Verdade ou desafio.

13 O capítulo mais sem sentido


[...]

Se apaixonar é algo perigoso, não se engane.

Kageyama que diga.

Ele bolava em meio às cobertas gordinhas e quentes; seu sono não havia chegado, a ansiedade o consumia e seu celular, que vibrava em cima do criado mudo, o impedia de dormir. O aparelho lhe tentava a logar suas redes sociais e checar se Shoyo havia entrado em seus perfis. Tobio sentia a necessidade de fuçar as besteiras compartilhadas, os horários que ele havia estado online e, se possível, se havia marcado alguém em alguma coisa ou vice versa.

Céus, ele estava prestes a arrancar os cabelos da cabeça de tanta inquietação.

“Como uma pessoa de apenas um e sessenta e quatro de altura conseguia fazer tanto estrago?” Questionava-se.

Quando finalmente o levantador estressou-se de vez e abriu os olhos para mirar o teto, – embora ele, necessariamente, não tenha o enxergado por conta da escuridão – notou o quão seu peito estava irregular. Subia e descia, dava pulinhos e pressões incômodas que já ficavam doloridas. As pontas de seus dedos estavam geladas, parecia até que seu coração não bombeava o sangue até ali.

“Diabos”. Mentalmente xingou.

Kageyama apertou a coberta entre seus dedos longos e forçou-se a fechar os luzeiros. Assim que os fechou, sua mente descarada, diga-se de passagem, o traiu da pior maneira possível. A lembrança do beijo que acidentalmente – se assim podemos dizer – ocorreu, estava cravada a fogo e a ferro em sua mente de tão vívida. Tobio sentiu o rubor tomar-lhe conta da face e a vergonha lhe preencher com uma estranha facilidade.

Oras! Jamais que Kageyama Tobio ficaria corado com facilidade, mas, quando se tratava de Hinata Shoyo, este fato se alterava e tomava proporções que Kageyama não poderia calcular.

Olhou, mais uma vez, para seu aparelho e tomou nas mãos. Depressa desenhou sua senha padrão e vasculhou suas redes sociais atrás de quaisquer resquícios de Hinata. Este, que havia saído de seu whatsapp há quase cinco minutos.

Kageyama estranhou, pois, o ruivo sempre foi de dormir cedo, e já passavam das duas da manhã.

Movido pelo próprio instinto, Tobio achou que seria uma boa ideia mandar uma mensagem. Seus dedos nervosos passaram a digitar e se não fosse pelo corretor automático, Hinata jamais entenderia o que o levantador havia digitado, pois, havia errado quase todas as palavras.

Kageyama: Está acordado?

Assim que a mensagem foi enviada, as setinhas ficaram duplas e azuis. Tobio engoliu a seco e mirou o visto de Hinata: Online.

“Muita emoção para pouco coração”. Concluiu.

Seu peito pulou e bateu de um jeito descontrolado, parecia que poderia enfartar a qualquer momento. Entrementes, seu nervosismo logo veio a tornar-se irritação pela demora por uma resposta – que em verdades, essa “demora” não durou mais que alguns segundos.

Hinata: Sim. Estou sem sono.

Kageyama: Hm. Eu também.

Tobio sentiu-se idiota. Havia chamado Hinata para conversar e, ao mesmo tempo, tinha ficado sem assunto.

Grande cabeça de vento! – afrontou-se.

Kageyama: Naquele dia... Eu não queria ter saído daquela forma.

Foi tudo o que conseguiu dizer, mas, o arrependimento não demorou a chegar. Passou uma das palmas no rosto e xingou-se das piores formas possíveis e impossíveis.

Hinata: Tudo bem, eu meio que acho que forcei a barra.

Tobio ergueu uma de suas sobrancelhas, em seus pensamentos afirmava com convicção que “não foi bem assim que aconteceu”.

Kageyama: Relaxa, acho que eu acabei indo na onda, de qualquer onde.

Kageyama: *Forma.

Kageyama: Corretor filho da puta.

As bochechas do levantador vieram a ficar róseas mais uma vez. Ele deitou-se de barriga para baixo e dobrou os joelhos, balançou os pés, agora mais calmo, na espera de uma resposta.

Hinata: Você não ficou bravo, né?

Kageyama: Com um pouco de vergonha, talvez.

Kageyama: Acho que bravo seria um exagero.

Hinata: Ué.

Hinata: O fato de eu respirar te irrita, demônio.

Kageyama: ._. seu cu

Hinata: Também ._.

Kageyama: Seu cu respira? ._.

