Verde é a cor mais quente
1 Capítulo 1: Elizabeth
Estava no final de novembro de 2015 quando minha vida virou de cabeça para baixo. Tinha sido mais um dia chato, com um monte de provas chatas, mas pelo menos eu já estava acabando o ensino médio e logo poderia ir para a faculdade, de preferência em outro estado, bem longe do meu padrasto escroto. Eu realmente acreditava que bastava ficar longe dele que os meus problemas seriam resolvidos, mas por muito tempo ele seria a razão dos meus pesadelos.
A escola que eu estudava não era muito longe de casa, mas eu sempre voltava pelo caminho mais longo para aproveitar ao máximo o pouco tempo de paz que eu tinha longe do meu padrasto e também para acompanhar minha amiga, a Victória, até a casa dela, mas nesse dia específico a Vic tinha passado mal e saiu da escola mais cedo, então eu estava voltando sozinha para casa.
Antes de sair da escola eu coloquei meus fones e me distrai com a música, me distrai tanto que não percebi que estava sendo seguida desde a saída da escola. Só notei isso quando os dois homens me empurraram para uma rua sem saída. Nessa hora já era tarde demais para conseguir ajuda, mas eu não sabia disso.
— Oi vadia – disse uma voz conhecida atrás de mim. Era meu padrasto.
— O que você está fazendo aqui? – Perguntei.
— Segurem ela – ele disse para os dois homens que me empurraram.
Cada homem segurou em um braço meu, enquanto meu padrasto rasgava meu uniforme. Eu gritei e berrei por ajuda. Eu implorei para ele parar. Tentei me soltar, mas os homens eram mais fortes do que eu. Eu só queria que alguém me ajudasse. Ninguém ajudou. Era meio dia e meio e ninguém me ouviu implorar por ajuda. Eu berrei e implorei até não aguentar mais, até desmaiar.
Não sei quanto tempo fiquei naquela rua sem saída. Quando acordei eu estava no hospital e já era de noite. Minha mãe estava no quarto esperando eu acordar. Por um breve momento eu achei que ela veria o monstro que meu padrasto era, mas ela disse que a culpa pelo que aconteceu era toda minha por que eu ficava me oferecendo para o marido dela e que eu mereci ter passado por isso, já que eu era uma puta que se oferecia para qualquer homem. Doeu muito ouvir essas coisas dela, até por que eu só queria me sentir segura, me livrar da sensação de imundície que estava na minha pele desde que ele me tocou, me sentir limpa de novo. Eu queria paz e apoio
A única pessoa que realmente acreditou em mim e me apoiou em tudo foi o meu pai. Depois do que aconteceu ele conseguiu ficar totalmente com a minha guarda e fui morar com ele no apartamento que ele tinha no centro da cidade. Eu estava apavorada em pensar que ficaria sozinha com um homem, mesmo sendo meu pai, mas eu não tinha para onde ir. O apartamento não era grande, mas meu pai garantiu que eu tivesse todo o conforto do mundo no meu quarto. Finalmente eu tinha um espaço apropriado para estudar, onde eu podia colocar os meus livros e onde ele não entrava sem que eu o chamasse, mesmo para levar as minhas coisas até o quarto ele deixava as caixas na porta para que eu organizasse do meu jeito.
Meu padrasto e os dois cumplices dele foram condenados e estão cumprindo pena pelo que me fizeram. Eu só consegui reagir mesmo depois que saiu a condenação deles, só que isso levou um ano e meio. Nesse meio tempo eu desenvolvi depressão e não conseguia sair do quarto para nada, com isso meus planos para a faculdade e a vida além dela foram por agua abaixo. Quando finalmente tive a certeza de que eles estavam definitivamente longe de mim e que não me fariam mais nada de mal eu reagi contra as coisas ruins que eu tinha desenvolvido pelo que aconteceu. Eu comecei a trabalhar e meu antigo sonho de fazer faculdade voltou, tanto que aqui estou, me arrumando para o primeiro dia de aula na faculdade de direito, quase quatro anos depois de tudo o que aconteceu.
Quando fui tomar café da manhã percebi que meu pai estava cheio de orgulho. Ele comprou as minhas rosquinhas preferidas e fez um café bem forte, antes de dizer que me daria uma carona até a faculdade antes de ir para o trabalho. Na verdade, ele insistiu em me levar até a faculdade, mesmo sabendo que isso o atrasaria para o trabalho, por causa do transito, mas ele disse que queria que meu primeiro dia na faculdade fosse perfeito. Ao chegar na faculdade, antes que eu saísse do carro meu pai me fez prometer que eu ligaria para ele assim que chegasse em casa, só para que ele soubesse que eu cheguei bem. Eu prometi e fui procurar a minha sala.
Eu cheguei bem cedo para aula por que queria garantir um bom lugar, que não fosse nem muito na frente e nem muito no fundo da sala. Acabei sentando no meio da sala e perto da parede, bem perto de onde tinha uma tomada, assim eu poderia carregar meu celular.
Na primeira semana teve a apresentação dos professores e eles explicaram como era o sistema de avaliação da faculdade. Alguns professores não deram matéria, mas outros já começaram a matéria, inclusive passando trabalhos para fazer. Claro que todos os trabalhos eram em grupo e eu detesto fazer trabalho em grupo. Formei grupo com uma garota chamada Valquíria e com um rapaz chamado Cris.
— Finalmente sexta-feira – disse Valquíria.
— Não vejo a hora de conhecer nosso professor de Civil. – disse Cris.
— Espero que não seja o cego. Os veteranos dizem que ele é chato na hora de corrigir as provas – eu falei para o Cris.
