Vestido de noiva
1 É este... Por enquanto.
Notas iniciais
Essa é um história para o projeto Quem é você? Do grupo @Autorinhas que eu participo. É o primeiro projeto que eu tomei vergonha na cara e fiz, e sinceramente, eu estou um completo poço de insegurança, e não sinto algo assim faz sete anos, quando eu postei o primeiro capítulo de Uma nova era. Eu só espero que essa história ajude alguém de alguma forma, a se identificar, ou se inspirar, ou até mesmo pensar "não creio que estou perdendo tempo com isso", de verdade qualquer afeto é bem-vindo desde que afete (uma troca justa já que escrever isso me afetou pra dedeu ?” Meu deus, por que eu estou falando dedeu?). Enfim, leiam, divirtam-se, aprendam ou não, só saibam que apesar de tudo estou feliz em compartilhar minha história com alguém.
Ps: Embora eu tenha chorado para escrever, saiba que eu estou bem :)
Ps2: Essa fanfic DEFINITIVAMENTE não é sobre vestidos, tenham isso em mente.
Qualquer menina sonha com seu vestido ideal. Vendo princesas na tela da TV desde pequena não é estranho sonhar no dia em que irá se vestir como elas. Eu gostava de caldas e muito, muito strass. Gostava ainda mais se o vestido rodasse, cheio como a lua em minha volta. Ele também deveria cobrir meus saltos, que tinham que ser brancos, mas não tinham grande importância pois a barra super ornamentada iria cobri-los de qualquer jeito. Eu queria um vestido de princesa, grandioso, brilhante, belíssimo.
Também era assim que eu queria meu amor. Cheio de grandes gestos, de príncipes que me salvassem do alto de suas torres, me levasse no colo enquanto fugíamos de um dragão e, no fim, o tão esperado beijo. Mas eu não queria qualquer beijo, eu queria o beijo, com borboletas no estômago e o pé que levanta e o mundo que desaparece, assim como nos filmes.
Os vestidos de noiva em minha frente eram o verdadeiro exemplo do amor que eu queria, grande e extravagante. As flores em sua saia eram exatamente como as flores que eu deveria receber todos os dias, ou pelo menos antes e depois de cada encontro. Sem mangas. Longas mangas faziam-me sentir velha, e meu amor deveria ser eternamente jovem. Eu não usaria mangas no dia do meu casamento. Mas gostava de véus, longos e rendados, delicados e extensos como nosso amor deveria ser.
— É este? — A voz da ruiva soou aborrecida em minhas costas.
Ela não gostava quando eu demorava para escolher vestidos, na verdade, ela não gostava de vestidos. Sendo justa, eu não podia culpá-la por sua aversão, a fiz ficar sentada por pelo menos uma hora até escolher um vestido. Talvez por isso ela fosse minha cúmplice, ela não gostava, mas aceitava minha obsessão. O que poderia fazer? Eu sempre gostei muito mais de vestidos do que qualquer amiga minha, desde pequena sempre foi minha roupa preferida. Longos, curtos, rodados, floridos, lisos, estampados. Um para cada dia diferente, para uma aventura diferente, para fugir de outra torre. Não tinha um preferido, ou talvez não tivesse um que eu odiasse.
Analisei o tecido pesado, desenhado por brocados que formavam arabescos brilhantes. Tudo era branco no vestido, sério demais. Não era que não gostasse, mas não era o tipo de amor que combinava comigo.
— Não — disse apenas.
Ouvi seu suspiro antes mesmo dela o soltar, provocando um sorriso cúmplice em ambas. Nos conhecíamos há tanto tempo e já havia lhe confidenciado tantas histórias, que era como se nunca tivesse existido um dia sem ela ao meu lado. Engraçado pensar que depois de tantas aventuras, nesta não havia pessoa melhor para me ajudar a escolher meu vestido, afinal era ela quem me ajudou a escolher o primeiro.
— Sakura, vamos ser expulsas daqui a pouco — argumentou, fitando o segurança que observava o movimento fora da loja.
Vi seus braços cruzarem e pude imaginar a expressão entediada em seu rosto. Não, ele não iria nos expulsar, a loja de noivas era entediante demais para lhe chamar atenção.
— Relaxe, e tome um champagne. — Sugeri, indicando a bandeja.
— Eu não gosto de espumante.
— Eu sei — respondi divertida — Quem sabe você se distrai com isso.
Como se um dos alfinetes tivesse escorregado para seu braço, vi a ruiva mexer os lábios em um mudo xingamento, antes de marchar em minha direção. O lado bom de a conhecer há tanto tempo, era que podia deixar claro quando ela estava sendo reclamona, sem me importar em ferir seus sentimentos.
— Olha, não é só porque eu sou sua madrinha de casamento que eu tenho que fazer isso.
— Na verdade, é exatamente por ser minha madrinha que você tem que fazê-lo.
— Você poderia ter chamado outra — continuou, pegando resignada a taça. — A Ino é bem mais por dentro de moda do que eu.
— Talvez, mas eu não quero estar na moda. Quero me sentir eu mesma.
— Então, por que eu estou aqui? — questionou confusa — Quem melhor do que você mesma para essa tarefa?
— Você tem um ponto — concordei, roubando a taça de sua mão e a levando até meus lábios.
Afastei a taça quando o gosto tocou minha língua, recebendo uma risadinha vitoriosa da ruiva. Nenhuma das duas gostava de espumante.
— Mas então quem me faria o favor de trocar isso aqui?
— Nem se atreva — Começou.
— Você não gosta de espumante.
— Mas você é a noiva, você quem tem que tomar.
— Karin, eu estou lhe implorando — pedi em drama fingido, pegando suas mãos da forma mais teatral possível. — Ajude essa noiva desesperada.
Os olhos castanhos me fitaram por longos segundos, provavelmente pensando em todos os xingamentos que poderia usar contra mim. Todavia, Karin era o belo acessório que combinava com meu vestido, um não estava completo sem o outro, e ela sabia disso.
— Tá. — Bufou por fim. — Mas quando eu voltar, é melhor você ter escolhido um.
— Melhor de três? — Tentei, piscando meus olhos.
— Não.
— Mas é muito difícil e tem tantos. — Choraminguei, voltando-me para o mar de tule e cetim.
— Dois vestidos, uma cerveja e não se fala mais nisso.
Suspirei, sabendo que esta era uma batalha perdida não importasse o que eu dissesse. Karin Uzumaki não era conhecida por perder discussões, talvez por isso fosse uma das melhores juízas, assim como todos da sua família.
— Se pode dois, por que não três?
— Porque se você não conseguir escolher entre os dois, você usa um para o altar e outro para a recepção.
Era um argumento justo, digno de um Uzumaki e foi por isso que me vi acenando em concordância. Com um último suspiro, vi a ruiva pegar a bolsa e sair pela porta, provavelmente procurando pelo posto de gasolina mais perto.
