Vergo

8 Planos Maléficos


Notas iniciais
Olha quem chegou!! Olha, olha quem chegooouuu!!!! Olá, seres do paleolítico inferior, sou eu, Panda Girl (rimou, eu sei, sou uma pessoa muito poética / nem todo poema precisa de rima, eu sei). Gostaria de dizer que estou me arriscando por vocês, já que meu note tá sem antivirus. Mas vale a pena. Esse capítulo é dedicado a um menino que a gente viu no shopping em setembro do ano passado, que serviu de inspiração para a criação do Oliver. E, também, ao cachorro que a gente encontrou no elevador no dia 31 de dezembro, porque eu amo cachorros.

Foi um dia bem difícil.

Verne tacou umas pedras na minha janela.

Verne quebrou minha janela.

Eu mostrei o dedo pra ele.

Eu fechei a janela quebrada igual um idiota.

Eu ri da minha idiotice.

Mas não quis que ele me visse rindo, pois ele iria pensar que eu estava feliz por vê-lo ali.

— Cara, — eu disse — Vai pro inferno, em nome de Jesus.

Fechei a cortina. Já tinha tomado a minha dose diária de Verne.

Dei as costas e saí do quarto. Alguns minutos depois, eu estava parado na frente da minha casa, basicamente no meio da rua, pra ver o que ele estava fazendo ali.

Eu sou trouxa mesmo, sei disso.

— Gordon! Me desculpa! Eu não queria quebrar a janela, sério! Eu só queria chamar a sua atenção ! — ele dizia rapidamente

— E por que você simplesmente não tocou a campainha? — eu perguntei parecendo a coisa mais óbvia do mundo.

Ele não soube o que dizer e começou a gaguejar. Não conseguia acreditar que ele não tinha pensado na campainha! Ele era um retardado.

— Eu ... Eu não sei tá ! Eu queria chamar a "sua" atenção e não a de outras pessoas. Bom, mas eu não vim aqui pra isso !

— Ah sério !? — perguntei sarcasticamente — Porque eu realmente achei que agora que você está todo rebelde, você veio aqui só pra tacar uma pedra na minha janela e quebrá-la.

— Eu... Eu não... Me desculpa! — ele disse me olhando com cara de cachorro abandonado.

Suspirei, com raiva.

— Eu... Eu pago a janela!

— Fala logo, o que você quer?

— Eu não sei por onde começar. — disse ele tentando organizar as ideias — Bom, pode-se dizer que eu vim.... acertar as contas.

— Ah é!? Que bom!

— Mesmo!? Você acha ?

— Sim Verne, foi muito bom você ter percebido e vindo aqui ajeitar as coisas.

— Sério ?

— Aham!

— Bom então podemos começar? — ele disse com um sorriso no rosto.

— Claro. — eu disse sorrindo também.

E meti um soco na cara dele.

— Aí ! — ele gritou com as mãos ao redor do nariz.

— Pronto agora você já pode ir.

— O que foi isso? — ele perguntou.

— Ué, você disse que iria acertar as contas.

— Não esse tipo de contas.

— Que tipo então? — eu disse me afastando e olhando desconfiado.

— Esse tipo — ele disse se aproximando.

Ele segurou minha nuca. Já, era tarde demais. Poxa, Gordon, por que tão trouxa?

E ele me beijou.

Demorei pra me afastar, pois eu esperava esse momento a muito tempo, mas não podia deixar ele me fazer de bolinha de Ping Pong, porque eu não era as nega dele!

Mas eu só me afastei mesmo porque de repente eu senti um gosto estranho na boca. Não era saliva. Era algo melequento. Me afastei um pouco para ver o que era e percebi que era sangue. O nariz dele estava sangrando.
Passei a mão na boca e balancei a mão pra tirar o pouco de sangue que tinha sujado a minha cara.

Verne colocou a mão no nariz e viu que o sangue era dele.

— Acho que eu preciso de um gelo. — ele disse me olhando, mas continuando com a mão no nariz, pra tentar estancar o sangramento.

— E eu preciso de um tempo para poder processar tudo o que acabou de acontecer aqui.

