Vermillus

7 Capítulo 7 - Vermelho pela primeira vez...


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Enfim, espero que me desculpem pela demora e que gostem do capítulo. Boa leitura. =D

Quinn acordou assustada e com uma forte dor de cabeça.

Ela piscou os olhos. Uma, duas, três vezes até constatar que não estava na sua casa. Isso era impossível. Lembrava com perfeição estar no seu quarto zapeando os canais da tevê. Era tarde da noite. Seus pais tinham ido para uma conferência de advogados em Akron e não puderam voltar porque a nevasca bloqueou parcialmente a estrada. Com a governanta de folga e Frannie estudando na casa de uma amiga, não sobrara opção a não ser ficar sozinha. Detestava o silêncio que assolava a mansão Fabray quando todos estavam fora. Era desconfortável. Porém, rememorou, a taciturnidade foi quebrada com o ruído da campainha, e quando foi até o hall e viu Noah pelo olho mágico da porta, o recebeu com um revirar de olhos. Ele estava ciumento demais ultimamente e insistindo em avançar no relacionamento dia após dia. Não suportava isso, todavia, ainda gostava dele, então sorriu quando ele pediu perdão. Contudo, seu sorriso foi desmanchado assim que ele puxou algo do bolso e apertou contra o seu nariz.

Demorou cerca de dez segundos até sentir os olhos pesarem e seu corpo esmorecer, sendo capaz de distinguir quando o namorado a segurou antes de se deparar com a escuridão.

E agora, estava em algum lugar desconhecido.

Ela pôs os pés no chão, sentindo o assoalho gélido ainda que estivesse usando meias. Estavam no inverno, e provavelmente não havia aquecedor naquele local. Era uma casa. Rústica. O quarto onde estava era bastante amplo, mas impessoal. Sem porta-retratos ou algo do tipo. Só um armário o decorava, juntamente com a cama de casal e uma mesa de cabeceira.

Os olhos de Quinn migraram até a janela. Ainda estava de noite. Onde estava? E como foi levada até ali?

— Ela acordou! — Ela ouviu alguém comunicar. Uma voz masculina que jurava conhecer, então virou o corpo rapidamente na direção da porta. Estava aberta.

Ainda trajava calça moletom e um grosso suéter, entretanto, nem isso a privava de sentir frio, fazendo-a abraçar o próprio corpo na tentativa vã de aumentar a temperatura interna.

Passos foram ouvidos, e Quinn instintivamente recuou até encostar na parede de madeira clara.

Quando Noah apareceu, ela suspirou aliviada. Era o seu namorado ali. Mas a raiva dominou-a momentos depois ao lembrar do que ele fez, e em uma súbita ação, avançou sobre ele, estapeando-o com cólera.

— Seu idiota! Que brincadeira estúpida é essa? — Quinn quase gritava, acertando-o nos braços e peito.

Noah foi pego de surpresa, mas a segurou firme pelos braços, obrigando-a a parar e grunhir pela força utilizada.

— Me solta! Você está me machucando! — Quinn pediu, tentando empurrá-lo pelo tórax, mas sem sucesso.

Ela o fitou. Havia um brilho diferente nos olhos dele. Um brilho que nunca viu, e se assustou com isso.

— Eu quero você. — Ele começou a distribuir beijos longos pelo pescoço de Quinn, seguindo até a linha da mandíbula.

Ela resmungou e novamente quis se afastar. Novamente sem êxito.

— Puck... me solta... eu não quero isso.

— Ouviu ela, Puckerman? Ela não quer isso. — A voz que ouviu mais cedo debochou. Dessa vez, ela pôde ver quem era. Era Jake Puckerman, irmão e amigo de Noah. — Ela não vai ceder e fazer o momento mágico, então vamos fazer por ela.

Noah pareceu frustrado e soltou um som gutural, virando a namorada bruscamente e jogando-a na cama. Quinn mal teve tempo de se mexer quando o corpo dele caiu sobre o dela, pressionando-a contra o colchão.

— Eu sou um bom namorado, Quinn. Eu respeitei você, mas eu preciso disso. Preciso. — Ele murmurava no ouvido dela. A respiração errática batia contra a tez clara, fazendo Quinn sentir o estômago revirar e o medo corroer sua corrente sanguínea. Seus olhos marejaram, porque não era idiota e sabia o que ele queria em uma casa provavelmente afastada depois de tê-la dopado.