Voltei minha atenção para as araras em minha frente, optando por mudar de sessão. Os vestidos eram sérios demais para mim. Caminhei, passando a ponta dos dedos até sentir a textura lisa do cetim novamente, anunciando minha parada.
Era uma sessão de vestidos curtos, rodados e aparentemente sensuais. Lembravam-me uma adolescente indo à sua primeira festa. Talvez eu usasse esse vestido naquela época, tão juvenil e divertido, aberto para novas experiências e ironicamente de corte inexperiente. Já tive esse tipo de amor, o primeiro. Era como a princesa presa na torre, totalmente inconsciente do que tem depois das paredes, de todas as sensações, mas sem medo de senti-las. Eu gostava demais de ser a princesa nessa época. Queria que meu primeiro fosse um homem belo, que retribuiria meus sentimentos e me salvaria do entediante dia-a-dia, que beijaria minha mão e me levaria por aí de mãos dadas. Infelizmente, meu primeiro amor não foi assim. Foi confuso e fazia meu estômago se revirar, ainda assim, era divertido imaginar como seria quando ficássemos juntos, o que pensariam de sermos um casal, se teríamos as mesmas desventuras dos mangás, onde uma garota apaixonada por meu namorado surgiria e eu teria que ser forte diante das crises de ciúmes, e como ele seria atencioso, me beijando na frente dela e afirmando que eu era sua única amada. Eu imaginei muito, no entanto, meu primeiro amor não foi meu primeiro namorado, tão pouco meu primeiro beijo. Meu primeiro foi apenas um primeiro, mas meu segundo foi dois primeiros.
O lado ruim de vestidos serem belos, é que eles criam a maldita expectativa. Ver um belo vestido em um cabide nos faz imaginarmos belíssimas dentro dele, em como o decote desenharia nosso corpo, ou o corpete ficaria belíssimo em nossa cintura, nos deixando deslumbrantes. O problema é que a expectativa nunca é totalmente satisfeita, sempre terá alguma coisa, uma linha solta ou uma alça mal costurada para quebrar a expectativa e minguar com a felicidade.
Meu primeiro beijo não foi como eu esperava. Quer dizer, teve sim o nervosismo, mas ele não teve o efeito que eu almejava. As borboletas no estômago eram dolorosas e desconcentravam minha cabeça, e desconcentração e não saber o que está fazendo não são uma boa mistura. O problema dos primeiros beijos é que ficamos tão preocupados de como encaixar os lábios, tentando reproduzir as imagens que vemos, que esquecemos de uma coisa importante, a sensação, e a sensação de uma língua que não é a sua, entrando na sua boca, é realmente esquisita. Não saber o que fazer com as mãos não é nada comparado a não saber o que fazer com a língua, e deixar os olhos abertos não ajuda nadinha. Mas eu era nova, estava aberta às experiências e meu namorado era paciente para alguém da sua idade. Eu aprendi com ele o que deveria fazer, onde deveria pôr minhas mãos e em qual dedo vai a aliança. Engraçado que, assim como aprendi na prática que não se deve comprar vestidos pela internet sem pesquisar muito antes, não deveria ser muito afobada no relacionamento, pois assim como os vestidos, depois de devolver a decepção ainda fica.
"Mas você sempre pode mudar de loja" Pensei, passando os dedos na saia de um vestido, a qual tinha sido cortada de forma estranha que fazia o tecido picotado cair em torno dela, em uma linha tênue entre um salgueiro chorão e um ataque de um animal selvagem. Combinava com um coração partido, lágrimas e destruição. Eu tinha quebrado meu abajur preferido no meu primeiro término, um relacionamento que enfim tinha me tirado três primeiros. Interessante como, na primeira vez, tudo é maior do que parece, mais intenso e como, depois dela, nada parece ser o suficiente.
Engoli o gosto amargo remanescente do espumante e abandonei os vestidos curtos, fitando a arara atrás de mim. Havia um enorme espelho no fim dela, que fazia a quantidade de vestidos se alongar junto ao tamanho da sala. De onde estava, conseguia ver meu reflexo, o cabelo preso no topo da cabeça com dois longos pega-rapazes adornando meu rosto rosado pelo blush, combinando em tons menores com o meu cabelo. No dia em que o pintei, fiquei impressionada em como toda minha figura tinha mudado com algo tão simples como uma tintura. Meus olhos pareciam mais evidentes e apesar de nunca ser fã, passei a usar blush rosados simplesmente porque a combinação me fazia parecer bela e delicada como uma flor.
Li uma vez que nada nunca será tão incrível como a primeira vez, pois quando seu corpo recebe o estímulo ele o grava, e por isso uma comida que foi muito deliciosa, quando experimentada pela segunda vez, não tem o mesmo encanto. Isso também acontecia para experiências, uma dor nunca seria sentida da mesma forma, ou um amor. Eu me sentia assim com os vestidos dessa sessão, quando os vesti pela primeira vez, anos atrás, me senti única, mas hoje não tinham o mesmo efeito. O decote coberto por tule não parecia mais audacioso e a costura reta não parecia mais tão complicada. Era normal, belo, mas normal. Mas ainda tinha seu encanto em sua normalidade, afinal, meu segundo amor também foi normal, não de um jeito ruim, ou bom, apenas normal como as pregas da saia rose.
Conheci meu segundo namorado em uma festa. Bom, talvez fosse mais uma reunião, já que nunca fui a uma festa de verdade até entrar para a faculdade, e festas de aniversário não contavam na minha adolescência. Foi onde eu o vi, e assim como olhava agora para a saia prendada, ele não era realmente impressionante. Seu rosto era bonito, mas àquela altura todos usavam o mesmo estilo e falavam sobre as mesmas coisas, ouviam as mesmas duas músicas, no entanto, enquanto procurávamos saída ou esquecer, descobri que ele não era da minha escola, o que o tornava diferente.
Seus cabelos eram ruivos, mas na época todos pintavam o cabelo. Seus olhos eram verdes como pedras preciosas, brilhantes demais entre tantas castanhas e ônix, belo apesar de que sua cor desaparecia nas manchas vermelhas. Mas, todos tinham os olhos manchados de vermelho. Era diferente, mas igual. Era normal. De todas às vezes em que ouvi essa palavra sendo dirigida a alguém, aquela foi a primeira vez que esta fez tanto sentido. Ele era gritante, de uma forma normal, assim como nosso amor.
Nós nos conhecemos e nos beijamos no mesmo dia, em um banheiro apertado que ficava no corredor da casa da minha amiga. De certo, tudo parecia ter sido planejado, cada ponto muito bem dado, mas ele nunca me confirmou isso e eu também não importava realmente. Afinal, naquela noite não tive muito com o que me importar. O primeiro beijo do segundo relacionamento conseguiu ser tão desconcertante quanto bom. Dessa vez, eu sabia o que estava fazendo e o que ele faria, além do mais o ruivo parecia ser experiente no assunto “amassos no banheiro” — tanto quanto um adolescente poderia ser. E, assim como todo romance juvenil, em duas semanas estávamos oficialmente namorando.
