Verde é a cor mais quente
11 Capitulo onze: Valquíria
Quando eu e Elizabeth entramos em casa eu tive uma surpresa terrível. Meu pai estava lá, junto com outro homem que eu não conhecia e eles tinham amarrado o pai da Elizabeth em uma cadeira. Ver meu pai biológico me trouxe um monte de lembranças ruins da minha infância, por que ele tinha sido um péssimo pai. Ele vivia me dizendo que tinha que ser o primeiro e único homem que eu teria na vida e por muito tempo eu não entendia o que ele queria dizer com isso e, mesmo depois que ele começou com os abusos eu não entendia o que ele queria dizer. Os abusos dele duraram cerca de 1 ano, até que minha mãe descobriu e botou ele para fora de casa. Depois disso essa era a primeira vez que eu o via e não era algo que eu queria. Eu sempre quis esquecer de tudo o que ele me fez passar. Acontece que tem coisas que não dá para esquecer completamente e o máximo que podemos fazer com essas coisas é seguir em frente deixando-as enterradas onde mais ninguém sabe onde estão.
A sociedade em que vivemos hoje não está totalmente preparada para lidar com as vítimas de abuso infantil e de estupro. Todas as pessoas que eu conheço que ficaram sabendo das coisas que meu pai fez comigo não se preocuparam em saber como eu estava ou se eu precisava de algum tipo de apoio psicológico. Elas simplesmente perguntavam por que eu não contei o que ele estava fazendo comigo para a minha mãe ou para qualquer outra pessoa. Acontece que ele me dizia que se eu falasse sobre aquilo ele ia matar a minha mãe e as coisas iriam ficar muito piores para mim. Eu tinha seis anos quando tudo começou e eu tinha muito medo de perder a minha mãe naquela época por que ela era a minha maior heroína. Bom essas mesmas pessoas que me criticaram por não ter falado nada dizem que uma mulher pede para ser estuprada só pela roupa que está usando ou pelo modo de falar. Eu não pedi para ser abusada quando era criança e eu usava roupas normais como qualquer outra criança.
Eu olhei para Elizabeth e vi que ela estava muito pálida e percebi que ela conhecia o homem que estava acompanhando o meu pavoroso pai biológico. Bom depois que minha mãe descobriu o que meu pai estava fazendo ela deu um jeito dele sair das nossas vidas e se casou com o meu padrasto, que eu chamo de pai, apesar dele só ser pai biológico do sem noção do meu irmão. As pessoas estranham me ver chamando meu padrasto de pai, por que nem ele nem minha mãe se parecem comigo, já que os dois são brancos, mas não ligo para essa visão racista da sociedade. Meu padrasto, que se chama Daniel, sempre foi muito melhor que meu pai e é isso que conta para mim.
— O que você está fazendo aqui? – Elizabeth perguntou para o homem que havia chamado ela de vadia assim que entramos em casa.
— Eu vim ver minha filha linda – ele respondeu indo até Elizabeth e tentando passar a mão pelo cabelo dela. Quando ele chegou perto dela ela acertou uma joelhada no meio das pernas dele e correu para tentar soltar o pai dela, mas meu pai a impediu de conseguir isso quando enfiou uma faca no braço dela.
Quando eu ouvi minha amiga gritar de dor eu sai do transe em que eu estava e reagi indo para cima do meu pai e enfiando a chave de casa no olho dele. Ele gritou de dor e sangue jorrou para todos os lados, me deixando toda suja, mas eu não liguei para isso.
— Olha o que você fez, sua puta. Você deixou um homem bom e inocente cego – disse o homem que acompanhava meu pai para mim.
— Ele é um estuprador e não tem nada de bom, muito menos de inocente e eu tenho certeza de que você é tão bom e inocente quanto ele, seu porco imundo – falei para ele. O homem se virou para Elizabeth e a agarrou pelo braço ferido, fazendo com que ela gritasse de dor.
— Você, sua puta, me fez passar anos preso por algo que você queria que eu fizesse com você. – O homem disse para Elizabeth, enquanto meu pai se aproximava de mim com a faca como se quisesse me matar.
— Tudo o que eu queria e ainda quero de você é distancia, seu verme. – Elizabeth disse enquanto acertava o cotovelo do braço que não estava ferido no rosto do homem que a segurava. Meu pai se distraiu com isso e eu aproveitei esse momento de distração para tirar a faca da mão dele.
Meu pai começou a correr atrás de mim assim que eu tirei a faca dele e ele só não conseguiu me pegar e fazer algo comigo por que a polícia entrou com tudo em casa, prendendo os dois homens. Eu, Elizabeth e o senhor Nelson fomos para o hospital, afinal os dois estavam feridos.
