Vermelho
2 primeira parte
-Nervoso?
-Não...
-Chegou... O fim da linha cara...
-Não me importo...
-Não mesmo?
-Por que deveria?
-Colocarei todos os seus planos por água abaixo, acabarei com suas matanças, tirarei sua vida... Não deveria se importar?
-Não... Acabarei com sua vida também... Destruirei sua família, frustrarei seus sonhos... Você não deveria se importar?
-É meu trabalho... Morrer é uma constante... Sempre corro esse risco... Dessa vez não será diferente... É só um risco...
E nos silenciamos, depois do diálogo puxado por ele, típico diálogo entre o bandido e o mocinho, que eu sempre vi nos filmes, não achei que acontecesse de verdade. O, aparentemente, comandante parecia cansado, ofegava enquanto falava, mal mantinha a arma apontada para mim, senti-me em vantagem, mas não iria acabar com isso logo, divertia-me a tensão.
A luz alaranjada do sol nos iluminava, a sala escura deixava tudo melhor ainda, vermelho, laranja, assim como foi toda minha vida, pareciam chamas, vibrantes e quentes. Olhei pela janela, o sol, o brilho, as nuvens e o céu na mesma tonalidade, sentia-me tranquilo, sem sequer me importar com a arma, com as nossas armas, o tempo havia simplesmente parado para eu poder admirar a beleza natural.
-Não é lindo?
Perguntei-lhe.
-A morte?
Ele questionou.
-Não... O sol... Sempre fiel ao dia, se silenciando de maneira mais bela imaginável...
-Não vou perder meu tempo e olhar para o sol... Você não é do tipo que se pode deixar sem notar...
Certamente, ele já havia reparado.
-Não sei como você faz isso... – Ele continuou. -Atirar num alvo sem olhar para ele... É algo realmente admirável... Um pouco surreal, mas surpreendente... Reparei como você acertou meus soldados sem nem olhar para eles... Uma bala para cada um... Me fala... – Olhei-o -Como você faz isso?
Pensei se deveria responder-lhe... Voltei meus olhos para o sol.
-Talvez sejam os reflexos, ah? Um espelho, quem sabe... Um vidro.
Ele concluiu a frase e atirou contra a janela, os cacos espalharam-se em inúmeras direções, o sol refletiu por toda a sala e se aquietou no chão em poucos segundos. Continuei a fitar o sol, pensando se poderia ter um fim como o outro que eu já tivera.
-Não...
Respondi-lhe.
-Como?
Ele perguntou novamente.
-A vida...
-A vida?
-Sim... O que a vida te fez?
-Como assim?
-Tornou-te um comandante, respeitado, temido, forte, corajoso, determinado...
-Mmm...
-A vida me tornou assim... Jovem ainda, com sede de sangue para poder viver, um vampiro, um monstro... Um serial killer... Deu-me uma história desagradável e um destino precoce...
Um vento suave soprou entre nós, algumas folhas de árvore se arriscaram a entrar na cena mortal. Continuei...
-Era assim, como está agora, um entardecer... Minha família estava comemorando o meu aniversário, um dia oito de setembro, não me lembro o ano, foi há pouco, o bolo já estava na mesa, meus amigos já o rodeavam, iríamos cantar, minha mãe preparava a câmera recém-adquirida para fixar os momentos felizes... Mas meu pai não gostava de visitas... Ele estava fora, provavelmente, num bar, chegou nervoso, gritou com todos, falou mal, ofendeu várias mães, bateu em uns... Agarrou minha mãe com força e a jogou contra a parede reclamando do excesso de pessoas, tomou a câmera de sua mão e a jogou no chão, as duas; a câmera quebrou-se, minha mãe desmaiou, ele veio em minha direção, entre ele e eu, estava a mesa e o bolo, ele pegou o bolo e o jogou contra mim, abaixei-me, a vela estava acesa, foi de encontro às paredes de papelão, rapidamente, a casa entrou em chamas, não houve muito tempo para pensar, meus amigos fugiram, meu pai também, eu também... Olhei as chamas consumindo nosso lar, tomando outras casas, expulsando outras famílias de seu conforto... Lembrei de minha mãe, desacordada, desavisada, sem pensar muito, corri para dentro da casa, procurei-a, as chamas dificultavam minha visão, a fumaça ardia meus olhos, mas não parei, segui, achei e tomei-a nos braços, arduamente, era fraco, mal aguentava seu peso, depois de muito tempo, consegui sair da casa, coloquei-a no chão e olhei para trás, pude perceber a presença de alguém levando minha mãe para um lugar mais seguro, eu fiquei lá, admirando as chamas, jamais vira algo tão bonito antes, tão fascinante, por mais que eu devesse entrar em desespero, minha mente não deixava, o calor não estava mais incomodando meus olhos, nem a fumaça, não pude piscar, fitei as chamas como se fosse morrer... Como se fosse a última coisa que eu veria... E me agradava, não queria sair de lá, mesmo as chamas se aproximando cada vez mais de mim, queria abraçá-las, sentir seu amor... Mas minha visão foi falhando, ficou branca, borrada, não consegui mais ver a beleza do fogo, foi, então, que eu pisquei, e pude sentir que meus olhos doíam muito, fechei-os, esfreguei, abri-os e tudo era preto, não podia mais enxergar, pensei ter morrido... O fim de tudo... Depois senti meu pulmão queimando, sem ar, ofeguei, muito, tossi, nada resolveu, meu cérebro logo vacilou, senti-me tonto e desmaiei... Mas jamais esquecerei aquele brilho... Vermelho... O fogo...