Existe uma linha muito tênue entre simples e monótono, e algo me diz que ninguém sabe disso melhor do que os adolescentes, por isso, tudo é sempre tão dramático nessa fase. Mesmo o relacionamento mais simples pode ser tomado por um dramalhão quando queremos, o que soa muito cansativo quando mais velhos, mas muito emocionante quando mais novos. Afinal, quem não quer viver uma verdadeira história de amor? Eu queria, mas não tardou até que a linha estourasse e nós caíssemos no monótono.
O problema de namorar alguém de outra escola, é ele não ser da sua escola, porque embora eu sempre tenha odiado os casais da sala, no fundo sempre quis ter a chance de ser como eles, ser odiado por estar apaixonado.
— Engraçado como o amor e ódio são tão simples quando adolescentes. — Pensei em voz alta, sorrindo comigo mesma.
Ouvi os sussurros próximos a mim e notei as vendedoras que me encaravam duvidosas. Talvez estivessem se perguntando se eu tinha ficado maluca, ou apenas que não gostava de nada e, neste caso, elas provavelmente deveriam estar aborrecidas comigo. Mas tudo bem, fazia muitos anos que eu não me incomodava por me acharem chata, ou indecisa, ou o que fosse. Eu não me importava com o que todo mundo pensava sobre mim, porque eu não me importava com todo mundo, apenas com algumas pessoas. Não era por isso que eu estava aqui? Passando horas a fio escolhendo esse vestido que significasse tudo que eu e ele significávamos juntos?
Sorri para elas, que retribuíram animadas. De fato, eu não me importava com o que pensassem, mas ainda era adulta e isso é o que os adultos fazem. Eles tentam passar uma boa impressão. Nós tentamos. A atendente mais baixinha seguiu a passos apressados até mim, pronta para voltar a ladainha e me fazer comprar um dos vestidos. Pensando bem, em muito tempo essa era a relação mais simples que eu tinha que lidar, ela precisava da comissão e eu de um vestido. Ela venderia e eu o compraria. Simples e rápido como eu pensava que todos os relacionamentos deveriam ser após meu segundo término.
— Posso ajudar em alguma coisa?
Cobri os lábios, escondendo a risada que por reflexo subiu a minha boca. Tentando administrar a gafe que tinha feito, apenas aumentei o sorriso e tratei de parecer extremamente agradecida por sua ajuda. O ruivo tinha usado exatamente estas palavras quando terminou comigo, finalizando completamente nossa conversa e calando os argumentos que eu nem mesmo tinha para continuarmos juntos.
— Posso ver outros? — Não é isso que fazemos depois dos términos? Seguimos em frente?
— Claro, você tem alguma coisa em mente?
Eu tinha vários vestidos em mente e aqueles simples não estavam mais na lista. Eu já os tinha usado e não serviam em mim. Não serviam para mim.
— Não tenho certeza, mas acho que queria algum corte mais longo — respondi indicando os jovens vestidos.
— Acho que tenho o modelo perfeito — anunciou sorridente —, mas está em outra ala, pode vir comigo?
— Claro. — Lembrei-me de minha amiga ao ver minha bolsa esquecida sobre o sofá onde ela me amaldiçoava minutos atrás. — Ah, minha amiga teve que dar uma saída, você pode avisá-la onde estou quando ela voltar?
— Posso sim, não se preocupe.
Acenei em concordância, enfiando minha mão dentro da bolsa, atrás do meu celular. Enquanto seguia os estalos do salto fino da vendedora, escrevi rapidamente uma mensagem para Karin, avisando da troca de lugar. Fim de relacionamentos nos deixam pouco confiantes.
— Falta quanto tempo para o casamento? — perguntou de repente.
— Cinco meses. — Ri ao ver a surpresa em seus olhos. — Eu quis deixar o vestido por último.
— Que engraçado, geralmente é a primeira coisa que as noivas procuram.
— Qual foi a mais apressada que você já conheceu? — perguntei curiosa.
— Deixe-me ver... — Viramos em um corredor decorado por luzes que desciam do teto envoltas por cordas de forma charmosa e praiana. — Ah, teve uma vez que uma noiva veio atrás do vestido um ano antes do casamento.
— Mesmo? Isso parece muito tempo.
— E é, nós avisamos que não é algo muito prudente, porque...Você sabe, vestidos de casamento são difíceis de ajustar. — Tinha sido um comentário grosseiro, mas acenei em concordância, entendendo perfeitamente o que ela queria dizer.
Eu mesma tinha engordado mais de quatro quilos desde que noivei e, infelizmente, você não pode ficar ajeitando um vestido para forçar a caber em você. Na verdade, por algum tempo até dá para tentar, você pode vestir pela cabeça ao invés das pernas, encolher a barriga, ou pedir para duas pessoas fecharem o zíper — uma segura tudo junto, enquanto a outra pessoa sobe. Eu conhecia bem essa técnica. —, mas depois de um tempo, quando você já está sem ar e suas costas doem por serem apertadas, tudo perde o sentido e se livrar do vestido torna-se o melhor fim. Ajustar custa caro e, de qualquer forma, eu não acredito em ajustes permanentes. Se aquela é a sua essência, não tem como mudá-la, não importa o quê.
— Mas você também não é a mais atrasada.
— Mesmo?
— Sim, uma vez minha colega atendeu uma em que faltavam duas semanas para o casamento.
Certo, eu queria um gole daquele espumante agora. Apesar de tudo, eu também era uma noiva, sabia todo o estresse por trás de organizar um casamento, mesmo que pequeno como o meu, e minhas mãos não puderam deixar de suar com a ideia de deixar algo tão em cima da hora assim.
— E ela conseguiu?
— Digamos que ela abriu a loja e fechou ela — comentou rindo — Ficamos até às onze da noite procurando pelo vestido ideal. No fim, ela escolheu um desses modelos que vou te mostrar, são bem bonitos e acho que você também vai gostar.
Ah, o desejo de ser e ter o que os outros têm. Eu conhecia muito bem essa história e não fiquei nada surpresa ao perceber o quanto tínhamos nos afastado do salão principal, uma distância longa assim como o tempo que levei até entrar em outro relacionamento.
— Medida de distância e de tempo são coisas diferentes — sussurrei para mim mesma, parafraseando meu terceiro relacionamento.
— Disse algo?
Tossi, lembrando a mim mesma que não podia falar sozinha quando estava acompanhada. Naquela época eu também tinha que me forçar a lembrar de muitas coisas.
— Eu estou muito animada para ver os vestidos.
Uma meia verdade. Ah, que ironia!
— Que bom, espero que goste.
A vi empurrar a porta da mesma cor branca das paredes, com desenhos que a deixavam elegante. Apenas fitando a porta soube que não iria gostar do que veria lá dentro, mas não era assim que funcionava, eu tinha de provar primeiro antes de odiar.
