Notas iniciais
Minha primeiríssima Merthur... Espero que gostem e que comentem!

O veneno das garras de Haiagriva havia cegado Merlin e agora o deixava febril e paralisado. A batalha havia sido difícil, a criatura que se mostrara a princípio uma doce e gentil órfã, viajando em comitiva para a casa dos tios ao norte da Bretanha, se revelou como a rainha dos Rakshasa, e todo seu bando atacou o acampamento dos bravos guerreiros de Camelot.

Uther ofereceu seus homens para escoltarem a comitiva da suposta órfã para além das cidades baixas e Arthur foi comandando a guarda. Merlin, como era de se esperar os acompanhou e, despertado pela magia dos seres mitológicos, correu a dar o alerta para os guardas.

Os Rakshasas eram metamorfos e em combate revelavam suas verdadeiras formas: seres esguios, humanóides, com a pela rajada tal qual tigres, olhos completamente negros, unhas compridas que escondiam um veneno mortal e dentes afiados, prontos a dilacerar a carne de suas presas.

Os cavaleiros combatiam com bravura. Arthur nem tivera tempo de vestir sua armadura completamente, lutava apenas com a cota de malha, sem escudo, sem capacete. E justamente por isso se tornava o alvo mais fácil dentre os guerreiros.

Haiagriva notou a facilidade e preparou o ataque, expôs apenas duas de suas garras e saltou, como um felino, na direção do pescoço desprotegido do príncipe. Ela apenas não contava com a dedicação de Merlin a seu amo.

O rapaz franzino, agachado próximo a uma árvore, onde aproveitava a escuridão para conjurar feitiços que davam certa vantagem aos guerreiros, entreviu o momento em que a rainha saltou, e sem pensar no que fazia, jogou-se sobre Arthur, derrubando o príncipe e recebendo o golpe em seu lugar.

Em vez de acertar o pescoço de Arthur, as garras de Haiagriva cravaram o veneno nos olhos de Merlin, que urrou de dor. O príncipe de Camelot assistiu a cena como se esta acontecesse em câmera lenta e assim que percebeu que a Rakshasa mostrava os dentes afiados, pronta para abocanhar o jovem caído, saltou com a espada em punho e golpeou certeiro primeiro o pescoço fazendo a cabeça rolar longe e depois as mãos, que ainda continuavam fincadas no rosto de Merlin.

Com a morte da rainha, os outros membros da tribo simplesmente se transformaram em tigres e fugiram pela mata.

- Merlin! – Arthur gritou, apavorado, vendo o servo caído, o rosto ensaguentado. Retirou com cuidado as garras fincadas nas orbes. Os olhos antes tão azuis, agora estavam cobertos por sangue e por um líquido viscoso e negro.

Seus homens checaram os mortos e feridos e quando dois dos sobreviventes chegaram para remover Merlin, Arthur não deixou.

- Cuido disso pessoalmente. – ordenou sem dar chances para ser questionado, como se isso fosse acontecer. Ninguém, além de Merlin, questionava as ordens do loiro.

Seguindo sua intuição, Arthur colocou a cabeça e as mãos de Haiagriva enroladas numa capa, pendurou o embrulho em seu cavalo, e cavalgou com Merlin em seu colo até a casa de Gaius.

Manteve uma distância segura de seus homens, para que estes não vissem suas lágrimas ou ouvissem seus soluços. A dor que dilacerava seu peito era só sua e ele não queria ter que compartilhar com ninguém o quanto a imagem de Merlin ferido lhe machucava.

- Por favor! Por favor, agüente... – ele sussurrava, enquanto apertava o corpo do outro de encontro ao seu.

Notava preocupado o suor aumentar na testa do rapaz e começar a ensopar suas vestes. Sabia o que isso significava: febre. Merlin começou a convulsionar e seus membros endureciam vez ou outra.

Quando alcançou a casa do físico, entrou sem ao menos bater, assustando Gaius.

- O que houve? – o velho indagou, vendo Arthur coberto por sangue, colocar Merlin sobre a mesa central da casa simples.

- Haiagriva. Não era humana. Ela era uma...

- Uma Rakshasa. – completou Gaius – Reconheci pelo cheiro. Precisei pesquisar em alguns livros e quando descobri quem era ela, vocês já haviam partido. Me diga, meu senhor, o que atingiu os olhos de Merlin: as mãos ou os dentes?

- As mãos. Eu as cortei quando percebi que ela o morderia.