— E a gente precisa conversar.

— Sim. — eu disse — A gente tem muita coisa pra conversar.

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Dei um gelo pro Verne e ele colocou no nariz e sentou na bancada da pia. Eu podia ter falado pra ele sair de lá, mas ele era muito magrelo e não iria causar nenhum dano, diferente de mim é claro, que nem podia sonhar em sentar ali, por isso sentei numa das cadeiras mesmo.

Ele deu um sorriso tímido.

— O nariz tá doendo? — eu perguntei.

— Não, melhorou. Obrigada pelo gelo.

— Bom, eu não podia deixar você ter uma hemorragia na frente da minha casa.

Ele sorriu mais, o que não ajudou muito, porque tínhamos que tratar de um assunto sério, muito sério, tipo minha vida.

— Tá tudo bem, Gordon?— ele perguntou cauteloso.

— O que você quer dizer com "bem"?

—É que você está com uma cara estranha, e calado e eu pensei ...

— Você queria que eu ficasse com que cara? Eu ‘to tentando processar tudo o que aconteceu.

“A quase um mês atrás eu te beijei e você reagiu de um jeito estranho, me insultou e depois pegou uma menina pra brincar com meus sentimentos de propósito. Como se isso não fosse o suficiente, você ainda me deu um soco na cara porque eu estava falando a verdade. Depois, deixa eu ver, você começou a sair com a puta da Abigail, ficou mais escroto do que já era, e depois de 3 semanas e 2 dias você simplesmente vem aqui na minha casa, interrompendo minha maratona de Arrow, quebra a minha janela, diz que veio acertar contas e me beija! Porra Verne! Agora faz sentido eu estar calado e com uma "cara estranha"!?”

Eu já estava em pé, e a raiva finalmente veio. Pelo menos eu joguei tudo pra fora. Aquilo já estava me entalando por muito tempo. Só esperava que ele não tivesse reparado que eu tinha contado os dias que ele estava com a Abigail.
Fui pegar uma água gelada na geladeira. Não perguntei se ele queria. Ele nem devia estar aqui. E já estava usando o meu gelo. Não ia ter água também não!

— Eu terminei com a Abigail. — ele disse, sem me encarar ainda.

— E daí?

— Você não vai perguntar o motivo?

— Você não gosta de pessoas se metendo na sua vida, não é mesmo?

Ele ficou quieto de novo. E de repente pulou do balcão e foi ficar na minha frente.

— Já entendi! — ele disse começando a gritar. — Você quer que eu fale tudo né? Pois, eu sei! Eu sei que eu sou um retardado, um idiota, um imbecil. Que mais você quer? Eu fui um hipócrita, um medroso, um covarde que fez da primeira menina que viu seu escape de uma realidade que não dá pra fugir! — ele ia se aproximando conforme falava, o que não era nada legal. — E eu vim aqui, fiz merda atrás de merda, falei merda atrás de merda, porque eu simplesmente não sabia como dizer o que eu queria dizer.

E então ele olhou pra mim com aqueles olhos verde e continuou.

— E ainda não sei dizer. Por isso eu te beijei. Porque não foi você quem disse que a gente sente o que tem em um beijo? Que você soube o que eu senti aquele dia? Eu queria que você soubesse, eu queria....

— Olha, Verne, só porque nós nos beijamos não quer dizer que esteja tudo bem. E sim, — eu disse me afastando um pouco. — eu sei que eu falei isso, mas ... depois de tudo que aconteceu envolvendo a gente ... Não posso ter certeza de mais nada.

— Eu ‘to confuso Gordon. — ele disse colocando as mãos na cabeça e bagunçando aquele cabelo meio aloirado. — Eu preciso de ajuda. Eu não sei o que fazer ... Eu estou perdido em mim mesmo, porque isso tudo é muito novo pra mim, então, eu sei que eu não posso te pedir nada depois de tudo que eu fiz, mas por favor, não me deixe ficar confuso e sozinho.