A sala era consideravelmente mais bonita do que as outras em seu estilo simplista e bem arrojado, mas consideravelmente menor, dando espaço apenas para um pequeno palco e um longo espelho. Para ser justa, ao notar os vestidos, foi fácil entender por que o espelho não precisava ser largo.
— São modelos sereia — explicou tomando a frente. — Seu casamento vai ser na praia, certo?
— Isso mesmo — respondi, impressionada com a obviedade de tudo aquilo.
— Então, eu sei um que vai ficar incrível... Está aqui. As pérolas parecem escamas ao longe, mas sem parecer estranho. — A vi puxar o vestido pelo saiote, estendendo-o para mim. — Gostaria de provar?
— Posso dar uma olhada? — Indiquei o restante da sala, evitando ser tão óbvia.
— Ah, claro que sim. — E como se eu não a tivesse recusado, como uma boa adulta, vi a vendedora dar alguns passos para trás, dando-me liberdade.
Sorri a contragosto e caminhei até os vestidos, passando os dedos de forma desinteressada por cada um, como se realmente estivesse cogitando alugá-los. Se Karin estivesse aqui, com certeza teria encontrado uma forma — nada sutil — de me livrar dessa situação e, consequentemente, da vendedora. Mas ela ainda não tinha retornado e tudo que podia fazer era suspirar pelas rendas e torcer para que a ruiva voltasse logo com a minha cerveja para limpar o gosto ruim em minha boca. Eu odiava vestido-sereia.
De todos os vestidos que já tinha experimentado, sem dúvida alguma, tinha sido o pior. Na verdade, toda sua costura me causava comichões e fazia-me pensar se, por acaso, o nome do corte não deveria ser ironia. Uma grande e maldosa piadinha irônica era o que os vestido-sereias significavam para mim. De péssimo humor, puxei um do cabide, estendendo até que ficasse em pé em minha frente.
— Esse é muito bonito. — A morena incentivou-me em minhas costas. — E ele ajuda muito no busto. — Completou com um risinho constrangido.
Com o tecido duro e a quantidade de fechos que tinha, não duvidava que deveria prender os seios o suficiente para fazer parecerem maiores do que eram. Uma grande enganação. O engraçado desse corte é que ele entregava todos os sentimentos que você sentiria sem mesmo ter de vestir. Começava folgado, confortável, e depois disso ele começa a se apertar, sufocar até que não consiga mais se mover direito, até enfim, no final, ele se abre inteiramente, te libertando. Eu conhecia exatamente essa sensação, conhecia esse vestido e a melhor parte dele era quando chegava aos pés, quando terminava.
Abandonei o vestido sobre o sofá, analisando sua saia que pouco abaixo do joelho se abria em uma renda com lírios. Essa era a parte mais linda do vestido, mas não podia negar que todo o conjunto era deslumbrante, desde o decote decorado pelas pérolas e flores de renda, até o desenho no centro do vestido, que formavam formas geométricas peroladas. Algo ser tão bonito e lhe causar tão mal era uma coisa que só fui aprender muito mais tarde, quando me achava madura o suficiente para olhar o mundo por outra perspectiva.
Depois de um ensino médio turbulento, era de se esperar que aos dezoito anos eu fosse mais evoluída, que eu soubesse das coisas. Pena que ninguém contou que depois que você cruza os portões pela última vez, nada realmente muda. Você continua a mesma pessoa, sua visão ainda é a mesma. Você ainda está brincando de ser adulto, achando que a brincadeira agora é de verdade, e que você não é mais café com leite.
Mordi o lábio expulsando a visão da minha mente. Assim como vestido-sereias, eu odeio café com leite, mesmo tomando todas as manhãs. O cheiro me dá enjoo, mas tomar café preto à primeira luz não parece nada saudável e, no fim do dilema, terminei optando por algo que eu não gostava, mas que me fizesse bem.
Eu detestava café com leite assim como vestido-sereia, mas não era da mesma forma. Eu podia detestar várias coisas, por razões diferentes, mas tinha que compreender estas para conseguir formular o que eu não gostava por capricho e o que eu não gostava porque não devia. Quando eu brincava de ser adulta — presunçosamente assumindo que agora eu seja uma — não conseguia entender muito bem qual a diferença, afinal eu mal entendia o verdadeiro significado daquela maldita frase que meus pais sempre me diziam “nem tudo o que queremos é o que precisamos”. A Disney tentou, mas eu não aprendi muito bem, até porque ver e enxergar são coisas diferentes.
Ver e enxergar, querer e precisar, ouvir e escutar... A vida adulta é cercada por coisas que não fazem o menor sentido, mas que quando dito em voz alta, todos entendem. Esfreguei minha nuca em gesto roubado, passando os olhos pelo mar de sereias à minha volta. Eu dizia muitas coisas em voz alta naquela época, tanto quanto me arrependia delas.
Antes que o canto das sereias arrastasse minha mente para mares profundos e sombrios, ouvi o toque animado do meu celular avisando que minha burguesinha estava me ligando e tratei de caçar meu celular mais uma vez. Se você demorasse até o quarto toque para atender, Karin podia ficar muito, muito zangada e eu não queria infartar minha madrinha meses antes do meu casamento.
— Licença — pedi à vendedora, que rapidamente se retirou da sala, dando-me privacidade. — Alô?
— Oi, onde você está? — perguntou aborrecida.
— Não viu minha mensagem? — Revirei os orbes. Quando não liam minhas mensagens, eu ficava muito, muito zangada. — Estou em outra sala.
— Droga, não chegou nada — xingou.
— Isso não é minha culpa, reclame com a sua operadora.
— Eu vou reclamar... — Sabia que vindo da ruiva, aquilo não tinha sido uma piada. — E então, onde você está exatamente?
— Numa sala com um mar inteiro de vestido-sereias — falei divertida, prevendo sua reação.
— Ah, não.
— Ah, sim.
— Que merda você está fazendo aí, Sakura? — indagou aborrecida.
Pude ouvir o som de seus saltos batendo com força no piso quando a mesma apressou o passo, provavelmente vindo atrás de mim, o que causou uma risada maldosa em meus lábios.
— Digamos que eu fui sequestrada pelo dragão — sussurrei, me assegurando que a vendedora estivesse longe. — E ele está me mantendo presa na torre.
Se eu estava presa com sereias, vestidos e tiaras, por que não ser a princesa em perigo, afinal? Naquela época a ideia de ter um belo príncipe que me amaria por todo “o felizes para sempre” ainda me apetecia.
— Estou indo te resgatar.
— E a Elsa acorda a Bela Adormecida — Brinquei, ouvindo a gargalhada alta de Karin ressoar através do telefone.
Na verdade, sua risada tinha sido tão alta que me perguntei se realmente a tinha ouvido através do telefone. Eu gostava quando a ruiva gargalhava, pois sua risada era igual a de seu irmão, e eu amava a risada dele. Desliguei o celular, aproveitando que a vendedora tinha desaparecido para me jogar no sofá, afastando os tecidos com a ponta dos dedos.
