Verde, Vermelho e Branco - Jegulus
1 O Torneio de Gelo e Fogo
Notas iniciais
O Torneio de Gelo e Fogo
Hogwarts. Dezembro de 1972.
O inverno desceu sobre a Escócia como um veredito. O lago congelou em uma placa de ônix impenetrável, e as janelas do castelo amanheciam cobertas por arabescos de geada que pareciam runas antigas. Para a maioria dos alunos, o Natal significava voltar para casa, para lareiras familiares e presentes empilhados. Mas para alguns, Hogwarts era o único refúgio — ou, no caso de Regulus Black, o único lugar onde o silêncio não era um julgamento.
Regulus, no auge de seus onze anos e recém-classificado na Sonserina, decidira ficar. A carta que enviara à mãe dizia que precisava "acessar a Seção Reservada para estudos avançados". A verdade, porém, era que ele não suportava a ideia de passar o feriado em Grimmauld Place ouvindo os gritos de Walburga sobre a "traição" de Sirius ter ido para a Grifinória.
O problema era que Sirius também ficara.
Na manhã da véspera de Natal, o Salão Principal estava irreconhecível. As quatro mesas das casas haviam sido substituídas por uma arena de obstáculos flutuantes, árvores de Natal que cantavam músicas obscenas se você chegasse muito perto e uma neve mágica que caía do teto encantado, mas desaparecia antes de tocar o chão.
— Bom dia, estudantes ilhados! — A voz do Professor Flitwick ecoou magicamente amplificada. Ele estava em cima de uma pilha de livros de feitiços, parecendo um elfo natalino particularmente entusiasmado. — Como o Diretor Dumbledore adora manter o espírito de união, e como temos um número recorde de alunos este ano... bem-vindos à Primeira Gincana do Solstício de Inverno!
Houve aplausos dispersos. Sirius, sentado na mesa da Grifinória com os pés para cima, assobiou alto. Ao lado dele, James Potter tentava transformar seu garfo em um avião de papel, enquanto Remus Lupin lia um livro, ignorando o caos.
Regulus, sentado sozinho na ponta da mesa da Sonserina, apenas observou. Ele odiava gincanas. Gincanas exigiam barulho, cooperação e, pior, exposição.
— As regras são simples! — guinchou Flitwick. — Sortearemos duplas. As duplas devem completar cinco Desafios Natalinos espalhados pelo castelo. A dupla vencedora ganha isenção de deveres de casa por uma semana e uma caixa de Feijõezinhos de Todos os Sabores... edição gourmet.
— Isenção de deveres! — James gritou, finalmente interessado. — Almofadinhas, é a nossa chance de nunca mais escrevermos sobre a Guerra dos Duendes.
Flitwick agitou a varinha, e um Cálice de Madeira rústico apareceu no centro do salão, cuspindo chamas azuis.
— O Cálice escolherá as duplas para garantir a... interação entre casas.
Um murmúrio de protesto varreu o salão.
— Primeira dupla: Remus Lupin e... — Um pergaminho voou. — Sirius Black!
Sirius socou o ar, vitorioso, e abraçou Remus, que parecia resignado, mas secretamente aliviado.
— Sinto muito, Pontas — Sirius riu. — Parece que a inteligência ficou comigo desta vez.
— Segunda dupla — Flitwick continuou, e outro papel voou. — James Potter e...
O papelzinho pairou no ar, fazendo um suspense dramático, antes de voar direto para a mesa da Sonserina e pousar no prato de mingau intocado de Regulus.
— ...Regulus Black.
O Salão ficou em silêncio. Sirius parou de rir. James olhou para a mesa da Sonserina. Regulus sentiu o sangue drenar do rosto. De todos os alunos da escola. De todas as possibilidades. Ele tinha que fazer dupla com o melhor amigo do seu irmão, o "traidor do sangue" honorário, o grifinório que personificava tudo o que Regulus não era.
Sirius gritou do outro lado do salão:
— Boa sorte, Pontas! Tente não dormir de tédio! O Regulus é divertido como uma porta de biblioteca!
Alguns alunos riram. Regulus encolheu os ombros, desejando desaparecer dentro das vestes. Ele começou a se levantar para dizer que desistia, que preferia ir para a masmorra estudar poções, quando uma sombra cobriu sua mesa.
James Potter estava lá. Ele não parecia chateado. Pelo contrário, havia um brilho competitivo maníaco em seus olhos castanhos por trás dos óculos.
— E aí, Mini-Black — James disse, estendendo a mão para puxar Regulus da cadeira. — Ignore seu irmão. Ele só está com inveja porque eu sou o cérebro da operação. Vamos ganhar essa coisa?
Regulus olhou para a mão estendida. Ele podia recusar. Podia ser o Sonserino frio que seus pais queriam. Mas o calor que emanava de James era estranhamente convidativo.
— Eu não sei voar como você — Regulus murmurou, aceitando a mão.
— E eu não sei nada sobre as Artes das Trevas ou etiqueta de jantares chatos, que eu presumo que você saiba — James piscou. — Vamos. O primeiro desafio é na Torre do Relógio.
A Balada dos Sapos
O pátio da Torre do Relógio estava congelante. Cinco sapos gigantes, vestindo minúsculos cachecóis de lã, estavam sentados em pedestais de pedra.
