Era uma festa daquelas.

Oikawa não sabia bem como as coisas haviam chegado àquele ponto: havia acabado de chegar na festa e já estava rodeado de garotas que ele nunca havia visto antes, quase sem espaço para respirar. Ele estava começando a se sentir irritado e, após um tempo, que pareceu uma eternidade, resolveu sair da casa para tomar um pouco de ar fresco.

E lá estava ele.

Uma figura alta e esguia estava apoiada na cerca da casa, seus cabelos negros praticamente brilhando sob a luz do luar. Cara emburrada. Testa franzida. Olhos refletindo as estrelas.

Ele conhecia aquela figura muito bem e estava muito surpreso de encontrá-lo na mesma festa.

“Tobio-chan!”

O rapaz se virou e olhou para Oikawa, o pequeno choque inicial se dissipando rapidamente e tingindo as bochechas dele de rosa.

O mais velho atravessou o jardim lentamente, um sorriso enauseante estampado na cara e cantarolando uma música feliz. Ele queria fazer Kageyama se sentir desconfortável, irritado. Para sua surpresa, o outro levantador não ficou tenso como costumava ficar anos atrás. Ora, é claro, o que ele esperava? Os dois estavam na faculdade agora.

“Oikawa-san.” A saudação de Kageyama não deixava transparecer nenhuma emoção.

“Faz milênios que eu não te vejo, Tobio-chan, como você está?”

“Bem. Você?” O mais jovem voltou a se debruçar na cerca e a olhar para as estrelas.

“Nunca estive melhor.” Talvez não fosse inteiramente verdade, mas Oikawa realmente estava feliz com a vida no momento. Ele era um bom veterano, era popular e um dos melhores alunos da turma.

Era tudo o que ele poderia querer, certo?

Uma brisa gélida o arrancou de seus pensamentos e fez com que ele olhasse para seu kouhai. Apesar do bico e da testa franzida continuarem iguais, as feições de criança que acompanharam Kageyama durante sua adolescencia haviam sido deixadas para trás. Apesar da ausência de barba, o rosto do levantador parecia mais velho, mais marcante, mais bonito. Oikawa já havia aceitado seus sentimentos pelo jovem há tempos atrás, mas nunca teve nenhum sinal de que os sentimentos eram recíprocos.

“Então, Oikawa-san… o que você está fazendo aqui?”

A voz de Kageyama, um pouco mais grave do que quando eles haviam se falado pela última vez, pareceu aquecer o peito do levantador mais velho, que sorriu antes de responder.

“Vim pelo mesmo motivo que você: para encher a cara, óbvio!”

Kageyama lançou um olhar de incredulidade para ele. Isso, ele pensou, me apresente ao seu novo você. “Você realmente achava que eu teria outro motivo?”

O mais novo pareceu desapontado, antes de sorrir sarcasticamente e responder, olhando para o céu novamente “Não podia esperar algo diferente de você, não é mesmo? Você não mudou nada.

Decepção.

Era mesmo decepção.

Kageyama estava decepcionado com ele.

Sem saber como reagir, Oikawa apenas estalou a língua (“Tch.”) e se sentou com as costas apoiadas na cerca. Ele não podia negar, mas não podia aceitar que seu kouhai fizesse ele se sentir tão pequeno.

Era só o que faltava para derrubá-lo.

–----

“Sabe, eu admirava você.”

Kageyama não sabia como essas palavras escaparam de sua boca. Ele sempre escondeu o que realmente sentia, o que nunca teria coragem de falar, exceto que dessa vez ele havia falado.

E agora não conseguia mais parar.

“Eu queria ser como você, queria saber fazer o que você sabe fazer, queria ser tão bom no vôlei quanto você, queria ser o número um que nem você foi. E sabe, eu nunca consegui. Em nenhum momento eu fui metade do que você foi. Dei o meu melhor na Kitagawa Daiichi, igual a você, mas fui abandonado pelos meus companheiros de equipe no meio de uma partida. Eu fui para o banco. Conseguia sentir o vácuo que me separava dos meus companheiros. Achei que era melhor nunca mais confiar em ninguém. E depois eu vi as mesmas pessoas que me abandonaram sorrindo pra você. Eu fui abandonado pelo time que carregou você nas costas nas suas vitórias.”

As memórias continuavam vindo como tsunamis de amargor e tristeza, quase sufocando o levantador mais jovem.

O nó em sua garganta estava ficando cada vez mais apertado.