— Eu prometo... eu prometo que vou fazer isso, se você me soltar. Nós podemos ir para minha casa e...

— Não! — Ele gritou, assustando-a ainda mais e causando um choro silencioso nela. — Eu já esperei demais e agora vou ter o que é meu.

— Eu não sou sua! — Quinn não evitou retrucar. — Não sou um objeto, Noah. Sou uma pessoa. Uma garota.

— Uma garota gostosa. — Outra voz preencheu o quarto. Outro timbre. Também não era desconhecido para Quinn. Seria de algum amigo de Noah que não fizera questão de conhecer. Odiava como eles pareciam devorar qualquer garota com os olhos. Era nojento. — Vamos, Puck. Acabe logo com isso. Nós queremos participar também.

— O quê... não... Puck... não! — Quinn se desesperou, se debatendo o máximo que conseguia, querendo derrubá-lo no chão e sair correndo, mas ele era forte. Muito forte, e segurou seus braços, apertando seus pulsos e deixando marcas visíveis. — Por favor... não... — Voltou a chorar copiosamente, apoiando a bochecha no colchão. — Não faça isso...

— Eu amei você, Quinn, mas você não me deixou tê-la, então agora precisa pagar por isso. Eu tentei ser legal, mas não recebi nada além de respostas negativas. — Noah falava tudo calmamente. Com uma calma recheada de horror para Quinn.

— Você é louco... — Ela soluçava. — Socorro! — Ergueu o rosto para gritar. — Alguém me ajuda!

Os garotos começaram a rir.

— É uma cabana que há muito tempo não é usada pelo pai do Biff. Conhece ele, não é? — Noah segurou o rosto de Quinn, virando-o para encarar a porta.

Biff estava parado ao lado de Jake e do outro rapaz, Bryan, amigo de Noah e jogador dos Titans. Biff frequentava a sua igreja e já era adulto. O homem com quem seu pai gostaria que engatasse em um relacionamento. Ele era sempre cordial e por diversas vezes foi motivo de discussões entre Quinn e Noah. Ela mal podia acreditar que ele estava compactuando com isso.

Noah continuou.

— Eu ainda o odeio, mas concordei em deixá-lo ter algum benefício nisso. Em troca, ele cederia essa cabana. Legal, não? — Ele riu outra vez.

Quinn tentou se soltar pela segunda vez, brandindo os braços e as pernas, entretanto, Noah voltou com os apertos dolorosos.

— Pare com isso! — Ele esbravejou e fitou os outros três amigos. — Me ajudem a segurá-la.

— Não... não... — Quinn voltou a se balançar, no entanto, Jake e Bryan seguraram cada qual um dos seus braços.

— Vocês vão mesmo fazer isso? — Uma quarta voz se instalou no ambiente, e ainda que possuísse a visão tomada pelas lágrimas, Quinn olhou a porta, vendo Brody, outro membro da sua igreja, parado na porta.

— Claro que vamos! — Noah respondeu. — Quer participar?

Brody revirou os olhos.

— Que se dane. Eu vou estar no sofá. Terminem logo com isso. — Ele se retirou.

— Não! Volta aqui! — Quinn chamou, em pânico, em desespero e em uma agonia imensurável eclodindo no seu peito. Queria ajuda, mas não teria ajuda. — Volta... — Sussurrou a última parte, enterrando o rosto no colchão.

Ela ouviu o ruído do zíper se abrindo, ao passo em que sentia Noah segurar a barra da sua calça moletom, descendo-a até que estivesse no meio das suas coxas. O barulho de plástico foi a segunda coisa que ouviu e chorou mais, muito mais. O que se desencadeou depois disso foi como facadas no seu corpo. Noah ainda a lubrificou para que não houvesse complicações severas, mas nem isso foi suficiente para suavizar o grito de dor que soltou ao ser invadida. Com força, sem a sua vontade e causando asco, tristeza e o desejo incontrolável de não estar viva naquele momento.

Quinn fechou os olhos e viu o vermelho pela primeira vez. O vermelho pelo trauma que a perseguiria a partir dali.

— Não... não... não! — Quinn se sentou na cama em um movimento veloz. Seu rosto estava molhado pelo suor, e a sua boca seca. Não demorou para que começasse a chorar. As lembranças como carne viva na sua cabeça.