Eu sabia como era aquilo. Eu já tinha passado por isso, e eu sabia muito bem como o mundo todo fica confuso. E eu tive ajuda. Eu seria muito sacana se "abandonasse" ele agora. Eu estaria fazendo uma revanche para aquela “vingancinha” que o Verne fez comigo, e eu não queria ser um Verne.

— Eu não vou te deixar "sozinho". Eu sei que essa parte de "transição", de aceitação, enfim, eu sei que é difícil. — e então eu o encarei — Pode contar comigo pra isso.

Ele balançou a cabeça, e sorriu.

— Agora, nós dois juntos, não. Isso não.

— Isso é um "não" definitivo ou um "não" temporário? — ele disse ainda com um sorriso no rosto, talvez estivesse pensando que eu estava fazendo um joguinho.

— Sinceramente, Verne ... Eu ainda não sei.

E de fato, eu não sabia.

O sorriso sumiu da cara dele e ele acenou a cabeça levemente, como se aceitasse.

— Eu acho melhor você ir. — eu disse — Daqui a pouco a Less, e meu pai chegam.

— Tá, tudo bem. — ele disse indo em direção da porta.

— Eu abro pra você. — eu disse.

— Tá.

Eu abri a porta, e ele saiu.

— Tchau, Gordon.

— Tchau, Verne.

— Até um dia, né?

— É.

Eu fechei a porta.

E ele se foi.

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Demorou uns poucos segundos até a Leslie chegar, e ela me pegou justamente nesses momentos de reflexão em que você fica olhando pra parede do quarto.

— Gordon? 'Tá tudo bem?

— Less, você acha que eu sou muito trouxa?

Ela revirou os olhos e suspirou.

— Foi o Verne, não foi? Olha, Gordo, não briga comigo, mas eu já sabia.

Como assim ela já sabia? Não era possível que aquele filho da puta tivesse avisado a Leslie!

—Ele me pediu pra falar com você, e eu deixei. Tudo bem que o Verne foi um completo idiota, mas todo mundo merece uma chance de se desculpar. Só que eu também não acho que você deva voltar pra ele, claro que não!

Ela estava certa, mas isso não me impedia de sentir alguma coisa pelo Verne

— Eu só não quero ficar parecendo um idiota, sem saber o que fazer.

Less riu, enquanto colocava uma mão no meu ombro direito. Ela tinha um jeito encantador de rir que fazia seus cabelos coloridos balançarem e exalarem cheiro de xampu.

— Você não vai parecer um idiota, Gordon. Tem muitos outros caras por aí. Desde que você não fique de olho nos meus, 'tá tudo bem! ... Escuta, o Verne é só mais um.

Eu dei um sorrisinho falso.

— Queria ser otimista igual você. — falei.

— E eu queria ser um garoto igual a você, pra entrar no vestiário masculino da escola. Agora pare de reclamar da própria vida.

Não dava pra levar essa menina a sério.

— Tenho que ir comer alguma coisa, 'to morrendo de fome. Vou ali na cozinha. Me grita se precisar de alguma coisa.

E ela saiu.

Fiquei uns dez minutos fazendo nada de útil, só alternando entre aplicativos no celular. Eu tinha acabado de baixar um desses jogos estúpidos que você baixa sem saber bem o por quê, quando me mandaram uma mensagem.

Era o Oliver.

“Vai fazer alguma coisa hoje?”

“Acho que não, minha vida é um marasmo que você nem imagina”, respondi.

“Juro que não vai ser, se você levantar sua bunda do sofá e for comigo pra algum lugar!”

Leslie entrou no quarto comendo morangos.

— Quem é? — perguntou ao apontar para o celular

— Oliver, ele 'tá querendo sair.

— Sai com ele. Simples assim.

E foi o que eu fiz.

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— Olá — Oliver disse entrando no meu carro.

Eu tinha combinado de buscar o Oliver em casa e levar ele pra algum lugar, como já tinha feito algumas vezes. Ele estava usando um jeans preto rasgado no joelho e uma camiseta de alguma banda hipster que eu não conhecia, além de um casaco de estampa tribal, num tom de castanho que combinava com seus coturnos, de cor parecida. Enquanto isso, eu usava o básico de sempre.

