Uma semana sem falar com a Emma.

Eu até calcularia quantas horas foram, mas sou de humanas.

Sério, eu penso em desistir as vezes. Tá, ela gostava de mim. Ficamos. Uhul. E depois não fala mais comigo? Depois de ter ficado meses... sofrendo? Eu fico na pior, porque tenho consciência que eu fiz ela sofrer por tanto tempo. Percebi tarde demais que eu gosto dela, tenho que lidar com esse fardo. Não posso mudar o que eu já fiz, então bola pra frente.

Eu realmente gostaria de conseguir parar de pensar naquele beijo, mas foi tudo tão lindo, tenho que admitir. A cena, duas jovens correndo, uma cai em cima da outra, fica naquela coisa de encarar E DAI TEM UM BEIJO que foi ótimo por sinal. Ai, quero chorar.

Aquele parquinho... já passei por cada coisa lá... E tudo com a Emma.

Eu acho que é isso. Eu não aguento mais esse negócio de ficar me ignorando. Vou apelar. Foi naquele parquinho que tudo começou e vai ser lá que vamos dar continuidade.

Tentei ligar pra ela. Nada. Duas vezes. Três. NadATENDEU!

Demorou tanto, foi tanto tempo que eu nem sei o que dizer.

Respirei fundo.

— Emma, é o seguinte. Vai no parque agora. Não me interessa o que você está fazendo, quero você lá. Já ficou tempo suficiente me evitando, eu não aguento mais.

— Eu já estou aqui.

Desliguei, pra causar certo efeito. Essa menina é rápida. Gosto assim.

A ansiedade era muita. Mais corri que andei, normalmente só faço isso a noite por medo de morrer mas agora, em plena luz do dia, eu só quero chegar lá logo.

E lá estava ela. Sentada no gira gira. A poucos metros de mim, mas parecia que eu não ia chegar perto dela nunca.

— Então... Você vem sempre por aqui? — perguntei. Excelente hora para piadinhas.

— Até demais — Emma disse, sorrindo — na verdade, vim aqui todos esses dias. Achei que iria te encontrar.

AAH E EU IA ADIVINHAR QUE esquece. Não vou ficar nervosa.

— Não pensei em vir aqui antes, desculpa. E acabei indo parar no médico.

— Descobriu o que é?

— Não.

— Desculpa por ter sumido. Eu não sabia muito o que fazer — ela disse, encarando o chão.

Percebi que agora iria rolar o papo sério, então me sentei ao seu lado.

— Já passou. Será que podemos finalmente conversar? Sobre tudo? — perguntei.

— Tava demorando até demais pra essa conversa acontecer, mas é culpa minha. Mari queria que eu tivesse falado isso a muito tempo atrás. Não consegui. Desculpa.

— Não me importo, contanto que você me conte agora — eu disse.

É, acho que chegou a hora de saber a verdade. Não sei se estou preparada. Não trouxe minha bombinha de asma. Nem tenho asma.

— Tente não me interromper, por favor. Da última vez não deu muito certo — Emma disse, um pouco tensa.

— Certo, desculpa.

— Eu gosto de você, Carol. Mais do que eu gostaria. Mais do que eu gostei de qualquer outra pessoa e isso estava me matando. Eu me sentia um lixo por sentir isso por uma das minhas melhores amigas, não achei certo. Achei que iria estragar tudo, que você iria se afastar de mim. A Mari falava o contrário, queria que eu te falasse logo porquê você iria entender, ela disse que até desconfiava que você gostava de mim também, mas que não sabia. Não tinha percebido.

De fato, demorei pra perceber. Que ódio que eu tenho da minha lerdeza.

— Então — Emma continuou — eu até achei que era hora de contar. Até você ficar com a Sabrina. Eu achei ridículo o quão mal eu fiquei, mas não conseguia me controlar. Eu agia como se você me pertencesse, era horrível. Eu fiquei muito... instável. Segurei por um tempo, mas não consegui. Dai aconteceu o código vermelho. Por uma fraqueza minha. Foi extremamente idiota, na verdade, mas eu me vi livre daquele problema que me perseguia a tanto tempo.

Escutar que uma das suas melhores amigas quase se matou por sua causa também não traz o melhor dos sentimentos. Eu queria chorar. Muito. Me contive.