Frannie acordou imediatamente, puxando-a para os seus braços e acariciando os fios loiros suados enquanto Quinn ainda chorava como uma criança assustada aferrada à sua camiseta. Agora que tinha saído da prisão, ambas voltaram a dormir juntas pelo fato do apartamento só ter dois quartos.

Santana abriu a porta em um rompante e se acomodou no outro extremo do colchão, abraçando Quinn também. Sabia que havia tido um dos seus inúmeros pesadelos. Era o que acontecia quando não tomava Dalmane. Apenas Valium não era o bastante, e ela se sentiu culpada por ter confiscado o medicamento mais forte por Quinn estar usando-o demais.

— Está tudo bem. Está tudo bem. Nós estamos aqui, Q. — Santana beijou o topo da cabeça de Quinn. — Isso já passou. Não vai mais voltar.

Iria voltar, Quinn pensou. Sempre na sua memória, sempre a dilacerando e sempre tornando-a tão gélida quanto o assoalho daquele maldito quarto, daquela maldita cabana. Reminiscências sempre voltam, aconteça o que acontecer.

Quando o pranto diminuiu após longos minutos, Santana foi para a cozinha, voltando segundos depois com um copo de água e o Dalmane. Frannie ainda a acalentava.

— Aqui. Pode beber, Q. — Ela entregou para Quinn, que ingeriu o remédio lentamente.

O efeito não demorou para vir, fazendo-a fechar os olhos sem dizer uma palavra. Não estava em condições de falar, e tanto Frannie quanto Santana sabiam disso. Era terrível demais para falar, era excruciante demais.

Quando Quinn adormeceu, as outras duas mulheres ainda continuaram observando-a, como se a qualquer momento ela pudesse acordar.

— Eu sempre fico aqui quando ela acorda de um pesadelo.

— Bom... eu estou aqui também.

— Então nós...

— Sim.

Ambas se deitaram na cama de casal, cada uma de um lado de Quinn, e passaram o braço pelo corpo adormecido, formando um escudo de proteção. Um escudo de amor, porque era o que sentiam por Quinn, e sabiam que era recíproco, mesmo que ela apenas dissesse isso em momentos especiais, como a saída de Frannie da prisão ou os aniversários de Santana.

Quinn não sabia como mostrar.

Mas sentia.

E sentir era o suficiente.

...

— Bom dia. — Santana entrou na sala de estar pequena do apartamento vestida com o uniforme do Spotlight Diner e segurando um sobretudo preto. — Minhas costas estão me matando. — Fez uma careta.

— As minhas também. — Frannie pôs a mão na lombar. — Vocês precisam de colchões novos.

— E camas novas, armários novos, uma televisão maior e quem sabe até uma mudança para um prédio onde não tenha discussões entre vizinhos que envolvam armas toda semana. — Santana suspirou. — Não temos dinheiro para nada disso. O que a Q e eu ganhamos vai direto para as contas, comida e a gasolina do lata velha. — Pegou a bolsa e pôs a alça sobre o ombro.

— Há esse programa que visa oportunidades para ex-detentos. Quando eu soube que iria sair da prisão, obtive ajuda para me inscrever. Acho que vou ser contratada. Eles ligaram para o telefone do apartamento há alguns minutos. Eu o indiquei para contato.

— Eles procuram funcionários em geral? Que não sejam ex-detentos também?

— Sim, por quê? — Frannie franziu o cenho.

— Leve a Q com você. Ela precisa sair daquele supermercado infernal. O salário é horrível. Talvez eles contratem-na.

— Tudo bem. Eu vou levá-la.

Santana assentiu e se despediu, fazendo uma careta quando ouviu alguns gritos que ecoavam no corredor. Precisavam mesmo sair dali.

...

Quinn acordou confusa, mas se recordou de fragmentos do pesadelo que tivera. Isso não era incomum. Entretanto, a pior parte não era essa e sim sentir de novo e de novo as mesmas sensações daquele maldito dia sempre que era assolada pelas lembranças terríveis. O pavor, a dor física e mental. Ela era capaz de sentir cada detalhe, como se ainda estivesse vívido na sua pele.

