taine? – Perguntou Iasmin, num tom alegre por tê-la visto.
– Claro que não, se eu sei que Lucas vai levar uma penca de comida. – Nós três rimos.
Com um passar de um tempo todos estavam chegando na praça: Mateus, Talita, Diego, Lavila, Geislane, enfim, todos da nossa turma escolar. Mas sentíamos a falta de uma pessoa.
– Gente cadê a Edimaria? – perguntei – Lucas você não avisou pra ela?
– Avisei, mas ela falou que não vai poder ir porque está com a perna doendo.
– Nossa que novidade – Disse Iasmin, ironicamente.
Com o passar de 1 horas todos entraram no ônibus e o motorista ligou o motor da locomotiva, o que deu felicidade a todos. Eu, Lucas, Iasmin e Taine sentamos na parte do fundo, o lugar que todos queriam, mas como sempre a sorte está do nosso lado.
O ônibus saiu devagar da praça indo em direção à pista.
– Adeus cidade grande!! – Disse Taine, acenando pro lado de fora do ônibus, causando risos de quem estava perto dela.
Durante a viagem foi só alegria: rimos, discutimos, cantamos. Teve uma hora em que a nossa professora Marcia distribuiu pedaços de bolo para nós e ficamos jogando farofada pela boca na cara dos outros, sem falar da briga de Mateus e Eduardo, os dois ficaram se rolando no meio do ônibus, dando desespero a poucos e graça a muitos. Nunca ficávamos fixos em um lugar.
A todo momento eu olhava para o motorista, ele ficava muito focado, não reclamava do nosso barulho não falava com ninguém. É meio que estranho eu ficar notando um motorista toda a hora, mas é porque o motorista que nos guia, qualquer errinho que ele pratique quem vai sofrer as consequências são todos que estão no ônibus, e olha que tenho certo trauma de pista.
– Ei Iasmin – disse baixinho batendo no braço dela, que logo a olha pra mim – você não acha estranho o motorista? Olha o jeito dele.
– Ai é mesmo, será que ele tá bêbado? – Respondeu ela, rindo depois do que falou e eu espantado e rindo ao mesmo tempo.
– O que foi gente? Tão falando do quê? – perguntou Lucas, em pé, ele estava atrás de mim e Iasmin, no banco de trás com Taine do lado.
– É que o motorista ele tá estranho, você não acha? – eu disse.
Lucas observa o motorista por um momento, Taine encosta a cabeça onde eu estava e sussurra pro grupo:
– Gente aquele cara é um cachaceiro! Ele vive bebendo lá em Gandu.
Eu, Lucas e Iasmin transformamos nossa cara de alegria para o medo.
– Gente...eu vi ele se acabando no bar perto do centro de Gandu. Será que ele tá de ressaca? – disse Taine.
– Pelo jeito dele, ele nem se quer dormiu, saiu da noitada e veio direto para o ônibus.
– Gente eu tô com medo – disse Iasmin focada olhando para o motorista.
Eu a olhei disse calmamente:
– Calma Iasmin, a gente já está chegando na...- interrompi minha fala, pois quando olhei pra frente do ônibus, vi que um caminhão estava ultrapassando outro no sentido horário, e os dois estavam vindo em direção ao nosso ônibus – Aaaaahhhhh!!!
Todos sinalizaram o meu grito e olharam pra frente, de repente todos gritaram em desespero, o motorista se alertou e ao perceber a estrada toda ocupada, jogou o ônibus para a direita dando uma volta na pista e parando na ribanceira. A parte lateral direita do ônibus estava na parte da ribanceira, e a outra parte estava na terra plana, mantendo assim o ônibus em equilíbrio.
Todos ficaram assustados, Marcia levantou-se com dificuldades e gritou:
– Gente, pelo amor de Deus ninguém se move. Por que se não o ônibus pode cair!
Eu me levantei calmamente, e olhei pra janela que estava ao meu lado, deu para ver uma ribanceira que parecia não ter fim, e no fim um rio. Ajudei a levantar Iasmim, que estava mais aterrorizada que nunca, olhei pra trás e vi Taine ajudando Lucas a se levantar.
Todos andavam calmamente em direção a porta para poder sair. Olhei para Eduardo e vi que ele botou o pé na frente de Mateus, fazendo-o escorregar, a escorregada o fez bater com força do lado direito do ônibus, o lado que estava para a ribanceira, o impacto foi tão forte que o ônibus desceu um pouquinho, agora o ônibus ia cair, estava descendo com mais rapidez. Na hora ninguém percebeu.
– Você tá louco Eduardo? Filho da mãe! – Disse Mateus pronto para brigar com ele.
Todos estavam focados na briga entre os dois, até perceberem que o ônibus estava descendo lateralmente para a ribanceira, começando o desespero.
Todos agora ficaram cada um por si, houve gritaria e muita bagunça. Havia alguns pegando suas coisas, outros querendo abrir a janela. Helsinéia foi a primeira a tentar abrir a porta, mas houve um problema.
– Não quer abrir, a porta não quer abrir! – Gritou Helsinéia para o motorista, que estava sentado dormindo, a pancada que levou o fez dormir profundamente, e não seria agora que iria acordar.
Agora só ouvia gritos como: “Meu Deus o que faremos? ”, “Gente tá descendo o ônibus”, “não quero morrer”, “qual o botão que abre a porta?” , “meu pou tá no nível quarenta” , “Alguém tenta abrir a porta pelo amor de Deus” . E Eu estava paralisado, vendo da janela, eu me aproximando cada vez mais da ribanceira, olhei para o rio lá embaixo, e parecia que a morte me esperava lá. Era o fim.
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