Vergo
10 Perguntas infinitas
Notas iniciais
Desci do carro e vi que o Verne me esperava embaixo de uma árvore.
Ele usava uma blusa branca com detalhes em verde que tinha ficado bem legal com a bermuda verde-água que ele usava.
Ele acenou enquanto vinha até mim.
— Oi, Gordon.
— Oi, Verne. — eu disse acenando de volta.
— Bom, vamos? Quero te mostrar um negócio.
Estávamos em um parque e até o momento eu não sabia o que ele estava planejando. Ele simplesmente disse que iria escolher o próximo lugar que iríamos sair e não disse mais nada.
— Tá — eu disse — Mas, e o Oliver?
Ele estava andando na minha frente e não virou pra responder
— Ah, ele não vem.
— Não ? — eu disse parando de andar.
Por que Oliver não vinha? Eu não podia ficar sozinho com o Verne. Não mesmo! Eu precisava do Oliver.
— Não — ele disse olhando pra mim — Vem — e me chamou para continuar caminhando para dentro do parque.
— Por quê? Ele está doente? — eu perguntei, acompanhando ele dessa vez.
— Pelo que eu saiba, não.
— Então, ele tinha algum compromisso?
— Ele sempre tem compromissos, sei lá da vida daquele menino.
— Ah, ele deve estar de castigo então! Por isso que ele não veio?
— Não sei se ele está de castigo.
— Verne — eu disse parando na frente dele — Por que o Oliver não vem?
— Porque ... Ora, porque .... — ele estava enrolando pra falar e eu esperava que a resposta não fosse o que eu tinha pensando — Tá, ele não vem porque eu não o chamei, tá!
— Verne!
Merda! Era o que eu tinha pensado
— Que foi!? Eu não queria que ele viesse só isso.
— Isso é um encontro? — eu disse, olhando pra ele sério.
Eu tinha deixado bem claro que não queria que nossa relação ultrapassasse a "faixa da amizade", mas pelo visto ele não entendeu.
— Não! — ele disse. — Não é !
— Mesmo? — eu olhei desconfiado.
— Mesmo. — ele disse — Vamos. — ele disse voltando a andar — Já estamos chegando.
Andamos mais um pouco e as pessoas que estavam brincando no parque com seus cachorros e filhos, logo foram sumindo.
— Chegamos! — ele disse
Era uma árvore bem grande e tinha uma sombra maravilhosa. Dava para ver as pessoas ainda, mas elas não nos viam. Verne deu a volta na árvore e eu o segui.
— Ta-daaaaahhh !!
Então eu olhei e vi um Verne sorridente do lado de uma toalha xadrez branca com vermelho e uma cesta.
Porra, Verne.
— Isso é um encontro. — eu disse sério, cruzando os braços.
— Não é! — ele disse, fazendo com que o sorriso no seu rosto sumisse.
— Ah não. Você escolhe o local pra onde vamos, não chama o Oliver, chama só a mim, escolhe um local afastado do parque para fazer um piquenique para nós dois, e ainda vem me dizer que isso não é um encontro? Aham, sei.
— Não é um encontro.
— É o que então?
— É uma reunião fraternal, na qual queremos comer coisas gostosas ao ar livre, observando a natureza enquanto falamos coisas idiotas de nossas vidas ou simplesmente coisas fúteis.
— Isso é um encontro
— Cacete! Não é, tá?! Agora, você pode sentar, por favor?
Não tinha mais saída.
Sentei.
Ele se sentou também e começou a tirar as comidas da cesta de piquenique.
— Você tem uma cesta de piquenique?
— É da minha mãe.
— Ah.
— Ah! Aqui, achei. — ele disse virando para mim — Experimenta isso.
Parecia uma tortelete, mas não era doce então fiquei me perguntando o que era quando ele respondeu, virando para o cesto novamente.
— É uma tortelete salgada.
— Salgada? Sério? Nunca experimentei.
— É muito boa.
— Comprou aonde? — eu perguntei, enquanto analisava aquela coisinha toda delicada.
Estava prestes a por na boca quando ele falou:
— Não comprei, fui eu quem fiz.
E a tortelete que estava quase sendo mordida, voltou para a análise.
— Quê? Você que fez? Você cozinha, Verne?
— Não. Mais ou menos. Bem, torteletes eu sei fazer.
Continuei encarando o que o Verne tinha feito com um pouco de medo de comer.
— Come. É boa.
— Er.... É que...
— Pode comer. Não precisa ficar com medo, porque eu não coloquei nada que vá te dopar e permitir que eu abuse sexualmente de você.
Arregalei os olhos.
— Come! — ele disse olhando pra mim.
E de novo, não tive como escapar.
Comi, e aquela foi uma das melhores coisas que eu já experimentei na vida.
— Meu Deus, Verne! O quê é isso!?
Ele sorriu.
— Desde quando você sabe cozinhar?
— Ah, já tem um tempo ...
— Meu Deus, isso tá maravilhoso, sério! Jamais pensaria que...
— Que eu fosse capaz de cozinhar? — ele disse com um sorriso malicioso.
— Sim.
Era verdade. Eu não fazia ideia que uma pessoa como o Verne sabia cozinhar.
— Ah. — ele disse se virando e tirando mais alguma coisa do cesto. — Eu também fiz esses — ele disse colocando um bando de salgadinhos em cima de um pratinho. — E ...
Ele continuou mexendo no cesto e foi puxando para fora, mas teve algo, que parecia uma jarrinha compridinha com uma flor, que ele rapidamente jogou para dentro do cesto, provavelmente com medo que eu visse.
Mas eu vi e não queria deixá-lo constrangido, então, quando ele voltou a olhar pra mim eu virei a cara e fiz de conta que estava prestando atenção em outra coisa.
— Gostou? — ele disse apontando pro novo salgado.
— Sim! Também está muito gostoso.
— Que bom que você gostou.
— Mas não é justo.
— O quê?
— Você trouxe tudo! E eu só estou comendo!
— Ah, que isso. Não tem problema.
— Claro que tem.
— Então — ele disse apontando para a mochila que eu carregava — O que você tem aí? Se tiver algo pra comer, põem aqui.
Eu estava num grupo de estudos, então saí de lá e vim direto encontrar o Verne, sem passar em casa. Mas eu acabei esquecendo de deixar a mochila no carro e agora ela estava lá do meu lado.
— Não tem nada aqui — eu disse revirando a mochila. — Só tem esse saco de pipoca e uma embalagem de biscoito na metade.
