Versus Infernum
4 O pacto de San Ricardo
Notas iniciais
Depois de sair da taberna Spark reparou: "Pensando melhor, não sei se foi uma boa ideia ameaçar dois demônios de uma vez, mas agora não tenho mais tempo. Tenho que me concentrar." Ele decidiu atacar primeiro Lilith, pois já conhecia as habilidades da guardiã infernal e pensou que seria a mais fácil de derrotar. O anjo assumiu à sua forma original e pegou um impulso com suas grandes asas brancas, iria tirá-la logo do jogo.
A alguns metros, Lilith se alegrou ao ouvir os passos fortes do anjo saindo da taberna. Finalmente ia lutar contra Spark! Voltou a sua forma original e se virou no momento em que um tornado quase a atingiu. Ela foi obrigada a se jogar para o lado para evitar o ataque e criou uma coluna de fogo direcionada para o anjo.
Laican imaginou que Lilith dava conta do recado e decidiu apenas assistir, porém logo percebeu que o lobisomem de antes vinha em sua direção. “Sério mesmo que ele quer se meter nisso?”, se perguntou. Mas Brown já havia se transformado e, por um instante, sua excentricidade encantou Laican.
Ao contrário da maioria dos lobisomens, ele não tinha pelagem escura, mas sim, branca como sua pele antes da transformação. Sua cauda tinha a ponta de cor vermelha e, em seu rosto, a tatuagem também vermelha permanecia. Seus cabelos negros se transformavam em uma espécie de arco em seu pescoço que se estendia para a parte da frente e seu colar de espinhos, posto pela bruxa que o transformara, era quase coberto pela pelagem. O seu corpo na forma lupina se assemelhava aos de lobisomens comuns. Possuía garras e presas longas e afiadas e uma força e velocidade maior do que qualquer animal comum. Seus olhos eram selvagens e permaneciam cor de sangue.
Ele atacou o Laican, jogando-o na parede. O lupino parecia controlar sua fúria, mas o demônio pôde senti-la dentro dele. Então deu um sorriso e, com um rápido movimento, jogou o lobisomem para longe.
— Um lobisomem de dia, é novidade pra mim. — ele deixou sua forma demoníaca sair.
— Não vai ser tão fácil assim! — gritou o lobisomem, se levantando.
“Acho que dá pra brincar um pouco com ele", Laican o chamava para atacar, esperando para ver a real a força do lupino. Com isso, Brown teve tempo de analisar as armas mais perigosas de seu adversário. Sua cauda, sua asa. Poucas coisas, além disso, chamaram a sua atenção para se cuidar na batalha. Então ele correu na direção do mestiço, pulando na direção de uma das asas com suas garras afiadas.
"Nem pensar". Mesmo sendo rápido, o lobisomem não se comparava a um demônio. Laican desviou do ataque e socou o estômago do lobo, lançando-o em direção a uma pequena casa da vila. Os moradores gritaram em desespero ao verem uma criatura imensa atravessar as suas paredes. Então correram sem nem pensar para onde
— Vamos lobo, ataque com toda sua força! — o demônio o provocava.
Brown tinha sentido a força do seu inimigo. Normalmente ninguém daria um soco que sequer doesse nele, mas esse o deixou dolorido. Demorou alguns segundos para se recuperar "Vou ter que seguir com outra ideia", ele pensou. Então arremessou uma mesa de madeira que viu ao seu lado e pulou para o teto da casa.
Laican, ainda calmo, desviou facilmente da mesa e apenas observou o lobisomem subindo no telhado. "O que ele pensa que vai fazer?", algo naquele lupino o deixou intrigado.
— Vamos lá! Não foge não cachorrinho! — Com um tom de ironia, ele começou a atirar bolas de fogo.