Depois que passamos por avaliações médicas os policiais pegaram nossos depoimentos. Eu queria me esconder, sentar e chorar até o mundo acabar, mas eu não podia fazer isso. Eu tenho que ser forte para derrotar definitivamente o monstro do meu passado que voltou essa noite só para me assombrar. Depois que eu dei meu depoimento um dos policiais me deu uma troca de roupa limpa que ele pegou em casa. Ele disse que era irmão da Vic e que ela estava vindo para o hospital para nos ajudar. Eu agradeci pela polícia ter chegado na hora certa e por ele ter trazido uma roupa limpa para mim e ele me disse que não estava fazendo nada além da obrigação dele. Eu fui até o banheiro me trocar e lá eu encontrei Elizabeth chorando.
— Calma que esse pesadelo já acabou – eu falei para ela, tentando consola-la.
— Você não entende. Esse pesadelo começou anos atrás e parece que não tem fim – ela me disse chorando.
— Meu pai estava naquela casa e ele foi preso depois de passar um ano inteiro abusando física e psicologicamente de mim, então eu acho que eu te entendo perfeitamente – eu falei.
— O outro homem que estava em casa era meu padrasto e ele me estuprou quando eu tinha dezessete anos. Eu estava voltando da escola e usava o uniforme da escola e mesmo assim fui estuprada. Era meio dia e ninguém me ouviu gritar e berrar implorando por ajuda. Ninguém escuta quando uma mulher pede socorro e poucas pessoas acreditam nela depois que ela diz que foi estuprada. Apenas meu pai e Victória acreditaram totalmente em mim depois que contei o que aconteceu. Eu me lembro perfeitamente da dor que senti. Eu fiquei semanas com a vagina doendo depois do que aconteceu, eu tinha que tomar o coquetel contra o HIV e isso me fazia passar muito mal, mas o que mais doeu foi minha mãe não ter acreditado em mim. Minha mãe acha até hoje que aquele verme é inocente e que eu implorei pra ele transar comigo. Eu tinha e ainda tenho nojo daquele homem, mas ela nunca percebeu isso. Ela não esteve do meu lado quando eu mais precisei e ela não está aqui agora. – Elizabeth me disse. Eu troquei de roupa enquanto ela falava, mas o que ela me disse me deixou sem chão. Eu não sabia como consolar minha amiga tendo que lidar com meus próprios demônios.
— Eu tinha seis anos quando meu pai começou com os abusos. Ele me fazia tirar a roupa e ficava passando a mão em mim. As vezes ele me fazia passar a mão no pau dele e falava que se eu falasse alguma coisa para minha mãe ele ia matar a minha mãe e as coisas ficariam piores para mim. Ele só parou quando minha mãe viu ele fazendo isso e colocou ele atrás das grades. Ela foi a única pessoa que acreditou em mim, por que as outras pessoas sempre tinham algo negativo para falar, mas nunca ofereciam ajuda. – Falei tentando não chorar também.
Nós duas saímos do banheiro e fomos ver como o senhor Nelson estava. Ele havia levado uma pancada na cabeça e precisaria ficar em observação durante aquela noite só para os médicos terem certeza de que ele ficaria bem, já que os exames que ele fez deram todos normais. Elizabeth levou dez pontos no braço esquerdo e teria que ficar com o braço enfaixado por alguns dias, mas nada que a impedisse de sair do hospital. De acordo com os médicos nós duas estávamos de alta, mas não queríamos deixar o senhor Nelson sozinho e também não tínhamos para onde ir, já que nossa casa estava interditada pela polícia.
Eu me sentei em uma cadeira próxima do quarto onde o senhor Nelson estava e me perdi nos meus próprios pensamentos e nas lembranças de uma infância que eu adoraria esquecer. Não sei quanto tempo fiquei sentada ali, olhando para o nada, mas não vi que a Vic e o Tom haviam chegado. Na verdade, nem sei se os dois estavam no hospital a muito tempo por que quando voltei ao mundo real a Vic estava saindo do quarto do senhor Nelson e foi conversar com Elizabeth e com Tom, que pareciam ter desenvolvido uma conversa bem animada enquanto estavam sozinhos.
— Liz vamos pra minha casa. Seu pai tá bem e você estará aqui quando ele tiver alta – Vic disse.
— Prefiro ficar aqui. Não vou deixar meu pai sozinho – Elizabeth respondeu.
— Filha, você não precisa ficar aqui. Eu quero que você e a Valquíria vão para a casa da Vic e descansem – disse o senhor Nelson aparecendo na porta do quarto.
