Viagem para a perdição
11 Bom almoço
Versão – Lucas
Fiquei dentro daquele sacolão por alguns minutos, mas parecia uma eternidade. Gritava a todo momento para pedir ajuda, mas tinha parado pois estava ficando sem forças e sem ar para gritar. Estava quase desmaiando mas do nada ouvi Michel falando com a mulher, de repente todas as minhas forças voltaram e comecei a gritar. De repente alguém me empurrou do jegue e eu cai no chão. Percebi que alguém mexia na sacola e vi que desamarraram. Fiquei aliviado:
– Até que efim...- disse me levantando – pensei que nunca iam me tirar daqui. – Olhei para a turminha que estava na minha frente. De repente senti uma pancada muito forte na cabeça e fiquei inconsciente.
Versão – Michel
– Por que você fez isso? – perguntei indignado para a mulher.
– Isso não te interessa...- disse ela jogando o machado no chão, ao lado de Lucas que estava num sono profundo. – Vocês não me ouviram? Entrem no depósito. Agora!
Eu olhei para Iasmim, Marcelo e depois Talita. Entramos naquele lugar escuro novamente e ficamos ansiosos, não sabíamos o que ela iria fazer conosco.
– Tadinho dois dois...- disse Iasmim chorando silenciosamente.
– Calma, a gente vai conseguir sair dessa...- disse Marcelo querendo a confortar.
Eu e Talita apenas ficamos quietos, eu estava muito pensativo. Agora ela eu não sei direito o que tinha.
Ficamos ali dentro por uns sete minutos e vimos a mulher entrar:
– Muito bem...- disse ela entrando com dificuldade, ela estava meio que inclinado. – Vocês são bem educadinhos, assim fica mais fácil meu trabalho... – quando ela entrou por completo no lugar percebemos que ela estava trazendo Paloma pelas mãos, a mesma estava desmaiada. A mulher pegou quatro cordinhas e amarrou nossas mãos um por um.
– Trabalho? – Perguntou Marcelo, que parecia estar se exaustando.
– Sim meu querido – ela pegou Paloma e a deita em cima de uma mesa – eu trabalho pro meu marido... – ela aperta um botãozinho verde na parede e no mesmo momento acende uma lâmpada amarela que apenas ilumina a mesa.
– Ele te paga para matar gente? – perguntou Talita.
A mulher fica sem responder e vai em direção de uma gavetinha, ela abre e pega uma faca grande e bem afinada, e logo depois pega um frasquinho: — Não é bem isso menina...eu preparo o almoço dele sabe... – ela abriu o frasco, derramou um pouco do liquido nas mãos, esfregou e começou a passar em Paloma.
– Eca! Seu marido come gente por que? – perguntei a ela. Estava um clima de entrevista com ela, mas ela não se incomodava.
Ela pegou a faca afiado e ficou alisado num tipo de rochinha que tinha, não sei bem se era isso mas era o que parecia: — Olha, hoje estou bem humorada porque consegui refeições para dias, por isso vou te explicar. A mãe do meu marido quando era criança, fez alguma besteira e seu pai arrancou o dedo dela como castigo, cozinhou e comeu o dedo na frente dela. Isso foi um trauma para ela, ficou traumatizada a vida toda. Quando ela estava no leito de morte, fez o seu filho prometer que só vai se alimentar de pessoas em memória dela. Por isso até hoje ele só come pessoas, e bem...eu como às vezes.
Ficamos em silencio por alguns segundos e opinei: — Se isso aqui fosse uma história, o leitor iria parar de ler nessa sua parte...que história fora de sentido!
– Você não conhece as pessoas, garotinho...- Ela pegou a faca e levantou a faca por cima de Paloma, ela iria cortá-la. Começamos a chorar em silêncio. Quando ela desceu a faca, Talita expressou sua raiva:
– Sua filha da égua! Sua covarde! Filha da mãe! Macumbeira! – começou a gritar de uma forma que deixou meus ouvidos zunindo – Você é uma cachorra sem vergonha! Vadia! Resto de aborto! – ela continuava a xingar com vários nomes com os olhos fechados.
A estranha pegou uma pá que estava ao lado dela e foi em direção de Talita, mirou o cabo bem na frente dela e a bateu com força. Talita desmaiou sem mesmo perceber a pancada, no momento continuava se desabafando com os olhos fechados. Depois da pancada começamos a olhar uns aos outros com um medo tenebroso.
– Ah...tem uma coisa que não contei ainda...- ela pegou Paloma da mesa e a colocou do lado de Marcelo.
– Ca...cadê o Lucas? – Perguntou Iasmim com medo de falar.
– Ah sim...eu fui pegar ele também mas vi que não estava respirando. E pessoa já morta deixa um gosto meio gosto ruim. – disse ela pegando Talita e a colocando na mesa.
Iasmim começou a chorar, mas ela não conseguiu fazer isso em silêncio, começou a fazer alguns barulhinhos.