- Ótimo. Temos chance então. O veneno das garras é mortal, mas quando são feitos os seis furos: dos cinco dedos e da garra que eles escondem no pulso. Pelo que vejo foram apenas dois furos. Precisamos livrá-lo das vestes ensopadas.

E sem que Gaius falasse novamente, Arthur rasgou as roupas de Merlin com uma habilidade espantosa. O físico cobriu o corpo nu do mago com um lençol de algodão, pegou pedaços de pano, uma tigela de água e passou a limpar o suor do rapaz, bem como o sangue que cobria seu rosto quase infantil.

Arhur engolia em seco. Lutava consigo mesmo para não chorar diante de Gaius. Reuniu todas as forças que tinha e indagou:

- Qual o antídoto?

- Para o envenenamento é uma poção relativamente simples: galho de hibisco branco, baço de serpente aquática e um pouco de lodo marrom. Só precisamos mantê-lo vivo até amanhã, pois o antídoto precisa dormir no sereno.

Arthur balançou a cabeça. Retirou a tigela das mãos do feiticeiro e tomou o pano com que ele limpava o rapaz.

- Eu faço isso. Pode ir preparar o antídoto. Quanto antes começar, melhor. Teremos mais chances de salvá-lo.

Gaius sorriu, complacente. Deu as costas ao príncipe e foi até seus frascos checar os ingredientes. Respirou fundo e balançou a cabeça. Jamais vira Arthur tão perturbado. Nem mesmo da vez em que Merlin bebera veneno propositalmente para salvá-lo, logo que se conheceram, o jovem príncipe se abalou tanto.

Não queria imaginar o que aquilo significava, embora sua intuição, os anos e anos vividos, gritassem dentro dele exatamente o que ele queria negar existir.

- Gaius... – o príncipe chamou baixo.

- Sim, meu senhor?

- Os olhos dele... – a voz embargou – Alguma esperança de que eles... Eles voltem ao normal?

Gaius depositou os objetos sobre a mesa e se aproximou do príncipe, apertando-lhe os ombros num claro gesto de conforto.

- Receio que não, meu senhor.

Arthur desabou. Soluçou sentido, sem mais se importar em estar diante de outra pessoa. Não ver mais o azul dos olhos de Merlin todos os dias pela manhã, toda hora como um espelho que lhe mostrava as verdades de seu coração, como uma luz que lhe indicava o caminho certo a seguir seria uma tortura para ele.

- Não é possível, Gaius! Deve haver um meio. Eu não posso ficar sem... Ele não pode ficar cego.

- Só poderíamos fazer algo se tivéssemos como extrair o veneno da própria fonte, senhor. Como um antídoto para picada de cobras.

- Da fonte? Você quer dizer que teríamos que ter as garras da Rakshasa para produzir o antídoto?

- Exatamente!

Arthur não disse nada. Levantou-se e foi até suas coisas que continuavam jogadas à porta da casa. Pegou o embrulho e jogou sobre a bancada.

- Pois que seja. Aqui estão as garras da maldita. Faça o que for preciso, Gaius. Peça o que quiser como pagamento. Mas eu lhe imploro, salve os olhos de Merlin.

O físico abriu a boca, admirado tanto com as partes do corpo da criatura diante de si quanto com a atitude suplicante do herdeiro do trono. Balançou a cabeça afirmativamente e tratou de pegar uma das mãos de Haiagriva para extrair o veneno e produzir o antídoto.

Arthur voltou para o lado de Merlin e nem quando seu pai chegou ao local, exigindo que ele se retirasse e fosse descansar, deixando os cuidados de Merlin com Gaius e Gwenevere, ele obedeceu.

Discutiram fervorosamente e apenas quando Merlin começou a gemer pela febre que tomava conta de seu corpo, Gaius interferiu, pedindo que ou parassem de discutir ou se retirassem do local, afinal, havia um enfermo ali.

Na verdade o físico queria que Uther saísse o quanto antes. Sabia o que acontecia quando Merlin ficava doente. Seus poderes se manifestavam e isso seria sua sentença de morte, caso o veneno não se encarregasse disso.

- Não entendo sua dedicação a este garoto! – Uther foi categórico – Mas você já atingiu a maior idade. Se quer ficar, fique. Ao menos aceite uma refeição decente, tome um banho e descanse.

O rei de Camelot saiu da residência de Gaius resmungando qualquer coisa e proibindo todos do castelo que mencionassem a dedicação do príncipe a seu servo.

Arthur aceitou a idéia do pai e trocou de lugar com Gwenevere para se lavar, colocar uma roupa confortável e comer alguma coisa. Depois de se recompor voltou a seu posto no momento em que Gaius dizia à serva que precisaria sair para buscar um pouco mais de galhos de hibisco.