Hinata: Pelo amor de Deus, o que as pessoas colocam no teu leite?

Um largo sorriso adornara os lábios de Tobio. Em outros momentos e ocasiões, ele ficaria bravo, chamaria Hinata de idiota e sairia a passos duros. Entretanto, naquele instante, ele sentiu-se bem. De uma forma torta, Kageyama sentira saudade das conversas sem sentido algum durante o dia, sentira falta das ligações e chamadas por vídeo logo cedo da manhã.

Sentiu-se, com a ausência de Shoyo, de uma maneira geral, incompleto. Como se Hinata tivesse – e tinha – ocupado um grande espaço em sua vida.

Kageyama, desta vez, estava disposto a conversar com Hinata sobre o ocorrido. Ele havia buscado conversar com outras pessoas mais velhas, que ele julgou serem de confiança para que assim, ele pudesse ter uma visão ampla do acontecido.

Kageyama: A gente pode conversar sobre o que aconteceu?

Hinata: Acho que não tem muito que conversar, apenas aconteceu e pronto.

Aquela mensagem com toda certeza do mundo teria o irritado. Ele respirou fundo em busca de ar para seus pulmões, e também buscou pela calma. Se ele queria resolver de vez aquela desavença, não poderia perder a cabeça. Por isso, repetia como se fosse um mantra, “mantenha a calma, Tobio”.

Kageyama: Hm.

Hinata: Odeio quando você manda “hm”...

Hinata: É irritante. Manda emoji do dedo do meio, mas não manda “hm”.

Aquela sequência de mensagens provocou-lhe um soltar de ar risonho e, consequentemente, acabou dissipando sua raiva.

Kageyama: Hm.

Kageyama: Hm.

Kageyama: Hm.

Hinata: Morra.

Kageyama: Eu quero conversar sobre o que aconteceu.

Hinata: Okay, o que você quer saber/

Hinata: *?

Kageyama: Porque a gente se beijou?

Hinata, que estava embaixo de seu edredom, sentiu o rosto ferver. Escondeu o mesmo com uma das palmas e chacoalhou a cabeça. Como ele poderia dizer, da melhor maneira possível, que simplesmente se vira tentado a beijá-lo?

Céus, é muito embaraçoso falar isso a alguém, principalmente se fosse para um garoto. E, para piorar, ficava ainda mais estranho se esse garoto fosse Kageyama; o cara mais pavio curto de toda a Karasuno, que sempre ostentava uma puta carranca na cara e um sorriso completamente tenebroso.

Deus, somente em pensar que ele poderia arrancar sua linda cabecinha para fora do corpo...

Hinata: Só aconteceu, já falei.

Kageyama: Isso não é uma resposta descente, idiota.

Hinata: Acho que foi impulso meu, não sei direito o que aconteceu. Quando vi, já tava lá ué.

Kageyama: Faz sentido.

Hinata: Mais alguma coisa?

Kageyama: Foi bom?

Aquele foi seu xeque mate.

Se antes Hinata estava envergonhado, agora então, nem se fala. Seu coração começou a bater desenfreado e sua garganta secou – e talvez tivesse fechado. Ele engoliu a seco e levantou-se.

Água, ele precisava de água para poder se acalmar, ou então surtaria e acordaria toda sua família.

Ele esticou o braço apanhou uma garrafinha que havia deixado no criado mudo, apertou o plástico nas laterais, este, que esguichou água, satisfez sua cede e, de certa forma, acalmou as palpitações exasperadas em seu corpo.

Shoyo voltou sua atenção para o celular em sua mão.

Hinata: Que raios de pergunta é essa, Kageyama?

Kageyama: O nome já diz tudo. Uma pergunta.

Hinata: Muito explicativo. Obrigado.

Kageyama: Por nada.

Kageyama: Agora responda, foi bom ou não foi?

Hinata: Caralho, mano.

Hinata: Se eu não responder você vai dar um jeito de eu falar, né?

Kageyama: Você me conhece tão bem, fico até admirado.

Hinata: Ok.

Hinata: Eu gostei. Satisfeito?

Uma sensação surreal acometeu o peito de Kageyama junto a um sorriso largo. Seu coração estava gelando ao mesmo tempo em que incendiava. Seus dedos suavam e suas bochechas já doíam de tanto que ele estava sorrindo diante daquela afirmação. Seu coração dava pulinhos e seu sistema límbico pulsava de tantas emoções em conjunto para serem processadas.

Mordeu o lábio inferior para conter a empolgação e aquele maldito bater de asas em seu estômago.