— O desafio é simples — disse a Professora McGonagall, que supervisionava esta etapa. — Façam o "Coro dos Anfíbios" coaxar a melodia de God Rest Ye Merry Gentlemen. Sem magia direta nos sapos. Vocês devem usar encantos de regência e persuasão.
Sirius e Remus estavam na frente deles.
— VAMOS LÁ, SAPOS! CANTEM! — Sirius gritava, agitando a varinha como um maestro louco. Os sapos apenas o olhavam com desprezo e inflavam o papo. Remus tentava usar um feitiço de alegria, mas os sapos apenas soltavam arrotos rítmicos.
James olhou para Regulus.
— Eu sou péssimo com animais que não sejam corujas. Alguma ideia?
Regulus observou os sapos. Ele notou que cada um tinha uma cor levemente diferente nas manchas das costas.
— Não é aleatório — Regulus disse, a voz baixa. — As manchas. Correspondem às notas musicais. Minha mãe me obrigou a ter aulas de piano desde os quatro anos. Aquele ali, o verruga-azul, é um Dó. O vermelho é um Mi.
James arregalou os olhos.
— Você está falando sério?
— Sim. Precisamos apenas estimulá-los na ordem certa. O feitiço Titillando na barriga deve funcionar para fazê-los soltar o som.
— Brilhante — James sorriu. — Você aponta, eu faço cócegas.
Regulus assumiu a liderança. Com uma precisão cirúrgica, ele indicava: "Agora o azul. Agora o verde. Duas vezes o vermelho". James lançava os feitiços com reflexos de apanhador.
Em segundos, uma melodia rouca, mas perfeitamente afinada, preencheu o pátio. McGonagall, raramente impressionada, bateu palmas.
— Dez pontos para a Grifinória... e para a Sonserina. Vocês passaram.
Sirius, cujos sapos agora estavam tentando comer a varinha dele, olhou de boca aberta.
— Como vocês fizeram isso?
— Talento natural, Almofadinhas — James gritou, passando o braço pelos ombros de Regulus e o arrastando para o próximo desafio. Regulus ficou rígido com o contato, mas não se afastou. O braço de James era quente.
✦•······················•✦•······················•✦
O caminho entre a Torre do Relógio e o Saguão de Entrada exigia atravessar três corredores de pedra, uma escadaria que gostava de mudar de direção nas terças-feiras e a Galeria das Armaduras. Normalmente, Regulus fazia esse trajeto como um fantasma: silencioso, rente às paredes, invisível.
Mas andar com James Potter era como caminhar ao lado de um desfile de carnaval de um homem só.
James não andava; ele ocupava espaço. Ele saltava degraus de dois em dois, cumprimentava retratos (que acordavam assustados e resmungavam) e girava a varinha entre os dedos num tique nervoso constante.
— Sabe, eu nunca imaginei que a "Nobre e Antiga Casa dos Black" incluísse aulas de regência de sapos no currículo — James comentou, quebrando o silêncio confortável que Regulus tentava manter. A voz dele ecoou na galeria vazia, ricocheteando nos elmos de metal.
— Minha mãe diz que um cavalheiro deve apreciar todas as formas de arte — Regulus respondeu, olhando para frente, segurando seus livros contra o peito como um escudo. — O piano é para a disciplina. A teoria musical é para a matemática. Saber controlar anfíbios mágicos foi... improviso.
James riu, um som solto que fez uma armadura próxima chiar. — Sirius odeia piano. Ele diz que parece que os dedos dele estão presos em uma gaiola de marfim. Ele tentou enfeitiçar o piano de cauda uma vez para tocar The Hobgoblins sozinho. Aparentemente, Walburga não gostou do rock gnomo na sala de estar.
Regulus sentiu o familiar aperto no estômago ao ouvir o nome do irmão. Era sempre assim. Sirius era o protagonista de todas as histórias, mesmo quando não estava presente. — Sirius não tem paciência — Regulus disse, um pouco mais ríspido do que pretendia. — Ele acha que se não conseguir dominar algo em cinco minutos, a coisa não vale a pena. O piano exige... persistência.
James parou subitamente no meio do corredor. Regulus deu mais dois passos antes de perceber e se virar. James o observava com uma expressão curiosa, a cabeça levemente inclinada, os óculos escorregando pelo nariz.
— Você não é nada parecido com ele, é? — James perguntou. Não era uma crítica. Era uma constatação científica, como quem descobre uma nova espécie de planta.
— Somos gêmeos opostos, se é isso que quer dizer — Regulus se defendeu, erguendo o queixo. — Ele é Grifinória. Eu sou Sonserina. Ele é barulho. Eu sou silêncio. Ele é o herdeiro que fugiu, e eu sou o que ficou para limpar a bagunça.
— Ei — James levantou as mãos, defensivo. — Eu não disse que era ruim. Só diferente. Sirius é... intenso. Às vezes ele queima tudo ao redor só para ver a luz. Você parece alguém que prefere manter a vela acesa pelo maior tempo possível.
Regulus piscou, pego desprevenido pela metáfora. Ninguém nunca descrevia sua retração como algo positivo. Geralmente o chamavam de "frio", "snobe" ou "sombra do irmão".
