Verde é a cor mais quente
3 Capitulo três: Victoria
Quando soube que Elizabeth tinha sido estuprada pelo padrasto eu não tive coragem de contar para ela que naquele dia eu havia mentido sobre passar mal, só porque o padrasto dela tinha me falado que queria fazer uma surpresa para ela naquele dia e que ele iria encontra-la no meio do caminho para a casa dela. Ele se recusou a me dizer qual era a surpresa porque ele achava que eu iria contar para ela. Na verdade, se eu soubesse o que iria acontecer, eu teria contado para a polícia e para ela também, mas eu acreditei que seria algo bom, tipo ir ao cinema, e não isso.
É claro que eu nunca contei isso para Elizabeth e nem vou contar, por que foi terrível ver minha melhor amiga se afundando na depressão e desistindo de tudo o que ela tinha planejado para si mesma, mas o pior de tudo foi ver que ela não teve apoio de quase ninguém, nem mesmo da mãe dela. A mãe dela preferiu acreditar no que o padrasto dela contou, que Elizabeth vivia se insinuando e se oferecendo para ele, o que era mentira.
Agora Elizabeth mora com o pai, perto do metro Belém e bem longe do Tucuruvi, que foi onde tudo aconteceu. Depois de uns dois anos que ela se mudou eu consegui juntar dinheiro para dar entrada em um apartamento só meu. Agora moro na Mooca, que é perto da casa da Elizabeth e bem longe dos meus 10 irmãos mais velhos. É eu tenho 10 irmãos, sei que isso parece um absurdo para os padrões atuais, mas meus pais queriam ter um time de futebol na família e por isso tiveram 11 filhos. Claro que eu acabei estragando o sonho deles, já que sou uma garota e, para eles, garotas não tem que jogar futebol, nem de brincadeira.
Minha família sempre foi muito complicada de lidar e não é pelo fato de ter um monte de irmãos que falo isso, mas pelo fato de que sempre tinha alguém se metendo na minha vida e também que eu não tinha privacidade para fazer absolutamente nada e foi isso que me levou a querer sair da casa dos meus pais o mais cedo possível.
Confesso que ter um apartamento só para mim foi ótimo, mas percebi que apenas com o meu salário de vendedora de shopping eu não conseguiria pagar todas as contas que tinha para pagar, então coloquei um anuncio na internet procurando uma colega de quarto. Como tem uma faculdade a duas quadras do apartamento achei que seria fácil encontrar, mas só apareceu gente achando que era para morar de graça e eu precisava de alguém que pelo menos me ajudasse a pagar as contas do apartamento. Quando eu já estava quase desistindo de encontrar alguém apareceu na porta do apartamento um homem muito lindo de bonito, chamado Tom, que disse que estava procurando um lugar onde morar por um tempo, já que ele havia sido contratado como professor na faculdade e queria morar perto da faculdade, mas que, no momento, não tinha como comprar um imóvel na região. Fiquei com um pouco de medo de colocar um homem desconhecido dentro de casa, porra se Elizabeth foi estuprada por um homem que ela conhecia, quem sabe o que um desconhecido pode fazer conosco?
Como precaução eu pedi um documento que comprovasse que Tom realmente estava trabalhando para a faculdade e, assim que ele me deixou uma cópia do contrato de trabalho eu disse que precisava analisar as outras propostas e que o responderia no dia seguinte. Dei essa desculpa esfarrapada para ter tempo de ligar para um dos meus irmãos que trabalha na polícia, para que ele verificasse para mim se havia alguma coisa contra Tom. Como meu irmão não encontrou nada eu aceitei que Tom fosse para o quarto que eu tinha disponível no apartamento.
Tom era a mistura perfeita de um cara extremamente reservado com um perfeito cavalheiro. Todo dia quando eu acordava para ir trabalhar ele já tinha saído para o trabalho, mas não sem antes deixar o café pronto. Junto com o café ele sempre deixava pão e um doce diferente. Toda vez que vejo isso penso que a mulher que casar com esse homem vai ser a mulher mais sortuda do mundo, por que, além de casar com um homem lindo para caralho, vai ser enchida de mimos por ele. Quando eu chego do trabalho ele já fez o jantar, mas sempre me espera para comer.
Quando Tom chegou em casa na sexta ele estranhou que eu estava lá. Expliquei que estava de folga do trabalho e aproveitei para perguntar sobre o trabalho dele, que deveria ser muito mais legal e mais interessante do que o meu.