- Você pode ir também, Gwen. Morgana pode estar precisando de você. Já me sinto em condições novamente de cuidar de Merlin.

- Como queira, meu senhor. – ela respondeu e saiu do aposento.

- Eu não devo demorar mais que meia hora, meu príncipe.

- Não se preocupe. – ele respondeu sem tirar os olhos do corpo magro e suado do rapaz inconsciente.

Quando Gaius saiu e Arthur se viu sozinho com o servo, toda a tristeza que carregava no peito tornou a aflorar.

- Por que você sempre tem que fazer isso? Por que tem que se colocar na minha frente sempre que alguém me ameaça?

O corpo de Merlin estava agora completamente rígido. Parecia paralisado e apenas sua cabeça mexia de um lado para o outro, perturbado pela febre.

- Eu não valho tudo isso, Merlin. Você sempre diz que serei um grande rei, mas se você não estiver do meu lado... Eu não serei nada. Nada vai fazer sentido, nenhum reino, nenhuma coroa.

Merlin murmurou algumas palavras incompreensíveis e gemeu de dor. Parecia fazer força para mover os braços que não obedeciam a sua vontade. Arthur depositou o pano úmido dentro da tigela e acariciou o rosto do amigo, aproximando-se dele.

- Shiii... Não se agite. Poupe-se um pouco. Por favor.

- Ag... água... água... – Merlin conseguiu murmurar.

Arthur levantou num salto e tratou a servir água ao rapaz que bebeu apenas algumas gotas e as demais escorreram pelo pescoço e o peito. Ele estremeceu, dando a entender que tinha frio.

O jovem príncipe correu a buscar roupas no quarto de Merlin, vestiu-o com cuidado. Um cuidado além do normal. Acariciava seu rosto, murmurava palavras de conforto, afirmando que ele melhoraria.

- Custe o que custar... Eu só não... Eu não entendo, Merlin. Não entendo o que acontece em mim agora, mas me pensar sem você dói. Dói mais do que me imaginar sem a Gwen. Eu lhe disse há alguns dias que penso nela o tempo todo, mas é porque eu quero ter alguém em quem pensar além de você. Alguém com quem sonhar, além de você. Eu penso nela e imploro a todos os deuses de todos os povos, que faça com que meu coração dispare por ela e não por você. Porque eu sei que ela seria capaz de aceitar o meu amor. Coisa que para você seria impossível. Para qualquer um como nós seria impossível.

Arthur sorriu. Um sorriso amargo de quem tem o coração partido por sequer poder tentar ficar com a pessoa que ama. Ele pegou uma das mãos do jovem mago e apertou entre as suas.

- Eu posso fazer de conta que nada disso existe. Posso mentir pra Gwen, para o meu povo... Mas não quero mais mentir pra mim, Merlin. E não quero mentir para você, mesmo que só tenha coragem de lhe falar do que sinto sabendo que você não me ouve. Você já me deu mais do que eu podia esperar de qualquer um, e seria injusto da minha parte se te pedisse alguma coisa. Mas eu peço assim mesmo, Merlin, por favor, não morra. Não morra...

O rosto do jovem servo parecia agora completamente em paz. Sua respiração ficava mais calma, quase imperceptível. Arthur se aproximou ainda mais, temendo que o pior tivesse acontecido.

- Se você morrer, meu coração morre contigo. – ele disse num sussurro melancólico e, sem pensar no que fazia, selou seus lábios nos de Merlin.

A porta se abriu e Gaius entrou, parecendo entretido demais com os galhos de hibisco para ter percebido qualquer coisa. Arthur parecia perturbado e o físico apenas falou:

- Não se envergonhe, todos cochilamos uma vez ou outra. Consegui o que precisava. Se puder mantê-lo confortável até o amanhecer, conseguiremos reverter o veneno.

Na manhã seguinte, Gaius aplicou o antídoto e a febre começou a ceder, assim como o corpo do jovem começou a esboçar alguns movimentos, sempre acompanhados de dor e espasmos. Ao cair da noite ele ainda não havia voltado a si, mas apenas porque Gaius insistia em dar-lhe um sedativo até que tivessem preparado o antídoto para os ferimentos nos olhos.

A poção aplicada sobre as orbes feridas pareceu chamuscar. Arthur temia que Gaius tivesse errado alguma coisa e os olhos de Merlin fossem totalmente queimados. Mas aos poucos, a fumaça espiralada que subia do ferimento começou a retroceder e regenerar as células machucadas.