— Oi, Oliver.

— E aí? Vamos pra onde? — ele disse empolgado, esfregando as mãos.

—Não sei. Tem uma lanchonete que inaugurou agora, aqui perto. Ou então, tem um lugar muito maneiro que tem comida japonesa e....

— Quê? — ele me olhou confuso — Eu perguntei pra onde a gente vai

— Bom, e eu estou dizendo. Se você quiser, também podemos ir jogar boliche ou....

— Gordon, quem vai sair num domingo às nove da noite pra ir jogar boliche?

— Um bando de gente?

— Porra, Gordon, não estava me referindo à isso. ‘Tava perguntando em qual boate a gente iria.

E eu ri.

— Do que você está rindo? — ele me olhou sério, com os braços cruzados.

— De você falando em ir pra boates.

— Francamente, Gordon — ele disse se sentindo ofendido — Quantos anos você acha que eu tenho?

Ele tinha cara de 12, mas eu quis ser legal e disse:

— 14?

— Eu tenho 15, tá! — ele disse apontando o dedo pra mim. — E eu posso muito bem entrar onde eu bem entender.

— Aham, pode.

— Posso sim.

— Sei.

— Tá duvidando de mim?

Eu acenei a cabeça, dizendo que sim.

— Então olha só. — e ele mexeu na carteira.

Dentro dela tinha um bolsinho secreto e de lá ele tirou uma identidade.

— Com isso aqui, eu entro em qualquer lugar.

Era uma identidade falsa, como eu já suspeitava. Eu não duvidaria nada que ele entraria em qualquer lugar com aquela identidade, o problema é que a cara dele negava qualquer registro falso.

— Você ainda está duvidando, né? — ele perguntou.

Levantei os ombros. Sim, eu duvidava que aquilo iria dar certo.

— Então vamos apostar!

— Tá, e se você não entrar eu ganho o quê?

— Não sei ainda, mas que tal se eu ficar te devendo um favor? Se você quiser que eu faça algo, ou conte algo, eu vou ter que contar. Meio que um "vale livre".

—Tá. E se eu perder a mesma coisa?

— Sim.

— Fechado então.

E apertamos as mãos. Eu ia ganhar essa aposta fácil.

— Bom, então pra onde vamos?

— Pra ser justo, você escolhe o local. Porque senão você vai dizer que eu entrei porque as pessoas do local já me conhecem.

— Tá. Eu acho que conheço um lugar. Uma vez eu passei com as meninas de dia, e a Kate disse que lá era muito legal.

— Ótimo. — ele disse e pulou pro banco de trás. — Posso ir aqui?

— Pode ...— eu disse achando estranho.

E depois eu entendi o por quê dele ir lá pra trás.

— Oliver, chegamos. — eu disse me virando pela primeira vez durante o trajeto inteiro para ver ele.

Ele não tinha se manifestado, e ficamos simplesmente ouvindo a música que tocava na rádio, por isso quando eu olhei pra ele ... Bem, eu me assustei.

— Quem é você e o que você fez com o Oliver? — perguntei.
Era o Oliver, eu sabia que era ele, mas ele tinha algo diferente na cara dele, ele parecia não sei, mais velho!

— HA — ele disse gritando. — Gostou?

— O que você fez? — eu perguntei ainda sem entender.

— Chega pra lá, deixa eu voltar aí pra frente. — e dizendo isso ele pulou pro banco da frente. — Eu não fiz nada.

— Fez sim, Oliver! Olha a sua cara!

— Tá ruim?

— Não! É só que, como? — eu ainda estava espantando. Ele parecia que tinha envelhecido uns 5 anos. Parecia até que tinha barba.

— Nada que o mestre Oliver aqui não saiba fazer com um pouquinho de maquiagem.

— Você aprendeu a fazer isso sozinho?

— Claro! O mestre Oliver tem seus truques!

Eu olhei desconfiado. Ele não saberia fazer aquilo sozinho.

— Tá, alguns tutorias na internet ajudam.

— E tem tutorial de como se "envelhecer" na internet?

— Claro que tem! Tem tudo na internet, você nunca procurou?