— Pai os médicos falaram que você tem que ficar de repouso. – Disse Elizabeth.
— Já estou voltando para a cama, mas não quero vocês duas aqui. Voltem amanhã de manhã que eu prometo que não vou fugir – O senhor Nelson disse.
Nós estávamos nos preparando para sair do hospital quando o irmão da Vic, que é um policial chamado Gabriel, nos chamou.
— Elizabeth, sua mãe está internada aqui e ela está pedindo desesperadamente para falar com você – Gabriel disse.
— Eu não vou falar com ela – Elizabeth disse.
— Então não fale nada, mas escute o que ela tem a dizer, por favor – implorou Gabriel e, pelo tom de voz dele eu pude perceber que alguma coisa muito ruim estava prestes a acontecer.
Elizabeth seguiu Gabriel até o quarto onde a mãe dela estava internada e nós a acompanhamos por que sabíamos que Elizabeth tem um relacionamento péssimo com a mãe e estávamos dispostos a impedir que Elizabeth discutisse com a mãe hoje, afinal a noite já tinha sido complicada demais e ainda não era meia noite. Elizabeth pediu para que nós ficássemos no corredor e entrou sozinha no quarto. Nós ficamos em silencio tentando ouvir o que elas estavam conversando.
— Oi mãe – Disse Elizabeth.
— Filha que bom que você veio. Depois de tudo o que aconteceu pensei que você não viria e eu entenderia muito bem se você não aparecesse, por que eu fui uma mãe terrível e fui incapaz de ver que você não era o monstro. Eu fui incapaz de ver que eu me separei do príncipe encantado e me casei com o monstro e que esse monstro me tirou a minha única filha – A mãe da Elizabeth disse.
— Mãe, o que você está dizendo? O que aconteceu? – Elizabeth perguntou.
— Seu padrasto foi na minha casa. Ele fugiu para ir atrás de você, mas você já deve saber disso. Acontece que ele estava completamente transtornado e disse que ia te matar e que iria matar qualquer um que se colocasse no caminho dele. Eu não queria que ele chegasse perto de você, não naquele estado e eu fiquei apavorada com a ideia de que ele pudesse realmente te matar, então eu disse que você tinha se mudado e que eu não tinha o seu endereço, mas ele não acreditou em mim. Ele disse que eu estava mentindo para te proteger e que ele arrancaria a verdade de mim a força, então ele começou a me bater. Eu tentei reagir e fugir, mas ele é mais forte que eu e ele não estava sozinho. Eu apanhei até desmaiar, talvez até depois disso, mas mantive a minha história de que eu não tinha o seu endereço. Você sabe que eu mantenho os endereços das pessoas anotados em um caderninho, para não esquecer, e o seu endereço estava anotado lá. Foi assim que ele te encontrou. Me perdoa por ter levado esse monstro até você hoje e por ter colocado ele em nossas vidas no passado – disse a mãe de Elizabeth pausadamente e em um tom de voz que era pouco mais do que um sussurro, tanto que quem estava ouvindo do lado de fora mal conseguiu entender o que ela havia falado.
— Mãe, você finalmente percebeu o monstro que ele é. Isso já é um começo – Elizabeth disse.
— Você me perdoa filha? Você me perdoa por ter trazido esse monstro para sua vida duas vezes e por ter sido completamente cega em relação ao homem terrível que ele é? Você me perdoa por ter te abandonado quando você mais precisava de mim, do meu apoio e de que eu acreditasse em você? – A mãe de Elizabeth perguntou.
— Eu te perdoo sim, mãe, até por que não há mais nada a ser perdoado. Tudo o que eu queria era que você percebesse que não foi minha culpa – Respondeu Elizabeth.
A mãe de Elizabeth pediu um abraço para a filha, que deu o abraço, sem saber que seria o último abraço entre mãe e filha. Quando os aparelhos que estavam conectados ao corpo da mãe de Elizabeth começaram a apitar feito loucos todos nós percebemos que a mãe de Elizabeth se fora nos braços da filha e que seu último suspiro aconteceu para proteger a filha de um monstro que ela tinha trazido para a vida da filha, na inocência de ter acreditado que ele era um homem melhor que o ex-marido. Os médicos tentaram de tudo para reanimar a mulher, mas foi tudo em vão. Eu olhei no relógio e vi que era meia noite em ponto. O mês de março havia começado com uma morte, exatamente como minha mãe viu nas cartas do tarô. O fato da minha mãe acertar nas previsões que fazia quando usava as cartas acontecia com uma frequência assustadora.
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