— Ah, então coloca aqui.
— Não!
— Por quê?
— O biscoito tá velho demais, e essa pipoca é horrível. É de bacon. É da Less.
Eu odiava aquela pipoca, mas a Leslie amava, apesar de não gostar de comer bacon. Vai entender.
Eu estava com pressa quando sai de casa, por isso só fui perceber que estava com aquilo agora.
— De bacon? Eu nunca comi. Me dai aí.
— Quê? Não! É horrível.
— Me deixa experimentar pra saber!
— Não!
— Me dá isso aqui! — ele disse se inclinando para a frente e pegando a pipoca da minha mão.
Estávamos sentados um de frente para o outro, o que por um lado era ótimo, pois eu tinha uma toalha de piquenique cheia de comidas me separando dos olhos verdes.
— Ei! — eu disse, mas já era tarde. Ele tinha aberto o saco e estava colocando a pipoca na boca.
— Uhm, isso é bom.
— Quê? Ah, fala sério!
— Não sério! A Less tem bom gosto. É muito boa essa pipoca.
— Não. Me dá aí, não vou deixar você ficar comendo isso.
— Não é horrivel. — ele disse comendo mais.
— Não é não, é só uma merda.
Verne riu
— Vai continuar comendo isso, não vai?
Ele balançou a cabeça de forma afirmativa, e para completar, comeu mais.
— Que lindo. Eu comendo coisas maravilhosas, e você comendo a única porcaria que eu trouxe na mochila por engano. Falando em cozinhar, porque você nunca falou que cozinhava?
— Sei lá. Nunca me perguntaram.
— Ah. Mas, você cozinha sempre?
— Quase...
— Por quê? A comida é tão boa! Ou... Seus pais sabem que você cozinha?
— Sim, eles sabem. Minha mãe adora as coisas que eu faço na cozinha, ela — ele sorriu — diz que vai deixar o livro de recitas como herança. Agora meu pai — e então o sorriso sumiu do rosto — Ele não gosta muito.
— Da sua comida?
— Não, do fato de ter um homem na cozinha.
— Sério?
— Sim.
E eu pude perceber que o pai do Verne era um belo de um machista. Talvez, pensei, esse era o motivo pro Verne ser desse jeito, a base dele foi um cara machista.
Não sei porquê, mas isso tirou um peso das minhas costas, e eu comecei a ver o Verne de uma forma diferente. Ele só era uma pessoa que foi condicionada a pensar de uma forma, enquanto interiormente pensava de uma maneira diferente.
É engraçado como as pessoas gostam de impor a sua "verdade" para as outras como uma forma de "dominância" e de se mostrar superior, sendo que em nenhum momento elas tem certeza do que pensa e do que consideram como "verdades".
Meus professores tinham mania de dizer que o que é belo pra mim, não é belo para o outro, e isso se encaixa perfeitamente no que eu estava refletindo, enquanto saboreava mais uma tortelete e o Verne quase acabava com o saco de pipoca.
Fui mais rápido dessa vez, e consegui pegar o saco de sua mão.
— Ei! Tá quase acabando!
— Por isso mesmo! Vai comer uma coisa decente menino!
— Você parece uma mãe falando, Gordon, francamente — ele disse rindo.
— E você, uma criança teimosa, Verde.
Merda!
Kate tinha me apresentado pra ele, chamando ele de verde e eu achei que se continuasse chamando ele assim, poderíamos ficar mais íntimos, sei lá. Mas eu via que ele tinha vontade de me enforcar ou simplesmente me fazer engolir o que eu tinha acabado de falar, então eu simplesmente parei. Só que o que eu acabei de fazer? Jogar tudo pro alto e deixar ele irritado de novo.
— Er... Desculpa, quer dizer, Verne.
— Não, tudo bem. Pode me chamar de Verde. — ele disse e me olhou.
Não foi fácil me conter contra perguntas e falas idiotas e retardadas que estavam loucas pra sair da minha garganta como "sério?" ou "não acredito!" ou " MDS!" ou "então já estamos íntimos a esse ponto?" ou "você pode me chamar de gordo se quiser..." e simplesmente sorri.
Não sei se foi o sorriso mais "sedutor" do mundo, porque tinha milhões de coisas que eu queria dizer e estava me segurando, mas sorri.
— Tá bom, Verde.
— Agora, me passa a pipoca.
— Ei! Então é isso!? Só posso te chamar de Verde se eu te der a pipoca.
— Na verdade é uma troca. Eu permiti algo e agora, como um bom garoto, você vai me retribuir devolvendo a pipoca, não é ?
— Não! Não vai ter pipoca!
— Tá bom, então você também não vai ter mais tortelete.
— Ah .... Isso é jogo sujo.
Ele olhou com cara de deboche.
— Tá. Eu te dou, mas antes, me explica uma coisa.
— Fala.
— Por quê, Verde? É por causa dos seus olhos ou é sua cor preferida?
— Tem a ver com a minha cor preferida sim. Longa história.
— Temos muito tempo.
— Bom... Foi na minha primeira aula, no jardim da infância. — Verne começou a contar — A Kate tinha ido estudar na mesma escola que eu e nossos pais conseguiram nos colocar na mesma turma.
"Então, entramos em uma salinha cheia de mesas baixinhas e cadeirinhas, com muitas estantes cheias de caixas e vários brinquedos, folhas, lápis-de-cor, massinha, essas coisas que as crianças brincam.
"Bom, sentamos em uma das mesinhas e eu acabei ficando de costas pra professora, já que a mesa era redonda.
"Uns garotinhos, que estavam sentados do meu lado, começaram a conversar sobre alguma coisa aleatória que eu não vou lembrar, é exigir demais da minha memória. Mas eu lembro que eu foquei na conversa deles e, sabe quando você começa a acompanhar a conversa dos outros e as outras pessoas reparam e te colocam na conversa? Pois é. Eles perceberam e me perguntaram "E você? Qual é sua cor preferida?"
"Era um pergunta simples e eu fui responder, só que eu não contava com um detalhe.
"A professora estava passando de mesa em mesa, perguntando o nome dos alunos. Porém eu não tinha visto que ela estava atrás de mim e na hora que ela perguntou "E você? Qual é seu nome?". Como alguém colocou a mão no meu ombro, eu virei enquanto respondia "Verde". Mas na verdade eu estava respondendo o garoto, não ela!
"Os dois fizeram perguntas ao mesmo tempo.