Esta não seria a primeira vez que Karin me salvaria desse vestido, mesmo que na outra vez, eu tenha aprendido a ser minha própria protagonista. Assim como os contos de fantasia, essa história tinha acontecido em um reino tão distante, exatamente quando eu não sabia que a medida de distância e de tempo eram coisas diferentes. Eu conheci o moreno em uma roda de amigos, na minha primeira festa da faculdade. Ele era de outro curso, mas o pessoal de Psicologia sempre foi conhecido por ser muito acolhedor, e, principalmente, dar as melhores festas, a maioria regada a cerveja e produtos nada lícitos. Então, o moreno não era exatamente um intruso, mesmo estando longe de ser um dos convidados e, além disso, sua beleza sem dúvida estava ao seu favor. O moreno poderia ser chamado de muitas coisas, mas feio com certeza não era uma delas.
Mesmo sendo claramente um dos caras mais bonitos da festa, ele não era o mais velho, quem dirá o mais divertido, e minha atenção foi inteiramente sugada para minha recém amiga, que tinha iniciado nossa amizade com uma estranha sugestão para minha ingressão à vida de modelo. Tirando o fato de que passei os próximos anos me arrumando muito bem, não demorou a ficar claro que eu não tinha qualquer aptidão para isso. Eu mal tinha começado a ficar bêbada quando derrubei minha lata de cerveja e tive que correr atrás de um pano antes que ensopasse a escadaria inteira, e foi chegando na cozinha que nossos olhos finalmente se cruzaram. Ao contrário daqueles filmes onde ocorre o amor à primeira vista, a primeira coisa que senti ao ver o moreno foi asco, não por estar enjoada, mas pela forma como ela agarrava uma das calouras, sem me deixar saber se devia fechar a porta ou denunciar um canibalismo. E, ainda assim, ele teve a audácia de piscar para mim, apertando ainda mais a garota contra o seu colo como se aquela fosse a cena mais erótica do mundo. Não era, e fiz questão de que ele soubesse.
Várias horas e cervejas depois, nós nos tornamos conhecidos e Karin já o detestava, e depois de alguns espetinhos compartilhados, nosso conhecimento tinha adquirido benefícios e eu tinha me tornado a garota sobre seu colo. Não tinha sido exatamente bom, estávamos bêbados, as pessoas em volta estavam olhando, e suas mãos pareciam estar por toda a parte do meu corpo antes mesmo de senti-las ali, mas para uma primeira ficada em uma primeira festa o resultado tinha sido bom, marcante, muito parecido com a dor de cabeça que com a qual eu acordei no dia seguinte, largada no sofá de Karin.
Aprendi uma vez que gostos são frutos de estímulos, tradições e sua própria personalidade, pois neste caso, eu não sabia dizer quais junções e conjuntos fizeram Karin cair de amores por essa amiga bêbada com um gosto questionável para vestidos a ponto de a arrastar para a própria casa. Todavia a maior surpresa que tive foi quando encontrei olhos azuis me fitando atentos, muito diferentes dos castanhos. Tais safiras estavam cobertas por bagunçados fios loiros, muito diferentes dos ruivos e, diante de mim, no lugar de um corpo curvilíneo e alongado, estava um malhado e bronzeado, exibindo os braços com a regata machão.
Divertida, capturei a mim mesma no espelho, finalmente percebendo que meu cabelo estava igualzinho àquele dia, alto e desfiado, mas sem dúvidas o restante da semelhança terminava aí. Naquela manhã meu humor estava tão horrível quanto ao meu bafo de bêbada, e naquela época eu usava outro vestido, apertado demais para que pudesse simplesmente me despir e colocar outro mais refrescante. Estava experimentando um longo vestido-sereia, e ainda era cedo demais para tirar.
Lembrava-me como a voz rouca soou divina ao gargalhar comigo, quanto o loiro perguntou se tinha errado da casa, eu me apresentei como sua assaltante particular. Naruto, o irmão mais velho de Karin, tinha chegado em casa mais cedo e não nos viu chegando, e foi quando estava prestes a gritar que sua irmã surgiu com um copo de café misturado em Dipirona para explicar a situação e nos apresentar formalmente. Passei o resto da manhã com a dupla de irmãos, tão divertidos quanto Mabel e Dipper, rindo, dizendo bobagens, e cantando até enfim chegar a hora de me deixarem ir.
De fato, uma vez tive certeza de que gostos são frutos de estímulos, tradições e sua própria personalidade, talvez os estímulos que recebi desde cedo foram responsáveis pela minha paixão por vestidos e talvez eu continuasse a recebê-los constantemente e por isso meu amor ainda era tão ardente. Se fosse este o caso, e tudo fosse apenas um conjunto de estímulos constantemente recebidos, eu não precisava pensar muito para saber o conjunto que me fez odiar estes vestidos e a cada olhar em direção as araras, podia ver seus cabelos e olhos negros.
— Tudo bem, eu cheguei! — A mulher anunciou, explodindo sala a dentro, com a vendedora em seu encalço. — Hora de ver outros vestidos.
— A senhora não gostou de nenhum?
— Acho que algo mais solto seria mais apropriado — disse apenas, guardando para mim o significado daquelas palavras.
Antes que protestos pudessem ser proferidos, minha heroína agarrou-me pelo braço e me arrastou para fora da sala, nem mesmo me dando tempo de recuperar o fôlego antes de colocar uma taça em minha mão, com um líquido de cor amarelado demais para ser espumante. Tinha sido heroico e sorri em agradecimento, antes de dar longas goladas, sem saber se estava tentando afogar as lembranças ou me fortificar para as próximas que viriam.
— Então, você gostaria de algo mais solto?
— Acho que seria mais confortável — Karin argumentou — Por conta do clima...
— Algo mais leve também seria bom — constatei, analisando o pesado corpete em suas mãos.
— Tudo bem, sigam-me — respondeu por fim, seguindo na direção oposta a nossa.
Aproveitei para soltar os suspiros de alívio e pesar antes de começar a seguir a mulher pelos corredores iluminados. Senti os olhos da ruiva cravados em mim, provavelmente tentando adivinhar o que eu estava pensando. Era um lance nosso, ela tentava me adivinhar e eu fingia que não percebia até ela desistir e vir me perguntar diretamente. Era engraçado que, toda vez em que trocamos de papel, eu sempre adivinho. Os Uzumaki eram estranhamente fáceis de se ler, e modéstia a parte eu sempre fui muito boa nisso. Prever o que as pessoas diriam, fariam, ou estavam pensando era um bom passatempo e me dava uma estranha sensação de segurança, até ela ser totalmente amarrada como o corpete apertado.
— Sakura. — A ouvi me chamar, avisando que tinha esgotado suas tentativas.
— Sim? — murmurei entre sorrisos.