— Por que você ficou? — James perguntou, voltando a andar, mas agora num passo mais lento, sincronizado com o de Regulus. — No Natal. Sirius ficou porque... bem, você sabe como estão as coisas em casa. Mas você é o garoto de ouro. Sua mãe deve ter mandado corujas berradoras exigindo sua presença para o banquete da família.
Regulus olhou para as pedras do chão. — Eu disse a eles que precisava estudar. Mas a verdade é que... a casa fica muito grande quando Sirius não está lá para gritar. O silêncio lá não é pacífico, Potter. É pesado. É como se as paredes estivessem prendendo a respiração esperando alguém cometer um erro.
Ele parou, horrorizado consigo mesmo. Por que estava contando isso a James Potter? Ele era o inimigo. Ele contaria tudo a Sirius, e eles ririam da "tristeza do pequeno Reggie".
Mas James não riu. O rosto dele, geralmente iluminado por travessuras, estava sério. — A minha casa é barulhenta — James disse suavemente. — Meu pai derruba poções no laboratório e xinga em latim. Minha mãe coloca discos de Celestina Warbeck no volume máximo. Mas... ninguém tem medo de errar lá.
James olhou profundamente para Regulus. — Se ficar muito "pesado" em Grimmauld Place... você sabe que Hogwarts não é o único refúgio, certo? Sirius tem uma chave extra lá de casa. Mas acho que cabem dois Black, se a gente apertar um pouco.
Regulus sentiu o coração falhar. O convite era absurdo. Impossível. Traidor. Mas a gentileza com que foi feito, sem pena, apenas com uma generosidade casual, desarmou todas as defesas que Regulus passou onze anos construindo.
— Vamos logo, Potter — Regulus murmurou, apressando o passo para esconder o rubor nas orelhas. — O próximo desafio não vai esperar suas crises de caridade.
James riu de novo e correu para alcançá-lo, mas o som dos passos deles agora parecia menos caótico e mais como um ritmo compartilhado.
A Árvore de Vidro
No saguão de entrada, uma árvore de Natal de seis metros de altura esperava. O chão estava coberto de enfeites de vidro extremamente frágeis.
— O objetivo é decorar o topo da árvore — explicou o fantasma do Barão Sangrento, parecendo entediado. — Sem quebrar nada. E cuidado com o Pirraça.
Pirraça, o poltergeist, flutuava no candelabro, armado com punhados de nozes duras, pronto para atirar.
— Eu levito, você protege? — James sugeriu, sacando a varinha.
— Não — Regulus disse. — Você é o artilheiro. Você tem reflexos melhores para desviar do Pirraça. Eu levito. Eu sou bom com feitiços de precisão.
James hesitou, mas assentiu. — Confio em você.
Regulus respirou fundo. Wingardium Leviosa. Ele focou na estrela de cristal dourada. O feitiço exigia delicadeza, algo que a brutalidade dos duelos não ensinava. A estrela flutuou suavemente.
— ATAQUE DE NOZES! — Pirraça gritou, mergulhando.
Uma chuva de nozes voou em direção a Regulus para quebrar sua concentração. Mas James foi um borrão.
— Protego! — James conjurou um escudo, depois usou um feitiço de repelir para rebater as nozes de volta para Pirraça. — Impedimenta!
James dançava ao redor de Regulus, um guarda-costas impenetrável. Regulus, protegido naquela bolha de segurança, guiou a estrela até o topo da árvore, pousando-a sem um som.
— ISSO! — James gritou, virando-se para Regulus e erguendo a mão para um "toca aqui".
Regulus ficou olhando para a mão de James, confuso. Em Grimmauld Place, ninguém batia as mãos. James, percebendo a hesitação, pegou a mão de Regulus e bateu na sua própria, rindo.
— Bom trabalho, parceiro. Você tem mãos firmes. Seria um bom apanhador se parasse de se esconder na biblioteca.
Regulus sentiu as orelhas queimarem. Parceiro. A palavra ecoou em sua mente como um feitiço proibido.
O Labirinto de Visco
O jardim de inverno de Hogwarts fora transformado. Onde antes havia canteiros de abóboras congeladas, agora erguia-se um labirinto vivo de sebes escuras, com três metros de altura. Mas não eram sebes comuns de alfeneiro. Eram paredes densas de azevinho espinhoso e, pendendo de cada galho como armadilhas de seda, cachos grossos de visco mágico.
— Viscum Diabolicum — Regulus identificou imediatamente, parando na entrada do labirinto. — Não é o tipo que se usa para beijos de Natal. É uma variante carnívora das montanhas da Albânia. Se ele sentir calor corporal excessivo ou movimento brusco, ele se contrai.
— Ótimo — James bufou, ajustando a varinha. — Então nada de correr. E nada de abraços, a menos que seja estritamente necessário para a sobrevivência.
Eles entraram. O ar dentro do labirinto era parado e denso, com um cheiro adocicado de seiva e perigo. As paredes pareciam sussurrar. A cada passo, os ramos de visco acima de suas cabeças se esticavam lentamente para baixo, como cobras brancas e verdes provando o ar.
— Esquerda ou direita? — James sussurrou. Eles estavam em uma bifurcação.
— O musgo cresce mais espesso no lado norte das pedras, mas aqui é magia artificial — Regulus analisou, os olhos cinzentos varrendo o chão. — Olha as raízes. Elas estão fugindo da esquerda. Algo lá é hostil até para as plantas. Vamos para a direita.