— Bom nossa primeira aula de hoje é de civil, então logo vamos conhece-lo – disse Valquíria.
Assim que a Valquíria terminou de falar o professor entrou na sala e puta merda ele era o professor mais bonito que eu já tive em toda a minha vida. Ele devia ter cerca de 1,90 de altura, tinha a pele bem clara e cabelos castanhos claros. O cabelo dele estava um pouco grande se comparado com os demais professores e formavam cachos grandes. Ele tinha a barba por fazer e usava um terno todo preto, mas o que mais chamavam a atenção eram seus olhos azuis atenciosos que estavam por trás dos óculos de armação preta que ele usava.
— Bom dia. – ele disse.
— Bom dia – a sala respondeu em coro.
— Eu sou o professor Tom e neste semestre vamos estudar a parte geral do Direito Civil. O cronograma completo do semestre vocês vão encontrar no portal do aluno, mas vamos estudar basicamente quem pode ser sujeito de direito e quem é objeto de direito, o domicilio, os bens e suas classificações, os fatos jurídicos, os elementos modificadores dos negócios jurídicos, os defeitos dos negócios jurídicos e a invalidade do negócio jurídico, entre outros assuntos – ele disse, se apresentando.
— Elizabeth – Valquíria me chamou, enquanto o professor explicava o que era o direito civil e suas áreas.
— Que foi? – Perguntei.
— Ele é lindo – Ela disse.
— É mesmo – concordei.
O professor começou a nos explicar as raízes históricas do Direito Civil e a sua importância no Direito brasileiro, mas eu e a Valquíria não prestamos atenção porque estávamos compartilhando nossas observações e primeiras impressões sobre o professor. Ela reparou que, apesar de ser magro ele tinha o corpo definido e não sei como ela conseguiu observar isso com Tom usando terno. Disse para ela que aquele terno devia custar uma fortuna e que era feito sob medida.
— Desde quando você entende de ternos? – Valquíria me perguntou baixinho.
— Meu pai é alfaiate e ele me ensinou muita coisa sobre a profissão dele – respondi sussurrando.
— Você percebeu que ele tem um bunda que deve ser uma delicia de apertar? – Valquíria me questionou, sussurrando.
— As senhoritas querem café e biscoitos para poderem conversar mais a vontade? – perguntou o professor olhando para nós.
— Um cafezinho seria ótimo, já que sua aula está dando sono de tão chata que está – Respondi ironizando a pergunta que ele fez. A sala começou a murmurar concordando que a aula estava realmente chata e alguns comentava que era injusto o professor pegar no nosso pé, já que não éramos as únicas que estávamos conversando durante a aula.
Valquíria me olhou como se eu estivesse ficando louca para responder dessa forma para um professor, mas percebi que o professor ficou sem reação por um tempo quando percebeu que a maioria da sala estava entediada com a aula e isso me levou a pensar que talvez fossemos a primeira turma em que ele estivesse dando aulas e que ele ainda não tinha descoberto um meio de manter a atenção dos alunos na explicação que ele passava e não em coisas paralelas, como conversas e joguinhos de celular.
— Creio que se o senhor nos trouxesse uma garrafa de café, daquelas que tem na sala dos professores e nos falasse um pouco mais sobre as profissões que podemos seguir depois da faculdade a sua primeira aula seria bem mais legal, já que nenhum outro professor nos disse nada sobre as profissões relacionadas ao Direito e muito menos como essas profissões se relacionam com a matéria que eles estão lecionando – falei, tentando tirar o professor da saia justa em que eu o coloquei.
— Bom, não vai rolar café, mas se vocês querem saber sobre o que fazer depois da faculdade, saibam que tudo começa pelo advogado, que é uma das partes mais importantes no processo, uma vez que é o responsável por ouvir o que o cliente fala, explicar ao cliente o que a lei diz a respeito, o que deve ser feito e as consequências de se fazer algumas coisas, que serão faladas ao longo do curso, além de representar o cliente perante o juízo. – ele disse e foi explicando cada uma das profissões ligadas ao Direito.
Percebi que a sala prestou muito mais atenção ao que o professor estava falando depois que ele começou a explicar as profissões do que estavam prestando antes disso, tanto que o restante da aula passou voando.
— Você é maluca por falar com um professor desse jeito – Valquíria me disse, enquanto arrumávamos nossas coisas para irmos embora.
— Confesse que a aula ficou mais interessante depois do que eu falei – respondi.
— Vocês duas são malucas, ficaram medindo o professor o tempo todo – retrucou Cris.
— Não é minha culpa se ele é bonito – respondeu Valquíria.
— Agradeço o elogio, senhorita – disse o professor, que estava parado bem atrás de nós.
Valquíria deu um pulo e não sabia onde enfiar a cara, eu não sabia coma agir diante daquele olhar que ele nos dirigia e Cris estava se segurando para não rir da nossa cara.
— N-n-não foi n-nada professor – gaguejou Valquíria, antes de sair correndo, com Cris logo atrás dela.
— Sua amiga é sempre tão apressada assim? – o professor me perguntou.
— Geralmente não, professor, mas, se não me engano ela tem um compromisso essa tarde – respondi, enquanto fechava minha bolsa.
— Por favor, me chame apenas de Tom – ele disse sorrindo.
Céus! Ele ficava mais bonito ainda quando sorria, mas seu sorriso era triste, como se houvesse algo que tirou toda a felicidade daquele homem tão bonito.
— Vou me lembrar disso, Tom, até a próxima aula – me despedi e fui para o ponto de ônibus, enquanto mandava uma mensagem avisando para o meu pai que estava indo para casa.
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