"Pra piorar a situação, a mini Kate que estava do meu lado, rindo bastante, virou e completou "eu sei que é estranho gente, mas daqui a pouco vocês se acostumam em chamar ele assim. Eu já acostumei, não é mesmo, Verde."
"Não preciso dizer que todo mundo começou a rir, e que, por cinco anos, ninguém me conhecia por Verne.
"Mesmo mudando de escola, ela ainda fez com que as pessoas aprendessem a me chamar de Verde. E toda pessoa que ela conhece ela faz questão de me chamar de Verde e me apresentar como Verde."
Eu ri, não pude evitar. Só podia ter sido a Kate mesmo pra fazer aquilo.
Ele riu também.
— Eu acabei me acostumando com Verde. Sinto falta dela me chamando assim...
Pude perceber que desde o dia que eles brigaram eles não tinha se falado mais, e quando eu ia perguntar sobre isso, Verne virou e disse
— E como foi com o seu... jardim da infância? — ele disse, emendando as últimas palavras de forma rápida na frase, e eu entendi.
— Você não ia me perguntar sobre isso.
— Quê? Ia sim.
— Não, não ia.
— Sim, você ia me perguntar sobre como surgiu meu apelido, mas acabou desistindo porque achou que era algo óbvio e acabou ficando sem graça por estar me chamando de gordo.
— Não, eu...
— Pergunta logo, pois a resposta não é algo "óbvio" do jeito que você está pensando.
—Não? — e ele completou rapidamente— Quer dizer, tá. É .... Por que a Leslie te chama de Gordo?
—Simples, porque eu era magro.
Percebi que ele estava tentando se segurar para não parecer indelicado, mas ele não conseguiu conter o ar de confusão que assombrou seu rosto.
Sorri pela expressão que ele fez, e peguei me telefone, procurando uma das fotos para mostrar pra ele.
— Aqui— eu disse, achando a que eu queria e virando o celular para ele — Esse sou eu com nove anos.
Eu me lembrava do dia da foto.
Tinha saído com o meu pai, a Less e a mãe dela, mas elas não estavam nessa foto. Estávamos viajando para um lugar de praia então eu estava bem bronzeado, principalmente as canelas, que acabavam fazendo um contraste com a minha cara, que estava branca natural, depois de tanto protetor solar. Meu cabelo, meu pai tinha mandado cortar estilo militar, por causa do calor, e ele estava bem espetado, mas vendo a foto agora, posso perceber que a minha versão mini era fofinha. Não no sentido literal da palavra, porque eu era....
— Meu Deus! Você era um palito! — Verne disse.
— Eu sei.
— Desculpa, mas é sério! Você era muito magrelo!
Eu ri.
— Sim, eu sei. Por isso que a Less começou a me chamar de gordo. Quando o apelido surgiu, eu era ainda mais novo do que eu era nessa foto. Devia ter uns 6 anos, 7. Meu pai já estava namorando a mãe da Less e eu já sabia da existência das duas. Meu pai nunca escondeu nada de mim, e eu estava feliz com o fato de ver meu pai feliz.
"Conforme o tempo foi passando, a mãe da Less e meu pai começaram a pensar em morar juntos, já que a Less precisava de um "pai", e eu precisava de uma "mãe". Eu estava animado com a ideia de que eu teria uma irmã da minha idade, mas ela estava assustada com tudo isso.
"Então, meu pai resolve fazer um passeio conosco.
"A mãe dela não podia então fomos só eu, meu pai e ela pro shopping, ver um filme e depois fomos lanchar.
"Mas ela estava muito calada, quieta e envergonhada, então meu pai, querendo deixar ela mais descontraída, começou a fazer brincadeiras.
"E teve uma hora que ela roubou uma batata frita dele, então ele virou e disse "Nossa, essa menina é muito esfomeada! Olha só! Vai ficar obesa!"
"Ela riu e emendou "Eu não. Quem é gordo mesmo é o Gordon."
"E ela riu da brincadeirinha e olhou pra mim.
"Eu tinha ficado surpreso, porque ela só tinha trocando um tímido "oi" comigo até aquele momento, então eu simplesmente olhei sério pra ela.
"Ela começou a ficar vermelha e eu percebi que ela ia pedir desculpa, mas eu consegui ser mais rápido e disse: "Sou gordo mesmo, e com muito orgulho! Tão gordo que essa batata é minha"
"E eu roubei a batata frita dela, e começamos a rir e pela primeira vez eu e a Less estávamos nos divertindo juntos.
"Depois desse dia, ela me chamou de gordo de novo e com o tempo acabou pegando."
—Olha, bem que você disse que não era o que eu pensava. — ele disse se levantando.
O sol estava quente e onde o Verne estava sentado não tinha mais sombra, então, ele acabou vindo se sentar ao meu lado e, não me pergunte quando e nem porque, estávamos deitados um do lado do outro, fazendo da minha mochila um travesseiro
— Pois é. — eu disse, me sentando também. —Eu falei. Todo mundo pensa que é porque eu sou gordo, mas o apelido veio antes. Mesmo porque eu não sou gordo porque eu quero.
— Como assim? — ele disse olhando pra mim, e eu contei a verdade.
— Eu tenho problema de tireoide, Verne. Hipotireoidismo.
— Sério!? — ele disse, e eu pude ver que ele sabia do que se tratava e eu não ia precisar ter que explicar mais uma vez que é um problema que faz com que meu corpo não produza hormônios em quantidade suficiente para o meu organismo etc etc ...
— Sim. Eu descobri isso já faz uns quatro anos, então já melhorei mais, e os remédios já fizeram efeito. Não estou mais tão deprimido, ou irritado com tudo, ou lerdo pra entender as coisas.
"Bom, tecnicamente eu continuo lerdo, acho que isso é de nascença mesmo. Por isso que eu sou emotivo também. Hormônios mexem com a vida de uma pessoa de todos os jeitos possíveis.
"Me sinto como uma garota de tpm às vezes."
Eu ri, mas o Verne não. Não entendi a reação dele, então continuei falando enquanto ele ficava pensativo.
Não queria que caíssemos no silêncio constrangedor.
— Aí eu descobri que estava doente, comecei a engordar e fui percebendo que a Less cada vez me chamava mais de Gordon ao invés de Gordo. E as vezes, quando ela ia falar Gordo, ela emendava o "n" rapidamente.
