Vermelho Púrpura
1 Capítulo 1
Ela não pode ficar brava comigo. Oportunidades assim não devem ser perdidas.
Pensei, já que Emma sempre me falou que se eu perdesse chance com algum crush ela mesma iria me bater. E agora ela não quer que eu vá? Menina complicada.
Enfim, meu nome é Caroline Hoss, tenho 18 anos e o ensino médio não acaba nunca. Moro em Neverende, uma cidade conhecida por: nada.
Recebi um convite para sair, do Gabriel Bismarck, o famoso crush. Custou muito para minha mãe deixar, já que seria ele que iria me buscar e tudo mais, segundo ela "adolescente no volante não presta", mas de qualquer forma ela deixou e é isso que importa.
Como é uma ocasião especial, coloquei o meu melhor vestido (único vestido que eu tenho) e o meu melhor salto alto (também é o único salto alto que eu tenho), me maquiei e estou perfumada. Apenas esperando a campainha tocar as 19h. Ainda é 18h57.
Hoje, 26 de julho de 2015, precisa ser o meu dia. O DIA!
Normalmente é o cara que fica esperando a moça, não é? Aqui não é assim. Mas tudo bem, não me importo de esperar, terei mais tempo para ficar menos nervosa.
A campainha tocou. Com isso, meu coração caiu no chão, aparentemente.
Fui correndo até a porta, gritando pelo caminho um "TCHAU MÃEEEEEE", sem esperar por uma resposta. Quando abri, lá estava Gabriel todo arrumadinho.
— Te deixei esperando muito? — ele perguntou.
— Não! Acabei de ficar pronta — haha estou pronta desde ontem, querido.
Ele sorriu e veio me abraçar, depois de eu recuperar meu ar, fechei a porta de casa, antes que a minha mãe aparecesse. Fomos até seu carro, e só aí que eu reparei na quantidade de notificações no meu celular. Fiquei tão distraída enquanto me arrumava que esqueci de dar uma checada nas minhas mensagens, pela primeira vez na minha vida.
Ok, a grande maioria das notificações eram de grupos da escola, porém havia várias mensagens da Emma. Aparentemente ela ainda não queria que eu saísse hoje. Torcendo para que o Gabriel não ficasse incomodado, comecei a ler as mensagens que ela mandou. Fiquei mal ao ver as horas que as mensagens foram enviadas, todas a bastante tempo, mas ela tinha começado a falar que não queria que eu fosse, então eu tinha parado de ler. Acho que alguém ficou bem irritada comigo. Vamos lá, a primeira, enviada a cinco horas atrás:
Carol, eu estou falando sério. Eu não estou me sentindo nada bem hoje, queria ter você por perto. Sei que é mancada porque você ficou esperando muito tempo pra sair com ele, mas você sabe que eu não pediria algo assim se não fosse sério.
Quinze minutos depois ela mandou outra:
Eu não me sinto assim desde que eu parei com todas aquelas coisas. E eu sempre superava quando você estava comigo.
Começou as pontadas no meu coração. Deixei ela falando essas coisas. E depois de outros quinze minutos:
Ainda da tempo de você cancelar com ele. O Gabriel é bonzinho, você sabe disso melhor que eu. Ele não ficaria bravo se soubesse que você cancelou por minha causa. Pode jogar toda culpa em mim, eu deixo. É as 19h, né? Então, em 4 horas e meia da pra ele arranjar outra coisa pra fazer tranquilamente.
É, eu não cancelei. Que lixo de amiga. Ela só foi mandar mais mensagens duas horas e meia depois:
Será que eu vou precisar te ligar? É sério Carol, preciso conversar com você.
E uma hora depois...
Agora eu nem sei mais também. Eu só tinha sentido que eu deveria te contar uma coisa antes de você sair com o Gabriel. Mas pelo o que eu estou percebendo, sair com ele foi a sua única preocupação hoje. Isso fez eu pensar melhor sobre algumas coisas.