— Não.

Eu não conseguia acreditar que ele via tutorias na internet que te ensinam a fazer maquiagem para parecer mais velho. A cada dia eu me surpreendia mais com as peripécias do “mestre Oliver”.

— Bom, vamos entrar logo? — ele disse.

Eu ri, mas não deixei ele ver. Ele ainda achava que conseguiria entrar, usando uma identidade falsa e uma cara cheia de pó, coitado. Mas eu não queria deixá-lo chateado, então simplesmente segui para a boate, contando claro que eu já tinha ganhado a aposta e .....

E o filho da mãe entrou na boate.

— Ha! Ha! Ha! — ele gritou na minha cara pela quinta vez. — Quem ‘tava rindo de mim mesmo? Quem disse que eu não ia entrar? Chupa Gordon! — e começou a rir.

— ‘Tá, já entendi. Eu perdi a aposta.

— Sim! Você perdeu! — ele estava muito eufórico e nem tinha bebido ainda. — E você tá me devendo uma, e você agora aprendeu que não se pode duvidar do Mestre Oliver Supremo! Ha! — ele gritou de novo, só que dessa vez foi saliva na minha cara.

—Eu já entendi, Mestre Oliver Supremo! — eu disse rindo.

—Posso jogar na sua cara mais uma vez? — ele disse perto de mim, pq o som lá dentro estava alto demais.

— Você vai jogar de qualquer jeito.

— Ha! — ele gritou, só que no meu ouvido dessa vez. — Vamos dançar! — ele disse me levando para a pista antes mesmo que minha audição voltasse.

E lá fui eu, em direção à pista de dança, onde um monte de garotas começavam a flertar com caras desconhecidos. Não era exatamente o tipo de lugar onde eu me sentiria a vontade. Oliver, no entanto, não poderia estar mais feliz e agitado. Ele era realmente uma pessoa muito sociável.

— Gordon, fala sério, você não parece nem um pouco feliz!

Ele devia estar lendo meus pensamentos.

— Vem cá, não aguento te ver nesse estado deprimente! Isso aqui não é um enterro e você não é o morto.

Um casalzinho esbarrou em mim, e eu estava ficando um pouco desnorteado.

— Desculpa, Oliver, eu só não sou muito sociável, acho que dá pra perceber! Preciso mudar um pouco esses hábitos, eu acho. Ou talvez um copo de vodka já seja o suficiente.

Ele riu.

— Eu sei do que você precisa, e não é vodka. — disse Oliver, dando um sorriso de lado, um pouco malicioso. Ele era um verdadeiro gay supremo, e isso me assustava um pouco

— Seria muito legal poder saber o que é! — gritei, tentando falar alto o suficiente.

Foi uma coisa meio rápida.

Mais um sorriso.

Oliver segurando minha nuca.

Oliver me beijando como um pequeno gay tarado de 15 anos de idade.

A música tocando mais rápido.

Meu coração batendo como quem não sabe o que diabos está acontecendo.

Eu sem saber o que diabos está acontecendo.

Eu beijando Oliver.

Oliver rindo enquanto me beijava.

Enfim, foi algo meio anormal. Eu não sabia o que dizer ou fazer. Ele se afastou, ainda rindo.

— Você até que beija bem pra um cara mais velho! — disse.

— Anos de prática. Você beija bem, pra uma criança.

— Ei! —Oliver me empurrou de leve — Acho que agora rolava uma vodka ... e um lugar pra sentar. Tem um casal hétero ali que 'tá me dando nojo. Parece até que o cara vai engolir a menina. Eu definitivamente não nasci pra isso.

— De acordo.

Fomos até o bar da boate buscar dois copos descartáveis vermelhos cheios da única coisa que a gente sabia beber. Perto do bar tinha um espaço com mesas altas e afuniladas, que acendiam em cores diferentes, e nós escolhemos uma pra sentar. Ele cabia perfeitamente na cadeira, parecendo que havia sido projetada especialmente pra ele. Já eu ficava um tanto enorme e desconfortável, tendo que me ajeitar a cada trinta segundos.