– Onde eu estava? A sim! – disse ela animada pegando o frasco novamente e passando no corpo de Talita – meu marido sempre fica na parte de armadilha, que eu fico na parte da colheita...entenderam? tipo, ele tem um caminhão, e um amigo dele também tem, e hoje ele o convenceu para fazer uma armadilha cheio de seres humanos...no caso o ônibus de vocês. Quando ele me avisou por celular o acidente fui logo na floresta procurar por vocês. – Ela pegou a faca para cortar a Talita.
– Está dizendo que o acidente que tivemos foi planejado? – disse quase que gritando, eu ia começar a xingar ela todinha de raiva, mas daí lembrei que eu poderia ir pra mesa naquela hora como castigo.
Eu e os outros ficamos quietos pensando com certeza sobre o acidente, agora entendi porque aqueles dois caminhões não pararam para pedir ajuda. Era justamente o que eles queriam, que morrêssemos.
A mulher ergueu a sua faca e penetrou ela com a maior força na barriga de Talita, gritamos e fechei meus olhos, a cena era muito forte. Todos começaram a gritar e chorar ao mesmo tempo por saber que seríamos o próximo depois de Talita.
– Senhora, por favor para! – gritou Iasmim com os olhos fechados.
– Você disse o que? – respondeu a mulher indo em direção de Iasmim. Ela passou o dedo no sangue que estava na faca e passou na boca de Iasmim – mas isso é uma delícia...o sangue é tipo o caldo sabe...- Iasmim expeliu o sangue dos seus lábios.
Fechei meus olhos novamente por muitos minutos, não queria ver nada, apenas ouvia barulhos de ferramentas e som estranhos, mas não queria abrir os olhos para saber o que era. Do nada a maluca disse:
– Vamos, quero todos com os olhos abertos. Me olhem!
Abrimos os olhos e vimos vários órgãos jogados em cima da mesa, ao lado da faca. O corpo de Talita totalmente aberta em um saco plástico transparente nas mãos da mulher que estava sorrindo.
– Fiquem aí quietinhos que eu vou jogar a pele e a cabeça dela no poço tá bem? – disse ela na maior normalidade.
– No poço? Então lá fora que fica a “carcaça”? – Marcelo disse com nojo.
A mulher não respondeu nada e saiu do lugar, ela deixou a porta aberta iluminando todo o lugar.
– Gente, vamos fugir agora! Dá tempo! – disse Marcelo aliviado.
– Como? Estamos amarrados né Marcelo? – Iasmim respondeu.
– Mas estamos amarrados apenas nas mãos e acho que você corre com os pés. – rebateu ele.
Eu estava focado na mesa vendo aquela atrocidade que aconteceu com Talita e depois voltei a ativa:
– Marcelo, acho melhor ficarmos, não vamos sair nessa floresta novamente amarrados nas mãos, e também se sairmos ela pode nos atirar, ela tem uma pistola, lembra?
Ficamos quietos pensativos e agoniados querendo de alguma forma fugir dali. De repente ouvimos uma voz:
– Gente...
– Paloma?! – dissemos.
– Esqueceram de mim? Não sei se perceberam, mas a mulher não me amarrou, mas estou fingindo que minhas mãos estão bem amarradas – ela tira suas mãos de trás e percebemos que estava segurando um objeto – e olha o que eu peguei sem aquela desgraçada perceber...
– Um estilete! – dissemos novamente.
Paloma se levantou e rapidamente cortou os laços amarrados em nossas mãos:
– Agora o que temos que fazer é fingirmos que estamos amarrados, e na hora certa atacarmos ela ao mesmo tempo, para ninguém se prejudicar – disse Paloma, ela dizia com uma firmeza, estava diferente.
A mulher voltou ao local, fechou a porta e ficou pegando algumas ferramentas na gaveta:
– É agora...- sussurrou Paloma.
Eu levantei e fui em direção dela, segurei as suas mãos por trás a prendendo. Como deu certo com o homem eu achava que poderia dar certo com ela também.
– Me solta infeliz! – gritava ela.
Marcelo rapidamente se levantou, olhava ao redor para saber como apagar aquela mulher. E como da outra vez eu mandava ele agir rápido. Marcelo se aproximou da mulher e tirou a pistola de sua cintura, mirou bem na cabeça dela e disse lentamente:
– Isso aqui é por Talita...- ele apertou o gatilho. Mas a bala não saiu.
Paloma se levantou, tomou a arma da mão de Marcelo, soltou a travaca e mirou novamente na cabeça dela e disse:
– Isso aqui é por todos que morreram...- apertou o gatilho e a bala entrou bem na cabeça dela, caindo duro sobre meus pés.
Eu ajudei a levantar Iasmim e disse aliviado: — É pessoal, é o fim.
Iasmim começou a chorar em meus ombros e falando com dificuldade: — Fim mesmo foi para Taiane , Lucas e... – ela passou a mãos em seus olhos – e Taine? Cadê ela?
– Deve estar perdida por aí...ela devia estar com Lucas e quando a mulher foi raptar eles ela conseguiu fugir...mas de qualquer forma foi bom para ela não ter vindo... – disse Marcelo
– Gente vamos sair daqui, não estou tranquilo ficando aqui...- disse.
Quando saímos da porta para fugir daquele lugar, ouvimos uma voz grossa e rouca por trás da gente: — Esqueceram de mim, pessoal?
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