Vermes, Cemitérios e Poesia
10 Amor Necrófago
Notas iniciais
Se os corvos são os filhos da Morte
Então os abutres são seus escravos
Malditas criaturas que o miasma circundam
E do céu avistam a carniça
.
Aqui sentado na solidão do cemitério
Vejo os abutres que circundam minha tumba
Eles me olham com desejo sanguíneo nos olhos
Adoráveis aves, negras como a noite
.
Me sinto tão só em minha morte
Paz eterna de sofrimento
Por que, minha querida, me deixou aqui sozinho?
Por que me deixou neste cemitério?
.
Ainda lembro de suas aparições na noite
Se arrastando pelo chão, só pele e ossos
Ah, seus lindos dentes brancos sujos
Do rubor de meu sangue
.
Lembro de seus guinchos suaves a luz da lua
Pálida madrasta das criaturas noturnas
E você querida, gosta da lua?
Foi numa noite de lua dessas que nos conhecemos
Ah, lembro-me bem daquele dia
Morto a pouco meu corpo havia
E trancado eterno minha alma inquietante desejo
De ver a lua, como os poetas que amam o miasma
.
Você veio até mim faminta
Rasgou a terra com suas garras em fúria
Abriu minha prisão e me libertou
Então mordeu minha carne fria
.
Agora não sei onde está
Sozinho aqui estou a te procurar
Mas, minha querida, você não voltou
Faltam-me lágrimas para chorar
.
Minha carne continua gelada e podre
– Mais gelada e podre a cada dia –
Meus ossos ainda tem tutano
E meu sangue ainda está seco
.
Então, onde está?
Onde está você minha amada?
Meu coração só não dói
Pois você o devorou também
.
Me sinto vazio aqui sozinho
O cemitério é um lugar triste sem você
No minha eterna agonia sinto falta de seus guinchos
Pois eles preenchiam os buracos que você me deixou
.
O que será que te aconteceu?
Será que perdeu seu caminho?
Ou um cavaleiro alado te matou?
Ou será ainda que encontrou outro amor?
.
Não sei se me ama, querida
Mas do fundo de minha alma agradeço-te
Agradeço-te um milhão de vezes
Por deixar-me ver a Lua
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