Vermelho cor de Sangue

2 Capítulo 1.2 - O Caos é meu Mártir


Notas iniciais
Oi! Esse é o segundo capítulo e está sendo postado com a ferramenta de programação de postagem, também conhecida como a melhor coisa que o Nyah já criou. Nele, vamos conhecer um outro lado da moeda, espero que gostem!

Ela sente o peso dos grãos de areias que grudam em suas mãos sujas à medida que sobrepõe as palavras, a terra que não enxerga não é mais um defeito. Agora, não é mais uma garota, é uma arma viva. Não importava o preto e o branco, apenas o vermelho a definia ― lutaria para que só ele dominasse na hora da batalha ―, como se controlasse o vento, deixa o corpo cambalear e a ponta dos dedos dos pés girarem até seu corpo parar por completo: keresoon. Grita. Posicionada de lado, grita palavras chaves e sente o vento espalhar seu corpo em mini partículas pelas árvores da floresta.

Não vai mais para frente, ou para trás, apenas se mantém reta. Por um segundo, paralisa. Escuta as árvores, alguém se aproxima, surge o instrumento de combate na sua mão esquerda ― os livros antigos diziam que se chamava arma ― e atira. Um dos rebeldes caí sem chance de retornar, o chão parece doloroso, mas precisa evitar a vontade súbita de ajudar e se concentrar. Outro vem por trás, é preciso se concentrar para aniquilar sua forma física e a retomar por trás do atacante, dirigindo-lhe um chute nas costas. O terceiro é pego pela armadilha antes que possa ataca-la.

Escuta as palavras de segurança e não se sente ao menos cansada.

― O que vocês acham que estão fazendo? Se querem morrer, apenas se joguem da ponte! ― Sabe que está sendo rígida, mas não evita. Já faz dois anos, dois anos desde que essa era sua rotina.

Dois anos desde que parou de fingir, parou de deixar que a apontassem de forma grosseira e começou a ser a grosseira, a atacar. Sua mãe a disse uma vez que o silêncio era a melhor maneira de permanecer em paz e assim fez por muito tempo, mas agora Helena estava morta e a única maneira de permanecer viva era falando, gritando, se fosse necessário. O pulso esquerdo arde, as chamas consomem cada parte do seu corpo, mas não chega a sangrar. As armas voltam a virar pó ― é mais fácil de manter-se bem quando elas não duram por muito tempo ―, por alguns segundos, se esquece do porquê está lutando.

Por que continua naquele lugar?

Algo cresce em seu peito, a vontade de fugir, de ir atrás de Ace e perguntar porque ele não voltou ― ele voltaria, certo? Ele não a abandonaria naquele lugar para sempre. Ainda existia tantas coisas que queria perguntar, ainda queria agradecê-lo por ter salvado sua vida, ainda queria pagar a dívida que eles haviam feito desde o começo.

Mas aquilo era impossível.

Zahrah, ou melhor, Snape, sabia exatamente do que era feita: pó e sombra.

Finndo, o professor baixo e magrelo deixa escapar a decepção por modo de cada fonema após sua derrota. Finalmente, a garota permite que seu corpo derreta e o cabelo se misture com o solo, quase que afundando. O sol é sem cor, tal qual o céu, tal qual ela ― na maioria das vezes. Sente raiva, angústia, desconfiança por ter ideia de que não pertence ao meio daquelas pessoas, mas também não ter do que a difere.

A criança enigmática do passado volta a atormentar. Escuta tiros, gritos, explosões.

Escuta uma respiração apressada e sem ponto final que não a permite tirar conclusões.

Olha novamente e, por alguns instantes, jura ter visto o vermelho sangue estancado no chão ― seu sangue, tirado a força de uma batalha que deveria ser de mero treinamento ―, balança então a cabeça atônica. Preto e branco, é tudo que se permite enxergar.

Por dentro e por fora, todos aqueles que a cercam são monocromáticos.

