Vermelho e Amarelo
5 A volta
Notas iniciais

Já se fazia anos desde que Sosuke vira Ponyo pela última vez. Nas férias de verão sempre ia até sua cidade natal, visitar Lisa, Koichi e seus demais amigos, mas por algum motivo a garota ex-peixe nunca se encontrava — geralmente, inventava alguma viagem aleatória. — e nunca conseguia vê-la. Apenas uma vez por ano, no aniversário de Sosuke, ela ligava para ele e tinham uma breve conversa, sem muitos detalhes sobre como ela estava. Apenas ele dizia como estava a faculdade e o estágio.
Sentia falta dos tempos em que eram crianças, que brincavam dia e noite em sua mini praia, ou simplesmente vislumbravam os movimentos das ondas do mar, que era o antigo lar da ruiva.
Sentia falta de quando eles e seus amigos saíam para viagens escolares, e iam ao cinema assistir algum filme qualquer. Era algo simples e do cotidiano, mas esses momentos nunca saíram de sua mente como lembranças importantes.
E, finalmente, após se formar e passar um longo tempo procurando emprego — sem grandes sucessos — Sosuke volta para sua cidade natal em plena primavera, sem avisar a ninguém da família, amigo, ou...
Namorada.
Não sabia se Ponyo ainda o considerava como namorado. Sua despedida foi um tanto turbulenta e em suas ligações a ruiva nunca tocara no assunto “relacionamento”. Apesar disso, ele ainda a considerava sua namorada, e mesmo depois de tanto tempo longe ele nunca havia ficado — nem mesmo flertado — com outra garota.
— Uau, as árvores estão lindas hoje! — ele comentou em voz alta, olhando atentamente para as árvores de flor de cerejeira. Depois de um tempo, pensara se isso era normal ou se era coisa de gente fascinada pela biologia.
Ele andava pela estrada que levava à sua velha casa. O que será que Lisa estaria fazendo àquela hora? Provavelmente, estaria terminando de preparar o café da manhã. Estava ansioso pra sentir o cheirinho do seu arroz.
E Koichi? Será que estava em casa? Provavelmente não, a probabilidade de encontrá-lo era bem baixa.
— Eu vou te pegaaar! — uma voz feminina infantil se aproximava atrás dele, fazendo-o se virar.
Atrás dele, duas crianças corriam parecendo brincar de pega-pega. Ambas estavam com uma bolsa do lado, parecendo estar indo para a escola. Ao correr, passaram por ele esbarrando-o.
Ao percebê-lo, uma das crianças — mais precisamente, o menino — parou, virou-se de costas e o fitou
O menino parecia ter uns quatro anos, em média. Era um pouco bronzeado, e seus cabelos eram laranja e espetados.
Já a menina tinha cabelos loiros, e era tão albina que até ficara na dúvida se era realmente japonesa. Ela vestia um vestido roxo, e estranhava a ação do outro menino.
— Me desculpe. — disse o menino, se curvando para Sosuke. Levou um tempo até que o homem raciocinasse que o menino pedia desculpas por esbarrar nele.
— Ah, tudo bem! Não precisa se desculpar. — respondeu.
— Anda, Ariel! — a menina chamou o outro, impaciente. — desse jeito não vamos conseguir chegar à tempo de visitar a Lisa!
Isso o despertou como um passe de mágica. O que aquelas crianças queriam com Lisa? Será que eram da escola ao lado da casa de idosos? Só isso explicaria a relação que eles supostamente têm.
— Ei, ei! — Sosuke as chamou de volta quando viu que iriam tornar a correr. — o que vocês vão fazer na casa da Lisa?
— Nossos responsáveis nos disseram que não devemos dar informações a estranhos. — disse o menino, que pela fala da outra, se chamava Ariel.
— E quem são seus responsáveis? — Sosuke indagou, se agachando para ficar na mesma altura do menino.
A outra menina se aproximou, ficando ao lado de Ariel.
— Eu sou filha de Howl e Sophie. — ela declarou com um ar orgulhoso. Sosuke ficou um tanto surpreso, não sabia que Morgan agora tinha uma irmã mais nova.
— Oh, você é filha do Howl-sensei? Você se parece muito com ele. — ele sorriu, fazendo a pequena sentir um pouco de vergonha.
Instantes depois, um carro vindo na direção em que os três tomavam para ir para a casa de Lisa parou do lado deles. Sosuke sabia que reconhecia aquele carro de algum lugar, e teve certeza quando vidro abaixando.
— Você aqui? — a pessoa do outro lado disse, com um sorriso.
— Haku! — Sosuke exclamou, se levantando rapidamente e indo cumprimentá-lo. — não esperava te encontrar tão rápido.
— Geralmente eu não transito esse horário por aqui. O único motivo de eu estar aqui é por causa... — Haku se inclinou levemente, cerrando os olhos para as duas crianças que assobiavam como se nada estivesse acontecendo — ...desses dois fugitivos.
