Verão Verde-Azulado
5 Capítulo 05
Notas iniciais
Minha mãe me faz organizar meu armário no domingo, e assim eu encontro minha velha filmadora que eu nem lembrava que eu tinha. Ela ainda estava funcionando perfeitamente, então eu decido levá-la comigo para o trabalho na segunda.
Encontro o Levi rabiscando em seu caderno novamente quando chego lá, então pego a filmadora e começo a filmar enquanto me aproximo dele. Como sempre, ele fecha seu caderno antes que eu visse o que ele estava fazendo, e quando ele levanta sua cabeça, ele franze o cenho profundamente para a câmera.
“O que você tá fazendo?” Ele pergunta.
“Um filme.” Continuo o filmando e sento na cadeira ao seu lado. “Sobre um garoto roqueiro que trabalha em uma loja de conveniência.”
“Parece promissor.” Ele arqueia uma sobrancelha. “Você pode parar de filmar agora?”
Paro a gravação e desligo a câmera. “Achei essa filmadora ontem e agora eu sinto como se eu tivesse que filmar algo legal com ela.”
“Hm.” Ele volta sua atenção para seu computador. “Vamos fazer um filme pornô. Pelo menos podemos ganhar algo com ele.”
“Quem seriam os atores?” Dou de ombros, ligando o computador.
Levi se vira para mim, piscando os olhos repetidamente como se estivesse tentando me seduzir. “Você não disse que eu tenho um rosto bonito?”
“Sim, mas você poderia ser a estrela de um filme indie sobre um rock star underground. Não um ator pornô, eu digo.”
“Isso soa muito melhor.” Ele concorda. “Mas eu quero estar em um filme pornô.”
“Ok, então vamos colocar umas cenas de sexo explicito nele.”
“Você vai ser meu interesse amoroso?”
Eu rio. “Não sei como me sinto sobre aparecer nu na frente das câmeras.”
De certa forma, a forma que ele apenas ri suavemente e volta a atenção para seu computador me dá a sensação de que eu o dei a resposta que ele queria escutar. Não que eu realmente entendesse o porquê, já que estávamos apenas brincando e tal.
“Então, como foi o final de semana?” Pergunto, tentando começar uma conversa normal. Levi abruptamente se vira para mim de novo e me encara torto. Tanto para fazê-lo parecer feliz para acabar com tudo em um segundo. “Ah, desculpa, sem conversa fiada.”
“Um dia você entenderá meu ódio contra conversa fiada. Mas, só pra eu parecer legal, eu não fiz nada no meu final de semana. E você?”
“Só tive que arrumar meu armário. Bom, eu ia sair com a Mikasa e nosso outro amigo Armin, mas o Armin não pode e nós adiamos.”
“Hm.” Ele concorda, não muito interessado.
“Você deve ver seus colegas de escola o tempo todo, né?”
“Sim, às vezes eu os vejo por aí. Mas não é como se eu conversasse com eles, eu perdi contato com todo mundo.”
“Isso é triste.”
“Não muito. Os poucos que eram mesmo meus amigos apenas vieram me perguntar sobre minha vida. Odeio quando as pessoas fazem perguntas demais, então parei de responder depois de um tempo.”
“Eles estavam apenas curiosos.”
“Bom, eu não gosto disso.”
Levi não era muito tolerante, eu deveria ter cuidado com ele. “Então com quem você sai?”
Ele me olha com uma expressão vazia e dá de ombros. “Você não tem amigos?”
“Acho que você poderia dizer isso.”
“Então você sempre sai sozinho?”
“Eu raramente saio.” Ele suspira. “E quando eu saio, é para ir ao parque para desenhar algo.”
“Oh, certo.” Era meio estranho e deprimente, mas ele não parecia incomodado pela sua situação. Acho que era só eu que achava isso. “Ah é, quem era aquele homem no sábado?”
“Ah.” Ele fica um pouco tenso. “Meu tio Kenny.”
“Ele parecia meio assustador.”
“E isso é porque você só o viu uma vez. Ele é um monstro e me odeia.”
“Nossa.” Faço careta. “Então é por isso que você quer chegar aqui todas as manhãs o mais cedo possível.”