Por impulso, ou curiosidade ― sua mãe sempre afirmou que a curiosidade ainda iria matá-la ― permite-se olhar novamente ao chão. Vermelho. Um vermelho cada vez mais opaco, mas ainda vermelho. Seu peito infla, solta, o medo a domina, mas não deixa transparecer.

O professor a pergunta se está tudo bem, nada mais faz do que um movimento de cabeça. Ele a relembra dos passos necessários à realização do feitiço e que se apenas falar as palavras, não será passada no teste.

Não pode se negar de recair ao impulso de relembrar as palavras materna, a própria a disse diversas vezes que não pode passar, não importa a razão, não pode deixar que a vejam em combate. Não pode se revelar. A tensão volta a dominar e precisa respirar fundo antes de tomar a posição do próximo exercício: mantém os joelhos agachados e um pé atrás do outro, os braços postos de forma contrária, um esticado e outro afastado, tenta manter a respiração constante ― ainda estava lutando por algo.

Pessoas como ela nunca iriam para lugar algum, era um fato.

Um fato de que ninguém precisava saber. Enquanto fosse para mentir, mentiria. Mesmo sem saber exatamente do que estava mentindo.

Cyane era pequena e estava em guerra, a situação se alastrava a cada segundo e por isso os treinamentos se intensificavam. Aos dezessete anos, todos os jovens deveriam ser colocados a prova para verificar seu lugar na sociedade ― curandeiro, confronte ou bloqueador? ―, aqueles que apresentassem maior potencial mágico iriam à capital e, possivelmente, seriam integrados ao exército. Todos seus colegas de classe lutavam para isso, para receber uma chamada, serem de elite. Todos.

Menos ela, precisava e podia falhar. Toda sociedade precisa de um comerciante, um fabricante de armas, sempre existia a opção de se esconder na floresta amaldiçoada e viver ao relento, escondida de tudo e de todos, escondida de si. Enquanto todos se esforçavam para colecionar o máximo de energia, a garota estava preocupada em demonstrar fragilidade, insuficiência.

Balança a cabeça, volta a se concentrar.

Estica a perna direita, deixa o braço de mesma direção seguir o rumo do vento, o direito é levantado, como quem roga aos céus por uma chance. Precisa funcionar. Precisa funcionar. Precisa funcionar! Um suplício aos Deuses, é quando sua voz ressoa, forte demais, ao mesmo tempo, calma.

Como o olho de um furacão.

Keereson, as palavras que tanto treinou. O feitiço para curar, criar, trazer o que está para florescer ― como mulher, seu trabalho de bloqueadora nunca seria na fronte principal, no máximo, estaria atrás de todos cuidando das armadilhas. Como quem era, o posto de confronte é perigoso demais, seus poderes são instáveis. Tudo que lhe resta é o posto de curandeiro, mesmo sabendo que não deve, faz o seu melhor.

Mesmo sabendo que não é, deseja ser.

Deseja ser tão colorida quanto os outros ― está fadada a ser preto e branco.

Nada se cura, nada se cria, tudo se estremece.

Seu corpo é poeira, tem quase certeza. Não duvida que se sentiu repartir, antes de se juntar e cair imobilizada em algum lugar. Agora enxerga o vermelho, por toda a parte, por todo o lugar. Seu professor está à frente de sua turma, ele ressoa um feitiço de bloqueio de nível maior, tentando proteger os outros alunos da tempestade que surge. E ela? Bem, ela é a própria tempestade.

Ela é um fracasso.

Demora alguns minutos para que tudo volte ao normal, o sangue coagulado em sua testa não arde tanto quanto antes e um de seus colegas limpa com cuidado seu machucado, enquanto os outros a perguntam coisas que não sabe responder. Foge de todas as respostas, culpando o nível de estresse pela falha na magia, talvez algo a tenha contornado, diz não entender. O professor suspira, como se guardasse um segredo ― todos parecem guardar segredos ―, em um bater de palma, os estudantes fazem fila para voltar ao recinto das aulas técnicas.