O meio-demônio ia facilmente destruir todo aquele lugar e Brown percebeu sua desvantagem. Ele olhou em volta e pulou, correndo até um pequeno bosque na vila. "Aqui eu posso ter alguma vantagem", ele pensou enquanto se escondia para um ataque surpresa. O demônio logo apareceu no bosque, calmamente procurando pelo humano que lhe desafiara. O bosque estava meio escuro, mas nada que lhe preocupasse no momento.
— Lobinho, vem cá garoto.
O bosque era o lugar perfeito para o lupino, ele tinha escalado uma das árvores e esperava pelo momento perfeito para dar o bote. Quando o seu inimigo passou abaixo, mirou suas garras afiadas e pulou. O demônio se surpreendeu ao sentir suas asas serem perfuradas pelo lobisomem. “Maldito!”. Brown tentou se manter no lugar para rasgar o pescoço do demônio com uma só mordida, mas o adversário foi rápido demais. Laican já havia agarrado sua cabeça e o jogara para frente num arco perfeito até suas costas se estatelarem no chão.
O príncipe infernal respirou fundo para controlar a pontada de raiva que o golpe inimigo o causara. Seus olhos haviam se tornado mais frios ,e suas fortes asas negras estavam estendidas, como se quisessem transformar o ambiente numa tenebrosa escuridão. O sangue vermelho vivo contrastava, escorrendo elegantemente pelas penas perfeitamente alinhadas.
— Belo ataque, mas não é o bastante. — Laican disse encarando o lupino caído a sua frente.
Brown novamente se levantou, dessa vez bem mais lento. A dor percorria o seu corpo e ele se afastava do meio demônio. “Como? Era para eu ter rasgado suas asas. Mas ele continua intacto na minha frente!”, a confiança do lobisomem estava abalada e ele cogitava fugir. Laican encarava o céu, podia observar Lilith e Spark lutando acima dele. Na verdade. Lilith e vários Sparks. "Belo truque", pensou.
Ao voltar sua atenção para o bosque, o príncipe voou com agilidade para cima do lobo, dando um soco direto em seu corpo e atirando-o longe contra uma árvore. Ele sabia que a dor havia enfraquecido seu oponente, mas outra vez se surpreendeu ao vê-lo se impulsionar no tronco e tomar uma velocidade incrível, indo de árvore em árvore até ele. “Esse lobisomem é mesmo insistente”, o pensamento lhe ocorreu.
Brown se lembrara de sua família, da alegria e do amor que seriam destruídos se os demônios dominassem. “Não posso fugir! Esse demônio não pode vencer!”, reforçava. Quando próximo o bastante, ele pegou um dos galhos maiores e atacou o inimigo. O príncipe permitiu que o galho lhe atingisse e a força da pancada foi o bastante para jogá-lo no chão. Então o lupino se posicionou em cima dele para cravar os dentes em seu pescoço. Porém, no momento seguinte, Brown sentiu algo perfurar seu estômago. Ele se afastou, cambaleando e pôde ver seu sangue pingando da cauda afiada daquele demônio.
— Então você está curioso? — disse o Príncipe enquanto rapidamente aparecia atrás do lobo. Ele envolveu o pescoço do adversário, aplicando um mata leão. — Não se preocupe, não vou lhe matar. Só quero que me escute... — Laican percebeu que a batalha entre Lilith e Spark se aproximara deles e aumentou seu tom de voz — Que todos vocês me escutem!
*****
Logo que Spark assumiu sua verdadeira forma, os humanos próximos foram cegados com aquela poderosa luz celestial que ele ainda possuía. Alguns desmaiaram, mas a maioria apenas fugiu com medo daquele acontecimento inexplicável. A pequena cidade logo foi tomada pelo temor do que viria a seguir e os humanos se esconderam em suas casas, rogando que algo lhes protegesse. Porém não era com isso que o anjo que havia ali estava preocupado.