“Sim. Ao menos aqui eu posso respirar em paz.”
Alguns clientes entram e saem até a hora do almoço. Levi estava prestes a aquecer os mesmos sanduíches que comemos pela semana passada inteira, até eu ter uma idéia melhor e sugerir que devíamos pedir pizza.
“Pizzas são caras.” Ele franze o cenho. “A Hanji nos dá dez dólares pra comer todos os dias, não vai ser suficiente pra pizza.”
“Eu intero. Sério, se eu comer outro desses vou vomitar.” Eu insisto. “Vem cá, vamos escolher um sabor que nós dois gostemos.”
Ele hesita um pouco antes de colocar os sanduíches de volta no freezer. “Tem certeza?”
“Sim, vem cá.”
Ele volta para os caixas e nós ligamos para a pizzaria do fim da rua. Menos de meia hora depois a pizza chega, parecendo excelente.
“Agora sim.” Pego uma fatia e dou uma mordida.
“Nossa.” Levi cuidadosamente pega outra fatia com um guardanapo. “Faz um tempo desde que eu comi uma.”
“Sério?” Pergunto com a boca quase cheia. “Como pizzas demais na faculdade.”
“Como você não tá gordo?” Ele ri antes de dar uma mordida pequena. “Isso é bom.”
“Pizza é a melhor comida do mundo.”
Haviam oito fatias, e depois de três eu já me sinto cheio, enquanto o Levi come só duas e se sente completamente satisfeito. Então deixamos a caixa sobre o balcão para comermos se ficássemos com fome de novo, o que acontece depois de uma hora ou duas. O movimento fica mais lento à medida que o dia passa, e estava ficando imensamente chato de novo.
Pego a filmadora mais uma vez e começo a filmar a loja.
“Nós realmente devíamos fazer um filme.” Digo, virando a câmera para Levi, que estava rabiscando em seu caderno de novo.
“Claro.” Ele diz, desinteressado.
Uma idéia surge em minha mente de repente, então eu me levanto empolgado. “Que tal um clipe?”
Ele levanta a cabeça lentamente e me olha. “Você realmente quer fazer isso, né?”
“Só por diversão, vamos lá.” Eu insisto. “Escolhe uma música.”
Ele fecha o caderno com um suspiro e se levanta, já pegando seu celular. Ele mexe nele, aparentemente procurando por algo. “O que combinaria com uma loja de conveniência?”
“Alguma coisa épica.” Eu sugiro. “Ou dramática.”
“Okay...” Ele ri, ainda olhando para a tela, até que ele repentinamente para. “Algo sobre o estilo de vida consumista também cairia bem.”
“É...” Digo, me perguntando que música poderia ser.
Ele a coloca para tocar e eu instantaneamente começo a rir. Era a Material Girl, da Madonna. Ele finge cantar o começo da música, usando o seu celular como microfone, e eu aponto a câmera para ele.
“Não, não filma isso.” Ele cobre a lente com sua mão.
“Tá engraçado, continua!” Eu dou um passo pra trás. “Coloca a música do começo, vamos fazer um clipe.”
Ele me olha, entretido. “Por que eu?”
“Porque você é o bonito aqui e você sabe a letra.” Eu paro de filmar e deixo a câmera pronta para começar um novo vídeo, e, enquanto estou ocupado com isso, mal noto que Levi cora. “Se prepara!”
“Por que eu tô concordando com isso...” Ele mexe em seu celular. “Tá, começa a filmar.”
Tento o máximo que consigo não rir e começo a andar para trás, o deixando se mover. Ele finge cantar a música olhando direto para a câmera e tentando parecer sério, mesmo que ele acabe rindo no fim de cada frase. No refrão ele fica mais relaxado e interage com os produtos da loja e até comigo – puxando meu braço, me mandando beijos no ar... Apesar de que ele estava sendo apenas divertido, eu não consigo evitar pensar em como ele fica bem na câmera. Tipo, se fosse eu fazendo isso, eu seria apenas ridículo. Ele podia fazer qualquer coisa e nunca ficaria mal.
Não me pergunte o porquê desses pensamentos preencherem minha mente. Talvez fosse apenas um tipo de reação por sua aura. Eu não conseguia tirar meus olhos dele.