E com essa mensagem, veio junto um áudio, com medo de ela estar xingando o Gabriel, coloquei o celular próximo de meu ouvido para escutar em um volume baixo:
"Eu na verdade não sei o que está acontecendo, Carol. Tudo daquele dia está se repetindo, não estou conseguindo me controlar, fiz isso por tempo demais, acabou me matando aos poucos. Só... Aproveite a sua noite."
Meu. Deus. A voz de choro dessa menina. O que eu faço agora? Esse aproveite a sua noite claramente quer dizer MORRA.
Quando olhei pela janela do carro, vi que estávamos, coincidentemente, na rua da casa da Emma. É um sinal pra eu cancelar o encontro e ir até ela? Que lindo, além de cancelar os planos da noite, eu ainda faço o menino me deixar em outro lugar. Mas ele conhece a Emma, será que ele entenderia?
Eu estava perdendo tempo. Tenho que pensar rápido. Cancelar tudo agora ou falar com ela depois.
Por impulso, eu gritei, fazendo ele frear bruscamente o carro.
— GABRIEL!
Depois disso, eu aparentemente apaguei. Não tenho certeza disso porque eu ainda estou sentindo tudo.
Comecei a ter a sensação de ser puxada para fora da janela, junto com uma dor intensa no estômago. Minha cabeça não parava de girar. O ar não vinha mais.
Senti algo me chacoalhando, e tudo clareou novamente.
Gabriel estava me encarando, com os olhos arregalados e com sua mão em meu ombro.
— Carol?? O que foi? Você teve um mini desmaio? — ele perguntou, assustado.
Depois de superar a ânsia passageira que veio, respondi:
— Me perdoe, de verdade. Acredite quando eu digo que queria muito sair com você. Mas tem alguém que está precisando muito de mim agora. A Emma me mandou um monte de mensagens, que eu demorei pra ver. Sério, me desculpa – suspirei — E nós estamos na rua da casa dela.
Ele ficou parado, encarando o painel do carro. Respirou fundo, e disse:
— Tudo bem. Não sei muita coisa dela, mas só pelo o que você me contou, sei que ela já teve muitos problemas. Podemos sair outro dia.
Me senti toneladas mais leve. Triste por fazer isso com ele, mas tem algo muito ruim acontecendo com a Emma. Se o dia que ela está se referindo for o mesmo em que eu estou pensando, é realmente muito ruim.
Guiei ele até a casa dela, e me deixou lá. Espero não me arrepender por ter feito isso com ele.
O carro dos pais dela não está na garagem, e as luzes da casa estão apagadas. Ah, que ótimo. Era só o que me faltava, eu cancelei tudo pra ela ir em um passeio em família.
Calma, Carol. Você não sabe o que está acontecendo ainda.
A porta da frente está trancada. Como uma boa melhor amiga, eu sei que tem uma chave reserva no vasinho de flor perto da janela.
Quando abri a porta, estava tudo escuro mesmo. E muito silencioso.
Fechei a porte e a tranquei. Liguei a lanterna do celular e fui dar uma olhada nas coisas, com o objetivo de chegar no quarto de Emma.
Cozinha: nada. Sala: nada. Certo, subi as escadas e tudo estava escuro também. Fui direto para o seu quarto e liguei a luz.
Muitas coisas jogadas no chão. Muitas mesmo.
Cadernos, revistas e fotos. Fotos nossas. É, eu acertei quando disse que alguém estava irritada comigo.
Escutei barulhos vindo do corredor, e nesse momento não passava nem uma agulha em mim.
Quando desviei a lanterna do celular, vi uma luz que vinha por baixo da porta do banheiro. Pronto, era ali.
Bati na porta.
Nada.
— Emma? Eu sei que você está ai. Eu to aqui agora, cancelei meu encontro, feliz? Sei que foi um pouco tarde, me desculpa — não obtive respostas, tive que apelar — EMMA ABRE ESSA PORTA! — gritei enquanto esmurrava a porta.
Escutei uns múrmuros vindo de dentro, não consegui entender nada.
— Olha, ou você fala mais alto ou abre a porta. Mais fácil para nós duas.
— Desculpa Carol, mas é código vermelho — consegui ouvir ela dizendo.
Isso fez as minhas pernas estremecerem, fazendo com que eu me ajoelhasse no chão, encostando na porta.
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