Verde é a cor mais quente

8 Capitulo oito: Valquíria


Confesso que, apesar de toda a ajuda que Elizabeth e o pai dela tem me dado, não está sendo fácil me acostumar a viver em uma nova casa. Todos os dias de manhã o sr. Nelson nos acorda para irmos para a faculdade e sempre nos deixa na porta da faculdade, coisa que meus pais nunca fizeram por mim. Ai assistimos as aulas e nós ficamos na biblioteca depois das aulas acabarem para adiantarmos os trabalhos. Quando digo nós, eu me refiro a mim mesma e a Elizabeth, pois Cris disse que não pode ficar depois das aulas por que tem que trabalhar. Eu honestamente nunca tinha ouvido falar em um emprego que as pessoas pudessem entrar apenas na parte da tarde, mas Elizabeth me disse que tem alguns empregos de meio período que são apenas na parte da tarde e que tem outros que não são de meio período, mas que o horário de entrada é na parte da tarde para atender o horário de funcionamento daquele estabelecimento especifico e que também tinha lugares em que as pessoas trabalhavam 12 horas e folgavam 36 horas, como era o caso dos hospitais. Eu achei isso meio estranho, mas fazia sentido, principalmente quando eu pensava nos shoppings, já que eles ficavam abertos por várias horas todos os dias. Na verdade Elizabeth me deu uma bronca por não entender que nem todo mundo tem todo o tempo do mundo para fazer as coisas e disse que nem todo mundo era obrigado a fazer as coisas que eu quero na hora que eu quero e que, em alguns momentos eu sou muito egoísta. O pior de ter ouvido isso é que eu sei que é tudo verdade, mas não sei como mudar. Eu não sei como agir de uma forma diferente. Quando expliquei isso para Elizabeth ela disse que vai me ajudar a mudar isso e, honestamente, eu não sei o que eu fiz para merecer uma amiga tão maravilhosa como ela.

Conforme a semana foi passando eu e Elizabeth fomos adiantando os trabalhos e combinamos que Cris ficaria com a parte de revisão. Eu queria que ele passasse os trabalhos que eram manuscritos a limpo, mas Elizabeth disse que ele não teria tempo para fazer isso e que seria melhor se nós duas cuidássemos dessa parte e deixássemos que ele finalizasse as pesquisas e cuidasse da revisão. Parando para pensar no que ela tinha sugerido percebi que ela tem razão, pois se Cris trabalha depois da aula ele realmente não vai ter muito tempo para passar os trabalhos a limpo e que eu e Elizabeth teríamos muito mais tempo do que ele e, além do mais, seria muito mais rápido se nós duas fizéssemos isso do que ele fazendo sozinho.

Na sexta-feira depois da aula eu fui para a biblioteca, como nos outros dias daquela semana, mas deixei Elizabeth conversando com Tom. Achei que seria uma conversa rápida, mas ela foi aparecer na biblioteca duas horas e meia depois.

— O que tanto você tinha para conversar com Tom? – Perguntei.

— Eu fui ajuda-lo a organizar os grupos de estudo e não vi o tempo passar, mas pelo menos já está tudo certinho e a coordenadora do curso adorou a ideia – ela respondeu. – E ele disse que vai me chamar mais vezes para ajudar com os grupos de estudos.

— E como ficou? – Perguntei.

— Os grupos serão de vinte alunos cada um e serão na segunda-feira, na quarta-feira e na sexta-feira, fora os dois grupos que serão aos sábados. Os encontros serão realizados uma vez por semana e os alunos poderão escolher qual será o melhor dia para eles – Ela respondeu.

— Essa ideia dele é bem legal. Acho bom que temos um professor que se interesse tanto em ajudar os alunos, principalmente quando esse professor pede ajuda dos próprios alunos para fazer esse tipo de projeto – falei, enquanto abria um livro de civil.