Por fim, se levantou com dificuldade. Estava mais lenta do que o normal, e sabia ser efeito do Dalmane. O banho demorou por causa disso. A água fria ajudou a estabilizar as batidas do coração. Quando saiu, se secou e vestiu um conjunto de lingerie antes de sentir a vertigem atingi-la, forçando-a a se sentar na cama para não ir ao chão.

Sua cabeça girava e girava, deixando-a enjoada. Precisava ir trabalhar, mas não conseguia sair da cama, então afundou a cabeça no travesseiro e dormiu em segundos.

Ela acordou horas mais tarde ao som dos chamados de Frannie, pestanejando com um pouco de dificuldade.

— Você precisa comer. Os efeitos colaterais do Dalmane estão mais fortes porque estava de barriga vazia quando tomou. Mal tocou no jantar ontem.

— Eu... estava sem fome. — Quinn engoliu o excesso de saliva, fazendo força para se sentar na cama.

— Mas agora vai comer. — Frannie colocou a bandeja no colo de Quinn. — Eu preparei dois sanduíches, então é melhor comer tudo.

— Mas...

— Você vai comer, Lucy Quinn. — Frannie a interrompeu. — Eu vou tomar banho e quando eu voltar, quero ver essa bandeja vazia. — A beijou na testa, saindo sem esperar uma resposta.

Quinn suspirou e, gradativamente, terminou o primeiro sanduíche, admitindo para si mesma que estava delicioso, fazendo uma pausa para beber um pouco do suco de laranja antes de devorar o outro, se sentindo melhor quando a tontura foi embora.

Frannie retornou cerca de quarenta minutos depois. Estava enrolada em uma toalha, e foi para o armário que compartilhava com a irmã antes de ser presa, vendo as suas roupas intactas. Ela vestiu a calcinha e o sutiã e escolheu uma calça justa e escura livre de rasgos, juntamente com um suéter de listras, que escondia as suas tatuagens. Nos pés, calçou um par de tênis velhos, passando a pentear os cabelos logo depois. Estavam um pouco abaixo dos seus ombros. Talvez precisasse cortá-los.

Quinn arqueou as sobrancelhas.

— Por que você parece alguém que está indo trabalhar?

— Porque eu realmente estou indo trabalhar, e você vai comigo.

— O quê? Desde quando você tem um emprego? E eu trabalho.

— Aquele supermercado é uma droga. Você precisa de outro trabalho.

— Eu estou bem lá.

— Vai estar melhor trabalhando comigo, assim posso ficar de olho em você.

— Eu não sou uma criança, Frannie. — Quinn começou a se irritar.

— Não é uma criança, mas tomou uma dosagem extra de Dalmane e foi parar no hospital semana passada. Santana me contou durante a noite, e eu quase a acordei para estapeá-la. E se algo pior acontecesse? Como ficaria a minha vida sem você?

— Ficaria melhor! — Quinn elevou o tom de voz. — Ficaria melhor, porque você não teria uma irmã problemática e... assassina. — Disse a última palavra em um murmúrio.

— Você acha que eu me importo com o fato de você matar aqueles merdas? Eu ajudaria se estivesse aqui e não na prisão, assim como ajudei anos atrás. Eu só me preocupo com você ser pega, então se for fazer novamente, me comunique. — Frannie retorquiu e largou a escova de cabelos, suspirando logo depois. — Eu amo você, Quinn. Eu amo mais do que qualquer coisa no mundo. Eu aguento tudo por você e peço que suporte tudo por mim. Eu não posso perdê-la. Não posso.

— Isso nunca vai parar, Frann. — Quinn respondeu um pouco mais calma. — Eu vou continuar acordando todas as noites, chorando e me sentindo mais vazia e mais morta. É difícil caminhar quando não existe felicidade por muito tempo. Eu consigo rir de algo engraçado quando você ou Santana me animam, mas então... tudo volta mais forte. Eu não consigo apagar aquilo e não sei como tirá-lo de mim.

Frannie respirou fundo, contendo as próprias lágrimas. Ela não podia mensurar a dor da irmã caçula, mas sabia que era mais do que imaginava. Mais do que podia cogitar imaginar.

Ela se sentou na cama e segurou as mãos de Quinn.

— Eu vou estar aqui em todas as noites com você e vou ser mais do que a sua a irmã. Vou ser sua protetora, e então vamos marcar uma consulta com a Alison.

