Vermelho
4 terceira parte
-Voltou a viver?
Perguntei.
Ele não respondeu
Respirou fundo mais uma vez, olhou para os lados, esquecendo-se de mim e da morte, abaixou a arma, e sorriu.
-Foi há quatro anos... Eu, minha esposa e minha irmã estávamos de férias no Rio, ela sempre quis visitar o Rio de Janeiro... Andávamos pela rua, olhando vitrines, conversando e admirando a lua e o mar do litoral... Um dia depois seria seu aniversário, ela estava feliz, iria finalmente ter seus dezoito anos... Lembro que ela ficava falando que a primeira coisa que ela ia fazer era comprar um carro... Vermelho, sua cor favorita...
Se ele não fosse tão bem treinado para reprimir suas emoções, diria que iria chorar. Ele continuou com a voz meio instável.
-Mas ela nunca pôde comprar o carro... Era quase onze horas da noite, estávamos voltando para o hotel, tínhamos comprado várias coisas para ela... Entramos no quarto... E um homem encapuzado estava sentado na poltrona, brincando com uma arma... Apontando para nós... Saquei minha arma que sempre está comigo na cintura e apontei para ele... Sabe, estávamos assim, um de frente para o outro, mas era noite já... – Ele olhou pela janela, o acompanhei, o céu já estava escuro, mas sem estrelas ainda. – Ele disse que tinha vindo se vingar... De seu chefe... Que eu prendi... Tentei negociar com ele, mas ele queria me matar... Pedi para ele, pelo menos, deixar elas irem, mas ele disse que precisaria de reféns para o resgate... Foi quando me passou pela cabeça que eu iria morrer, e se fosse naquele dia, pelo menos, eu salvaria as duas... Ele nos amarrou e nos trancou no quarto, consegui ouvir ele no telefone, negociando um resgate, ameaçando nos matar, colocar fogo no hotel... Se passaram mais ou menos duas horas, já era o dia seguinte, me senti mal por tornar aquela uma data ruim... Ele entrou no quarto, pegou minha esposa e a encostou na janela da sala, parecia mostrar para os policiais, depois a trouxe de volta, colocou-a sentada no chão como nós e voltou para a sala, fechando a porta do quarto... Mais uns vinte minutos depois, eu ouvi a polícia batendo na porta, levantei, pedi para elas se levantarem e se colocarem no canto do quarto, no caso de uma invasão... E aconteceu, os policiais entraram à força, o bandido entrou correndo no quarto, pareceu meio perdido, mas depois encontrou minha irmã e a segurou em sua frente, ameaçou matar ela, apontou a arma para sua cabeça... Os policiais entraram devagar, com armas apontadas... E depois um deles entrou pela janela e gritou para ele ficar parado, o bandido se virou e atirou no policial, ele caiu da janela, do sétimo andar, nos abaixamos, os policiais e o bandido entraram em uma troca de tiros, eu entrei no meio para tentar resgatar minha irmã, mas o bandido me chutou na barriga, eu bati na parede e a TV que estava em cima de mim caiu na minha cabeça... Depois disso desmaiei...
Ele parecia não gostar das recordações. Fiquei imaginando os motivos que o levaram a me contar essa história. Ele prosseguiu.
-Acordei no quarto ainda, olhei em volta, estava meio escuro... Vi minha esposa no chão, ferida, um tiro tinha acertado ela na perna, liguei para a ambulância e eles levaram ela... Procurei minha irmã, mas... Ela... Eu a encontrei no banheiro... Na banheira...
Sua voz estava falhando.
-Não precisa... Dizer... Posso perceber o que houve...
Ele negou com a cabeça e disse:
-Ela estava decapitada... E sem roupa...
Senti meu pulmão sem ar. Uma leve tontura.
Silenciamos novamente. O vento soprou um pouco mais forte dessa vez.
-No dia seguinte, na delegacia, eu recebi a informação de que encontraram a cabeça dela num lixão... Sem os olhos... Ela tinha lindos olhos... E uma peculiaridade interessante... Ela tinha uma mancha vermelha no olho direito...
Pressionei os olhos com a pálpebra, pensando em hipóteses... Ou aconteceu a maior coincidência jamais vista, ou...