— Olha, demorou sim pra eu perceber. É que eu nunca nem tinha pensado nessa possibilidade, pra mim era uma ideia fora de cogitação. Você deveria ter falado comigo antes, eu não sei qual seria a minha resposta, mas acho que teria evitado muita coisa — foi tudo que eu consegui responder.

— Não da pra ter certeza. E na mesma época você começou a gostar do Gabriel. Eu logicamente apoiei, o que você queria que eu fizesse? Que eu chegasse do nada falando "não quero que você fique com ele porquê eu gosto de você". Não dava. Com os meses passando eu fui melhorando, pensando mais positivamente. E veio o dia do encontro. Eu juro que eu pretendia ter contado mais cedo, mas eu não consegui também. A coragem veio em um momento inoportuno. E quando você ignorou as minhas mensagens... Eu fiquei mal. Foi idiota também. Não sei explicar o que aconteceu naquele dia. Eu só conseguia imaginar vocês dois saindo, ficando, fazendo tudo e isso me destruía. E você cancelou tudo pra ir em casa.

— Sim! Emma, nossa, não sei nem o que dizer. Eu obviamente colocaria você como prioridade, mas eu não fazia ideia do que estava acontecendo — respondi.

— Eu sei! Depois eu inventei aquela história de que o Gabriel não era uma boa pessoa. Coitado. E eu não consegui me controlar quando você disse que ele te beijou. Apenas... não consegui.

— Vermelho púrpura — eu disse. Quero saber logo o que é isso.

— Nossa. Vermelho púrpura. Até fiquei feliz quando você disse que não sabia o que era, porque isso iria me entregar e eu seria obrigada a contar tudo naquele dia mesmo. E eu não estava preparada.

— Te entregar? Sério, não faço ideia do que seja.

— Carol, lembra quando a gente tinha treze anos e bebemos cerveja escondidas?

— Sim! Disso eu lembro, mas não lembro das nossas conversas nesse dia. Efeitos do álcool, tão cedo — respondi.

— Então, da mesma forma que eu tive que criar códigos na minha terapia, nós criamos vários também. Código verde pra quando quiséssemos vir ao parque, lilás pra quando alguma de nós brigássemos com os pais...

—... E o vermelho púrpura — completei — pra ter duas cores assim, deve ser especial.

— E é. Eu lembro que você estava bem mais alterada que eu, deve ser por isso que você não se lembra. E também já faz muitos anos. Enfim, estávamos conversando sobre gostar de garotos, que era nosso objetivo quando tínhamos treze anos. O código azul era pra quando alguma de nós gostássemos de alguém. Preto quando gostássemos do mesmo menino. Dai você sugeriu...

— Eu?? Como eu queria lembrar.

— É, você — Emma riu, depois continuou — sugeriu o vermelho púrpura. Que era pra quando uma de nós duas... gostasse da outra.

— Sério que EU sugeri isso? Eu era mais que 100% hetera! Realmente a cerveja fez efeito em mim.

— Sim... por isso que naquele dia do parque eu perguntei se você lembrava, mesmo sentindo que não deveria contar naquele momento, eu quis fazer um teste. Se você lembrasse, eu teria que contar. E não lembrou.

— Odeio a minha memória horrível — eu disse.

— Carol...

— Emma?

— Agora você sabe. O que a gente faz?

— Bem, você gosta de mim. Eu não consigo parar de pensar em você. Deveríamos nos beijar — respondi, fazendo Emma rir.

E dessa vez, eu que beijei. Olha, esperei muito tempo por isso, então não foi nada meiguinho que nem o nosso primeiro beijo. Eu fui com vontade mesmo e a Emma felizmente retribuiu cada gesto que eu fiz.

(Desejei que estivéssemos no meu quarto, ou no quarto dela, ao invés de um lugar público, mas isso a gente supera).

Nos afastamos e nos encaramos. Como sempre. Olho no olho.

— Tenho outra coisa pra falar também — Emma disse.

— Vai, eu aguento — respondi.

— A Mari me contou dos sonhos que você teve... que toda vez que a gente se encarava...

— NÃO AGUENTO NÃO! Ai, essa menina. Não se conta os sonhos dos outros assim — eu disse, inconformada e com muita vergonha, claro.

— Calma! Se você soubesse dos sonhos que eu já tive... — Emma sussurrou no meu ouvido, fazendo eu me arrepiar e saiu do gira gira. Olhou pra mim, fazendo gesto pra eu segui-la.