— Alison não.

— Alison sim. Ela é uma boa psicóloga.

— Eu não quero. Ela não vai fazer parar. Ninguém vai.

— Talvez. Ninguém pode prever o futuro. Só... vamos andar lado a lado juntas, e eu vou marcar uma consulta com a Alison. Você vai. Querendo ou não.

Quinn bufou.

— Eu gostava mais de você quando estava presa.

Frannie riu.

— Eu também amo você.

...

Rachel ouviu pela décima vez a censura de Cassandra July, sua instrutora de dança em NYADA, e tomou uma respiração longa, mordendo a própria língua para não atalhar em uma discussão com ela. Não poderia contrariá-la, ou então estaria em uma situação desastrosa.

— Vamos, Ohio! Mexa-se! Eu poderia colocá-la para dançar com idosos e ainda assim você seria humilhada. — Cassandra bateu as mãos.

Dessa vez, Rachel abriu a boca, pronta para respondê-la, porém, a reitora Carmen Tibideaux interrompeu a aula, entrando na sala com uma mulher ao seu lado.

Rachel arregalou os olhos. Conhecia aquela mulher. Era a loira que estava acompanhando Quinn quando ambas entraram no Spotlight Diner dias atrás. Eram muito semelhantes. Poderiam ser irmãs. Seriam irmãs? Rachel não sabia.

Um pouco distante dos demais, Cassandra trocou algumas palavras com as duas mulheres, apertando a mão de Frannie em um gesto cortês, sendo retribuída e recebendo um sorriso galante dela.

— Você é a professora?

— Instrutora de dança, mas posso ser considerada uma professora. — Cassandra foi formal.

— Não deveria ser professora. Pode atrapalhar o desempenho dos alunos sendo tão bonita.

Alguns alunos riram com isso, o que incluiu Rachel, e Cassandra lhes direcionou um olhar tão severo que os fez cessarem as risadas imediatamente.

— Eu acho bom me respeitar. Não vou admitir gracinhas no meu ambiente de trabalho.

— Tudo bem. — Frannie continuou sorrindo, sem se deixar abalar, e fitou a reitora. — Posso começar?

— Você pode começar quando a aula acabar. Enquanto isso, fique à vontade para conhecer NYADA. — Carmen Tibideaux respondeu gentil, encarando todos os alunos logo depois. — Essa é Francine Fabray. Ela vai trabalhar conosco afinando instrumentos musicais.

— Podem me chamar de Frannie. — Frannie ficou um pouco constrangida ao receber a atenção dos alunos. Não era boa com aglomeração de pessoas. — Eu vou afinar os violinos, e a minha irmã os pianos.

— Certo, e onde ela está?

— Aqui. — Quinn entrou na sala ampla, sorrindo timidamente. — Eu estava atendendo uma ligação. Desculpe.

A reitora assentiu e apresentou Quinn para que todos pudessem ter uma boa convivência, se retirando educadamente em seguida. Queria que NYADA tivesse um bom programa para empregar ex-detentos, mas se surpreendeu quando encontrou tão rapidamente duas pessoas que sabiam ministrar aqueles instrumentos tão bem, ainda que Quinn nunca houvesse sido presa. Carmen Tibideaux aproveitara a oportunidade.

Rachel não ouviu muita coisa quando Quinn entrou no local. Ela abriu a boca surpresa, e seus olhos duplicaram de tamanho. Como o mundo poderia ser tão pequeno a ponto de ter a garota por quem se sentia atraída trabalhando dentro do seu ambiente de ensino? Era irreal... e bom. Muito bom.

— Elas são irmãs? A genética é algo maravilhoso. — Uma das suas colegas, Ashley, comentou com a amiga ao lado.

— Eu não me importaria em ficar com qualquer uma das duas, principalmente a irmã mais nova. Ela parece um pouco deslocada, e eu adoraria situá-la. — A outra atalhou, e ambas riram.

Rachel, no entanto, sentiu o peito formigar e a barriga se contrair diante do comentário dela. Raiva iminente e punhos fechados denunciaram que estava com ciúme, mas ciúme por quê? Quinn não era nada, absolutamente nada sua, tampouco amiga, e não deveria sentir o que estava sentindo, porém, é impossível controlar qualquer sentimento.

— Vocês poderiam ter mais respeito? — Ela direcionou a pergunta para as duas.