Eles avançaram. O espaço ficava cada vez mais estreito. Logo, eles não podiam mais andar lado a lado. James foi na frente, abrindo caminho com o ombro, protegendo o rosto dos espinhos.
De repente, James parou. — Beco sem saída.
Eles giraram para voltar, mas as paredes de sebe atrás deles haviam se movido silenciosamente. O caminho estava fechado. Eles estavam em um quadrado de vegetação não maior que um armário de vassouras.
E o visco acima deles percebeu.
Com um som úmido, dezenas de vinhas desceram de uma vez só, chicoteando o ar.
— Incendio! — James gritou, lançando uma chama azul. O visco recuou, sibilando, mas outros vinham pelos lados.
— Não use fogo! — Regulus gritou, puxando a manga de James. — O calor atrai mais deles! Eles se alimentam de energia térmica! Apague!
James extinguiu a varinha, mas agora estavam no escuro, cercados pelas plantas que se fechavam como uma jaula. O ombro de James estava pressionado contra o peito de Regulus. O espaço era minúsculo. Regulus podia sentir a respiração acelerada do grifinório, podia sentir o calor irradiando do corpo dele — exatamente o que estava atraindo a planta.
— Elas vão nos sufocar — James disse, a voz tensa, mas sem pânico. Ele colocou-se na frente de Regulus, usando o próprio corpo como escudo contra as vinhas que se aproximavam. — Tem algum feitiço da Biblioteca Black para isso?
— Cítricos — Regulus lembrou-se de uma nota de rodapé em um livro de Herbologia das Trevas. — Elas odeiam ácido cítrico. O cheiro confunde os receptores delas.
— Eu não tenho um limão no bolso, Regulus! — James retrucou, rebatendo uma vinha com a mão nua.
Regulus olhou ao redor, desesperado. Seus olhos caíram sobre uma pedra irregular no chão coberto de neve. — Avifors? Não. Draconifors? — Sua mente corria. Ele precisava de Transfiguração. Ele apontou a varinha para a pedra. — Citrus mutatio!
Não foi um feitiço perfeito. A pedra não virou um limão suculento, mas uma massa amarela meio pedregosa que cheirava agressivamente a desinfetante de limão barato.
— Esmaga! — Regulus ordenou.
James pisou na pedra-limão com força. O cheiro ácido explodiu no ar confinado, forte o suficiente para fazer os olhos lacrimejarem.
O efeito foi imediato. O visco soltou um guincho agudo, quase inaudível, e recuou violentamente, as vinhas se encolhendo contra os galhos altos como se tivessem sido queimadas. As paredes de sebe tremeram e se abriram, revelando a saída.
James tossiu, abanando o ar. — Cheira como o armário de limpeza do Filch.
Ele se virou para Regulus. Eles ainda estavam perigosamente próximos. James sorriu, um sorriso torto de alívio, e colocou a mão no ombro de Regulus. — Você salvou nossa pele, Black. Se eu fosse abraçado até a morte por uma planta natalina, Sirius nunca me deixaria esquecer.
Regulus sentiu o calor da mão de James através do tecido do manto. O perigo passara, mas o coração dele batia ainda mais rápido do que quando o visco atacou. — Vamos sair daqui — Regulus sussurrou, a voz trêmula. — Antes que o cheiro passe.
Eles correram para fora do labirinto, ombro a ombro, cheirando a limão e adrenalina.
A Charada da Esfinge de Gelo
A quarta etapa levou-os para a orla do Lago Negro, onde o vento cortava como lâminas de barbear invisíveis. A superfície do lago era um espelho escuro sob o gelo, mas o que bloqueava o caminho não era a água, e sim uma monstruosidade de cristal.
Uma Esfinge de Gelo, com três metros de altura e olhos que brilhavam com uma luz azul interna, guardava a passagem para a colina. Ao redor dela, vários alunos de outras casas estavam amontoados, frustrados. Alguns tentavam derretê-la (o que resultava em jatos de neve na cara), outros gritavam respostas aleatórias.
— Hipogrifo! Mandrágora! Pudim! — gritava um aluno da Lufa-Lufa, desesperado.
A Esfinge permanecia imóvel, uma estátua de desprezo.
— Ótimo — James suspirou, parando ao lado de Regulus e esfregando as mãos enluvadas. — Eu odeio esfinges. Elas são pretensiosas. Por que não podemos apenas duelar com ela?
— Porque é uma gincana de intelecto, Potter, não de força bruta — Regulus respondeu, observando a criatura. — Ela só vai nos deixar passar se resolvermos o enigma.
Eles se aproximaram. A Esfinge virou a cabeça pesada de gelo na direção deles. A voz dela soou como o estalo de geleiras se partindo.
— Sou leve como uma pena, mas nem o gigante mais forte consegue me segurar por muito tempo. Se me alimentar, eu vivo. Se me der água, eu morro. O que sou?
James franziu a testa, ajeitando os óculos que escorregavam pelo nariz frio. — Alimentar vive, água morre... — Ele olhou para Regulus. — Gremlins? Não, isso é lenda trouxa.
Regulus revirou os olhos, mas havia um leve sorriso no canto de sua boca. — Fogo, James. A resposta é fogo.