"Então eu perguntei pra ela o motivo e ela não quis me responder. Eu tentei mais um pouco e teve um hora que ela soltou "porque de tanto eu te chamar de gordo você ficou gordo e agora não posso te chamar mais assim porque era uma brincadeira por você ser magro mas agora que você está gordo eu não quero mais te chamar assim porque isso não se faz e eu to preocupada com você...""
Eu lembrava daquele dia muito bem. Ela falou aquilo tudo de forma rápida e começou a chorar. Não mencionei o resto, mas eu lembrava que ela chorou e disse que estava muito preocupada e que não queria perder um irmão também.
— No final, eu acabei por convencê-la de que era bobagem e que eu não ia conseguir ficar ouvindo ela me chamando de Gordon, e que eu já tinha me acostumado com o apelido, que tinha vindo antes desses problemas todos. Por isso que ela me chama assim. Algumas pessoas até olham com uma cara estranha, mas eu não me importo.
— Eu nem sei o que dizer ... — Verne se manifestou novamente.
— Não precisa dizer nada.
— Então, por isso que você é gordo? Por causa de um problema hormonal? — ele disse me olhando.
— Sim. — e eu o encarei de volta. — Por quê? Se eu fosse então gordo, simplesmente pelo fato de ser, as coisas seriam diferentes?
— Se fosse, eu não teria feito um piquenique pra gente, teria? — e então ele deu um daqueles sorrisinhos e estávamos muito perto um do outro, e de repente ....
Verne roubou o saco de pipoca de novo.
— EU NÃO ACREDITO! — gritei
— QUE FOI!? EU GOSTEI! Eu disse! — ele riu.
— Me dá isso!
— Não! — ele disse tentando escapar de mim.
Mas não deu certo. Eu bati no fundo do saco de pipoca, e elas voaram pra fora, indo em direção ao chão.
— EU NÃO ACREDITO! — foi a vez dele gritar.
— Finalmente.
— PORRA, GORDON! VOCÊ DERRUBOU TUDO!
— Aleluia!
— Tá me devendo uma pipoca!
— NÃO TO NADA!
—Ah, você está! — ele disse e tacou uma das pipocas que estavam na grama em mim.
Eu peguei uma e taquei nele também, e ficamos alternando entre guerrinhas de pipoca, risadas e quando cansávamos, simplesmente deitávamos na minha mochila novamente enquanto falávamos de coisas idiotas até a tarde acabar e aquilo se transformar apenas em mais uma lembrança, ou simplesmente mais uma das lembranças.
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— Minha testa ainda está doendo depois do galo. — Oliver disse, enquanto ajeitava o topete, que tinha ficado bagunçado por causa do arco.
Ele estava usando um arco, daqueles que são de orelhas de gatinho. Não me pergunte o por quê dele usar aquilo, e só Jesus sabe quem deu aquilo para ele, isso se não foi ele mesmo quem comprou, o que é bem provável.
— Mas já faz uma semana quase.
— Uma semana que eu estava ajudando vocês dois e vocês me retribuem com um galo.
— Não fomos nós!
— Ah, não! Eu saio com a cara lisa, mais lisa que bunda de neném e quando eu acordo parece que vocês abriram minha cabeça e colocaram um bola de golfe aqui dentro.
— Já disse! Não fizemos nada!
— Uhum... Vou fingir que acredito. — ele disse cruzando os braços.
No dia após a festa, Oliver me mandou um mensagem me xingando e perguntando ao mesmo tempo o que tinha acontecido para ele acordar com um galo na testa e eu finalmente descobri o que a "bela mira" do Verne acertou.
Bom, se bem que, para o Verne, tinha sido uma ótima mira.
— Para de resmungar Oliver! Temos que estudar não é?
Ele tinha me chamado pois estava tendo problemas na escola e acabou descobrindo que eu era bom em algumas matérias. Então, ele perguntou se eu poderia estudar com ele e ali estava eu, sentado na cama do Oli, num daqueles quartos fofos que você vê em filme, e jamais pensa que possa existir na vida real. Pois é, mas existe.
— Resmungar!? Eu estou aqui me sacrificando por vocês, só pra tornar um casal maravilhoso real, e você me retribuem me chamando de resmungão e me deixando com uma laranja na testa!? MUITO LEGAL!
— Seu galo não estava tão grande assim. Mas, o que você quis dizer com "sacrificou" pela gente?
— Pelo simples fato de que quase fiquei surdo, tive diabetes, além de quase ter tido um coma alcoólico também.
— Quê?
— Acha mesmo, Gordon, que eu como três sobremesas toda vez que eu vou a um restaurante? Ou que toda vez que eu vou em uma festa eu fico bêbado a ponto de ser carregado? Ou ainda que eu escuto aquelas musicas horríveis?
— Ou que talvez você saia carregando um pen drive pra todo lado? Ou que você tenha um pen drive de unicórnio? É, você está certo. — e ele estava mesmo.
Eu tinha sido um idiota de acreditar naquilo.
Olhei para ele e ele me olhava sério.
— O pendrive é meu mesmo. Eu comprei porque eu gostei. Algum problema por ele ser um unicórnio?
— Quê? Não!
— Ótimo. Agora... Porra, Gordon, a gente sai a tanto tempo e você levou tudo a sério? Sério mesmo? — ele disse magoado.
— Você foi bem convincente, tá!
— Humpf. Vou aceitar essa desculpa. Agora, espero ter causado a mesma impressão no Verne. — ele disse esfregando as mãos e rindo de um jeito estranho.
— Então você comeu três sobremesas propositalmente? Só para ser filho da mãe e fazer o Verne pagar mais?
— Sim. Ele estava se achando muito, pensando que tinha vantagens, então eu pensei em sacanear mais um pouco, só que eu já estava empanturrado! Não me pergunte como todos aqueles doces entraram, porque até hoje eu não sei. — ele disse passando a mão na barriga — Acho que vou ficar um ano sem comer doce.
Ouvimos um barulho e quando olhei para o lado, um ser minúsculo entrava. Depois de uns latidinhos estridentes pude perceber que era um pug e não um rato.
— Sparkle, você veio ver o papai foi? Vem cá, coisa fofa.— disse Oliver enquanto pegava o cachorrinho estridente do chão e colocava em cima da cama.
— Você veio ver esse amigo meu, é? — disse Oliver, continuando a falar com o cachorro.
O pequenino me olhou, e foi se aproximando de forma cautelosa. Chegou bem perto da minha perna e simplesmente virou com a barriga pra cima para que eu fizesse carinho.
