Verdade ou desafio
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem!
Alan Jones é um americano que, por acaso, se apaixonou por uma mulher brasileira e veio morar no Brasil. O feriado favorito de Alan sempre foi o halloween; as lanternas de abóbora sempre fizeram seus olhos brilharem. Por essa razão não foi surpresa para ninguém que seu primeiro “ato oficial” como síndico do condomínio tenha sido organizar um halloween bem americano: todas as casas foram decoradas com caldeirões de bruxa, esqueletos, gatos pretos que gritavam e, é claro, lanternas de abóbora.
Para as crianças haveria uma caça ao tesouro e um horário para pedir doces nas portas das casas com a companhia de monitores; os adultos teriam uma festa à fantasia com bebida e comida à vontade na beira da piscina e os adolescentes poderiam tanto pedir doces e participar das brincadeiras, como participar da festa dos adultos, mas é claro que eles tinham sua própria ideia de divertimento. Marcos, filho de Alan, já contava com uma pequena reserva alcóolica para a festa que ele e os amigos organizariam no salão de festa naquela noite, em algumas horas a decoração estaria completa, tudo o que faltava era espalhar a notícia da festa que aconteceria.
Rapidamente os organizadores da “pequena” festa se reuniram na pracinha que ficava no meio do condomínio e se dividiram em dois grupos, três para a esquerda e três para a direita, bateriam de porta em porta convidando os adolescentes conhecidos e desconhecidos para a festa.
Já eram praticaram 18:00 e ainda faltavam duas casas para o grupo de Marcos, a festa começaria às 21:00, então eles precisavam se apressar. Na última casa, ninguém atendeu ao interfone deixando Marcos angustiado. A casa era vizinha da casa que era dos Almeida, um casal de velhinhos que havia perdido a filha em um acidente de carro muitos anos antes e se enforcara na sala de estar. Ninguém conseguia ficar muito tempo perto da casa, menos ainda morar nela, por isso, o dono do condomínio iria mandar demoli-la assim que o outro ano começasse.
— Oi? – disse uma voz feminina logo ao lado de Marcos, fazendo seu coração pular com o suste
— Você mora aqui? – perguntou Marcos apontando para a casa
— Sim. Me chamo Clara. – respondeu a menina
— Marcos.
Ele precisou levantar um pouco a cabeça para olhar Clara nos olhos, ela era mais alta que ele e parecia ser uma modelo com aquele cabelo volumoso e crespo, a pele era escura e ele não conseguiu distinguir sua íris da pupila, por mais que tenha gastado alguns segundos nessa tarefa.
— Hoje às 21:00 vai rolar uma festa com os menores de 21 do condomínio lá no salão de festas. Aparece por lá. – falou Marcos ainda olhando para os olhos de Clara
— É a fantasia?
— Sim.
— Perfeito. – disse Clara sorrindo e mostrando um sorriso com pequenas presas que se destacavam
— Te vejo lá então? – perguntou Marcos sorrindo de volta
— Com certeza! – respondeu a menina acenando para ele
Ás 21:00 em ponto, Clara estava chegando ao salão com sua fantasia de pirata. Ninguém tinha chegado ainda e ela estava começando a se sentir nervosa, mas não pretendia ir embora antes de ver Marcos mais uma vez. Ele era uma graça e parecia totalmente interessado nela. Sendo assim, ela se sentou em uma banqueta do balcão e esperou. Já estava quase desistindo quando viu uma menina se aproximando. Ela usava uma peruca loira e estava vestida de enfermeira. Sendo as únicas no salão, não foi nenhuma surpresa que tenham começado a conversar.
Ei, tudo bem? Você mora aqui no condomínio? Sou a Alice. — disse a “loira” com um sorriso no rosto Oi. Sou a Clara. — respondeu Clara aliviada — Na verdade não, aproveitei o fim de semana e vim visitar os meus pais.— Nossa, que horas você chegou aqui, Clara? — perguntou Alice
— Ás 21:00. Não era o horário da festa?
— Então… Nós marcamos às nove na esperança de que a galera chegasse pelo menos antes da meia-noite.
— Acho que o problema sou eu. Sou mais pontual do que devia.
— Isso não deveria ser um problema. — riu Alice — Quer beber alguma coisa?
— Não, obrigada. Eu não bebo. — respondeu Clara com um sorriso no rosto
— Sorte a sua.
— Alice, você conhece o Marcos?
— Aham. Todo mundo conhece, na verdade. Ele é o filho do síndico e a pessoa que organizou essa festinha.
— Foi ele que me convidou.
— Bom, se você quiser se encontrar com ele, vai ter que esperar um bocado. O Marcos chega no mínimo duas horas atrasado em tudo o que ele vai.
— Mas não foi ele que organizou isso aqui?
— Ele chega atrasado principalmente nas festas que ele organiza. Até quando a festa é na casa dele. Chega a ser ridículo. — disse Alice revirando os olhos
Pouco a pouco mais gente foi aparecendo, mas logo indo embora. Por mais que alguns deles já fossem maiores de 18 anos, ainda tinham que obedecer o toque de recolher que os pais impunham. Assim, quando Marcos chegou, às 23:00, haviam pouco menos de dez pessoas. O som já estava desligado e o DJ também tinha ido embora. O que restou foi um bando de adolescentes bêbados e entediados. A melhor parte de qualquer festa para Marcos.