Oliver tinha aquele negócio de balançar a perna repetidamente, como se estivesse ansioso. Ele também tamborilava os dedos na mesa de forma ritmada, fazendo com que eu pudesse ver suas unhas pintadas de preto. Com a outra mão, segurava o copo perto da boca.

Eu bebia calmamente, observando-o.

— Ainda não acredito que você conseguiu entrar.

— Aprenda uma coisa: eu sempre ganho apostas, eu sou tipo um deus das apostas, não pense que vai ganhar de mim algum dia, porque não vai.

— Tudo bem, senhor convencido. — eu disse levantando as mãos.

— Acho bom. — ele disse bebendo mais um pouco. — Bom, pelo menos alguém está mais risonho agora, não é mesmo? — ele disse me cutucando e eu não pude evitar de sorrir.

— Talvez.

— Mas, você ainda está estranho. Eu tenho reparado isso nos dias que estávamos saindo, que você está meio caladão, meio travado, mas eu achei que era porque você não me conhecia direito. ‘To enganado pelo visto, porque hoje você está pior.

— Não é nada. — eu disse, parando de olhar pra ele.

Não queria falar do Verne. Meu objetivo ali era o contrário.

— Mesmo? — ele disse, e sua voz estava mais próxima.

— Sim — eu disse, levantando a cabeça e percebendo que ele estava bem perto do meu rosto de novo.

Ele me beijou mais uma vez, mas eu não poderia continuar com aquilo, então, não beijei de volta.

—Desculpa, Oliver, mas eu não posso.

Ele se afastou abruptamente e disse gritando com um dedo levantado.

—Ha! Sabia que tinha alguma coisa! É garoto não é? Pra deixar você desse jeito, triste e desiludido e com cara de defunto só pode ser boy. Fala logo quem é!

— Quê? — eu disse confuso.

Eu tinha acabado de dar um fora no cara e ele começa a festejar como se tivesse acertado algo!

— Oliver, eu tenho medo de você, sério.

—Por quê? Eu sou adorável. Só quero saber a sua história com o boy misterioso.

—Eu juro que eu não estou entendendo mais porra nenhuma.

— Eu te explico, baby — ele disse passando a mão no meu queixo. — A um tempo eu venho suspeitando dessa hipótese.

— Que hipótese?

— Que você esteja a fim de alguém. Posso continuar ou o senhor quer me interromper de novo?

— Não, fala. — eu disse bebendo mais um pouco.

— Bom, como eu tinha dito, eu já suspeitava que tinha um garoto envolvido. Você saia comigo, mas eu via que você estava sempre meio aéreo e estranho. Toda vez que eu mencionava algum casal que estava perto da gente você olhava rápido pra ver, e sempre olhava duas vezes antes de entrar em algum lugar comigo, como se estivesse com medo de ver alguém. Eu te beijei aquela hora e vi que você continuava atônito e agora foi só pra confirmar o que eu já sabia. — ele disse bebendo o resto de vodka do copo.

—Então você me beijou agora pra sabendo que eu iria recusar o beijo, pra constatar que a sua hipótese estava certa?

—Sim — ele confirmou como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Meu Deus, Oliver!

—Agora fala. Quem é?

—Não quero falar sobre isso agora. — eu não tinha como negar já que ele tinha descoberto tudo, então disse a verdade.

— É aquele cara da resenha, não é? O que faltava engolir a menina na pista de dança? — ele disse olhando para o copo e bebericando as últimas gotinhas existentes.

— Oliver, eu não quero falar sobre isso.

— Ah, mas agora vai. Vai ser melhor desabafar com o titio Oli, você vai ver.

— Depois a gente fala sobre isso e....

— Você ‘tá me devendo lembra?

Bosta.

— A aposta que você perdeu — ele cantarolou.

— Eu sei. — e percebi que não tinha mais saída. — Quer que eu comece de onde?

— Do começo, óbvio. Mas antes, quero outro copo de vodka.

— Eu também, porque eu vou precisar.

Mais dois copos de vodka depois, e nós começando a ficar bêbados, eu tinha contado todas as confusões e problemas com o Verne até hoje mais cedo.