— Os alunos preferem jogar no celular e as alunas preferem falar da minha aparência do que prestar atenção no que estou falando – ele me respondeu, meio triste.
— Mas você é realmente muito bonito – falei meio sem pensar.
— Obrigado – ele disse envergonhado.
— Por que você não gosta que falem da sua aparência? – perguntei, tentando conhece-lo melhor.
— Porque quero que os alunos realmente aprendam comigo e não fiquem distraídos por que me acham bonito – ele respondeu tristemente.
Antes que eu pudesse perguntar se era apenas isso que estava deixando Tom tão triste meu celular tocou e vi que era Elizabeth me ligando. Pedi licença para Tom e fui atender no meu quarto. Depois de contar como foi minha semana no trabalho eu perguntei para ela como tinha sido a primeira semana de aulas. Ela disse que alguns professores eram muito chatos e que outros eram bem legais.
— E tem algum gatinho na faculdade? – Perguntei.
— Entre os alunos tem vários, mas nenhum é mais bonito que meu professor de civil – Ela respondeu.
Professor gato. Isso não existia no ensino médio.
— Ah é! Conte-me tudo sobre ele – pedi.
— O nome dele é Tom, ele tem uns 38 anos, mais ou menos 1,90 de altura, tem a pele bem clara e cabelos castanhos claros. O cabelo dele é um pouco grande, se for comparar com os outros professores. Ele tem a barba por fazer e olhos bem azuis. Ele usa óculos e estava com um terno todo preto, que foi feito sob medida, além de ter uma bunda que é uma delícia. – Elizabeth disse.
— Você não foi grossa e nem mal-educada com ele? – Perguntei, sabendo a resposta.
— Talvez eu tenha sido um pouco grossa, por que? – Ela me perguntou.
— Ele divide o apartamento comigo – falei para ela, já que era óbvio que ela estava falando do meu colega de quarto.
— O QUE? — ela gritou no telefone.
— É. Eu estava precisando dividir o apartamento para conseguir pagar as contas e ele veio morar aqui por um tempo – respondi. – E ele é um fofo, apesar de ser muito reservado.
— Como assim? – Ela me perguntou.
Falei para ela do café da manhã, que ele sempre fazia o jantar, mas que não era de conversar muito, embora ele estivesse chateado que as alunas reparavam mais na bunda dele do que prestavam atenção na aula.
— Ele te disse isso? – Ela perguntou.
— Não com essas palavras, mas deu pra entender – respondi.
Depois disso conversamos mais um pouco sobre outros assuntos, até que ela teve que desligar, porque o pai dela estava ligando. Eu fui aproveitar meu dia de folga para não fazer nada. Bom “fazer nada” é modo de dizer, por que sempre tenho um monte de coisas para fazer e hoje resolvi arrumar meu quarto e limpar o apartamento, já que Tom tinha ido para o quarto dele. Quando acabei de fazer tudo eu fiquei curiosa para saber o que Tom estava fazendo no quarto, já que fazia mais de quatro horas que ele não saia de lá para absolutamente nada. Bati na porta do quarto dele e pedi para entrar.
— O que você está fazendo? – Perguntei.
— Estou preparando as aulas da próxima semana – ele respondeu, mas percebi que tinha algo que o incomodava.
— Então por que você está tão incomodado? – Perguntei a ele.
— É que não sei como tornar a aula mais atrativa para os alunos – ele respondeu parecendo cansado.
— Talvez eu possa te ajudar com isso – falei, mas antes que ele pudesse responder o interfone tocou e fui atender. Era a Elizabeth pedindo para subir. Quando abri a porta percebi que ela estava com uma cara horrível e que parecia prestes a chorar.
— O que aconteceu? – Perguntei.
— Minha mãe foi lá em casa hoje – ela respondeu.
— Ela resolveu te visitar depois de todo esse tempo. O que ela queria? – Perguntei, pois estava surpresa com isso, afinal Elizabeth e a mãe não se falavam desde que o padrasto dela foi preso.
— Ela tá com câncer e acha que vai morrer, então ela foi conversar comigo – ela me respondeu olhando para o nada.
— Como foi a conversa? – Perguntei, enquanto me sentava na cadeira da cozinha.
— A gente acabou discutindo – ela me respondeu e me contou toda a conversa.
Fale com o autor