Elizabeth disse que também achava isso legal e começou a me ajudar com os trabalhos. Tenho que confessar que sempre fui muito perfeccionista com os trabalhos escolares que faço e Elizabeth já me disse que isso é bom até certo ponto, mas que fica chato quando começo a implicar com as outras pessoas do grupo por causa do meu perfeccionismo extremo. Na verdade, eu só sou tão perfeccionista assim porque eu sempre quis mostrar para os meus pais que eu sou uma boa filha, que sou capaz de tirar as maiores notas da escola, como eu realmente tirei, e que na faculdade isso não seria diferente, mas eles só se importariam com isso se eu estivesse cursando medicina, mas como estou fazendo direito ser a melhor aluna da faculdade não é importante, porque não é o curso que eles queriam que eu fizesse. Agora que eu sai de casa quero ser a melhor aluna da faculdade para ter o prazer de dizer que eles estavam errados sobre mim o tempo todo.

— Elizabeth eu estou pensando em ir no grupo de estudos de civil aos sábados – falei.

— Porque aos sábados? Você tem a semana inteira livre. – Ela perguntou.

— Eu to querendo arrumar um emprego de meio período pra ajudar com as contas de casa, porque não acho certo que seu pai me sustente – respondi.

— Bom, você pode conversar com meu pai sobre isso, porque ele disse que está precisando de uma recepcionista na alfaiataria onde ele trabalha – ela disse.

— Mas será que eles me contratariam? Eu nunca trabalhei antes. – falei preocupada.

— Não custa nada tentar, e outra, se não der certo lá tem outros lugares que contratam pessoas que não tem experiência – ela disse para me tranquilizar.

Naquela noite eu conversei com o sr. Nelson sobre conseguir um emprego. Ele disse que poderia me indicar na alfaiataria onde ele trabalha, mas que não seria garantido que eu conseguiria o emprego. Como Elizabeth já tinha me falado que não seria garantido que eu conseguiria o emprego, mesmo com ele me indicando, eu me cadastrei em um site de vagas de emprego e mandei alguns currículos e pretendia entregar também em alguns shoppings próximos, apesar de achar que trabalhar em shopping não seria uma boa ideia, já que eu teria pouquíssimo tempo para me dedicar aos estudos. Eu pensei em conversar com Cris para ver se ele poderia me indicar onde ele trabalha, mas estou com medo de falar com ele e ele não querer me indicar pelo fato de que eu pego muito no pé dele por causa dos trabalhos da faculdade. De qualquer maneira eu teria uma chance de falar com ele amanhã.

Quando acordei no sábado de manhã eu encontrei um bilhete da Elizabeth dizendo que foi ao parque e que me encontraria na biblioteca depois. Eu lamentei por não ter acordado mais cedo para ir ao parque, mas eu precisava dormir mais, pois, durante a semana eu estava indo dormir muito tarde para acordar muito cedo. Depois que li o bilhete eu comecei a me arrumar para ir até a biblioteca, pois não queria deixar Cris esperando por muito tempo. Ao chegar na biblioteca encontrei um Cris muito mal-humorado por ter ficado mais de uma hora me esperando.

— Desculpa pelo atraso. Eu não ouvi o despertador – falei para ele.

— Tudo bem. Onde está Elizabeth? – Ele perguntou.

— Ela vem mais tarde – Respondi, mas não disse que Elizabeth chegaria mais tarde porque foi ao parque.

Ele resmungou alguma coisa que não consegui entender, mas achei melhor não perguntar o que era, e eu comecei a mostrar o que eu e Elizabeth já tínhamos feito dos trabalhos. Como eu e Elizabeth combinamos as pesquisas não estavam totalmente finalizadas, para que Cris pudesse fazer essas pesquisas e revisasse o restante do que foi feito. Tenho que admitir que Cris é bom para encontrar informações, principalmente nos livros. Em pouco mais de uma hora nós dois já tínhamos terminado toda a pesquisa e já estávamos revisando os trabalhos. Elizabeth chegou pouco depois que começamos a fazer as revisões e nos ajudou bastante, mas ela parecia distante e estava muito distraída, o que não era normal.

— Aconteceu alguma coisa pra te deixar tão distraída? – Cris perguntou para Elizabeth.

— Não aconteceu nada, só estou cansada – ela respondeu, mas percebi que ela estava mentindo. Talvez fosse algo que ela não quisesse falar para o Cris, então achei melhor não insistir e tentar descobrir o que estava acontecendo com Elizabeth em casa, mas Cris achou que era melhor insistir.