— O que essa sua cabecinha está criando? — dissemos em uníssono, causando caretas da ruiva e risadas em mim. — Engraçadinha.
— Aprendi com o seu irmão.
A vi revirar os olhos e soube o que estava pensando. Ela estava feliz, mas ao mesmo tempo brava por não poder rebater o argumento, afinal, fora ela quem me ajudou a escolher o vestido e Karin sabia disso.
— E então? — Continuou em um suspiro.
— Nada de mais. — Dei de ombros, corrigindo-me antes que ela abrisse os lábios. — Dor de cabeça.
O estalo de sua língua anunciou minha vitória e ouvi o som de nossos passos contra o piso, me deleitando com o controverso silêncio. Eu não estava de fato com dor de cabeça, mas não era isso que importava. Quando dizia para alguém que minha cabeça estava doendo, não estava pedindo por aspirinas, estava apenas alertando que tinha alguma coisa me estressando, me fazendo pensar demais e que não estava a fim de falar sobre isso.
Sem querer, mas não realmente evitando — eu estava muito reflexiva — comecei a estudar os vestido espalhados pelo corredor, adornando cabides e manequins, de diferentes tamanhos e cortes, até o brilho intenso de pedrarias ofuscar minhas visão implorando para que eu o fitasse. Era um vestido de alças simples, com um grande decote na frente e o busto largado. Sua pedraria o fazia brilhar como se fosse inteiramente de diamantes e junto ao seu corte solto, o fazia parecer uma cachoeira mágica de pedras preciosas. Era ofuscante, de um jeito ruim, mas muito bonito de um jeito bom. Uma grande enganação, ou talvez não houvesse enganação alguma naquele vestido. Ele era apenas aquilo e nós ao olharmos seu brilho, criamos a maldita expectativa de esperar mais, mas no final das contas, um vestido é apenas um vestido.
Uma vez decidi que queria um vestido inteiramente feito de strass, que brilhasse quando a luz batesse e tivesse um enorme decote nas costas. No entanto, eu não estava disposta a gastar tudo que precisava, ou talvez não tivesse como pagar. Então, meu pai me levou a um conjunto de lojas onde as roupas eram mais baratas e eu enfim encontrei o vestido, era o mais caro do grupo, e ainda assim o mais barato. Lembrava-me como seu tecido realçava minhas curvas, fazia eu me sentir bem comigo mesma, o problema era que o corte era tão único, que eu tive de comprar um par de sapatos apenas para ele e uma jaqueta, pois não tinha nada que combinasse e queria usá-lo com frequência. Todos comentavam sobre meu vestido e tirei inúmeras fotos, posando de todas as formas possíveis, indiscutivelmente feliz. Como eu amava tirar fotos usando aquele vestido. Categoricamente, depois de um tempo, descobri a diferença entre algo bem trabalhado e o vestido mais barato, pois certo dia quando passei a mão pelo tecido, ele se desfez sob meus dedos, soltando as lantejoulas, quebrando minhas adoráveis fotos. E este, ofuscante diante dos meus olhos, não era muito diferente do das minhas memórias, eu apenas o via de forma mais sóbria.
Sobria. Como a época em que decidi ficar sóbria de vestidos, os trocando por saias ou até mesmo calças, eu simplesmente não conseguia voltar a usá-los, pois nenhuma costura parecia firme o suficiente. Todas pareciam que iriam se desfazer assim como aquele, exatamente como ele.
Depois daquela festa, nada surpresa, recebi uma mensagem do moreno e começamos a sair. Não demorou muito para que nossas ficadas ficassem mais sérias e tudo mais perfeito do que um corpete bem atado. Nós estávamos sempre em sincronia, e ninguém me fazia suspirar tanto quanto ele. Suas palavras eram os únicos estímulos que importavam daquele conjunto, e com apenas duas sílabas o moreno podia me erguer aos Céus ou me condenar ao Inferno. Por inúmeras vezes tinha ouvido falar do vestido ideal, mas a primeira vez que senti o ter encontrado foi no dia em que ele me pediu em namoro e tudo foi simplesmente mágico. Não havia como — naquela época ou nesta — negar essa verdade: eu era perdidamente apaixonado por aquele homem. No Céu ou no Inferno, meus sentimentos por ele apenas aumentavam e a cada segundo que passávamos juntos tinha a certeza maior de que enfim tinha encontrado meu príncipe encantado.
Todavia, tem um problema de estar tão apaixonada, por desejar tanto alguém temos a necessidade de estar perto dele e um dia me vi novamente como aquela adolescente que de nada sabia, chateada por não poder estar ao lado dele. Não precisava estar realmente me divertindo, ou discutindo, ou nem mesmo falando, eu só precisava estar ao lado dele e, principalmente, saber que ele queria que eu estivesse ali. Queria me ver ao seu lado em cada foto, e dar cor a conexão invisível que tínhamos criado — ou que estávamos destinados a ter, afinal eu ainda acreditava piamente em almas gêmeas. Aquela foi a primeira vez que senti o ciúmes de verdade, aquele feio, possessivo, que te corrói por dentro e te enlouquece.
Por toda a minha vida, nunca tinha sido uma pessoas realmente ciumenta — um grande feito por ser filha única —, pois sempre tive a nítida ideia de que não poderia sentir ciúmes de algo que não me pertencia e passei a fazer listas analisando as coisas que me pertenciam e as que não. Toalhas, embora quisesse, não, livros sim, computador não, vestidos sim, pessoas definitivamente não, com algumas exceções. Aos quatorze tive que criar uma regra diferente para pessoas, para que pudesse viver sem sentir desgosto por mim mesma toda a vez que entrasse em qualquer tipo de relacionamento, então passei a categorizar as que por aproximação me pertenciam e as que não. Assim, amigas estavam no grupo de não pertencentes, afinal uma amiga, como a Karin, também era amiga de outras pessoas, então ela não era realmente minha. Minha mãe, por exemplo, estava no grupo de pertencentes, afinal era eu quem tinha saído de seu útero então por aproximação ela era minha e eu podia nutrir um ciúmes assassino por ela. Pessoas por quem eu tinha uma queda, embora fosse eu a ter essa queda, estava no mesmo grupo de amigos, porque elas não eram minhas, pelo menos não até se tornar meu namorado, pois neste caso, ele era meu. E foi na faculdade, com o belíssimo moreno de olhos ônix, que eu descobri que nem mesmo as pessoas que por aproximação me pertenciam, eram minha posse realmente.
O problema em tudo isso era que, mesmo que ela fosse sua, um indivíduo ainda seria dele mesmo e pertencente ao seu futuro e passado. E meu namorado tinha um longo passado ao qual pertencer, passado de diferentes nomes, idades e longas histórias. Infelizmente, a medida de distância e tempo não são a mesma coisa.
“— Eu vou te amar por anos luz.”