— Ah. — James piscou. — Faz sentido. Diga a ela.
Regulus deu um passo à frente. — Fogo.
A Esfinge não se moveu. Os olhos azuis brilharam mais forte. — Correto. Mas para passar, a dupla deve responder em uníssono. E há uma segunda parte.
A criatura baixou o olhar para eles. — Eu posso trazer lágrimas aos seus olhos, ressuscitar os mortos, fazer você sorrir e reverter o tempo. Eu me formo em um instante, mas duro uma vida inteira. O que sou?
James ficou em silêncio. Ele olhou para o lago, para o céu, buscando inspiração. — Ressuscitar os mortos? — ele sussurrou para Regulus. — Isso é Necromancia.
— É metafórico, Potter — Regulus murmurou, a mente trabalhando rápido. — Reverter o tempo... sorrir... lágrimas...
Ele olhou para James. O vento despenteava o cabelo do grifinório, e as bochechas dele estavam coradas pelo esforço. Regulus pensou em como aquela imagem — James, confuso e vivo na neve — ficaria gravada em sua mente para sempre.
— Memória — Regulus disse, a voz suave. — Uma lembrança.
James olhou para ele, os olhos se arregalando em compreensão. — Você é bom nisso — James disse, e havia um tom de admiração genuína que fez o estômago de Regulus dar um nó. James se inclinou mais perto, invadindo o espaço pessoal de Regulus para que os outros não ouvissem a resposta. — Sabe, dizem que a inteligência é a qualidade mais atraente em um bruxo. Você está ficando perigoso, Regulus Black.
Regulus sentiu o calor subir pelo pescoço, violento e imediato. O rosto de James estava a centímetros do dele. O hálito quente formava uma nuvem que se misturava à de Regulus. O comentário foi leve, brincalhão, típico de James, mas para Regulus, que nunca recebera um elogio que não fosse sobre sua obediência ou linhagem, foi devastador.
— Não diga bobagens — Regulus gaguejou, desviando o olhar para a neve. — Vamos apenas responder.
— Juntos, então — James sorriu, aquele sorriso torto que causava problemas.
Eles se viraram para a Esfinge. — Memória — disseram em uníssono.
A Esfinge curvou a cabeça em reverência e, com um som de sinos de cristal, dissolveu-se em uma chuva de flocos de neve brilhantes, liberando o caminho para a colina.
— Viu? — James deu um leve empurrão no ombro de Regulus com o seu. — Perigoso.
Regulus puxou o cachecol para cobrir o rosto, rezando para que o vermelho de suas bochechas fosse atribuído apenas ao frio.
Desafio 5: A Corrida de Trenós
O último desafio esperava no topo da colina mais íngreme perto da cabana de Hagrid. A vista lá de cima era vertiginosa: o castelo parecia uma miniatura distante e a pista de neve descia em uma curva suicida até a orla da floresta.
Hagrid estava lá, supervisionando a transfiguração dos caixotes de madeira. — Muito bem! Transformem essas caixas velhas em algo que deslize! Mas nada de motores mágicos! Apenas gravidade e coragem!
Sirius e Remus já estavam prontos. O trenó deles parecia um foguete prateado e instável. — Vejo vocês lá embaixo! — Sirius gritou, acenando. — Se sobreviverem, eu pago uma cerveja amanteigada!
Eles se lançaram colina abaixo, gritando.
James olhou para o caixote de madeira podre diante deles. Ele sacou a varinha de mogno, girando-a com floreios elegantes. — Certo. Precisamos de aerodinâmica. E estilo. Muito estilo. O que você acha de asas de grifo nas laterais?
— Asas criam arrasto — Regulus objetou, tentando recuperar a compostura depois do episódio da Esfinge. — Queremos cortar o vento, não abraçá-lo. Faça algo baixo. Como uma cobra.
— Uma cobra? — James riu. — Tudo tem que ser Sonserino com você? Tudo bem. Uma cobra vermelha.
Com alguns movimentos complexos, James transfigurou a madeira. O caixote se alongou, curvou-se e poliu-se até virar um trenó elegante, baixo e vermelho-sangue, com corredores dourados que pareciam lâminas. Era lindo. E pequeno.
— Ficou... compacto — Regulus observou, engolindo em seco.
— Aerodinâmico — James corrigiu, piscando. — Vamos. Eu piloto, você faz o contrapeso nas curvas.
Regulus sentou-se na frente, encolhendo as pernas. James sentou-se logo atrás. Foi um erro de cálculo da parte de Regulus. Ou talvez uma tortura planejada pelo destino. As pernas de James envolveram as de Regulus, prendendo-o. O peito largo de James se pressionou contra as costas de Regulus. Eles estavam encaixados, sem nem um centímetro de ar entre eles.
Regulus parou de respirar. Ele podia sentir a batida do coração de James contra sua espinha. Podia sentir o calor sólido do corpo dele através das camadas de lã.
— Confortável? — James sussurrou bem perto da orelha de Regulus. A voz dele vibrou no corpo do sonserino.
— É... funcional — Regulus respondeu, a voz saindo uma oitava mais aguda do que o normal. Ele agarrou as bordas do trenó com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Relaxe, Reg — James riu baixinho, e o som foi quente contra o pescoço sensível de Regulus. — Eu não vou deixar a gente virar. Confia em mim?