Chega de prática por hoje, o alívio momentâneo é interceptado quando algo encosta em sua mão. O olhar é vacilante, o professor baixinho abre a boca para pronunciar alguma coisa, enquanto observa o véu negro que cobre parte do braço de sua aluna. Por alguns segundos, a jovem pensa que será mandada a uma curandeira da região, mas nada ocorre, ele solta seu corpo quando tudo volta ao normal e, em silêncio, solta um murmúrio: cuidado.

Confirma com a cabeça e sai, escondendo os braços e os hematomas, evitando o vermelho que tanto enxerga e observando o próprio pulso. Em algum tempo, será sua formatura. Alguém determinará a área em que ela é melhor e aplicará a marca que irá defini-la para sempre, se fosse como os outros, seria uma grande sorte ir servir à família real e sustentar a mãe, mas sabe que não é. Precisava escapar, controlar sua força, fugir.

As memórias de segundos atrás retornam: a pele ao tocar na areia suave, o vento que afagava seu cabelo, o pequeno sorriso ao reparar a magia fluindo de seus dedos perfeitamente e, então, tudo transpassou por seu corpo. Como se fosse sombra, como se fosse nada. Uma parte de si quer perguntar o que foi aquilo, outra teme a resposta.

Ao chegar em casa, não conta à mãe o acontecimento. Apenas recebe o afago familiar e o sorriso carinhoso, na hora de dormir, a mais velha ainda passa em seu quarto e a deseja boa noite, durma bem, minha filha.

As palavras sentimentais a alcançam, mas soam como mentiras. Mesmo assim, fecha os olhos, tentando esquecer tudo que viveu no dia. O problema do presente é se conectar ao passado, o que enxerga não é o redemoinho e o corpo que se dissipa, não. É a guerra, é a casa em chamas e os gritos de energia, em seus sonhos, guarda o maior segredo: enxerga as cores que é incapaz de ver na vida real.

Em seus sonhos, está longe demais da pequena vila, uma mulher ― que desconhece, mas tem certeza que não é sua atual mãe ―, a pega no braço com rapidez e a tranca no sótão com nervosismo. Eles estão aqui, murmura a um rapaz. A criança não responde nada, não compreende.

Em um piscar de olhos, se acorda. Existe poeira em sua cama, assim como lágrimas em seus olhos. A casa de madeira não parece com a de suas recordações, assim como seu rosto não parece com o da criança escondida no sótão. Não volta a dormir, teme o final do pesadelo ― e não sabe se teme mais o fim ou a incapacidade de se chegar a ele ―, apenas fica observando o espelho atentamente, esperando que a diga qualquer coisa, como se fosse capaz.

Esperando que a diga o que tanto sonha, a quem tanto ver.

Pode ser jovem, mas entende que aquele não é seu lugar, não se apavora, entretanto. Algo a diz que é naquela casa de madeira, longe do centro, que sua segurança reside. Retira poeira da cama, escondendo-a debaixo do tapete e prometendo a si que limparia no dia seguinte.

Observa o pulso, o elemento mais sagrado de qualquer cidadão de Cyane, é nele que todos os poderes se escondem ― é nele que a magia está contida e era por isso que os rebeldes costumavam ter seus pulsos cortados. Processa a informação que a mãe lhe dera quando pequena, o tom brincalhão nunca escondeu completamente o medo por trás das palavras ou o sentimento de que aquilo era mais que mera informação: era um aviso.

Não seja uma rebelde, poderia compreender se interligasse bem a situação em que vivia.

Pensou na mulher dos seus sonhos, na forma como observou a criança, na semelhança dos traçados e, como em milésimos de segundos, desapareceu. Não havia mais dúvidas, escondiam algo dela.

Algo muito grave, por sinal ― mas afinal, estaria disposta a descobrir?

Notas finais
Olá, Caso encontrem algum erro, não temam em avisar a autora. Apesar da revisão ter sido feita, vez ou outra, passa algum. Espero que tenham gostado da Zahrah, ela significa muito para mim. Com amor, Madu. P.S: Seria pedir demais um comentário?