Já tinha escutado essa frase tantas vezes depois de cada crise de ciúmes, que tinha se tornado sua maior jura de amor, mesmo que estivesse errada. Ainda assim, era uma jura e não demorou que eu trocasse cada uma das minhas crises por ela, ao mesmo tempo em que tentava me convencer a ser uma pessoa evoluída. O problema é que assim como a chama percorrendo o pavio de uma vela, seu amar um dia simplesmente apagou-se. Sendo justa com ele, hoje eu entendo que um amor simplesmente não se acaba, ele é um conjunto de estímulos que perdem a força, que se desgasta e justo nosso amor que tinha nascido sobre o nada, não teve nada onde se segurar quando começou a desmoronar. Mas eu não enxergava isso naquela época, e a única coisa que consegui fazer foi me desesperar por sentir estar o perdendo entre meus dedos.
E mesmo com a areia escorrendo, nosso relacionamento durou por mais um ano inteiro, mais regado a lágrimas do que beijos, e as fotos que eu tanto amava se desfizeram assim como nosso vestido. Sabíamos, mais do que qualquer um, que aquilo não estava mais certo, que não deveríamos continuar, mas a saia daquele vestido era apertada demais para que conseguíssemos nos afastar. Assim, quando eu saía, ele me puxava de volta, mas no fundo ele apenas não me queria ali só não queria ter a sensação da minha partida. Eu o amava, jamais negaria isso, mas no fundo eu também não queria mais estar ali.
Seus toques ficaram frios, seus beijos tinham gosto de morte, e a única coisa quente era o choro que me acompanhava, a única coisa real era a dor que abrasava meu peito. Não éramos pessoas ruins, estávamos apenas errados em nos obrigar a tentar manter aquilo vivo, porque éramos almas gêmeas que se completaram, não?
A pior parte, que me fez criar minhas dores de cabeça, foi perceber a transparência de nosso relacionamento. Alguns dias, me perguntava se aquele namoro era realmente entre nós dois ou se todas as pessoas à nossa volta também eram meus namorados e namoradas. Ao que parecia, quando as pessoas estavam encurraladas a fazer algo que eles não queriam, preferiam conversar com outros do que com a causa do problema, e sem dúvida naquela época eu era a problemática, pois soube do nosso termino pelos lábios de alguém com quem mal tinha trocado duas palavras.
“— Ele não sabe o que fazer com você.”
“— Você não pode ficar esperando por ele para resolver a sua vida.”
“— E aquelas mensagens que você enviou?”
Nada mais justo que, no dia em que me cansei de toda aquela história, aos berros dentro de uma sala, mandei tudo e todos ao inferno antes de encarar meu quarto namorado nos olhos, internamente desejando que o prédio caísse sobre sua cabeça e externamente muito disposta a fazer isso. E, ainda assim, mesmo irritada, sabendo que nossa caminhada tinha terminado, eu chorei e fui a única a chorar quando decidimos seguir por caminhos diferentes, quando ele me sugeriu que eu deveria colocar ele dentro da gaveta, como se isso não doesse nele como em mim.
Embora eu tenha saído debaixo daquela escada com o rosto lavado e sorridente, mais tarde, quando encontrei a ruiva em sua casa ao dar uma única garfada na salada, me percebi desatando a chorar como nunca em anos. As lágrimas não paravam e eu não queria contar o que tinha acontecido, estava farta de pessoas de fora tomando nossas dores. Dores que deviam ser somente minhas e deles, mas que somente eu sentia. Meu corpo tremia, o nariz escorria e tinha a nítida sensação de não conseguir respirar, mas Karin não me fez qualquer pergunta, ela apenas me abraçou tentando juntar os pedaços que eu sentia se desmontarem. Naquela tarde eu aprendi duas coisas: eu não precisava dizer onde dói para que Karin entendesse, e relacionamentos, por mais anos luz que tenham sido prometidos, não deveriam ser arrastados como carcaças por aí. Ali, também aprendi que não conseguia comer quando estava triste, porque começava a chorar e que, puta merda, eu odiava almas gêmeas. Tudo bem, foram quatro coisas apreendidas.
Depois de passar uma noite tendo crises de choro, querendo voltar atrás e implorar que o moreno não me abandonasse, acordei me sentindo pior, e no dia seguinte pior ainda. Em resumo, foi um longo final de semana.
— Como você está se sentindo? — murmurou ao meu lado.
Sua voz complementou-se a minha lembrança, quando Karin me perguntou pela última vez como eu me sentia e pela primeira vez minha resposta foi diferente. Eu não estava bem, mas sabia que iria ficar, foi quando notei que tinha chegado ao fim do vestido, onde o tecido se abria, dando liberdade aos pés de se moverem. Eu sentia o restinho do aperto, mas não queria voltar atrás, a ideia de que ter terminado era o melhor a se fazer por mim, mesmo que doesse, era tão nítida que refreava os espinhos sempre que tentavam perfurar meu peito. Talvez aquela tenha sido de fato a primeira vez que entendi que nem sempre o que eu queria, era o que eu precisava.
Ter aquilo em mente manteve meus pés alertas durante todo o mês em que nos mantivemos longes, no qual eu segui com a minha própria vida assim como deveria fazer, triste de vez em quando, mas sem acordar aos prantos durante a noite até simplesmente não chorar mais. Assisti em loco minha ferida se fechar, uma experiência estranha e dolorosa, mas sem dúvida especial o suficiente para aprender como dar pontos em todos os rasgos que encontrasse em meus próximos vestidos. Na tarde em que nos reencontramos, seus olhos não buscaram pelos meus e senti-me triste por isso, a primeira coisa que fazíamos era trocar olhares. O moreno me pediu desculpas assim como eu lhe pedi, devolvendo a ele a pequena pulseira que selava nossa relação e, naquela tarde, nosso término. Eu estava fatigada, mas nenhuma vítima pode me dar mais forças do que invadir o banheiro de Karin com uma tesoura nas mãos e cortar meus cabelos.
Talvez não fosse exatamente uma lição aprendida, todavia, ao fim de cada ciclo passei a cortar meus cabelos, me fortalecer e me conhecer mais uma vez antes de vestir o próximo vestido.
— Estou bem — suspirei em liberdade, sem querer alargando meu sorriso.
O som da segunda porta se abrindo nos calou, convidando nossos olhos a vislumbrar a nova sala, com menos anáguas que as outras.
— Acho que é isso... — A vendedora comentou, nos dando passagem. — Temos diferentes modelos, mas a maioria é sem volume, sabe?
— Ótimo.
Dessa vez, realmente animada, me aproximei das roupas. Depois de tantos vestidos, o cheio de princesa, o curto de adolescente, o reto para acalmar e o colado, finalmente tínhamos chegado no tipo de vestido que combinava comigo. Caminhei em direção ao mais próximo, de cor marfim entre o branco dental. Seu corpete era feito por rendas, igual as falsas alças que caiam ao seu lado. A saia, sem volume além do próprio tecido pregado, descia solta e longa até o chão, quase transparente até formar arabescos nas barras. Havia uma costura na cintura que a demarcava, algo meramente belo, sem realmente prender. O tom rosado do tecido sob a saia dava a sensação vivida ao vestido, p colorindo como o céu no pôr do sol.
