Vermes, Cemitérios e Poesia
16 Fantasmas
Notas iniciais
Sentado, aos ares megeros do amanhecer,
Entrego meu suspiro último, enternecido
Aos ares e ventos úmidos
Que embalam e elevam meu ser.
.
Perdido estou fugido.
Não sei para onde ou o que fiz,
Não temo, porém, destino vil,
Pois de meu espírito respiro paz.
.
Os que passam por minha casca choram
Pragas silenciosas e olhares frios.
Julgam, deuses rotos, a carne que a igual verme vil
Lhes tem o corpo.
.
Já estou cansado desta existência passageira.
Temo, porém, o evitável eterno,
Pois nos céus as incertezas são vapóreas;
Pois na terra o sofrimento é corpóreo.
.
Em lágrimas desfaço meu sofrimento
De uma vida inteira sem alegrias.
O que é a fria morte medo,
Para aquele que nunca amou na vida?
.
E os vultos passam como pedestres
Nas ruas ermas deste parque.
Sinto-lhes tocar-me os olhos;
Sinto-lhes fugir-me a alma.
.
Os fantasmas são minha platéia
No meu último espetáculo triste.
Vêm afogar-me a alma em desespero
Por aquilo que fugi no passado.
.
E o mundo continua a girar ao meu redor.
O dia frio continua a passar;
A noite densa e a lua a chorar;
Os fantasmas em vão a caminhar.
.
Em meu último suspiro eu sorrio,
Pois cansada mente está
De sofrer e sofrer pela memória que a dispensa
Sem pensar.
.
E agora sou menos que perfume
E sou mais que um ser.
Agora sou menos que um verme
E mais que um humano pode ser.
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