— O que disse, Berry? Você tem alguma coisa contra o fato de querermos ficar com elas? — Ashley cruzou os braços. — Desde quando é homofóbica?

— Eu não sou homofóbica. Inclusive, também gosto de garotas, mas o que vocês disseram é algo completamente desrespeitoso.

— Então vai negar que não ficaria com uma delas? — Dessa vez foi Nicky quem questionou.

— Eu... não... — Rachel gaguejou, e ambas riram ao perceberem a sua vergonha repentina.

Quinn ouviu as risadas e direcionou a sua atenção para as três garotas conversando no flanco do cômodo, notando Rachel pela primeira vez e arregalando os olhos automaticamente, assustada por ver que ela estudava ali.

— Eu acho que vou desistir do emprego.

— O quê? Por quê? — Frannie ficou confusa.

— Rachel. A garota do Spotlight Diner. — Quinn apontou com o queixo, fazendo a irmã seguir o seu olhar e sorrir de forma maliciosa.

— A baixinha quente? Parece que vocês estão destinadas.

— Não estamos. Não há poder algum destinando o meu destino no momento.

— Então por que ela estuda aqui? Justamente aqui, diante de diversas universidades em Nova York?

— Coincidência. — Quinn foi lacônica.

— Destino, Quinnie. — Frannie bateu levemente o seu ombro no da irmã. — Ela a olha como se você fosse preciosa, e isso é especial.

Quinn nunca havia notado isso, mas fitando Rachel de longe por mais tempo do que estava acostumada, pôde vê-la encarando-a de volta com um brilho nas íris. Um brilho que mostrava o seu ainda interesse em conhecê-la e mais do que isso, o desejo intenso para que aquilo acontecesse.

Ela acenou timidamente, ficando feliz quando Quinn também acenou e se sentou em um dos bancos na lateral da sala com Frannie para que pudessem esperar a aula terminar.

— Então você a conhece? Por isso ficou com raiva? — Ashley questionou curiosa. — Vocês são namoradas?

— Nós nã... sim. Nós somos quase namoradas. — Rachel reformulou a resposta.

— Então acho melhor sairmos de perto antes que sejamos atacadas pelo ciúme. Ouviu isso, Nicky? Elas são namoradas.

Rachel não sabia o que tinha se passado pela sua cabeça ao dizer isso, mas no momento em que as duas garotas se afastaram cochichando, ela soube que não poderia tentar se justificar ou então seria vista como uma mentirosa. Contudo, ela era uma mentirosa, e Quinn provavelmente estava em um relacionamento com Santana.

— Já viu aquela barriga? Eu gostaria de passear a minha língua nela. — Frannie comentou, observando embevecida o abdômen de Cassandra, que andava de um lado para o ouro.

Quinn revirou os olhos, mas soltou uma risada.

— Será que você pode parar de ser tão sexual?

— Não a achou esplendorosa? Ela vai ser a sua cunhada, então é bom que a ache linda, mas não tão linda. Eu sou ciumenta.

— Eu não tenho interesse em algo amoroso, Frann.

— Mas deveria ter. Eu sei que tudo não vai passar agora, mas se você não se deixar viver, então não há motivo para acordar todos os dias.

— Talvez eu não queira acordar todos os dias.

Frannie suspirou, passando o braço nos ombros de Quinn e abraçando-a.

— Mas você vai. Vai acordar todos os dias e vai encontrar alguém para acordar com você.

— Não vou.

— Vai, eu sei que vai.

Quinn decidiu não argumentar novamente, porque não valia a pena discutir com Frannie. Ela era irredutível.

Quando a aula acabou, Frannie se levantou e foi até Cassandra, observando no caminho os alunos deixando o ambiente gradativamente.

— Você é uma ótima professora. — Ela disse, vendo-a guardar as suas coisas.

— Obrigada. — Cassandra agradeceu sem olhá-la.

— Você poderia me dar algumas aulas particulares. Eu sempre quis dançar.

Cassandra parou o que fazia para pôr os seus olhos na outra mulher.

— Você é sempre assim? Solta milhares de cantadas no intuito de conseguir o meu número de telefone?

— Isso vai funcionar?

— Não.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Tudo bem, então. Eu desisto. — Frannie deu de ombros, dando meia-volta para caminhar até Quinn, que mexia no celular.