"Quase fui pego por essa coluna de fogo. Parece que eu não a conheço tão bem assim, mas agora ela não me escapa" pensou Spark. Ele tinha levantado voo para desviar do ataque e logo seguia em direção à Lilith. No entanto, ela percebeu a aproximação do anjo e também alçou voo, afastando-se e criando uma parede de fogo entre os dois. O anjo se afastou um pouco, tinha que pensar na melhor maneira de usar seu elemento contra ela:
— Creio que você não vai pegar leve. Então eu vou com tudo — ele parecia mais animado;
Um pequeno círculo de magia surgiu ao seu lado e uma grande foice foi materializada dele. Com um leve movimento na arma, Spark foi capaz de cortar o ar e lançar uma lâmina de vento em direção à demônio. Ao perceber a fenda de ar no fogo, Lilith teve que interromper sua magia, dando um impulso para cima e fugindo do corte que ele mirara.
— É claro, que não vou me segurar. Acredito que nossa batalha possa ser realmente boa — Ela disse com um sorriso. Então abriu bem suas asas e disparou na direção do anjo, com os cabelos deixando um leve rastro de chamas no ar.
"Ela é mais forte do que pensei, mas ainda tenho alguns truques.", Spark movimentou rapidamente a sua foice, a lâmina começou a emitir um brilho. O ar foi se distorcendo e criando algumas figuras ao redor do anjo, até que ele completou o feitiço. Alguns clones haviam surgido e se posicionaram ao redor da adversária, lançando-lhe vários golpes. Lilith se surpreendeu. Ela teve que encolher suas asas, recebendo algumas pancadas. Porém, quando as estendeu novamente, grandes flechas de fogo se direcionaram a cada um deles.
Spark tinha aproveitado a oportunidade e se juntado com outras 5 cinco cópias. “Te peguei!”, ele se alegrou ao ver que sua distração tinha funcionado. Numa sincronia perfeita, os anjos começaram a girar suas foices, formando uma grande corrente de vento que arremessou Lilith no meio da cidade. Ela atingiu uma das cabanas da vila, atravessando-a até o chão. "Esse desgraçado. Quero ver o que vai fazer agora!", Lilith quase rosnava. Ela também conjurou um feitiço, convocando uma criatura alada semelhante a uma cobra e mandando-a para acabar com os clones. Devido ao seu grande conhecimento sobre magia, ela conseguia reconhecer com certeza o verdadeiro anjo. "Agora é minha chance!", Spark estava confiante. Ele aterrissou atrás de Lilith e apontou sua foice para a inimiga:
— Realmente você é mais fraca que eu pensei. Agora é seu fim. — seu tom era neutro.
Ele lançou diversas lâminas de vento, mas elas simplesmente atravessaram a demônio, que se desfazia em chamas. "Uma ilusão!", mal deu tempo do anjo perceber quando Lilith o perfurou nas costas com uma pequena espada. Logo em sequência, ela desferiu um chute giratório tão forte que mandou Spark para fora da casa. Ele parou ao bater numa árvore e pôde ver a guardiã infernal saindo devagar pelo grande rombo na parede da cabana destruída.
— Acha que é o único que sabe enganar? — ela falou quase rindo.
Então ela disparou contra o anjo, mas ele conseguiu virar o jogo. Pulou por cima dela e aproveitou o momento em que ela se virava para agarrá-la e empurrá-la contra a mesma árvore.
— Realmente acha que é páreo pra mim? Você não conhece os meus verdadeiros truques — Ele havia se preparado para deixá-la inconsciente. Estava invadindo sua mente, olhando fixamente seus olhos.
A demônio fora pega de surpresa e usou seus últimos momentos de concentração para invocar sua cobra. Lust saiu da copa da árvore e deu um bote no pescoço do anjo. “Droga! De onde essa cobra saiu?!”, o pensamento e a dor distraíram Spark por tempo o bastante para que ele desviasse o olhar e a adversária o derrubasse com a cauda. Agora ela estava preparada para enfiar as pontas afiadas de suas asas bem no coração do anjo.
Por um instante, Spark viu que aquele lobisomem da taberna enfrentava o príncipe infernal e teve que pensar rápido “Ele não tem chance contra Laican, tenho que parar tudo isso agora.”