— Você gostou desse, não foi? — Karin comentou divertida.
— Eu estava usando um parecido com esse quando o encontrei.
— Seu noivo? — A morena indagou interessada.
— Isso — comentei saudosa, recordando de nosso primeiro encontro.
— Acha que ele vai gostar desse vestido?
— Ela poderia ir de moletom e calça jeans para o altar que ele ia achar ela maravilhosa. — Revirei os orbes, aceitando a alfinetada da ruiva.
— Na verdade, acho que ele ficaria aliviado, porque assim ele também não teria que usar o terno — brinquei — Ele provavelmente iria de camiseta e bermuda ao casamento.
— A camiseta da atlética.
A fitei rindo em conjunto ao imaginar a cena do loiro sob as flores, no improvisado altar, com a sua camiseta da atlética dançando com a brisa do mar. Era indiscutivelmente bonito, tanto quanto divertido.
— Posso experimentar?
— Claro! — Tentei não rir quando ambas, vendedora e Karin, responderam ao mesmo tempo, provavelmente cansadas da minha indecisão. — Deixa eu só pegar para você.
Quando sua mão o puxou da arara, pude notar o tecido movendo-se, como se fosse ondas. Era diferente, principalmente na cor, mas ainda me lembrava o vestido do nosso primeiro encontro, simples e divertido, seguro de si e maduro. Aquela altura, eu não gostava mais de princesas.
Nosso primeiro encontro na verdade não foi o primeiro, tão pouco o terceiro, mas depois de cinco anos eu me sentia uma pessoa completamente diferente, ainda aprendendo, mas sem dúvida alguma prendada. Reencontrei o irmão de Karin em uma lancheria no centro da cidade e foi impossível não reconhecê-lo, mesmo que não o visse há muito tempo. Ele estava com alguns amigos, eu estava a trabalho, mas tudo em volta perdeu completamente o significado quando nossos olhos se encontraram.
Na época, tinha voltado a usar vestidos com decotes e sem volume, mais maduros do que costumava. A ideia de que ser a princesa em perigo a ser salva no alto da torre simplesmente não me agradava mais. Eu gostava de ver histórias e achava bonito outras pessoas usando tais vestidos fantasiosos, mas não queria vesti-los. Exatamente como uma criança que cresce muito rápido, essas roupas não cabiam mais em mim. Pelo contrário, minha preferência estava em ser o cavaleiro, mas não queria resgatar ninguém sobre a torre, ao menos não sozinha. Não queria um príncipe ao meu lado, queria um guerreiro, um Duval e não Learco, que lutasse ao meu lado, ambos em conjunto apoiando um ao outro até que um dia essa batalha terminasse e pudéssemos relaxar juntos longe da guerra.
Foi também nessa época que passei a comprar inúmeros livros questionáveis de fantasia, porém, Naruto não julgou meu estranho gosto quando o levei para minha casa naquela mesma noite, a fim de relembrar os velhos tempos. Não houve nada de velho naquela noite, na verdade, a noite foi como uma criança. Aquela foi a primeira vez que me senti tão bem ao dormir com alguém, não porque era o Naruto, mas porque eu estava segura de mim mesma, do meu corpo e principalmente do que eu queria, e sinceramente não há nada melhor do que se sentir a mulher mais incrível do mundo junto de alguém que também te acha a mulher mais incrível do mundo.
A parte mais estranha talvez, tenha sido acordar e descobrir que o loiro tomava chá de manhã, pois o restante foi simples, de um jeito estranhamente bom. Eu já tinha experimentado esses vestidos simplistas, mas aquele era diferente. Tudo era fácil, conseguíamos conversar sobre várias coisas e quando não queríamos, estava tudo bem. Tentávamos nos ver com frequência, não por obrigação, mas simplesmente porque estar na companhia do outro era doce, de forma que eu não precisava dele só para mim, mas, nos dias que não podíamos nos ver, ambas as partes entendiam perfeitamente e remarcavamos sem mágoas.
A primeira vez que não consegui ler um Uzumaki foi na noite em que contei tudo à Karin e fiquei completamente no escuro, sem saber se ela estava brava ou feliz com aquilo. Confusa, foi o que ela me respondeu, antes de me parabenizar por enfim achar alguém decente. É claro que seria impossível eu encontrar alguém como ele sem que eu mesma encontrasse a mim, conhecesse esse estranho ser a quem vejo no espelho todos os dias, de manhã ao anoitecer. Mas eu sabia, depois de tantos anos, que era preciso apenas alguns meses e alguns deslizes para que eu mudasse novamente, então preferi não mencionar essa parte introspectiva à ruiva.
Sim, aquele era o vestido ideal para nosso casamento, para nosso amor, para mim. Não precisava de esforço para amá-lo, porque simplesmente acontecia, e não apenas de forma romântica. Este vestido era construído, trabalhado desde o início. Eu não me apaixonei por Naruto na primeira vez que nos vimos, mas nos tornamos amigos, eu o conheci e o descobri e, enfim, quando me dei conta, meu amigo fazia meu coração esquentar e quando nos reencontramos vi nele o rapaz a quem eu poderia de fato amar. Ele tinha um passado, assim como eu, mas eu o respeitava e sabia dividir o loiro com o mesmo, assim como as outras pessoas. Ele não era minha posse, mesmo que jurasse que seu coração fosse meu. Bom, meu coração também era dele, mas não precisamos tirá-los de nossos peitos e os entregar, só precisávamos estar juntos, mesmo que de corpos distantes.
Nada foi perfeito, brigas e pequenas discussões faziam partes de viver com outra pessoa, afinal não somos siameses, temos gostos e ideais diferentes, mas Naruto sempre soube me esperar na varanda, e de peito aberto me sussurrar como estava se sentindo, até que eu fizesse o mesmo, em lágrimas. Sim, as lágrimas ainda me acompanhavam, muito mais de felicidade do que de tristeza, e soltá-las livremente ainda era um problema ao meu orgulho imaturo. Talvez eu precisasse de mais alguns ajustes nessa roupa para vencer esse obstáculo, no entanto, o importante é que sabia que conseguiria fazê-lo no meu tempo e que teria o Uzumaki ao meu lado para me ajudar se assim eu o quisesse.
A cada vestido que eu usei e a cada aprendizado, meu peito se transformou junto a minha consciência, até que eu chegasse ao tal ponto de dizer “sim, eu aceito” a mim mesma, antes de dizê-lo aos outros. Engraçado que depois de vinte anos, meu amor por vestidos nunca tinha minguado, eu ainda os adorava e que, em vinte anos, eu nunca tinha usado um único vestido.
— Sim, é esse.
Notas finais
Muito obrigada por lerem isso, boa sorte e muitos afetos felizes!
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