Cassandra ficou surpresa com isso.

— Espera, o quê?

Frannie sorriu, mas adotou uma expressão séria antes de girar os calcanhares e parar de frente para a professora outra vez.

— Eu desisto. Você realmente não está interessada, então eu vou parar por aqui.

— Então é assim? Você solta duas cantadas e desiste rapidamente? Ainda bem que eu não passei o meu número. Não valeria a pena.

— É claro que valeria. Eu faria você me passar o seu número facilmente.

Cassandra riu em descrença.

— Eu não sou tão fácil assim, Francine.

— Eu não estou dizendo isso. Você é linda, parece ser muito inteligente e eu estou interessada. — Ela foi direta, surpreendo a mais alta.

— Então me impressione, e veremos se até o final dessa semana você vai merecer o meu número. — Cassandra piscou o olho, pegando a sua bolsa transversal e saindo da sala com um sorriso contido no rosto.

Frannie também sorriu e iria correr para contar à irmã quando viu Rachel se aproximar cautelosamente dela, então foi em direção aos violinos para deixá-las a sós. Todos já tinham saído da sala.

— Oi. — Rachel saudou.

Quinn guardou o celular, fitando-a ao ouvir a sua voz.

— Oi.

— Eu posso me sentar?

— Claro.

Rachel assim o fez, unindo as mãos de forma nervosa.

— Então agora você vai trabalhar aqui?

— Sim, eu vou. Mundo pequeno, não é?

— Realmente é.

Rachel ficou encarando-a, notando as olheiras ainda presentes e a expressão cansada, se preocupando instintivamente. Quinn sempre parecia esmorecida, sempre com uma aparência opaca. Isso a deixava aflita.

— Eu queria dizer que desculpo você por ter sido rude comigo, mas foi um erro ter insistindo no encontro, e agora sou eu quem deve pedir desculpas.

— Eu errei. Não há nada para você se desculpar. E obrigada por isso. — Quinn sorriu para Rachel.

Foi o primeiro sorriso que recebia de Quinn de modo sincero e espontâneo. Esse ato fez o coração de Rachel saltar com tanta força que grande parte do seu sangue se concentrou no seu âmago, e temeu enfartar com isso, mas conseguiu sorrir de volta. Um dos seus sorrisos grandes e iluminados.

O momento não foi prolongado, porque seu celular tocou. Kurt estava ligando. Havia faltado para passar o dia com Blaine por ser o aniversário do namorado. Contudo, sabia que ele ligaria para saber sobre as aulas.

Rachel rejeitou a chamada, se concentrando em Quinn novamente.

— Eu sempre passo esse período do almoço na área externa de NYADA, então queria saber se...

— Sim, você pode ficar aqui. — Frannie cortou a fala de Rachel, respondendo pela irmã. — Vamos todas nos tornar amigas, o que acham? — Sorriu, observando Quinn e Rachel. Elas fariam um belo casal, pensou.

— Eu acho ótimo. — Rachel respondeu.

— E você, Quinnie? O que acha?

— Eu acho... acho legal. Acho que podemos começar de novo, nos conhecendo como amigas. — Quinn propôs, tentando ser cordial, embora se sentisse um pouco fraca, e sorriu pela segunda vez para Rachel. Não iria adiantar se manter afastada quando passariam a conviver no mesmo ambiente diariamente.

Rachel achou que iria enfartar pela segunda vez.

Notas finais
O que acharam? Eu sei que o começo foi pesado. Essa foi a intenção. Há tantos casos assim no mundo, e eu quero mostrar nessa história como a Quinn vai superá-lo, assim como mostrar todas as suas tangentes, Mais uma coisa. Eu falei isso no último capítulo postado de A Luz dos Teus Olhos, mas vou colocar todo o recado aqui também. Eu ingressei na faculdade e agora tudo mudou. Meu tempo vive sendo preenchido por estudos e atividades. Com isso, a frequência das fanfics vai diminuir significativamente, mas vou fazer o máximo para escrever sempre que eu puder. Se quiserem saber quando os capítulos serão postados, podem me perguntar no Twitter. Estou sempre à disposição. Eu jamais vou abandonar qualquer história aqui. Escrever me acalma e me faz feliz. Espero que tenham gostado do capítulo. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. twitter.com/yasagron