— Que coisa mais fofa, Oliver! Eu não sabia que você tinha um cachorrinho! Meu Deus! — eu disse, brincando com aquela coisa fofa.
— Ele é novo aqui em casa. Tem um mês só que ele chegou. Pensei que eu tivesse te falado sobre ele.
— Não. Não falou não, mas é muito fofo!
— Sim eu sei, ele adora ficar aqui em cima, né, Sparkle!? Né, bebezão!?— e então o cachorrinho voltou para o colo do Oliver.
— E sobre você ficar surdo? — perguntei, voltando para o assunto.
Oliver parou de brincar com o cachorro por um momento e respondeu sério olhando para mim.
— Pelo simples fato de eu ter que ouvir todas aquelas músicas ridículas e decorá-las para poder cantar aquelas merdas na cabeça do Verne, com uma voz forçada e fina pra cacete, que é muito pior que a minha voz natural. Sinceramente, eu estava quase me jogando em cima do Verne para fazer o volante virar e nós podermos sofrer um acidente, nos livrando da minha voz e daquelas músicas antes que fóssemos convertidos para o lado estampado da breguice.
— Não era mais fácil você ter ... umm... tirado a música?
— Não. Foi necessário. Tudo foi necessário. Mas eu agradeço você ter me mandado tirar o pendrive. Salvou vidas, literalmente.
— Então, se tudo foi necessário, você ficar bêbado também foi?
— Óbvio!
— Como assim "óbvio"? Estávamos na festa, não entendi o motivo de você fazer a gente ir embora. Nos outros tudo bem, você queria deixar o Verne constrangido, depois queria tortura-lo, mas na festa, não tinha nada de mais na festa.
— Literalmente, não tinha nada. Nada de vocês interagirem um com o outro. Nada de vocês se falarem. Pareciam duas múmias.
— Não foi bem assim!
— Ah, Gordon! Vocês ficaram quase uma hora só se olhando, parecendo duas criancinhas tímidas. Se bem que se fosse mesmo duas criancinhas, elas já teriam ido conversar uma com a outra.
— E aí, por causa disso você resolveu ficar bêbado?
— Gordon, meu querido, se eu não fizesse nada eu iria perder todo o trabalho que eu vim construindo ao longo desses encontros. Tinham pessoas reparando em vocês. Tinha garotos olhando pra vocês dois, e garotas de olho no Verne também. Se eu não fizesse nada, eles iriam atrás de vocês. Uma menina duvidou que vocês fossem gays, e principalmente que estavam interessados um no outro. Então eu tive que "agir".
— Mas você ficou bêbado muito rápido. Nas outras vezes que saímos, a gente bebia por bastante tempo e você não ficava ruim. Nunca precisei te carregar.
— Isso é mais um dos truques do mestre Oliver, meu caro colega. —ele disse com um sorriso malicioso. — Algo bem perigoso, mas que ajuda em momentos como esse.
— Você misturou alguma coisa com a vodka, Oliver?
— Quê? Que outra coisa eu ...— ele disse pensativo e então entendeu onde eu queria chegar — Eu não usei drogas, tá! Que horror Gordon, sério, pensei que você me conhecia. Não, não usei drogas, tomei uísque.
— Uísque? Você ficou bêbado com uísque? Como assim?
— Sim, eu fico bêbado com uísque e faz um ano só que eu descobri isso.
— Sério?
— Aham. Bom, certo dia estava eu na casa de uns amigos, pois estávamos fazendo uma festa "particular".
"Estava tudo bem até que uma hora a bebida acabou, e um deles virou e disse: "O álcool acabou. Vocês vão querer sair pra comprar mais, porque aqui em casa só tem uma garrafa de uísque do meu pai que está pela metade."
"Ficamos com preguiça de sair então nós concordamos e, pela primeira vez, eu estava experimentado aquela bebida exótica de velhos ricos.
"Ele distribuiu nos copos de cada um, só qur como eu acabei sendo o último, eu fiquei com uma quantidade um pouco maior, pois eles ficaram com preguiça de distribuir igualmente e como queriam acabar logo com a garrafa, me deram tudo o que restava.
"E eu, como sou uma pessoa inocente acabei virando o copo de uma vez, sem esperar eles trazerem gelo, eu não sabia que tinha que tomar aquilo com gelo, e, bem... eu não lembro o que aconteceu.
"Pra falar a verdade, a única coisa que eu lembro é de sentir a minha garganta queimando enquanto aquilo ia descendo e de acordar na casa do meu amigo. Descobri que eu tinha falado um bando de merda e que eu tinha ficado bêbado de um jeito que eu jamais tinha ficado antes. Depois daquele dia eu parei de tomar uísque, porque vai que acontece de novo e eu estou num lugar estranho dessa vez, sem saber o que está acontecendo comigo.
"E não foi porque eu virei o copo de uma vez que eu fiquei bêbado. Uísque é uma bebida muito forte para uma pessoinha como eu, mesmo com gelo."
— Talvez ela seja forte pelo fato de você ter só quatorze anos e querer beber como um cara de 40.
— Eu já disse que tenho 15! — ele disse gritando. — E não foi por causa disso, tá! Humpf!
— Então quer dizer que tudo isso foi planejado?
— Sim. Bom, as coisas que eu falei enquanto estava bêbado foram bem naturais. Falando nisso, o que eu fiz aquela noite?
— Como você mesmo disse, merda.
Ignoramos o estudo, e eu acabei contando pra ele tudo o que ele tinha falado.
— Sério? Eu falei que vocês dois iam se pegar? Meu Deus! Eu sou o melhor bêbado mesmo.
— Sim.— eu disse rindo.
— Qual foi a reação do Verne?
— Ele ficou sem graça que nem eu, você queria o quê?
— Óbvio, porque pelo visto, era isso que ele queria. — completou Oliver ainda rindo.
— Duvido muito. Acho que ele só ficou constrangido.
— Não, ele está gostando de você. Ou melhor, ele continua gostando de você.
— Não sei, não. À propósito, você não disse que em três encontros eu já iria saber o que o Verne quer de fato?
— Sim.
— Bom, boliche, zoológico e festa, qualquer um pode perceber que já se passaram os três encontros e até agora eu não sei, né, querido?
— Eu disse que por volta de três encontros você saberia. Só que o seu caso foi mais complicado.
— Você está me enrolando, não está, Oliver?