Kageyama: Ficou pensando no beijo, nesses últimos dias?

Hinata: Não está querendo saber demais?

Hinata já estava ficando da cor de seus cabelos. Ah, mas quando visse Tobio na rua! O faria pagar uns dez sorvetes, apenas para compensar todo aquele constrangimento.

Kageyama: Talvez.

Hinata: Pensei.

Kageyama: Então, você gostaria de repetir?

Hinata sentiu uma avalanche de conturbação soterrar seus átomos, e veio a travar, mas em seguida, tomou forças para continuar o diálogo.

Hinata: O que você quer de mim?

Kageyama: Só responde...

Hinata: Eu não vou responder isso.

Kageyama: Então é um sim.

Hinata: Eu não falei nada, como pode ter tanta certeza?

Kageyama: Você não sabe mentir. Se a resposta fosse “não”, você teria, pelo menos, gritado e acordado metade da rua. Mas, como não fez isso, coisa que eu tenho total certeza, a resposta é um sim.

O coração do rubro bateu desembestado. O levantador havia acertado em cheio na ferida; Hinata resfolegou atrás do oxigênio que se tornava faltoso e traidor.

Hinata: Vai se foder, Kageyama.

Kageyama: Eu não ._.

Hinata: Você me deixou com vergonha agora, vou passar mais uma semana sem falar com você.

Kageyama: Pra que isso?

Hinata: Porque sim. É melhor esquecer que isso aconteceu.

Kageyama: Não penso assim.

Kageyama: Se foi bom, qual o problema?

Hinata: Você andou falando com o Suga, não é?

Kageyama: ... Talvez.

Hinata: Sabia. Você está muito “dobrável”.

Kageyama riu, ambos começaram a fugir do assunto foco, de modo que a conversa fluísse sem mais constrangimentos; logo, debatiam sobre a existência de aliens e como seria bastante incrível se ambas as raças dividissem o planeta.

[...]

O sol se punha ao longo ermo do céu, que se tornava escuro. O vento gélido da estação golpeava o corpo encoberto por grossos tecidos de Haiba, que respirou profundamente pela vigésima vez naquele fim de tarde.

Com os batimentos no peito desregulados, ele ensaiava suas palavras com cautela; tinha como intuito de remover aquele ar pesado que tanto maltratava seu coração, que já estava cansado.

Lev sempre fora de mais ações que palavras, odiava mentiras, e prezava pela sinceridade acima dos fatores. Nunca teve bom domínio da expressividade oral, mas tinha que impor-se de forma reverente aos últimos acontecimentos.

Ainda que julgasse, em grande parte, suas atitudes como egoístas, ele não poderia se deixar fraquejar, ou deixar aquele efêmero sentimento atrapalhar uma longa amizade.

Não por ele, mas por Yaku.

Tocou a campainha com seus dedos encobertos pela luva de couro, que havia ganhado deu seu tio que morava em Moscou, e mirou o céu, na vã expectativa de que uma mão gigante o tirasse dali; mão essa que não apareceu, é óbvio. Sua garganta secou amargamente e seu corpo embalou-se numa tensão incessante.

O destravar da porta, e o abrir desta, interrompeu seus lamentos como um súbito aviso de que aquela era à hora; Haiba, meio desconcertado e mais para lá do que para cá, respirou fundo. Veio a fechar seus olhos segundos depois e rezou para que seu timbre não falhasse. Não podia.

Não ali. Não agora. Não quando estava prestes a pôr as coisas em linha, finalmente.

— Lev? — a expressão confusa preencheu as feições de Morisuke, que sorriu sem jeito; estava, de um todo, surpreso pela aparição repentina do comparsa Ambos alçaram os olhos e o silencio perpetuou-se por alguns instantes, que foram contados no pensamento apressado do russo.

— Oi — essa era a voz nervosa de Lev que se acomodou na corrente de ar frio que os acometeu naquele instante. — “Eu sei que é estranho eu bater na sua porta assim, de repente. — ele fitou o chão — Mas é que tem algo entranhado no meu peito que eu não consigo tirar; não importa quanto forte eu bata na bola quando estou em quadra ou quantas vezes eu soque a parede do meu quarto, e machuque meus punhos, a sensação não morre.