Isso está bom demais. Perfeito demais. Eu e Emma? Um casal?

E sempre tem algo pra atrapalhar.

— Ai — eu disse, sentindo pontadas no estômago.

— Que? — perguntou Emma.

— AAAI — gritei, me ajoelhando no chão. De novo essa dor do inferno nos atrapalhando. Eu só queria passar o tempo com ela, ficar com ela, mas não. Tem que ter dor.

Eu estava com as mãos sobre a minha barriga, com Emma na minha frente, colocando as suas mãos sobre as minhas. E quando eu as afastei... Sangue. BROTOU SANGUE ALI.

Desmaiei. Novidade.

Dessa vez foi tudo diferente. De repente, voltou as sensações que eu tive no carro do Gabriel. De ser puxada pra fora. De não conseguir respirar. A dor na barriga só aumentava. E MUITO.

Comecei a sentir o meu corpo tremendo, depois adormecendo. Pior sensação que eu já tive na minha vida. Não conseguia mover um músculo.

Acordei.

Não conseguia enxergar nada, meus olhos ainda estavam se ajustando a toda aquela claridade, como se eu não abrisse os olhos a muito tempo.

"Olha! Ela acordou! Acordou!"

Escutei alguém falando... Parecia a Mariana. Não podia ser, ela não voltou pra cá e são muitas horas de viagem pra aparecer do nada assim.

"Eu sabia que ela ia conseguir! Olha, acho ela está ouvindo a gente." Era a voz da minha mãe agora. O que está acontecendo.

Quando eu conseguir ver com clareza... maca. Hospital, DE NOVO! Odeio isso.

— FILHAAAA!!

Minha mãe veio me abraçar, como se não me visse a meses. Em seguida a Mari.

— Calma, eu não desmaio toda hora? Aconteceu alguma coisa pra vocês estarem assim? Aliás, como você veio parar aqui, Mariana?? — perguntei.

— Que? Desmaiar? Filha você não tem isso desde que era criança!

— Demorou pra eu vir, na verdade. Cheguei ontem, mas na hora certa. Nem precisei esperar muito pra ver você acordar! — Mariana respondeu.

— E-Eu não to entendendo. O que aconteceu??

Minha mãe começou a chorar e Mari a abraçou. Coisa boa não era.

— Eu sabia que não devia ter deixado! Olha no que deu! — minha mãe disse, chorando.

— Deixado o que? — perguntei.

— Você sair com o Gabriel Bismarck. Eu disse que adolescente no volante não presta. Filha... Ele bateu o carro naquele dia, foi um acidente horrível.

— Na verdade, ele freou o carro bruscamente e por causa disso um carro que estava em alta velocidade bateu em vocês. Bem... Você ficou pior que ele, porque foi arremessada pra fora do carro. Não sei como explicar muito bem, mas a sua região abdominal foi destruída, praticamente. Você machucou a coluna, mas alguns dias depois já estava melhor — Mariana disse.

— Calma... — eu disse. Se eu estava entendendo aquilo certo..

— Você ficou quase três meses em coma, filha.

TRÊS MESES. EM. COMA. ISSO NÃO TA ACONTECENDO!

— TUDO ISSO?? Pera... o acidente... foi dia 26? De julho?

— Sim — minha mãe respondeu.

— E a Emma?? Cadê ela? — perguntei.

Agora foi a vez da Mariana chorar. Fazia ANOS que eu não a via chorar desse jeito.

— Carol... Foi um código vermelho! Não tinha ninguém na casa dela pra evitar aquilo... Foi no dia do seu acidente — Mari disse, entre soluços.

Eu nunca tive tanta vontade de chorar na minha vida. E não saia uma lágrima sequer.

Eu não conseguia acreditar.

Tudo aquilo que eu passei nos últimos meses... Aquilo com a Emma... Nunca aconteceu?

Tudo isso que eu vivi... um sonho?

A Emma... morreu.

Morreu reprimindo os sentimentos que ela tinha por mim, porque nunca teve coragem de me contar. Eu não to conseguindo assimilar as coisas. Eu nunca... beijei ela.

Emma? Morta?

Preciso que alguém me acorde, porque com certeza essa não é a realidade certa pra eu viver.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.