Confia em mim? A pergunta era perigosa. Regulus não confiava em ninguém. Mas ali, cercado pelos braços de James Potter, a resposta parecia óbvia e aterrorizante.
— Só pilote essa coisa, Potter — Regulus disse, trêmulo.
— Segure-se firme — James instruiu. Então, sem aviso, ele passou um braço ao redor da cintura de Regulus para segurar a rédea central do trenó. O abraço foi firme, protetor e possessivo.
James empurrou o chão com o pé. O mundo desapareceu.
A descida foi um borrão de branco e azul. O vento uivava nos ouvidos, gelado e brutal, tentando arrancá-los do trenó. Mas Regulus mal sentia o frio. Tudo o que ele sentia era James. James inclinando o corpo para a esquerda na curva fechada, puxando Regulus com ele. James rindo alto, uma gargalhada eufórica de pura adrenalina. James apertando o braço ao redor da cintura dele quando o trenó saltou em um monte de neve, mantendo-o seguro no lugar.
— WOOHOO! — James gritou. — OLHA A VELOCIDADE!
Regulus, que sempre fora ensinado a ser contido e silencioso, sentiu um grito preso na garganta. A velocidade era libertadora. O medo se misturava com a alegria. E, por um momento, ele se permitiu recostar a cabeça para trás, apoiando-se no ombro de James.
James pareceu perceber o movimento. Ele se inclinou para frente, colando o rosto na lateral da cabeça de Regulus para ser ouvido sobre o vento. — Você está indo bem! — James gritou. — Estamos voando, Reg! Estamos voando!
Regulus fechou os olhos por um segundo, sentindo o vento e o calor. Sim, estamos voando.
A linha de chegada se aproximou rapidamente. Sirius e Remus já estavam lá, sacudindo a neve das roupas. — FREIA! — Regulus gritou.
— FREIO É PARA OS FRACOS! — James respondeu rindo, mas puxou a alavanca de madeira.
O trenó derrapou, levantando uma parede de neve, girou 180 graus e parou a centímetros das botas de Hagrid. A parada brusca jogou Regulus para trás, contra o peito de James, e depois ambos tombaram para o lado, caindo na neve fofa, rindo e ofegantes.
Eles ficaram deitados lá por um momento, olhando para o céu cinzento, com os corpos ainda formigando pela velocidade. James virou a cabeça na neve. Ele estava sem óculos, com o cabelo encharcado e os olhos brilhando como estrelas.
— Isso foi... — James tentou falar, recuperando o fôlego.
— ...insano — Regulus completou, virando a cabeça para encará-lo.
— Nós somos uma ótima dupla, você sabe — James disse, e o tom de flerte voltou, mas agora misturado com a camaradagem da sobrevivência. Ele estendeu a mão e, com um gesto surpreendentemente delicado, limpou um floco de neve que estava preso nos cílios de Regulus. — Você fica bem quando não está carrancudo, Regulus. Deveria sorrir mais. Combina com você.
Regulus sentiu o coração bater tão forte que teve medo de que explodisse e manchasse a neve de vermelho. Ele abriu a boca para responder, para dizer algo espirituoso ou defensivo, mas Sirius se jogou em cima deles, gritando sobre tempos e recordes, quebrando a bolha mágica que existia entre os dois.
Mas o toque no cílio permaneceu queimando na pele de Regulus muito tempo depois que a neve derreteu.
✦•······················•✦•······················•✦
O Salão Principal estava mergulhado em um dourado quente. Velas flutuavam em configurações festivas e o cheiro de peru assado, sálvia e pudim de passas era quase uma entidade física.
Mas para Regulus, o banquete tinha gosto de papelão.
Ele estava sentado à mesa da Sonserina, cercado por seus "iguais". Evan Rosier, sentado à sua frente, dissecava uma coxa de frango com a precisão de um torturador. Barty Crouch Jr. lia um livro sob a mesa. Ninguém falava sobre a gincana. Ninguém falava sobre a vitória de Regulus.
Na Sonserina, ganhar ao lado de um Grifinório — e pior, um "traidor do sangue" como James Potter — não era uma vitória. Era uma colaboração vergonhosa.
— Ouvi dizer que você teve que tocar na lama para ganhar — Rosier comentou sem levantar os olhos do prato. — Literalmente e figurativamente. Potter deve ter te contaminado com aquela alegria vulgar dele.
Regulus cortou suas batatas metodicamente. — Ganhamos a isenção de deveres, Rosier. Enquanto você estiver escrevendo trinta centímetros sobre poções de cura nas férias, eu estarei na biblioteca lendo o que eu quiser. Eu chamo isso de estratégia.
Rosier bufou, mas se calou. No entanto, o gelo ao redor de Regulus era palpável. Ele olhou para o outro lado do Salão.
A mesa da Grifinória era um tumulto de cores e sons. Sirius estava em pé no banco, reencenando a descida de trenó com gestos exagerados, arrancando gargalhadas de Pedro Pettigrew e de várias garotas do terceiro ano. Remus sorria, balançando a cabeça com uma tolerância afetuosa.
E James.
James estava no centro de tudo, como sempre. Ele tinha as bochechas coradas, a gravata desamarrada e ria de algo que Sirius dizia. Ele parecia ter esquecido completamente as últimas duas horas. Esquecido o labirinto, os sapos, a parceria silenciosa. Ele voltara para o seu mundo solar, onde Regulus não podia entrar.