Assim que a música acaba, eu paro de filmar e coloco o vídeo para tocar para que nós assistíssemos.
“Nossa, apaga isso, por favor!” Ele ri, olhando a pequena tela da filmadora.
“Claro que não! Isso vai ser guardado pras gerações futuras.”
“Você nunca vai mostrar isso pra alguém, então.” Ele pede. “Nossa.”
“Não se preocupa, eu não vou. Mas você tá bem no vídeo, mesmo agindo estupidamente.”
Ele torna seu olhar para mim, um sorriso suave ainda em seus lábios. Ficamos nos encarando, e antes que eu dissesse alguma coisa, ouvimos a porta automática sendo aberta e um cliente entra. Eu rapidamente desligo a câmera e a guardo dentro de minha mochila para fingir que não estávamos fazendo nada além de trabalhar.
Não muito depois nosso turno acaba. Deixamos a loja ainda rindo enquanto lembramo-nos do vídeo, e começamos a ter idéias para outros vídeos também. Enquanto vamos até minha bicicleta, somos surpreendidos pela Mikasa, que estava andando até nós.
“Ah, ei.” Ela olha entre nós.
Nós ainda estávamos rindo, então tento me recompor. “Ei, Mikasa! O que está fazendo aqui?”
“Ah...” Ela olha para Levi e pausa. “Nada de mais, só passando. Parece que estão se divertindo.”
“Sim, estamos.” Eu digo, olhando para Levi. “Estamos discutindo algumas idéias.”
Então Levi me dá uma cotovelada na barriga, e nós começamos a rir.
“Isso parece... Legal.” Ela diz, meio sem jeito.
“Mas o que está fazendo aqui?” Fico curioso.
“Só vou comprar uma coisa aí dentro.”
“Ah, ok! Estamos indo embora agora, então te vejo depois.”
“Até depois.”
Levi e Mikasa apenas se cumprimentam com a cabeça e ela entra na loja. Era meio estranho a Mikasa vir aqui para comprar algo, sendo que há uma loja de conveniência bem mais perto da casa dela, mas eu iria pensar nisso depois.
“Vamos?” Eu digo.
“Sim.” Levi concorda.
Nós seguimos o caminho todo rindo e zoando de coisas, e, dessa vez, ele acena para mim da porta antes de entrar em casa. Eu aceno de volta e fico lá parado estupidamente por alguns segundos antes de virar minha bicicleta e ir para casa.
E no caminho de casa eu finalmente penso sobre a vinda de Mikasa. Parecia que ela havia ido lá apenas para me ver, mas ficou desconfortável com o Levi e desistiu. Então, assim que chego em meu quarto, eu ligo para ela.
“Eren!” Ela atende. “Eu ia te ligar mais tarde.”
“Ah, é? Eu tava curioso com o motivo de você ter aparecido hoje...”
“Sim...” Ela pausa. “Na verdade, eu queria te convidar pra minha festa de aniversário nesse final de semana.”
“Ah, seu aniversário!” Bato na minha própria testa. Sou péssimo com datas. “Nossa, quase esqueci.”
“Não esquenta.” Ela ri. “Vai ser só uma coisa pequena nos fundos da minha casa, então eu espero que você venha. O Armin já confirmou e tal.”
“Claro, estarei ai!” Eu concordo. E silêncio de novo. Minhas conversas com a Mikasa não estavam mais fluindo como antes. Pelo menos o silêncio me faz pensar no Levi e em como eu gostaria que ele fosse comigo. “Ei, uh... Posso chamar o Levi pra ir comigo?”
Ela continua em silêncio por longos segundos e eu temo ter feito a pior pergunta que poderia ter feito. “Claro.”
E outro silêncio. “Uh, então eu te vejo lá?”
“Sim.” Ela suspira, como se ela ainda quisesse dizer algo, mas eu interrompi. “Até lá.”
Encerro a ligação me sentindo muito estranho. Mas, então, pego minha mochila e pego a filmadora de dentro dela para ver o vídeo novamente.
Caio em minha cama e assisto em loop umas três vezes. E eu não me cansava de ver o Levi na tela.
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