O rapaz começou a piscar, incomodado com a claridade. Quando divisou a figura de Gaius parado a sua frente, tentou se levantar. O físico apenas o empurrou de volta ao travesseiro.

- Arthur! Eu preciso saber como ele está! Ele foi atacado, aquela...

- Merlin! – Gaius falou com a voz levemente autoritária – Isso foi há quase uma semana.

- Ele está bem?

- Estaria melhor se não tivesse ficado de babá de um servo idiota que tem uma atração incomum por venenos. – a voz do príncipe soou bem humorada, saindo de trás de Gaius e ficando as vistas de Merlin, que sorriu aliviado.

Os dois ficaram se olhando por um tempo sem trocar palavra. Aqueles silêncios repletos de significados. Até que o rosto de Merlin ruborizou e ele baixou os olhos. Pela primeira vez, ele havia quebrado o contato.

Arthur pareceu também ter ficado embaraçado e, falando que agora que sabia que Merlin estava bem, iria para seus aposentos dormir por uns três dias seguidos.

O jovem mago ouviu os relatos de Gaius sobre o que havia lhe acontecido, falou da dedicação de Arthur, do antídoto, de como ele só havia voltado a enxergar porque o príncipe trouxera as mãos da Rakshasa como um troféu de guerra.

Arthur não o procurou por quase uma semana. Sabia que ele precisava recuperar as forças. Apenas numa manhã em que levantou mais cedo, disposto a sair para caçar, é que resolveu terminar com a “folga” de seu servo. Sentia falta da insolência de Merlin, da presença dele, atrapalhado e cuidadoso ao mesmo tempo.

- Vamos, Merlin. Já aproveitou suas férias tempo demais e... – as palavras ficaram suspensas assim que ele viu o rapaz de roupa trocada, botas de viagem e uma enorme mochila nas costas – Onde pensa que vai? Se ouviu alguém falar da caçada, pode deixar metade disso para trás. Vamos apenas atrás de um ou dois alces.

Merlin nada disse. Apenas o encarou com uma expressão levemente culpada.

- Você não vai na caçada. – Arthur falou mais uma vez – Onde você vai?

- Eu... Eu vou embora.

- O que quer dizer? Vai para a casa de sua mãe?

- Não. Ainda não sei para onde vou. Apenas vou...

- Por quê? Eu preciso de uma razão para deixar você ir.

Merlin abaixou a cabeça novamente. Não sabia o que responder. Tirou a mochila das costas e se deixou sentar numa cadeira, num gesto desolado.

- Eu ouvi você, Arthur. – ele disse, finalmente, depois de um longo suspiro.

A cor sumiu da face do príncipe, que logo balançou a cabeça e se fez de desentendido.

- Do que está falando, Merlin?

- Eu ouvi tudo o que disse, enquanto estava doente. E não adianta negar, eu sei o que é delírio e o que é real.

- E o que você ouviu?

- Suas comparações sobre mim e Gwen. E nem adianta fazer essa cara. Conheço todas as suas expressões, sei quando está disfarçando, sei quando está mentindo, sei quando está sofrendo. – a voz de Merlin alteou.

- Ok, está bem. Você me ouviu e agora acha que sou uma aberração. Alguém de quem você deve ficar longe. Eu não vou desrespeitar você, se é o que acha que vai acontecer.

- Eu não...

- Mas não precisa ir embora daqui só por isso. Se lhe incomoda saber... Saber sobre como eu me sinto, então posso pedir a meu pai que lhe designe outro cargo. Não precisará sequer me ver.

- Não é isso que eu quero!

- Esqueça o que eu disse. Estava abalado, Merlin. Você é meu melhor amigo, apenas isso. Fiquei dias acordado ao seu lado e...

- Pare com isso! – Merlin se levantou e segurou Arthur pelos ombros, fazendo o loiro o encarar – Pare de negar.

- Se eu não negar, você vai embora.

- Eu não vou embora porque você me ama, Arthur. Não é isso que me faz querer deixar Camelot.

- Então... eu não entendo...

- Vou embora porque você ama um Merlin que não existe. – ele disse, triste. – Vou embora porque se você me conhecer de verdade, não vai me amar.

- Do que está falando? Eu conheço você. Cada defeito, cada pequena estupidez, cada insolência...

Merlin parecia sufocado, os olhos cheios de lágrimas. Deu as costas ao príncipe e procurou dentro de si a verdade que precisava dizer há muito tempo.