Regulus sentiu uma pontada de solidão tão aguda que perdeu o apetite. Ele era apenas um turista no mundo de James, e o visto tinha expirado.
De repente, James parou de rir. Ele olhou através do salão, ignorando a barreira invisível que separava as casas. Seus olhos encontraram os de Regulus.
Por um momento, o barulho do salão pareceu diminuir. James não acenou — isso causaria problemas para Regulus na mesa das cobras. Mas ele fez algo mais sutil. Ele ergueu seu cálice de suco de abóbora levemente na direção de Regulus. Um brinde silencioso. Um reconhecimento. Eu vejo você. Nós fizemos isso.
Sirius, percebendo que James estava distraído, seguiu o olhar do amigo e viu Regulus. A expressão de Sirius se fechou. Ele disse algo para James, provavelmente uma piada maldosa, e puxou o amigo de volta para a conversa da Grifinória.
Regulus baixou os olhos para o prato. O momento passara. Sirius tinha reivindicado seu território de volta.
— Patético — murmurou uma voz ao lado de Regulus. Severus Snape, com seu cabelo oleoso e expressão azeda, observava a cena. — Potter acha que o mundo é o palco dele. E você olhou para ele como se estivesse na plateia esperando um autógrafo.
Regulus apertou o garfo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Cuide do seu próprio prato, Snape. Ou vou sugerir a Slughorn que você seja o voluntário para testar os antídotos na próxima aula.
Ele se levantou abruptamente, abandonando a comida intocada. Ele precisava de ar. Precisava do frio. O calor do Salão Principal, o calor falso da Grifinória que ele nunca poderia ter, estava sufocando-o.
Ele marchou para fora do Salão, em direção ao pátio nevado, onde a solidão era pelo menos honesta. Mal sabia ele que o verdadeiro calor o seguiria até lá fora, na forma de um par de luvas vermelhas e um cachecol emprestado.
O Pátio e o Boneco de Neve
A euforia passou. O almoço de Natal foi servido, os vencedores celebrados. Sirius, embriagado de vitória e suco de abóbora, voltou a ser o Sirius de sempre: focado em James e Remus, esquecendo que tinha um irmão.
— Você viu a cara do Remu no trenó? — Sirius comentava alto no pátio, horas depois, enquanto tentavam fazer uma guerra de neve. — Parecia que ele estava indo para a execução! Tão rígido!
Regulus, que estava por perto, sentiu a magia do dia evaporar. A conexão, a parceria... tudo tinha acabado assim que a competição terminou. Ele era apenas o irmão chato de novo.
Ele se afastou, indo para um canto isolado do pátio, perto das arcadas de pedra. Ele precisava fazer algo com as mãos para não chorar de raiva. Ele se ajoelhou na neve intocada.
Vou fazer algo que ele não consiga fazer, pensou Regulus. Algo artístico.
Ele começou a moldar o gato. A neve estava fria demais, seca demais. Seus dedos, sem as luvas que ele esquecera no dormitório na pressa de sair, começaram a doer. O gato parecia um monstro.
— O que é isso? Um trasgo atropelado? — A voz de Sirius veio de trás.
Regulus fechou os olhos.
— É um gato.
— Parece uma batata com caxumba — Sirius riu, chutando levemente a base. Um pedaço da neve caiu. — Desiste, Reg. Você não serve para criar coisas. Vem ser o alvo da gente.
Sirius se afastou, rindo, esperando que James o seguisse.
Mas os passos na neve pararam.
— Vá indo, Almofadinhas — a voz de James soou. Diferente. Mais séria.
Quando o silêncio retornou, Regulus esperou que James também fosse embora. Ou que fizesse uma piada. Mas James se ajoelhou ao lado dele. A presença dele bloqueou o vento frio.
— O problema é a neve — James disse, ignorando o chute que Sirius dera na escultura. — Ela não tem liga.
Regulus continuou olhando para o monte de neve deformado.
— Eu sou inútil. Não consigo nem fazer isso.
— Você não é inútil — James disse. Ele tirou as luvas vermelhas. — Você tem ouvido absoluto para sapos musicais, mãos firmes para levitação e sabe o que é geada. Você só... precisa de uma base melhor.
James colocou as mãos quentes na neve, derretendo-a levemente para criar gelo. Ele começou a moldar a base do gato.
— Segura a cabeça — James pediu.
Regulus obedeceu. Eles trabalharam em silêncio, reconstruindo o que Sirius tinha desprezado. Quando terminaram, o gato de neve estava lá: orgulhoso, ereto, com pedrinhas pretas no lugar dos olhos.
— Ficou bom — Regulus sussurrou, tremendo. O frio finalmente tinha penetrado seus ossos. Ele olhou para as próprias mãos. Estavam roxas, os dedos curvados de dor.
— Merlin, Regulus — James exclamou, vendo o estado das mãos do garoto. — Você está congelando.
Sem pensar duas vezes, James Potter, o garoto que passara o dia competindo e rindo, pegou as mãos geladas de Regulus entre as suas.
Foi um choque térmico e emocional. As mãos de James eram grandes, ásperas de segurar vassouras, mas incrivelmente quentes. Ele as esfregou, soprando ar quente nas palmas de Regulus.