-Como o seu...
Ele terminou.
Meu olho direito tinha uma mancha vermelha, quase abaixo da pupila.
-Azuis esverdeados... E uma mancha vermelha...
Abaixei a cabeça, abaixei a arma, o olhei, ele olhava para meus olhos como se sua irmã estivesse em mim.
-Ela voltou a enxergar... – Ele disse. -E eu não quero tirar seu presente de aniversário... Hoje... Nessa data especial...
-Oito de setembro...
Concluí.
-É...
Pensei se deveria me aproveitar da situação e matá-lo... Mas dessa vez, algo me impedia...
-Mas... – Comecei. -São apenas olhos... Ela ainda está viva...
-Hmm! – Ele resmungou, retomando a posição de atirador, o copiei. – Sem cabeça? Sem olhos?
-Não... — A primeira estrela apareceu no céu, a olhei, abaixando a arma novamente. — No seu coração...
Ele abaixou a arma e fitou a estrela também. A única estrela no céu.
A brisa voou entre nós, trouxe as folhas, o cheiro de chuva e algumas nuvens, que se concentraram e ocultaram a lua e a única estrela. Levemente a garoa foi se formando, molhava os cacos de sol espalhados no chão, os esfriava e a temperatura caia. Empunhei a arma na direção dele novamente. E disse sem olhá-lo.
-Você sabe que isso tem de acabar uma hora...
-Sei...
Ele respondeu, recolocando a arma para mim também.
-Um de nós tem que ir...
Ele continuou.
A chuva caiu forte, os raios iluminavam ocasionalmente o ambiente, agora, frio e assustador.
Os relâmpagos incomodavam nossos ouvidos, mas não nos distraiam.
O vento começou a empurrar os cacos para o fundo da sala e a jogar inúmeras folhas contra nós.
-Não é mais um cenário perfeito...
Eu disse.
-Não existe cenário perfeito para morrer.
Ele disse.
-Talvez esteja enganado...
-Por quê?
-Talvez... Este seja o cenário perfeito.
-Para quem?
-O fim de um fugitivo, serial killer e psicopata... Ou de um oficial, guerreiro e abalado?
-Ou...
-Dos dois?
-Talvez esse seja mesmo o cenário perfeito para morrer...
-Nós nunca temos a chance de escolher como morrer... Talvez eu não devesse desperdiçar esse momento...
-Seria uma honra...
-Ou só mais uma desgraça...
-A vida é uma desgraça...
-E uma honra...
-Sim... Fomos escolhidos para viver, para morrer...
-Eu diria somente um final digno de duas grandes histórias...
-Ou o começo de duas grandes histórias...
-Como preferir comandante...
O silencio tornou-se infernal para qualquer espectador de uma cena dessas, mas não para nós.
Seria este meu fim? À noite, na chuva, na mira de uma arma? Poderia existir algo mais satírico? Eu não deveria deixar que isso fosse assim, não devo... Mas... Hoje... É nosso aniversário... 8 de setembro... Eu também não quero tirar nosso presente... Voltamos a ver... Gostaria de ver, só mais uma vez, pelo menos, o fogo...
Um raio caiu exatamente em meio a gente, uma labareda imensa logo se formou, fechou-nos em um círculo, aqueceu-nos, e me esqueci que estava em mira, simplesmente, deixei minha mão soltar-se ao longo de meu corpo, admirei as chamas, que não me davam saída alguma para outra continuação.
-Sim... Não existe cenário perfeito...
Eu disse.
-Na verdade... – Ele disse. -Só existe o imperfeito...
-Sim... Morrerei na minha vida... Deixarei ser consumido pela minha razão... Nós voltaremos a enxergar o mundo como ele deve ser visto... Algum dia... Tarde demais...
O comandante aproximou-se de mim, deixou sua arma falhar ao chão e me perguntou:
-Posso?
-Por que não poderia...
Respondi.
...
E beijou os olhos de sua irmã.
Notas finais
só pra constar: "Sim... Morrerei na minha vida... Deixarei ser consumido pela minha razão..." ou seja, ambos morreram carbonizados! D:
quero reviews, por favor! ^-^
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