—Não! Não estou. Você mesmo pode perceber que ele já está diferente. Agora, pra onde vamos no próximo e provavelmente decisivo "encontro"?
— Ah, não vai dar pra sair. Você acabou extorquindo o menino e agora ele está sem dinheiro, e como é fim de mês, ele ainda não ganhou mesada, aí eu estava falando com o Verde e combinamos de fazer uma sessão cinema lá na minha casa. Pode ser, Oliver?
— VOCÊ FALOU COM QUEM?
— Hã? — então eu percebi a besteira que eu tinha feito.
Nos últimos dias que nos falávamos por mensagem, eu e Verne começamos a nos tratar pelos apelidos, mas não pensei que isso fosse ficar natural a ponto de eu trocar o nome dele. O pior é que eu acabei trocando, e foi logo na frente do Oliver. Não contei para ele do piquenique, pois não queria compartilhar aquilo. Na verdade, queria que aquilo ficasse só entre mim e o Verne, e pelo visto tinha ficado até agora, se não fosse a minha boca grande.
— Você chamou o Verne de Verde. Eu ouvi, não tente me enganar.
— Não chamei, não! — disse, tentando fazer de tudo para ele esquecer aquilo e seguirmos adiante com o assunto.
— Pára, Gordon! Você chamou, sim, que eu ouvi!
— Você que está obsessivo, Oliver. Eu? Chamar o Verne de Verde? Por que eu iria fazer isso? Você que confundiu.
— Você está me escondendo alguma coisa, tenho certeza agora. Mas tudo bem. Se você não quiser me contar. Tudo bem. Você ter segredinhos com o "Verde".
— Enfim Oliver, o Verne — eu disse de forma bem lenta — está sem dinheiro, e eu pensei de vocês irem lá para casa. A gente faz sessão cinema, faz pipoca de microondas, essas coisas.
— Hum, tá, pode ser.— ele disse brincando com o Sparkle novamente e me ignorando
— O que foi, Oli?
— Nada não. — ele disse evitando me olhar. — Não, tem sim. — e me olhando continuou — Você pode estar até escondendo coisas de mim, senhor Gordon, mas pelo menos uma coisa é certa, os três encontros deram certo né, já que vocês estão tão íntimos, com apelidos e tudo o mais. Logo, eu estava certo.
— Será?
— Sim, e eu vou ganhar a aposta.
— Qual aposta?
— Ora, a que fizemos quando eu disse que o Verne iria voltar pra você, e você duvidou.
— Eu queria ser otimista igual você.
— Não é questão de ser otimista, é só você parar e observar. Quando você apostou comigo pela primeira vez você perdeu. O Verne apostou comigo e perdeu também. Logo, você irá perder a aposta também. Ele vai ficar com você.
E eu sinceramente gostaria que o Oliver me ganhasse dessa vez.
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Estávamos na minha casa, sentados no chão do meu quarto falando nomes de filmes que pareciam ser legais. Nunca conseguíamos escolher um que agradasse a todos, principalmente a Oliver. Ele parecia meio aéreo, não prestava muita atenção no que a gente falava e reclamava de todos os filmes sugeridos.
Eu tentava não prestar atenção nas reclamações dele olhando pela antiga "janela quebrada", que já tinha me causado alguns problemas. Meu pai nem ficou muito bravo, só disse que eu ia precisar ter cuidado com ladões e coisas do tipo. Cobrimos um pedaço com fita adesiva e ficou tudo bem. Mas minha madrasta não ficou muito feliz, disse que iríamos precisar trocar o vidro e iria gastar muito dinheiro. Colocou a culpa em mim como sempre.
Mas o fato da janela ter saído de graça, já que foi o Verne quem pagou, fez ela calar a boca e ficar só com a cara de bunda de sempre.
Oliver continuava no seu mundinho, e eu percebia que o Verne olhava de relance para ele, talvez por achar estranho ele estar usando um casaco cinza cheio cabeças de unicórnios estampados.
— E aí? Acharam mais algum filme?
Olhávamos pelos nossos celulares mesmo, procurando na internet os últimos lançamentos.
— Bom, a gente pode ver "A Escolha". O que você acha, Oliver? — Verne perguntou se virando para o Oli — Ele conta a história de ....
— Por que você tá me recomendado esse filme? — ele disse, desconfiado.
— Sei lá, porque eu pensei que você fosse gostar porque estreiou agora e...
— São os unicórnios, não é? Só porque eu estou usando uma casaco cheio de unicórnios não quer dizer nada! Por que todo mundo tem tanto preconceito com unicórnios!? Eu não posso gostar de unicórnios? Qual o problema de vestir um casaco de unicórnios!? — Oliver disse, gritando com o Verne.
Aquilo não era sacanagem, e dessa vez ele estava falando sério. Eu só não entendi o por quê dele fazer isso com o Verne, que só perguntou uma coisa simples.
Verde me olhou com uma cara sem graça, como quem diz "o que foi que eu falei de errado?", e olhou de novo pro Oliver, tentando dizer algo mas sem conseguir muito bem.
— Er... Oliver, eu não estava dizendo isso. Eu só perguntei porque foi o primeiro filme que apareceu e eu pensei...
— Oliver, tá tudo bem? — eu perguntei finalmente.
Ele estava com a cabeça meio baixa, tentando evitar nosso olhar, e provavelmente evitar que víssemos que ele estava prestes a chorar.
— Er... Desculpa, Verne, é que eu estou meio... Não é nada, eu só estou...
Ele não terminou a frase pois sua voz, que já estava meio trêmula, sumiu e de repente um Oliver frágil estava soluçando e chorando perto da gente.
— Ei, cara, o que foi? — disse o Verne aproximando dele, ao mesmo tempo em que eu fazia o mesmo.
— Oliver — eu disse, enquanto passava um braço pelas costas dele puxando-o para perto de mim.
Eu costumava fazer isso com a Leslie quando ela tinha pesadelos e era algo que sempre funcionava.
— Desculpa, gente. É que eu descobri a quatro dias que o Sparkle pode morrer a qualquer momento. Nós demos remédio mas ele não está melhorando e eu não sei o que fazer — ele disse olhando pra mim, e as lágrimas começaram a escorrer de novo.
— O que é Sparkle? — Verne perguntou.
— É o cachorrinho dele.
— É. Eu o ganhei só tem dois meses e ele vai morrer! Isso não é justo!
— Mas, Oliver, o que é que ele tem mesmo?