Eu sei, — continuou nervoso e esboçou um riso carregado de timidez — Você deve estar assustado, afinal, está quase escurecendo, e você deve querer ficar sozinho, assistir seu filme e ficar despreocupado, mas eu precisava vir aqui. Nem que fosse pra falar que você me deixa fora de linha, mesmo que eu não reconheça o motivo; não reconheço, pois é tão difícil falar que “eu estou apaixonado por um garoto, que tem um sorriso lindo. O mais lindo que eu já vi”. E eu te prometo que vou melhorar, por você. Prometo que irei tentar com todas as minhas forças sufocar todo esse sentimento que se acomodou entre nós dois. E eu peço perdão por tê-lo deixado enraizar em meu peito.

Seus orbes vagaram por algum ponto que decorava a cena, mas, as frases e misturas de orações não pararam:

Queria dizer, que odeio quando sua voz fica dócil com outra pessoa;

odeio quanto teus braços envolvem outro corpo que não seja o meu;

detesto quando divide tua atenção entre outros e eu;

sinto ciúme;

sinto necessidade de cuidar de ti mais do que qualquer coisa;

que fico nervoso que nem idiota quando você fala comigo, ou quando me lança aquele sorriso magnífico;

que eu queria ser o motivo do teu bem estar pela manhã. Eu tinha dizer, tinha que ser sincero, afinal, somos amigos acima de tudo, certo? Você fazer meu coração bater rápido é estranho, né?

Seus dedos correram pela nuca adornada de fios lisos e platinados.

Pode até ser que eu seja um ser humano falho, ou um maluco, como preferir, pode falar, eu deixo. Pode ser, que eu tenha me machucado com de todos os gritos, embora muitos deles fossem merecidos. Todas as tapas; todas as patadas e respostas ásperas escassas de sensatez. E é isso. Chateio-me, porque dói, entende? Esperar que você me abrace, ou que fale que se importe e receber a realidade não é fácil — seus olhos finalmente se focaram na confusão no rosto de Yaku, que cruzou os braços e escorou-se no vão da porta. — Dói soterrar um sentimento que o tempo todo ressurge feito lava; dói lutar, porque ele queima, e por mais que eu procure a fenda que ele tanto arrebenta, para poder curar o problema de vez, eu não encontro. Não enxergo. Sinto-me incapaz e sem forças para combatê-lo.

O desespero, gradativamente cravava em sua alma sem autorização.

Eu almejo, todos os dias da minha vida, estar aqui contigo, dividir um balde de pipoca e te ouvir reclamar por eu ter pego o copo maior do refrigerante; o desejo machuca. E eu me escondo de você por meio de barreiras de defesas que eu não sei desatar, mas parece que você faz questão de invadir e, de propagar no meu silencio, o tom da tua voz. — Haiba respirou fundo, sentira o peso das lágrimas bem presas e engoliu o amontoado de coisas que se situavam na cartilagem de sua traquéia.

Eu estou aqui, como um homem em pé de guerra consigo mesmo, conflituoso que só, mas quero que saiba, que me importo, que gosto de você e que talvez essa confusão toda não passe de uma paixão boba que me deixa incapaz de ir a luta, e que agora, eu desejo voltar no tempo, só pra me impedir de ter falado tudo isso, embora eu me orgulhe de estar enfrentando meu próprio eu, nem que seja um pouco. Sabe por quê? O mundo é cruel, o destino também, não importa o que a gente planeja, eles jogam na cara algo completamente diferente.

Eu, não esperava gostar de você. Não esperava que nossa amizade tomasse essas proporções. Mas, Yaku Morisuke, eu só queria que soubesse que sou doente e um louco. Louco por você? Talvez. — Lev riu, novamente, carregado de amargura diante de todo aquele conflito — Eu sou capaz de qualquer coisa só pra poder te ver sorrir. Fazer validar minhas palavras, para que elas deixem de ser apenas uma enxurrada de timbres variados. E eu espero, que num futuro não tão distante, eu possa ter forças para segurar tudo isso e te entregar tudo que você realmente merece, mesmo com o medo da rejeição”.

De fato, eram tantas as palavras bonitas e bem escolhidas para pôr para fora, que Haiba não conseguiu dizer uma que fosse. Dentre tantas opções, ele escolhera a pior; o silencio.

Simplesmente, porque seu medo é maior do que seu ser.

— Lev, você está bem? — diante do silencio e das expressões doloridas do amigo, Yaku decidiu requisitá-lo de seu mártir.

— Sim. Está tudo bem — miseravelmente mentiu, e deixou assim, embora soubesse que mesmo que Morisuke não tivesse questionado, ele sabia que não estava bem; logo, veio a lhe ceder entrada a sua casa e o conforto de sua companhia.

Depois que se acomodaram no sofá, passaram a discutir sobre qual time de basquete era o melhor.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.