— Oi, gente! — disse um menino que estava sentado no banco de trás do carro, e Sosuke reconheceu como Kohiro, filho de Chihiro e Kohaku. Como ele havia crescido! Devia estar com uns 5 pra 6 anos, mais ou menos.
— Kohiro!! — as duas crianças se animaram, abriram a porta do carro e entraram rapidamente.
Sosuke ainda não havia descoberto o que aqueles dois queriam indo até a casa de sua mãe. Lisa era cuidadora de idosos, será que agora arrumara emprego como babá? Não fazia o feitio dela.
— Você vem com a gente? Kiki-sensei me pediu para que eu viesse atrás deles, já que o Ariel e a Mabel fugiram da escola. — Haku lançou um olhar reprovador aos dois. — imagino que esteja atrás da Lisa, e ela está na casa de idosos agora.
— É, eu perdi a chave de casa, hehe. — disse Sosuke, coçando de leve a cabeça.
Era como Kohaku havia pensado: Sosuke podia ser um adulto formado agora, mas nunca deixara de ser o bom e velho Sosuke.
(...)
Depois de um tempo andando de carro, Sosuke se pegou pensando em Ponyo. Sabia que ela trabalhava como professora em sua antiga escola, mas nunca havia conseguido encontrá-la em seu ambiente de trabalho – sempre que ele aparecia, ela sumia como mágica.
Ao descer do carro, Mabel e Ariel forma rapidamente repreendidos pela professora que já havia conhecido há uns uns 4 anos. Seu nome era Majo Kiki, que era casada com Majo Thomas. Eram amigos e vizinhos de Chihiro e Kohaku, e por isso a aproximação com Sosuke quando este os visitara fora tão facilitada. Ao terminar de dar-lhes uma bronca, a professora se aproximou de Haku e Sosuke com um sorriso gentil.
— Sosuke-san! Veio nos visitar novamente? Chihiro-san já o encontrou? – Kiki perguntou olhando para os dois.
— É, pode-se dizer que eu vim visitar... – confessou meio confuso sobre qual palavras dizer. – eu ainda não encontrei ninguém. Nem o Ashitaka, San, Chihiro e... – por um segundo, pensou em dizer Ponyo, mas preferiu ficar quieto. – bem, ninguém. Na verdade, eu acabei literalmente de chegar, estou até com a mala em mãos, como pode ver. Eu só estou aqui porque preciso falar com a Lisa, a porta de casa estava trancada.
— Entendo. Vá lá então, ela vai ficar feliz em lhe ver. – respondeu Kiki.
— Farei isso. Muito obrigado, Haku! – Sosuke cumprimentou o amigo e saiu em disparada para a casa de idosos. Após ele já estar em uma distância considerável, Kiki virou-se com uma expressão apavorada para Kohaku, que ainda mantinha-se calmo observando o outro caminhar.
— Meu Deus Haku-san, você tem noção que problemão é esse? Por que o trouxe aqui?! – indagou visivelmente desesperada.
— Talvez seja algo do destino. – retrucou filosófico. – ele já havia encontrado Mabel e Ariel enquanto ia pra casa de Lisa. Eu apenas dei uma forcinha para meu amigo.
— Mas e agora? E se ele descobrir?!
— Kiki-san... – Kohaku virou seriamente para professora, que estava preocupada. – ele vai, e precisa descobrir.
Após a fala de Haku, Kiki relaxou. Não deveria se desesperar daquela maneira. Sempre havia avisado que um dia aquilo aconteceria, e as coisas só estavam em seu modo mais natural. De qualquer forma, estaria ali para apoiar-lós quantos precisassem.
— Você tem razão. – foi o que disse, por fim, finalizando aquele assunto.
(...)
— Caramba, mas como você ficou forte, hein! – comentava Lisa, dando um soquinho nada maternal no braço de Sosuke, que ficara constrangido.
— Lisa, para como isso! – respondeu olhando para os velhinhos rindo.
— Quando você entrou no ensino médio e ficou mais fortinho achei que aquilo seria seu máximo, mas olha você agora! Deve ser um sucesso com as garotas da capital, no auge dos seus 23 anos.
Sosuke repentinamente ficou mais sério. Toda vez que ia visitar a mãe e os amigos todos davam informações muito vagas sobre como Ponyo estava, e, pelo menos daquela vez, ele queria que a mãe fosse mais sincera sobre como e onde Ponyo estava. Do jeito que era sempre azarado, era capaz de entrar na escola do lado atrás da ex menina peixe e ela estar de férias no Caribe.
— Lisa... Onde está a Ponyo? — indagou seriamente, fazendo a mãe ficar mais séria também.
— Essa hora, ela deve estar trabalhando. – respondeu.
— Você tem certeza?
— Bem, é o que eu imagino. Eu a vi chegando hoje com-
— Ora, ora! Se não é o Sosuke-kun! Como você cresceu! – uma senhorinha interrompeu a mulher.
Ela se aproximou de Sosuke afagando seus cabelos, e logo mais senhoras o cercaram. Sosuke estava cansado da viagem de barco, mas não podia fazer desfeita e não conversar com as idosas que sempre foram tão gentis com ele. Entretanto, não conseguia parar de se morder de curiosidade.