“E daí eu mudei. Pensei que mudando eu conseguiria passar você, mas você mesmo me mostrou que não, que eu ainda era ingênuo… e que você me conhecia muito bem.”

Ele sentiu seus olhos arderem.

“Mesmo assim, eu não deixei de admirar você. Nem o jeito que você saca, nem como você conseguia tirar o melhor de cada um dos jogadores do seu time. Você me ensinou algo que eu nunca poderia entender sozinho… e por isso serei eternamente grato.”

Mais memórias invadiram os pensamentos do garoto de cabelo preto, e ele sorriu de forma sincera, lembrando de todas as coisas boas que haviam acontecido enquanto ele esteve em Karasuno.

Bons tempos.

Aqueles realmente foram bons tempos.

“Eu não sei que tipo de Oikawa eu esperava encontrar. De verdade. Eu só não esperava que fosse o mesmo...”

As lágrimas escorriam silenciosamente pelo rosto de Kageyama, que as enxugava rapidamente com a manga de seu blusão.

“Porque, sabe, eu mudei. E eu esperava que você tivesse mudado também, para que eu pudesse continuar admirando você.”

Ele respirou fundo, sentindo o vento gelado arder em suas bochechas.

“Mas agora vejo que isso é impossível.”

–---

Oikawa não conseguia se mover. Ele estava na mesma posição há vários minutos e suas juntas — maldito joelho– estavam doendo muito. Ele olhava para um ponto fixo na grama, entre seus dois pés, deixando Tobio falar e lembrando de sua versão da história. Lembrando da raiva que sentia do outro. Lembrando de todas as vezes que pensou em arremessá-lo pra fora da quadra. Lembrando da vez em que ele quase agrediu o outro. Lembrando de se sentir vazio e desesperado, de treinar mais do que todo mundo, de perder namoradas e de quase destruir seu joelho, tudo porque não conseguia aceitar que o garoto um dia ia ser melhor que ele. Lembrando de como ele não sabia lidar com seus sentimentos.

E lá estava ele, a causa de todos esses problemas, dizendo que o admirava como se o próprio Oikawa fosse a melhor pessoa do universo.

Por deus, a causa de todos esses problemas estava chorando.

E era tudo culpa dele, por não entender a simples admiração de uma criança e se voltar contra ela.

E era tudo culpa dele, por não saber lidar com seus sentimentos e descontar da pior forma possível no outro garoto.

E era tudo culpa dele, e ele só estava descobrindo agora, mais de dez anos depois de tudo o que aconteceu.

E na verdade a causa de todos esses problemas era ele mesmo.

Oikawa riu.

Ele havia desejado que Kageyama mostrasse “seu novo eu”, mas em troca, ele aprendeu tudo sobre o “eu do passado”.

Que intrigante.

“Tobio-chan…”

“Chega disso, eu vou deixar você em paz, Oikawa-san.” Kageyama pegou seu celular do bolso e em questão de segundos estava falando com alguém.

“Oi, Shoyo. Eu sei que está meio tarde e que essa é a sua noite de joguinhos com o Kenma, mas você poderia vir me buscar? Eu bebi um pouco e não sei se consigo voltar sozin-”

Em questão de segundos, Oikawa estava em pé roubando o celular da mão do outro rapaz.

“Moshi moshi, Hinata-kun! Sei que isso tudo deve estar parecendo muito estranho pra você, mas eu vim de carro e posso levar o Tobio-chan… COMO ASSIM QUEM SOU EU? É O OIKAWA, BAAAKA! Enfim, não precisa se preocupar, eu o levo, são e salvo… Hai haaaai!”

“Oi, imbecil! O que você acha que está fazendo?!” o levantador mais novo recuperou seu celular após o outro rapaz finalizar a chamada.

“Ora, Tobio-chan, você não pode esperar que eu aceite tudo o que você acabou de me dizer sem que eu tenha direito de responder, não é?”

Seu humor estava um milhão de vezes melhor agora. Apesar de toda a tensão e de tudo o que haviam passado, Oikawa finalmente sabia como agir com o garoto.

Kageyama estava fazendo aquela cara. Aquela de desconfiado, aquela de quem não quer ouvir o que vai vir a seguir pois sabe que não vai gostar.

Aquela cara que Oikawa não resistiu e tirou a força.

Quando seus lábios encontraram o do outro rapaz, ele conseguiu sentir o arrepio e a surpresa, e depois as mãos em seu peito, empurrando-o para longe.