— Ele tacou pedrinhas na sua janela? Que bonitinho! — Oliver disse colocando as mãos no rosto.

— Ele quebrou a minha janela, você quer dizer.

— Ah, mas intenção dele foi boa.

— Não sei. Eu ‘to desconfiado. Quem me garante que isso tudo não passa mais de um ‘planozinho’, ou sei lá, alguma coisa pra me iludir ainda mais. De tudo que ele fez até agora, isso é bem provável.

— É, pode ser. Mas ele também pode estar falando a verdade.

— Sim, mas eu não posso arriscar.

— Não, talvez você possa sim ...

— Como assim?

— É isso mesmo! — ele disse estalando o dedo e olhando pro nada, e depois virando-se para mim — Acabei de ter uma ideia incrível, meu caro amigo Gordon.

—Teve?

— Sim. Pense comigo, uma pessoa quando gosta da outra ela costuma sentir...

— Amor?

— Não! Tá, isso também, mas quando você gosta de uma pessoa você começa a ter ciúmes dela com outras pessoas, certo?

— Sim, dependendo dos casos.

— Então. Ciúmes é algo que podemos fingir estarmos sentido ou simplesmente sentimos naturalmente, como uma coisa dos infernos que vem atormentar nossos pensamentos, certo?

— Certo.

— Então, se o Verne estiver gostando mesmo de você ele vai ficar enciumado se te ver envolvido com outros garotos, ou só de ter algum garoto te dando bola. Mesmo que ele não goste, e isso seja tudo um ‘planinho’ escroto, ele vai “fingir” estar com ciúmes por um tempo e no final ele vai acabar ficando de saco cheio e desistir disso tudo e você vai saber que ele era um completo babaca ou um babaca apaixonado.

— Olha, Oliver, eu gostei dessa sua ideia.

— De nada, caro colega. — ele disse piscando.

— Mas, só tem um problema.

— O quê?

— Quem vai ficar saindo comigo pra fazer ciúmes em outro cara?

Ele tossiu.

— O papai aqui tá sem nada pra fazer no fim de semana que vem.

— Tá falando sério?

— Uhum.

— Mas, você acabou de dar em cima de mim, e nós nos beijamos e agora você quer me ajudar a fazer ciúmes em um cara que eu gosto e que no final há uma grande probabilidade de nós ficarmos juntos e você sozinho, e você ainda quer me ajudar?

— Sim. A fila anda, e eu já consegui o que eu queria mesmo.

— E o que era?

— Saber como você beijava. Matei minha curiosidade. Agora o que eu quero saber é ... você topa ou não?

Eu não iria ter uma ideia tão boa como aquela, e o Oliver era mesmo a melhor pessoa pra me ajudar, e seria bom fazer o Verne sentir o que eu senti.

— Eu topo.

— É assim que se fala!

— E como vamos fazer?

— Fácil, você vai....

Meu telefone vibrou e ligou.

Estava em cima da mesa e o Oliver também viu a mensagem.

Era o Verne.

“Oi Gordon.

Desculpa incomodar mas eu tenho que falar com você sobre a sua janela né?

Desculpa de novo.”

Olhei pro Oliver.

— Você só vai responder quando chegar em casa, e vai ser educado e fazer de conta que nada mudou entre vocês, mesmo depois daquela conversa.

— Tá, e depois?

— Depois? Depois você deixa com o mestre Oliver que ele vai te explicar tudo direitinho.

Fiquei me perguntando como a cabeça de um garoto de quinze anos podia ser tão criativa.

É, o Oliver podia ter 15 anos, mas ele sabia como bolar planos maléficos.

— E quanto tempo para a gente descobrir o que ele realmente quer?

—Hum … — ele disse pensativo e depois me olhou — Te dou três "encontros", só três e você vai ver que a mágica do mestre Oliver funciona. — e dizendo isso, ele riu, de um jeito estranho.

Eu tinha medo daquele menino às vezes, mas eu queria que ele estivesse certo. Ele tinha que estar certo.

Notas finais
Espero que tenham gostado. E lembrem-se: um review não mata ninguém!