— Lilith!— rapidamente gritou e viu que ela estagnou — paremos por hora. Isso não vai dar em nada. Eu proponho um trato: ajudo vocês a encontrar essas esferas com a condição de que eu não seja afetado com o que isso trará para o mundo. Além disso, pare a luta de seu companheiro.
Lilith simplesmente ri e responde:
— Seu coração era meu já, anjo rebelde. Tenho que admitir que estava bem ansiosa para lutar com você. Não podemos nos expurgar completamente. Somos rivais eternos, anjos e demônios, não é mesmo? — Diz ela retirando as asas da direção do pescoço e coração do anjo. — Mas posso destruir seu corpo e você terá que ficar uns bons séculos para voltar a viver, eu afirmo. — Ela sorri para o anjo de forma quase angelical, se não fosse uma demônio. — Me diga então o que sabe dessas esferas.
Mas então Laican chamou a atenção dos dois, ele estava quase enforcando o lobisomem em seus braços, apertando mais forte do que deveria.
— Que todos vocês me escutem!
A guardiã se levantou, libertando o anjo rebelde totalmente e disse:
— Diga Laican.
— Estamos ouvindo. — continuou Spark, se levantando.
— E você lobisomem? — Só então Laican percebeu que o havia desmaiado. Soltou o corpo humano dele no chão e continuou. — Bom, percebi que você ficou interessado na conversa entre Lilith e eu, me dê um motivo para não lhe matar agora. — disse Laican encarando o Anjo.
— Se pudesse, já o teria feito. Conte logo o que tem pra falar, isso já está ficando chato. — Disse Spark ao mestiço.
A demônio estranhou o mestiço acabar apagando o lobisomem. Na verdade, estranhou ele não ter matado logo aquela criatura inútil. Pensou em lhe perguntar, mas queria mais saber sobre o plano daquele mestiço. “Spark pareceu se importar com a vida do humano, talvez seja divertido, ter o lobisomem perto por um tempo.”, pensou antes de ouvir a voz de Laican novamente.
— Não seja apressado cupido rebelde, quero que você faça um pacto comigo. Se fizer, lhe conto o plano. — Falou Laican querendo saber se o anjo poderia lhe ser útil.
— Pactos, pactos... Você gosta muito deles né? — Lilith se expressa sem seriedade alguma. — Vamos logo com isso.
— Isso depende, quais os termos do pacto. — Spark diz, como que ressaltando algo óbvio, e continua mais irritado — Vamos lá, não sou um idiota. Porque acha que não sou igual aos outros anjos?
— Ah, isso é um pacto simples, eu não posso te trair e você não pode me trair. Então, quer saber mais sobre meu plano? Vamos, preciso da ajuda de vocês para conseguir as esferas e tenho que mostrar alguém que está lá taberna. — disse Laican voltando em direção da taberna.
Antes de passar pela entrada da taberna, parou e encarou fixamente os olhos do homem que guardava a porta:
— Vá buscar aquele cara desmaiado no chão e cuide das feridas dele. — e o humano, sem hesitar, levantou e foi pegar o lobisomem.
Lilith pensou que talvez o mestiço estivesse passando dos limites e esperou para ver a rebeldia do anjo, caso ele não se controlasse. Então seguiu sem falar nada, tudo estava muito confuso para ela. Spark também estranhou a proposta e voltou à taberna, pensando: "Esse pacto... tenho que ficar esperto com esse cara.”.
Então o meio-demônio entrou na taberna e seguiu até a última mesa, onde estava um pequeno homem sentado. Ele tomou uma cadeira na mesa e fez um sinal para que a guardiã infernal e o anjo também se juntassem. Assim que Lilith olhou para o humano, percebeu o que era. Veio aquela alegria, haviam encontrado sua "presa". O pequeno homem continha a alma da pura gula e estava tão concentrado em sua enorme refeição que nem notara os estranhos sentando em sua mesa.
Fale com o autor