“O q-q-que diabos você pensa que está f-f-fazendo, imbecil?” O mais jovem estava corado até as orelhas, escondendo a boca com uma das mãos e indo pra trás, até tropeçar e cair de bunda.

“Estou dando motivos para você ficar e me ouvir. Já passou da hora de você saber de muitas coisas, ainda mais agora que você acabou de me contar tudo sobre você.”

Apesar da rispidez de suas palavras, a voz de Oikawa era suave.

Kageyama viu o outro estender a mão e se preparou para o impacto, fechando os olhos e se defendendo de um tapa que nunca veio. Ao invés disso, ele sentiu uma mão pousando suavemente em seu rosto e o calor do corpo do outro, que estava parado logo a sua frente.

Ele abriu os olhos e se deparou com um Oikawa que estava muito mais perto do que deveria, mas que não parecia hostil.

“Tobio, eu sempre vi você como um inimigo. Como alguém a ser superado, alguém que não deveria deixar me passar nunca. Eu reparava demais em você, na sua evolução, em tudo o que dizia respeito a você, e me convencia de que isso tudo era porque eu tinha medo de você. Mas, conforme o tempo foi passando, eu percebi que não era bem medo que eu sentia.”

A sinceridade nas palavras — e nos olhos — do mais velho era quase dolorosa.

“E eu não podia aceitar.“ Oikawa continuou, temendo que se parasse por muito tempo seu orgulho o impediria de continuar. “Como ia aceitar que estava querendo passar mais tempo com você se você era meu inimigo? Como poderia ensinar coisas a você enquanto estivesse enxergando-o com esses olhos? Como poderia me trair e fazer o bem pra você quando tinha medo de que você me ultrapassasse e me deixasse pra trás?”

Ajoelhado na frente de Kageyama, Oikawa puxou-o para si e o abraçou de forma gentil.

“Eu tive medo, mas não foi de você. Foi de deixar você seguir sem mim.”

Segundos pareciam séculos enquanto o silêncio dominava.

E então Tobio o abraçou de volta.

Você continua sendo um imbecil, Tooru-san.”

Os olhos de Oikawa se arregalaram e ele sentiu seu pulso acelerar. Era a primeira vez que seu kouhai o chamava pelo primeiro nome. Sua vontade era de apertar o outro em seus braços até perder o fôlego, mas ele se controlou e deu uma risada desconcertada.

“É, eu sei.”

Ficaram assim por algum tempo, se confortando e compartilhando calor, sem a necessidade de palavras, até que Oikawa se desvencilhou do jovem, que o fitou, confuso.

Agora ele estava em pé novamente, os joelhos de sua calça jeans cheios de terra e um sorriso idiota estampado em seu rosto. Ele esticou a mão.

“Vamos, Tobio-chan. Venha para a minha casa, nossa conversa ainda não terminou.”

E dessa vez o mais jovem aceitou sua mão.

–---

Hinata e Kenma estavam na partida de Super Smash Bros. mais acirrada da noite quando o telefone do mais novo começou a tocar freneticamente.

“Gomen, Kenma, mas é o Kageyama, preciso atender.”

O rapaz de feições felinas grunhiu e se jogou pra trás, deitando na cama de braços abertos com o controle ainda em uma das mãos.

“Moshi moshi? Kageyama?! NÃO ME CHAME DE SHOYO NA FRENTE DOS OUTROS, CÊ TA DOID- aconteceu alguma coisa?”

Kenma sentou na cama, tentando não prestar atenção na conversa do amigo e falhando miseravelmente.

“Eh?! QUEM DIABOS É VOCÊ? NÃO VAI RAPTAR O KAGEYAMA, ELE AINDA PRECISA PAGAR A METADE DELE DO ALUGUEL! Huh, Oikawa-san? Hm. É bom que você o traga inteiro. Tchau.”

Depois de colocar o celular para recarregar com um suspiro e de mandar uma mensagem para sabe-se quem, Hinata pegou o controle novamente e sentou-se ao lado de Kenma.

“Shoyo… O que houve?”

“Parece que o Kageyama vai demorar pra chegar em casa hoje.”

Notas finais
A parte mais legal é que o prompt da história era "Kageyama chamando Oikawa de Tooru pela primeira vez" e isso quase ficou de fora! :xObrigada por lerem! Por favor, deixem suas sugestões, críticas e pitacos nos comentários ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!