— Ele tá com otite, e os filhotes ficam piores do que os cachorros normais, porque eles ficam com a imunidade muito baixa, então ele pode pegar um outra doença pior e morrer a qualquer momento.
— Ah! Eu tive um cachorro uma vez e ele teve essa mesma doença! Ele estava com otite, a imunidade abaixou, a gente deu remédio pra ele e tudo o mais também. — Verne disse.
— Sério!? E ele viveu? — Oliver perguntou empolgado
— Não.
Fez-se um silêncio constrangedor por pouquíssimos segundos até o Verne perceber a merda que tinha acabado de falar.
— Não, assim, meu cachorro já era velho! É mais difícil de resistir entendeu? O seu é novinho...
— Exatamente por ele ser novinho que as chances são mínimas! — Oliver gritou — Ah, desculpa Verne, é que, eu sei que você tá tentando me consolar, eu só estou um pouco nervoso. Desculpa eu descontar em você. E em você também, Gordon
— Que isso. — eu disse apertando ele um pouquinho.
Oliver fungou, e passou o casaco no nariz que acabou ficando mais vermelho.
— Estou parecendo um bobo aqui, chorando que nem uma criança. — ele disse, rindo de maneira sem graça.
— Não acho, não. — Verne disse olhando para ele. — Você só está com medo de perder algo que você ama e está demostrando isso. Quantas vezes perdemos coisas tão importantes para nós, muitas vezes insignificantes para outros, e guardamos aquilo conosco? Você é verdadeiro, Oliver. Você mostra o que sente sempre, e tem coragem para mostrar. Eu admiro isso em você.
— Poxa, Verne ... Obrigada.
Eles sorriram entre si, e eu não precisava que o Verne me olhasse pra saber o significado daquelas palavras.
— Bom, eu vou embora gente. — Oliver falou
— Vai? — eu disse me virando para ele.
— Sim. Não estou com cabeça pra assistir filmes. Estou preocupado com o Sparkle e se acontecer alguma coisa, eu quero ter aproveitado bastante com ele.
— Entendo. — eu disse
— Minha mãe já está chegando. Eu mandei uma mensagem. Então, tchau, Verne.
— Tchau Oliver. E seu cachorro vai ficar bem.
— Assim espero.
— Eu te levo até a porta. — eu disse, me levantando.
Verne ficou no meu quarto, enquanto eu acompanhava o Oliver até a sala de casa.
Abri a porta, mas a mãe dele ainda não tinha chegado, então ficamos conversando encostados no portal da porta.
— Olha, eu poderia dizer que o Verne tinha tirado aquelas palavras de algum livro, mas como ele é um cara que não lê, eu tenho que admitir que aquilo foi dele mesmo. — Oliver falou, fungando mais uma vez.
— É. Aquilo foi algo que eu jamais esperaria dele.
— Acho que alguém está mudando — disse Oli, me cutucando com um sorriso no rosto.
— Você já falou isso antes, mas eu não acredito.
— Por quê?
— As pessoas não mudam de uma hora para a outra, Oliver.
— Sim, mas ela pode mudar aos poucos por quem ela ama.
— Aff!
— Ah, fala sério, vocês são um casal lindo.
Um carro buzinou e eu vi que era a mãe dele.
— Não somos um casal, Oliver! — eu disse enquanto ele se afastava, indo em direção ao carro.
— E falta muito para ser? — ele disse virando para mim e piscando.
Depois de acenar para a mãe dele, entrei em casa novamente.
— Oi — eu disse, chegando no quarto.
— Ah, oi. — Verne me respondeu enquanto olhava para o telefone. — eu estava vendo e tem esse filme de terror que eu queria ver. Dizem que é muito legal e...
— Ah, então a gente vai ver o filme hj mesmo?
— Hã? Sim, por que não? Você quer que eu vá embora ou...
— Não! Não é isso! É que, como o Oliver foi embora, sei lá ... Pensei que você fosse querer ir, ou deixar pra ver o filme outro dia. Mas acho que podemos ver hoje um filme e depois vemos outro com ele.
— É. Mas, se você quiser, podemos ver depois — Verne disse.
— Não! Vamos ver hoje mesmo. Enfim, você disse que tem um filme legal, qual?
— Ah, é um de terror que saiu recentemente. Dizem que é muito foda!
— Terror, Verne?
— É! Por quê?
— Ah, sei lá, não estava com vontade de ver um filme de terror.
— Ah, tá, tudo bem. — Verne disse e depois levantou a cabeça e me olhou desconfiado — Você não quer ver porque não está com vontade ou porque está com medinho?
— Eu não estou com medo.
— Aham, sei.
— É sério! Eu só não queria ver um filme de terror hoje.
— Tá bem, Gordon, pode admitir que você não quer ver porque está com medo, eu não vou te sacanear.
— Cacete! Eu não estou com medo.
— Aham, sei.
— É sério. Eu não sinto medo em filme de terror.
— Tá. — disse Verne me ignorando.
— Vamos ver esse filme mesmo.
— Não, Gordon, você está com medo.
— Vamos ver o filme.
— Bom, já que você insiste. Mas, olha, se ficar com medo, a gente pode tirar o filme a qualquer momento, tá?
Esse menino me irritava, mas eu não conseguia ficar com raiva dele por muito tempo.
Acabamos assistindo o filme. Fizemos pipoca, e o Verne pegou um saco de pipoca de bacon da Less. Ele não tinha esquecido daquilo, pelo visto. Apagamos a luz e ficamos sentados na minha cama assistindo o inferno do filme.
Eu de fato não queria ver filme de terror, por que eu não estava no "clima" de ver filme de terror. Eu queria ver sei lá, uma aventura, uma ação ou uma comédia romântica (o que era óbvio que o Verne não iria assistir), qualquer coisa menos um filme de terror.
Mas o filme acabou e eu não ouvi o Verne se manifestar nenhuma vez. Das duas uma: ou ele de fato não se assustou ou estava morrendo de medo, o que eu achava que era mais provável.
As letrinhas começaram a subir e eu levantei no escuro para ir acender a luz.
Eu tinha sentando no lado oposto da cama, então eu teria q dar a volta nela pra chegar ao interruptor.
Só que, como estava muito escuro, acabei tropeçando no pé da cama e caindo no chão, o que, obviamente, acabou fazendo um barulho enorme, já que eu não sou nem um pouco leve.
— Gordon... — Verne disse a primeira coisa depois das 2 horas de filme.