— Com certeza aconteceu algo que você não quer contar, porque você não é tão distraída assim – disse Cris.

— Você está certo, Cris, ela não quer contar o que a deixou tão distraída, por que não é da nossa conta, então vamos nos concentrar em terminar logo esses trabalhos – eu disse, começando a me irritar com Cris, que parece que acordou disposto a tentar me tirar do sério.

Cris não é uma má pessoa, mas tem horas que ele é muito irritante. Ele tem a mania irritante de ficar chutando a cadeira da frente durante as aulas e eu tive que trocar de lugar com Elizabeth, porque quando pedi para ele parar de chutar a minha cadeira ele simplesmente passou a chutar com mais força. Isso me tira a concentração da aula. Depois que troquei de lugar ele começou a tirar fotos minhas no meio da aula. E isso quando ele não tenta dar palpites em assuntos que não são da conta dele ou tenta nos fazer falar de coisas que não queremos, o que era o que ele estava tentando fazer com Elizabeth hoje. Cris não gostou nada quando falei para ele manter o foco nos trabalhos ao invés de tentar cuidar da vida de Elizabeth, mas eu não estou nem aí para o que ele gosta ou deixa de gostar, o que importa é que Elizabeth não parecia estar bem e ele não tinha nada que ficar tentando descobrir o que estava acontecendo, afinal, se ela quisesse ele já estaria sabendo o que aconteceu.

Na verdade Elizabeth parecia estar magoada com alguma coisa e era isso que a estava distraindo. Tenho que admitir que eu estou morrendo de curiosidade para saber o que aconteceu no parque para deixa-la desse jeito. Quando nós duas chegamos em casa eu perguntei como tinha sido o passeio no parque e ela disse que só foi ao parque hoje porque o professor Tom ligou convidando-a para ir ao parque com ele porque ele queria conversar com ela e não poderia contar o que era por telefone.

— O que ele tanto queria conversar com você? – perguntei.

— Lembra que ontem eu te contei que ele tinha me falado que iria me chamar mais vezes para ajudar com os grupos de estudos que ele está organizando? – Ela me perguntou.

— Lembro. Você chegou toda animada na biblioteca e me contou isso – falei, me lembrando da empolgação dela em poder ajudar um professor.

— Então ele disse que não poderei mais ajudar por que a coordenadora acha que o relacionamento entre alunos e professores deve ficar restrito apenas ao que acontece na sala de aula – ela disse de cabeça baixa e percebi que ela estava quase chorando.

— Bom isso não é culpa dele, afinal ele tem que seguir as ordens da chefe dele, mas essa atitude da coordenadora é meio sem logica, porque tem vários alunos de outros semestres que vão para o bar depois da aula com os professores e dizem que tem aluna que até tem um caso com um dos professores – Falei para ela. A parte do bar eu sabia que era verdade, mas eu não tinha como saber se realmente tinha uma aluna que tinha um relacionamento amoroso com um professor.

— De qualquer forma não poderei mais ajuda-lo com isso e é por isso que estou chateada. Eu gostei de ter ajudado ele com os grupos de estudos e queria ter ajudado mais – ela disse.

— Quem sabe você não consiga ajuda-lo fora da faculdade – sugeri.

— Como assim? – Ela perguntou.

— Bom, você disse que ele divide o apartamento com uma amiga sua, então se você for até lá pra ajuda-lo a coordenadora da faculdade nunca vai ficar sabendo, por que você tem a desculpa perfeita para ir até lá – eu disse, fazendo Elizabeth sorrir diante da minha ideia.

— Você pode vir comigo também, assim podemos dizer que eu te apresentei para a Vic e você pode nos ajudar com os grupos de estudos – ela disse em um tom animado.

— Bom eu não sei como poderei ajudar, mas tô dentro – falei.

Ela pegou o celular e ligou para o Tom. Quem atendeu o telefone foi a amiga dela, a Vic, e as duas passaram quase meia hora conversando, antes de Elizabeth desligar e me falar que estávamos indo para a casa da amiga dela.