- Se você souber a verdade sobre mim, Arthur, vai me odiar. Vai querer me ver morto. E eu prefiro ir embora agora, do que ficar sabendo que um dia isso tudo que você sente vai se transformar em ódio. Eu não posso continuar sabendo que você me odeia.

- Merlin! O que você... – ele fez o rapaz se virar e, encarando os olhos azuis, perguntou – Quem é você?

- Você me contou o seu maior segredo, meu senhor. Nada mais justo que eu lhe revele o meu.

E com um suspiro cansado e triste, os olhos de Merlin brilharam amarelo e as janelas se fecharam, as velas acenderam e alguns objetos começaram a rodar pela sala. O brilho sumiu e os objetos voltaram a seus lugares.

- Eu sou um mago, meu senhor.

As palavras saíram como se Merlin fosse um condenado admitindo sua culpa perante o carrasco. Ele esperava que Arthur dissesse alguma coisa, mas parecia que o príncipe estava atordoado demais para dizer qualquer palavra.

Merlin pegou novamente a mochila. Fez uma reverência e se dirigiu para porta.

- Sei que não sou mais digno de sua confiança, senhor, mas se puder lhe pedir que não me denuncie a seu pai... estou saindo agora e dou-lhe a minha palavra de que Camelot jamais me verá novamente.

- Parado, Merlin!

O mago fechou a porta e tornou a soltar a mochila ao chão. Sabia que corria esse risco quando decidira contar a verdade. Sabia que Arthur foi educado para odiar a magia e que por isso era de se esperar que ele fosse entregue para ser decapitado.

Não teve coragem de encarar o loiro e ficou fixando um ponto qualquer no chão, até que Arthur quebrou o silêncio:

- Eu já sabia.

- O quê?

- Eu já sabia que você era um mago, um feiticeiro. Não sou tão idiota como você disse que pareço ser, Merlin.

- Mas... Quem te... Como você...?

- Quantas vezes você já salvou minha vida? Árvores que caem do nada em cima de inimigos, flechas que desviam, cobras que se revelam de escudos mágicos, lanças que acertam monstros... Sempre quando você está por perto. Tenho ouvidos de caçador e qualquer sussurro perto de mim é fácil de identificar. Já ouvi seus feitiços várias vezes. E eu sei que foi você quem me guiou naquela caverna e me salvou das aranhas enviadas pela bruxa.

Merlin não sabia exatamente porque chorava. Mas pareceu tolice de sua parte acreditar que Arthur nunca perceberia.

- Então, por que nunca me desmascarou? Por que nunca me disse que já sabia?

- Não sou como meu pai, Merlin. Eu conheci você antes de conhecer a sua magia. E para mim, você é exatamente o moleque insolente e estúpido, que me faz ser quem eu sou. Quero ser um homem honrado não apenas por que isso é o certo, mas porque isso é o que você admira. Você salvou minha vida, Merlin, não me protegendo dos monstros e inimigos, mas me protegendo de mim mesmo e da minha arrogância.

Merlin não notou que enquanto Arthur falava, ele também se aproximava e quando foi perceber estavam a menos de um palmo de distância.

- Se você quiser ir embora, eu não vou impedir. Tampouco vou revelar seu segredo para outra pessoa. Mas não vá embora duvidando do meu amor.

Sem pensar no que estava fazendo, o jovem feiticeiro venceu a pouca distância entre os dois e beijou o príncipe. Alívio, paixão, saudade, tudo misturado num arroubo entre os dois. Arthur envolveu o corpo do outro com seus braços e o puxou para trás e quando foram andando, sem desgrudar os lábios, Merlin tropeçou na mochila que havia deixado ao chão e ambos caíram, ainda enroscados um nos braços do outro.

Gaius entrou na casa e viu os dois embolados no chão. Ergueu uma das sobrancelhas e comentou:

- Não vou entender vocês dois nunca. Quando um fica doente o outro quase morre junto, mas é só melhorar que se pegam no tapa? Jovens...

Os dois começaram a rir e saíram da casa, para a caçada. Merlin parecia mais feliz, mais leve. Não tinha mais que se esconder de Arthur. Agora, se precisasse esconder alguma coisa, seria com a ajuda dele. Ao lado dele. Um segredo compartilhado pelos dois.

Notas finais
Ok gente... tem só duas semanas que eu comecei a assistir Merlin. Só vi a primeira e alguns episódios da segunda temporada.
Então, se não fizer muito sentido, não me apedrejem... Nem mandem me queimar na fogueira...rs...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!