— Tomem seus lugares, senhoras e senhores, vamos jogar verdade ou desafio. — disse Marcos
Todos voltaram sua atenção para ele. Estavam bêbados e não tinham nada melhor para fazer, então, por que não entrar na brincadeira? Logo se sentaram em um círculo e Marcos rodou a garrafa. Eles já tinham jogado aquilo tantas e tantas vezes que a maior parte das “verdades” já havia sido exposta, sendo assim, sobrava apenas o melhor, os desafios.
No início os desafios foram tímidos, mas logo, eles evoluíram para beijos, virar bebida e tirar peças de roupa. Assim que a tampa da garrafa apontou para Alice e o fundo para Clara, Alice não conseguiu conter o sorriso. Ela sabia que Clara tinha ido na festa só para ver Marcos e isso significava que ela estava interessada nele. Só pelo jeito que um olhava para o outro, dava para ver que era recíproco, eles só precisavam de um empurrãozinho.
— Verdade ou desafio, Clara? — perguntou Alice esfregando as mãos
—Desafio. — respondeu a garota olhando para Marcos
— Eu desafio você a ir com o Marcos até a casa abandonada e ficar 30 minutos lá dentro.
— Tudo bem.
— Tudo bem pra mim também. — disse Marcos se levantando — Vamos lá?
— Claro. — disse Clara sorrindo
O salão de festas e a casa ficavam em lugares opostos do condomínio, isso daria a Marcos o tempo necessário para conhecer Clara melhor e, quem sabe, tentar a sorte quando eles chegassem na casa. Ele sabia as intenções de Alice e não iriam decepcionar a amiga.
— Sabe, Clara, você é muito bonita. — começou Marcos — Você é essa beleza diferente, sabe?
— Nossa, obrigada!
— Se você não tiver nada para fazer, a gente podia sair amanhã para conversar, ver um filme. Eu realmente queria te conhecer melhor.
— Parece uma ótima ideia. — ela disse apertando o braço de Marcos de leve e sorrindo
Eles andaram mais um pouco em silêncio até chegar na casa. A porta ficava sempre aberta, então não foi difícil entrar. Marcos colocou um alarme no celular marcando os trinta minutos e eles se sentaram lado a lado no sofá. A mobília dos últimos moradores ainda estava na casa, completamente coberta por lençóis para não pegar poeira.
— Marcos…
— Oi. — respondeu Marcos
— Tem alguma coisa segurando a minha perna. — disse Clara com os olhos arregalados
— Aham. Tá bom, Clara. Foi a Alice que te disse para fazer isso?
Antes que ela pudesse responder, alguma coisa a arrastou pela perna em direção a escuridão, deixando Marcos sozinho e sem acreditar no que seus olhos acabaram de ver. Ele foi em direção a porta da sala, mas a porta estava emperrada. Iluminou a cozinha por alto, mas Clara não parecia estar lá, então foi para o andar de cima. Com a casa sendo iluminada apenas pela lanterna do celular, tudo parecia mais assustador, até um rato fazia uma sombra enorme e sinistra.
Quando Marcos estava olhando o último quarto, o seu celular despertou, fazendo com que ele levasse um susto e jogasse o aparelho no chão. Com o coração acelerado, e a tela do celular quebrada, Marcos voltou para o andar de baixo e decidiu olhar na cozinha direito. E era exatamente onde Clara estava. Ele a encontrou atrás da porta, sentada no chão e virada para a parede, parecia completamente assustada.
— Clara, tudo bem? Quando você sumiu eu fiquei.... — Marcos perdeu as palavras assim que Clara se virou para ele e foi iluminada pela lanterna do celular — O que aconteceu com você?
Os lábios carnudos e bonitos que chamaram a atenção de Marcos da primeira vez que eles se encontraram, estavam escuros, quase pretos, assim como alguns dos dentes. Clara tinha uma aparência grotesca. Parte da carne do rosto estava se desfazendo e toda a pele era arroxeada. O cheiro de carne podre que tomou toda a sala, fez Marcos se virar e vomitar, ele não conseguia respirar ali. Quando ela se levantou, seu intestino e alguns de seus órgãos internos caíram. Envergonhada, se virou de costas para Marcos e os arrancou com as mãos. Ele ouviu o som úmido de quando eles bateram no chão.
— Desculpa, Marcos, isso acontece às vezes. Mas tudo bem, não é? Eu estou em casa e você disse que queria me conhecer melhor. Bom, aqui estou eu. — disse Clara abrindo os braços com um sorriso nervoso
— O que aconteceu com você? — perguntou o menino
— Eu morri.
— Como? Quando?
— Eu sofri um acidente de carro, estava sentada no meio, atrás, quando meu pai perdeu o controle e bateu em uma árvore. A velocidade do carro era tão alta que, com o impacto, o cinto de segurança rompeu a minha barriga.
— E como você está aqui?