-E por que isso te tornaria um assassino?
Ignorei sua pergunta e continuei, pensando em respondê-la depois.
-Depois de algum tempo acordei, em um galpão, amarrado em uma cama, tentei enxergar, mas minha visão estava afetada, via tudo torcido, não entendia nada, desisti de tentar enxergar e fechei os olhos... E pensei... Eu não havia queimado os olhos? E meu pulmão? Somente doía, assim como algumas outras partes de meu corpo. Tentei me levantar, mas as amarras impediram-me, foi quando um homem entrou no ambiente, ele posicionou-se à minha esquerda e fitou-me dizendo: “-abra os olhos garoto, você já pode ver”. Abri, lentamente, continuei a ver embaçado, mais tarde, porém, pude perceber que minha visão ia melhorando, como se estivesse se acostumando a ver novamente, meu coração bateu rapidamente, alegrei-me, mas ainda estava amarrado, e meu corpo doía. “-Calma”, ele me disse, “-daqui a alguns dias você vai poder sair daqui”. Continuei mudo, sem saber o que fazer, olhei mais um pouco o ambiente, feliz de poder ter voltado a enxergar... Mas... Algumas horas depois, minha visão começou a falhar novamente, fiquei em pânico, gritei, e, rapidamente, o homem reapareceu ao meu lado e aplicou algo em meu braço, aquietei-me, involuntariamente, e dormi... Durante o sono, pensei em muitas coisas, na vida, em tudo que eu havia perdido... Em ver... Depois de algumas horas, acordei, o homem me disse que eu não deveria abrir os olhos novamente, porque, se o fizesse, voltaria a cegar, e não o fiz, confesso que uma vez tentei, mas não pude, eles estavam selados, pareciam costurados, então, segui boa parte de minha infância, cego para não ficar cego. Nunca havia parado para pensar se aquilo era certo, mas segui, sem indagar ninguém... E aprendi muito... Desenvolvi meus sentidos, aprendi a ver sem os olhos, mas com a pele, os ouvidos, o nariz... Conclui que ver era inútil, mas não pensava nisso, pois toda vez que me passava à mente, lembrava-me do fogo que havia me cegado... Tão belo, queria vê-lo novamente... Pelo menos, mais uma vez... Mas segui assim mesmo, cresci, amadureci, enfrentei todas as dificuldades de um cego, pobre, sem rumo e perdido, confiei minha vida a pessoas que não conhecia e nunca vi, algumas foram boas, outras não, senti o pior dos crimes tirando minha inocência, passei a desconfiar de tudo e de todos, passei a odiar a sociedade...
-E por isso mata...
-... Não... Não guardo rancores...
-Então por quê?
Ignorei-o e segui em frente.
-Um dia, me disseram que eu poderia voltar a ver, desconfiei, mas não havia muitas opções para mim, então fui... Realmente, voltei a ver, sentia novos olhos, poderia viver normalmente de novo, mas após, recebi a notícia de que minha mãe havia sido assassinada há muito tempo, por meu pai, que se suicidou depois, ninguém sabe o porquê, também não procurei respostas, simplesmente, ignorei, não pude chorar, minhas lágrimas haviam secado... e então, um dia, estava morando na floresta, em uma pequena barraca abandonada, vivia de pequenos furtos e esmolas, sempre com fome e frio, mas vivia... Um grupo de adolescentes mais velhos chegou e começou a atear fogo em minha casa... Fiquei sem reação, senti medo do fogo, mas queria ver, não sei o que me ocorreu, mas tentei fugir, tropecei, fiquei ao chão, dois deles, dos cinco, pegaram-me pelo braço e começaram a me bater, não entendia o porquê, depois de muito fazerem, jogaram-me ao chão, as chamas já haviam destruído toda a barraca, senti ódio como jamais sentira antes, de nada nem de ninguém, tateei a área e encontrei um pedaço de madeira, bati com força na cabeça de um dos garotos, ele caiu ao chão, os outros vieram para cima de mim... Fiz o que jamais esperaria fazer... Matei-os...
Silenciei por alguns segundos, senti a respiração do comandante parando por um breve tempo. Retomei...
-Vi o sangue se espalhando no chão... Um pouco dele apagou a chama que ainda estava acesa e que estava chegando a mim, era um pouco apenas, mas se apagou com o sangue... Senti um grande alívio e um prazer enorme... O sangue... Vermelho... Viscoso... Saciava meu medo, me tranquilizava...
-Então... Quer dizer que...
-Já me disseram para procurar um psicólogo, mas eu sei a origem de minha psicopatia... Eu mato para ver o sangue, senti-lo e resfriar meu medo e prazer de chamas...
-Por isso que os locais do crime sempre têm indícios de fogo...
-Sempre gostei do fogo... Me agrada, me aquece e me protege, mas eu somente já não posso controlá-lo, nem quero... O sangue faz isso por mim...
-Você é louco...
Encarei-o.
-Acabe com a minha loucura.
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