Vermelho
1 foi o vermelho que nos aproximou.
Notas iniciais
Vermelho.
Foi o vermelho que nos aproximou.
Eu nunca gostei de vermelho, preferia o cinza, o preto e talvez o azul, não estava preparada pra aquele tom de vermelho. Vermelho sangue.
Lembro-me do dia em que você apareceu na porta da casa da vovó ao lado da sua mãe, seu enorme sorriso de dentes brancos apareceu atrás de um buque de cravos vermelhos.
Você era nova na vizinhança. Eu vi quando o carro de mudança parou em frente à casa da senhora que era viciada em bonecos de jardim.
Eu não teria te levado até o meu quarto se vovó não tivesse me dado uma bronca sobre bons modos “ela foi educada em vir até aqui, mostre um pouco de educação também” enquanto preparava o chá. Você era vermelha demais para o meu mundinho cinza.
Você olhou com atenção o meu quarto, passando os dedos sobre as lombadas dos livros na estante, os pés se arrastando pelo carpete onde não havia roupas espalhadas. Esperei que fizesse um comentário sobre minha bagunça, mas você não fez. Isso foi legal da sua parte. E eu a odiei por isso.
“Meu nome é Marie” você disse.
Você perguntou o meu nome mas ao notar que não ganharia nenhuma resposta ficou em silêncio. Eu estava sendo rude, mas você não se importou. Aproveitamos o silêncio juntas.
Achei que você não apareceria mais, esperei por isso porque no fundo eu era covarde. Mas na semana seguinte você apareceu novamente agora sem sua mãe. Sozinha. Vovó sorriu quando você chegou, lhe ofereceu biscoitos e chá e você não aceitou. Você não precisou de ajuda para encontrar o meu quarto, já sabia o caminho. Passamos mais uma tarde em silêncio. Você fez algumas perguntas. Do tipo: “qual sua cor preferida?” “você acredita em aliens?” “tem medo de morrer?” “quantos anos você tem?”.
Eu odiava suas perguntas.
Respondia todas elas com uma única palavra.
“cinza” “não” “não” “17”
Depois de algumas semanas você desistiu de perguntar e então eu passei a responder. Não era muito boa em conversar, em fazer amigos. Mas você entendeu. E nos tornamos amigas mesmo assim.
Aos poucos eu passei a gostar do vermelho.
Eu não prestava atenção ao que você estava falando. Não conseguia parar de olhar para seus lábios. Vermelhos.
Você se surpreendeu quando eu te beijei. Eu também me surpreendi.
Seus lábios eram macios e quentes. E eu gostei de beija-los.
Você se afastou e saiu correndo pela porta me deixando sozinha na festa e foi aí que eu percebi que todos na sala estavam nos encarando.
No dia seguinte todos estavam me encarando e cochichando. E você não veio para aula.
Nem no dia seguinte. Nem no próximo.
Depois daquele dia você parou de falar comigo. Eu me odiei. Tentei pedir desculpas, por telefone, e-mail. Fui até a sua casa e sua mãe me disse que você estava doente. Eu não deveria ter feito aquilo.
Quando você finalmente me deixou falar, você estava estranha. Nada seria como era antes. Mas pelo menos você não estava mais me ignorando.
Na semana seguinte você ficou com Ethan, e eu fiquei feliz por você. Você gostava dele de um jeito que nunca poderia ter gostado de mim. Mas logos depois foi o Kyle, e então Benjamin, Gabe, Josh. E eu entendi o porquê disso tudo, você estava tentando provar a todos que não era lésbica. Mas não precisava provar pra mim. Eu já tinha entendido.
Eu também não era lésbica, nem hétero, nem bi, nem nada. Eu só gostava de você.
Você estava saindo com Drake. Ele era um babaca, mas eu não precisava ter te falado isso, você sabia. Mas mesmo assim eu falei. E você não me ouviu.
Você apareceu com marcas vermelhas estranhas nos braços, eu perguntei o que havia acontecido e você desviou do assunto. Eu não gostei das marcas. Eram de um vermelho errado.
Fingi que não notei seus olhos vermelhos, provavelmente de tanto chorar. Fingi que você estava bem mesmo sabendo que não estava, fingi sabendo que se forçasse você a falar provavelmente você sumiria de novo. Fingi, foi tudo o que eu fiz.
Vermelho foi também o que nos separou.
O maldito carro vermelho do outro lado da estrada.
O maldito isqueiro vermelho que você deveria ter jogado fora junto com todos os malditos cigarros.
O sangue vermelho saindo do corte na sua cabeça.
Você foi levada para um quarto branco, tão branco que era sufocante. Não me deixaram entrar, por isso continuei no sentada no corredor ao lado da porta do seu quarto. Disseram-me que o motorista do outro carro estava bêbado e tinha perdido o controle. Disseram-me que você estava correndo risco de vida e que precisava de uma transfusão de sangue.
Vermelhas. Pequenas gotas vermelhas saindo das minhas veias e indo para as suas. E aos poucos a vida foi voltando ao seu corpo.
Não sei quando foi que eu peguei no sono mas quando acordei você estava me olhando. Daquele mesmo jeito enigmático de sempre, parecia que você ia dizer algo mas mudou de ideia no ultimo momento. Então sorriu, e eu não pude não devolver o sorriso.
Você ficou no hospital por mais alguns dias, e eu fiquei ao seu lado. Exceto quando eu ia para escola ou para casa tomar banho. Passava todo o dia ao seu lado. Pude notar que sua mãe não ficou feliz com isso. Ficamos assistindo filmes românticos idiotas e tentávamos adivinhar o final deles, mesmo sabendo que no fim o casal provavelmente acabaria se casando e vivendo felizes para sempre. Nós inventávamos finais que incluam zumbis, viagens de balão e patinhos de borracha. Eu preferia esses finais.
Quando sai da escola naquela manhã fui direto para o hospital, mas ao chegar ao seu quarto a cama onde você ficava estava vazia. Procurei uma das enfermeiras para pedir informações – talvez você tivesse sido transferida para outro quarto – ela me disse que você tinha recebido alta. Fui até a sua casa mas estava vazia. Nada de móveis, nada de você.
Depois que você foi embora eu passei a odiar vermelho.
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