— Meus pais fizeram alguns rituais para me trazer de volta, mas eu comecei a morrer de novo, então eles deram as próprias vidas para que eu tivesse um dia por ano de normalidade. Mas, sabe, eu quero mais.
Marcos correu para a porta da sala, mas a porta ainda estava emperrada, a janela também. Ele subiu as escadas e tentou a janela de um dos quartos, travada também. Antes que pudesse sair do quarto, Clara já havia entrado e fechado a porta atrás de si. Ali, com um pouco da iluminação externa entrando, ele podia vê-la melhor e era ainda pior que no primeiro momento. A maior parte do cabelo tinha caído e, no couro cabeludo, ele pode ver que alguma coisa se mexia, talvez larvas.
— Eu gostei tanto de jogar verdade ou desafio com você, Marcos. — disse Clara com um sorriso enorme, o cheiro de podridão que saia de sua boca, fazia com que Marcos quisesse vomitar de novo — O que você acha de jogarmos?
— Eu não quero jogar, Clara. — respondeu o menino se afastando — Eu só quero sair daqui, por favor.
— Então vamos deixar a garrafa decidir. — falou Clara pegando uma garrafa vazia do chão
— O que você quer dizer?
— Vamos rodar a garrafa. Se a ponta apontar para você, você pode me ordenar a fazer qualquer coisa que eu serei obrigada a cumprir…
— E se a ponta virar para você?
— Então você vai ser obrigado a fazer o que eu quiser. Parece justo, não é?
Marcos analisou as possibilidades que tinha. Obviamente Clara não era humana. Ela estava literalmente caindo aos pedaços. Todas as vezes que tentou fugir, as portas se fecharam e ele não conseguia abri-las. Ele poderia esperar o sol nascer, mas ainda faltava muito tempo. Não lhe parecia que havia muita escolha além de tentar a sorte. Perdido em seus pensamentos, Marcos não viu Clara se aproximando, apenas se deu conta quando ela entrelaçou os dedos nos seus e ele sentiu a carne amolecida se desfazer com o aperto. Seu estômago revirou.
— E então, Marcos?
— Vamos jogar.
— Fique confortável então. — ela respondeu sorrindo mais uma vez
— Mas eu rodo a garrafa.
— A honra é sua.
Eles se sentaram de frente um para o outro e Marcos pegou a garrafa. Clara era linda, da primeira vez que a viu, além de ser simpática e meiga, talvez? Era uma pena que tenha morrido tão nova e de forma tão brutal. Por um instante, ele imaginou como seria se todos os anos, eles passessem o dia de normalidade de Clara juntos. Poderiam ir a parque de diversões, festas, coisas que Clara nunca tinha tido a oportunidade de fazer. Mas então, Marcos olhou para frente e repensou sua ideia. Não era só sua aparência, era o que ela não era. Ela não era uma pessoa mais. Seu lugar não era ali.
Com isso em mente, ele rodou a garrafa. Foram segundos de tortura até a garrafa parar com a ponta virada para o vazio. A garrafa rodou mais uma vez e mais uma vez não apontou para lugar nenhum. Isso se repetiu de novo e de novo e de novo… Até parar como deveria. O único problema era que a garrafa apontava para Clara.
Verdade ou desafio?
Não! — gritou Marcos empurrando-a de volta ao chão
Logo em seguida, Marcos correu na direção da escada. Desceu os degraus tropeçando e escorregando. Mas não caiu, ele se recusava a cair na escada e morrer assim. Quando chegou na cozinha e tentou a única porta que ainda não tinha tentado, a porta se abriu. Entretanto, ele não tinha sido rápido o suficiente.
Verdade ou desafio, Marcos? — disse Clara escorada no batente da porta que dava para a sala
Nenhum dos dois. — ele respondeu com os dentes trincados
Eu te desafio a morrer para que eu possa viver um pouco mais.
Marcos já estava quase na porta, mas seus pés não lhe obedeciam. Seu corpo se virou e foi em direção a sala, mas ele não queria fazer aquilo. De seus lábios não saia nenhum som, mesmo que por dentro ele gritasse. Tudo aconteceu lentamente. Clara se sentou no chão e observava cada movimento em silêncio. Primeiro, Marcos pegou uma cadeira da cozinha e a colocou embaixo do ventilador da sala; depois, com os lençóis que cobriam a mobília, ele fez uma corda e a amarrou cuidadosamente no ventilador. Por fim, subiu na cadeira, amarrou a corda no pescoço e empurrou a cadeira. Ele nem se debateu. Lentamente seu rosto foi ficando roxo e os olhos ficando vermelhos.
Quando todos os movimentos cessaram, Clara olhou para os braços e tocou a barriga com a ponta dos dedos; tudo estava no lugar. Respirou fundo com os olhos fechados algumas vezes e sorriu. Brincar de verdade ou desafio acabara sendo melhor do que esperava. Ela respirou fundo, andou até a varanda da frente da casa e começou a gritar por ajuda como se estivesse completamente assustada e desesperada. Marcos já estava além de qualquer ajuda, mas alguém precisaria lidar com o corpo e certamente não seria ela.
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