Com quem Ponyo havia chegado? Será que era com alguma amiga? Ou... com algum namorado? Será que era por isso que não falava com ele? Por que agora tinha um outro alguém em sua vida? Essas perguntas o rondavam. E foi assim pelo resto da tarde inteira, quando finalmente, ao fim do expediente da mãe, conseguira se despedir das idosas.
— Elas tem amam. – brincou Lisa, pegando a bolsa e andando com o filho para fora do local.
— O que você estava dizendo? Com quem a Ponyo estava? – ignorou por completo o comentário anterior da mais velha, desesperado por respostas.
— ... – Lisa suspirou. Não iria adiantar nada pedir para o filho parar de fazer-lhe perguntas. – você quer ver a Ponyo?
Por algum motivo, Sosuke hesitou. Talvez fosse o medo de encarar a Ponyo adulta, depois de longos cinco anos. E se ela estivesse namorando outra pessoa, como ele ficaria? Fizera a faculdade inteira sem ficar com nenhuma garota, apenas aguardando pelo seu amor de infância. E se tivesse sido tudo em vão?
— Quero. – respondeu com firmeza, apesar de antes ter pensado duas vezes.
Como imaginava, ela a levou até a escola do lado, a mesma que Sosuke frequentara quando pequeno. O dia já estava escurecendo, e já era possível perceber o seu ambiente totalmente laranja por conta do pôr-do-sol. Após uma pequena caminhada, ele já iria virar para Lisa e perguntar à mãe porque ela parara no meio do caminho, em frente à escola.
Entretanto, ele a viu.
Lá estava Ponyo, usando um vestido longo e um avental de professora, parada na porta.
Seu coração disparou como na época em que eram adolescentes. Ela estava linda. Seu corpo estava mais desenvolvido em comparação à última vez que a vira, com 18 anos. Seus cabelos estavam mais longos, mas seu tom laranja era o mesmo de sempre, bem brilhantes e sedosos.
Ela não percebera sua presença e de Lisa, já que estavam ainda um tanto afastados. Ponyo esperava os pais virem buscar as crianças, e se despedia com um lindo sorriso de cada uma delas, ora curvando-se, ora acenando. A ruiva parecia bem mais madura em comparação a antigamente, e dava para ouvir suas frases formais que eram dirigidas aos pais das crianças.
Ele não aguentou: foi até ela. Ponyo sempre fugira dele durante 5 anos, e agora, naquele momento, era impossível ela escapar de falar com ele. Haviam tantas coisas que queria dizer, tantas que queria escutar, que 24 horas seriam pouco para tudo que tinham que conversar.
— Oi. – não achou outra expressão melhor para chamar atenção de Ponyo.
Ela não havia visto-o se aproximar, e levara um baita susto com o surgimento repentino de um homem ali. Ao se recuperar do susto, observou-o de cima a baixo, claramente desesperada. Recusou uns passos para trás, quase perdendo o equilíbrio.
— S-Sosuke... – foi a única coisa que conseguira dizer. – o que faz aqui?
— O que eu faço aqui? – repetiu com amargura, cerrando os punhos. – você simplesmente sumiu, nunca mais apareceu. Sabia que eu ainda guardo aquele maldito cachecol azul que você fez pra mim? Caramba, Ponyo!
A ruiva não dissera nada. Dava pra ver a raiva e dor nos olhos de Sosuke, e ela simplesmente não tinha nada pra dizer.
— Eu... – começara a dizer, até que fora interrompida por uma voz infantil vindo correndo.
— Mãe, mãe! – Ariel vinha correndo, e abraçou a cintura de Ponyo. – mãe, eu posso ir pra casa da Mabel hoje?
Sosuke se sentiu sem chão, e olhou estático para Ponyo, que parecia entrar em desespero. Ela tinha UM FILHO? Como assim? Como podia o menino que mais cedo conhecera ser filho de Ponyo? E não havia nem como a mulher negar: eles tinham o mesmo tom de pele e de cabelos; eram, claramente, mãe e filho.
— V-V-Você... – Sosuke não conseguira nem mesmo articular as palavras.
— Ponyo, o que significa isso?
— Mãe, você tá bem? – o pequenino parecia preocupado com a mãe, que estava branca.
A respiração de Ponyo estava pesada, e apesar de se segurar ao máximo para não chorar, as finas lágrimas já começavam a escapar.
— Ariel. – respondera simplesmente, e vendo que não era uma resposta adequada, completou: — o nome dele.
— Eu sei o nome dele. – Sosuke retrucara friamente, olhando fundo nos olhos de Ponyo. – quantos anos essa criança tem?
— Quatro.
Encarou o menino. Ele partira há 5 anos, então se o menino tinha quatro, somado aos nove meses de gravidez...
Seria possível que...?
— Ele é seu. – disse Ponyo, por fim, com a voz embargada pelo choro.
Sentiu seu mundo desabar.
Ariel... era seu filho?
Sosuke, aos 23 anos... Era pai?
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