Regulus levantou o rosto. Seus narizes estavam a centímetros de distância. Ele podia ver os flocos de neve presos nos cílios de James. Ele podia sentir o cheiro de limão (do labirinto) e o calor humano.
Naquele momento, enquanto o sangue voltava a circular dolorosamente em seus dedos, algo mudou irreversivelmente no peito de Regulus. A admiração que ele sentia pelo "amigo legal do irmão" se transformou. Ficou mais densa. Mais perigosa.
James não era apenas o herói da Grifinória. Ele era a única pessoa que tinha parado. A única pessoa que tinha visto o frio de Regulus e tentado aquecê-lo.
— Melhor? — James perguntou, a voz suave, os olhos castanhos fixos nos cinzentos de Regulus com uma intensidade que fez o estômago do sonserino revirar.
— Sim — Regulus soprou.
James sorriu e soltou as mãos dele. Ele tirou o cachecol vermelho e dourado do pescoço.
— O gato precisa de uma casa — James disse, enrolando o cachecol no pescoço da escultura de gelo. — Agora ele é um leão.
James se levantou, bagunçando o próprio cabelo.
— Vamos entrar. Se você ficar doente, Sirius vai dizer que a culpa é minha por ter te arrastado no trenó.
James estendeu a mão para ajudar Regulus a levantar.
Regulus olhou para aquela mão. Ele sabia que, se a pegasse, estaria selando um destino trágico. Apaixonar-se por James Potter era como se apaixonar pelo sol: lindo de longe, mas fatal se você tentasse tocar.
Ele pegou a mão de James.
— Obrigado, Potter — Regulus disse, ficando de pé.
— Me chame de James — ele respondeu, piscando, e começou a caminhar de volta para o castelo.
Regulus ficou parado por um segundo, olhando para o gato de neve usando as cores da Grifinória. Ele tocou os próprios dedos, que ainda formigavam com o toque de James.
Naquele Natal, Regulus Black ganhou o torneio, mas perdeu o coração.
Epílogo: O Presente Invisível
A manhã de Natal chegou a Hogwarts silenciosa e branca. A maioria dos presentes já havia sido aberta no Salão Comunal, com papéis rasgados e gritos de alegria preenchendo o ar.
Regulus acordou tarde no dormitório vazio da Sonserina. A maioria de seus colegas tinha ido para casa, e os que ficaram já estavam no Salão Principal. Ao pé de sua cama de dossel verde, havia uma pilha pequena e polida de presentes: doces caros de tias distantes, um livro raro sobre Genealogia Pura de seus pais (com um bilhete curto exigindo excelência) e um par de luvas de couro de dragão enviadas por Narcissa.
Tudo adequado. Tudo frio.
Ele se vestiu devagar e estava prestes a sair quando notou algo estranho.
Em cima do seu malão, meio escondido sob a dobra do seu manto escolar, havia um embrulho que não tinha a elegância rígida dos presentes dos Black. O papel era pardo, amarrado com um barbante trouxa simples, sem laços de fita de seda.
Regulus franziu a testa. Ele olhou em volta, desconfiado, como se fosse uma pegadinha. Mas a curiosidade venceu. Ele pegou o pacote.
Não havia cartão com nome. Apenas uma pequena etiqueta amarrada ao barbante, com uma caligrafia apressada e inclinada que ele reconheceria em qualquer lugar, mesmo tendo visto apenas uma vez em um pergaminho de gincana.
A etiqueta dizia apenas: Para a próxima vez que a neve não tiver liga.
O coração de Regulus disparou contra as costelas. Com dedos trêmulos, ele desfez o nó e rasgou o papel.
Era um livro. Mas não um livro de magia, nem um tomo antigo de história. A capa era colorida, brilhante e trouxa. O título, em letras garrafais e cômicas, anunciava:
"Os 100 Bonecos de Neve Mais Engraçados do Mundo: Um Guia para Esculturas Desastrosas."
Regulus abriu. A primeira página mostrava um boneco de neve torto usando um biquíni de verão. A segunda, um que parecia ter sido atropelado por um caminhão. Eram ridículos. Eram imperfeitos.
Mas na guarda do livro, no canto inferior direito, havia uma pequena anotação à tinta:
"Abra na página 47."
Regulus olhou para o número 47 (um boneco de neve derretendo que parecia uma poça com olhos) e sentiu uma risada subir pela garganta — uma risada genuína, leve, que ele raramente usava.
Ele fechou o livro rapidamente, apertando-o contra o peito. Ele olhou para a porta do dormitório, com medo de que alguém entrasse e visse. Aquele livro era trouxa. Era bobo. Seus pais o queimariam se o vissem.
Mas Regulus não se importava. Ele escondeu o livro no fundo do malão, sob suas roupas de baixo, no lugar mais seguro que possuía.
Naquele Natal, Regulus Black não ganhou o amor de sua família, nem a volta de seu irmão. Mas ele ganhou algo que aqueceu muito mais: um segredo compartilhado e a prova física, em papel brilhante, de que alguém tinha notado o seu esforço, e não a sua falha.
Ele sorriu para o malão fechado e, pela primeira vez em muito tempo, o inverno lá fora não pareceu tão frio.
Fale com o autor