Eu ia responder quando ele chamou meu nome de novo, e eu pude perceber que a voz dele estava meio trêmula. Pelo visto alguém não estava tão corajoso, não é mesmo?
Eu sabia que eu não devia, mas foi algo mais forte do que eu.
Peguei meu celular que estava no meu bolso e fui engatinhando em direção o interruptor sem fazer nenhum barulho.
O Verne estava sentado lá perto, então eu esperei mais um pouco, o suficiente pra ele dizer "Gordon" mais uma vez, com a voz mais trêmula e então ...
— MUAHAHAHAHAHAHAH — eu disse enquanto acendia a luz do telefone na minha cara e me levantava.
O Verne literalmente pulou na cama enquanto gritava com uma voz esganiçada bem parecida com a do Oliver quando forçava.
Acendi a luz enquanto caia no chão de tanto rir da cara e do grito do Verne.
Ficamos assim por alguns minutos. Eu me mijando de rir e ele todo ofegante com a mão no peito.
— Seu... filho... da... puta! — ele disse finalmente e tacou um travesseiro em mim com força.
— Aí. Hahahahaha — eu disse ainda rindo e fazendo com com ele jogasse mais travesseiros em cima de mim.
— Porra, Gordon! Quer me matar!?
— Ué? Por que eu iria querer te matar? Não era eu quem estava com medo do filme? — eu disse, me levantando e sentando na cama novamente, de frente para ele.
— Você é cruel.
— Desculpa, Verne, mas eu não consegui me conter. Quando você falou "Gordon"— eu disse tentando imitar a mesma voz que ele tinha feito.— eu tive essa ideia e não consegui me segurar. Sério.
— Eu não estava com medo, tá! Eu só estava preocupado com você! Mas pelo visto eu não deveria, já que você caiu propositalmente.
— Não, eu cai mesmo, eu tropecei na cama. Mas você não tem como mentir mais, Verne, depois daquele gritinho. — eu disse rindo de novo.
— Eu não acredito que você fez isso.
— Você mereceu, né!
— Tá! Tudo bem! Eu estava com medo, sim! Aquele filme é tenso, porra! Fiquei com medo, sim. Agora você dizer que não ficou, aí é mentira. Pode admitir também.
— Mas eu não fiquei com medo. Eu nunca fico com medo em filme de terror.
— Ah! Que isso!
— É sério! Eu acho que eu fico pensando tanto que o filme vai me assustar que eu acabo não me assustando. E eu acho eles muito previsíveis também. Previsíveis e as histórias bem bobas, idiotas. Não me convencem.
— Mas você disse que não queria assistir.
— Sim, porque eu acho chato e entediante, mas como você insistiu.
— Ah, tá. Não sabia.
— Pois é.
— Bom, agora, sobre o grito, a gente pode deixar isso entre nós?
Eu ri de novo, e concordei.
— Aham. Mas eu não vou esquecer aquilo tão cedo. Nem foi um susto tão grande.
— Não foi? Porra! Meu coração tá acelerado até agora.
— Ah, para de exagerar.
— Não, sério! Olha só.
Dizendo isso Verne pegou a minha mão com as suas e colocou sobre seu peito.
Ele olhou para mim com um sorriso, que logo se desfez ao perceber a situação que nós nos encontrávamos. E seu coração, que de fato já estava acelerado, acabou acelerando mais.
Eu não tinha como tirar minha mão de cima de seu peito, então ele não tinha como esconder que ele sentiu algo com aquilo tudo. Pelo menos ele não sabia que minha situação cardíaca não estava tão diferente.
— Er... — ele disse, e tirou as mãos de cima da minha, enquanto olhava para qualquer lugar no me quarto que não fosse a minha cara. — Eu acho que eu já vou embora.
— Ah, já? — eu disse tentando soar normal e não como uma pessoa que estava emocionalmente mexida com aquilo tudo.
— É... Sim. Meus pais querem sair comigo hoje e eles me pediram para eu não chegar tão tarde em casa.
— Entendi.
— É — ele disse voltando a olhar pra mim. — Então .... Tá.
— Tá. Eu te levo até a porta.
— Tá.
Atravessamos o corredor e a sala sem nos falarmos. Até que, quando eu cheguei na porta, Verne disse algo.
— Bom, eu acho que eu mereço me vingar do que aconteceu né, já que foi muito cruel da sua parte me assustar, não é mesmo ? — ele disse, um pouco mais descontraído.
— Foi?
— Sim. E eu que vou escolher o próximo filme.
— Mas foi você quem escolheu esse.
— Tá, mas eu vou escolher o próximo mesmo assim! Um certo passarinho de penugens azuis me contou que certas pessoas ficam muito emotivas com dramas.
— Eu não acredito que ela te contou! — eu disse indignado.
Eu também não acreditava que ele conversava com a Leslie e muito menos que eles conversavam sobre mim, mas eu fiquei na minha.
— Não sei de nada. Só sei que eu te ligo ou mando uma mensagem pra gente marcar um dia pra assistir um drama.
— Vai mesmo fazer isso?
— Óbvio. — ele disse me dando tchau e indo em direção ao carro.
E quando ele estava chegando perto ele se virou pela última vez
— Tchau, Gordo!
— Tchau, Verde! — gritei de volta enquanto meus lábios se abriam em um sorriso involuntário.
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Meu telefone vibrava no meu bolso, e eu o tirei para ver se era alguma mensagem e de quem era.
— Gordon! Por favor, guarde esse telefone! — a professora falou.
Estava na escola, numa segunda de manhã, e eu sabia que não podia mexer no telefone no meio da aula, então guardei o telefone.
Pelo menos, eu tinha visto de quem era a mensagem.
Era um desses sms dizendo que você ganhou um prêmio, quando na verdade você não ganhou nada.
Tecnicamente, dessa vez a mensagem não estava tão errada.
Eu não tinha ganhado um prêmio, mas eu tinha ganhado outra coisa recentemente. E ao contrário das outras pessoas, que ficam super felizes quando ganham uma aposta, eu não estava nem um pouco.
Já faziam quatro semanas que o Oliver tinha ido lá em casa para assistirmos a um filme e ele acabou indo embora por estar preocupado com o Sparkle, que eu tinha assustando o Verne e ele tinha me dito que iria se vingar, que iria mandar uma mensagem marcando de assistirmos a um drama juntos e que demos tchau um para o outro.
Bom, já fazia um mês que o Verne tinha sumido da minha vida.
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