Verdade ou desafio.

11 Como destruir um casal


Tsukishima tinha suas manias, suas defesas.

Tinha seu jeito de dizer que se importava sem, necessariamente, usufruir de palavras ensaiadas ou de um dicionário qualquer. Tinha seu modo de preocupar-se com Tadashi, embora muitas vezes não transparecesse. Ele, acima de tudo, tinha seu estilo de falar que jamais permitiria que a amizade deles acabasse.

Para Kei, não importava que Yamaguchi estivesse embolado em cobertas e se recusasse a vê-lo.

Não mesmo.

Não importava também, que seu coração estivesse irritado por conta da crise de ciúmes sem fundamentos que teve. A única coisa que realmente estava no seu alvo era a amizade que existia entre eles. E, se ela estivesse ameaçada, ele não se importaria de usar todas as suas armas.

— Isso é idiota, infantil e não tem lógica. Você não sabe o motivo de estar bravo comigo — o loiro alfinetou e se acomodou ao lado do bolinho de lençóis com recheio de Yamaguchi.

— Você quem começou! — replicou com a voz abafada.

— Ok, eu comecei o que? — ergueu uma de suas sobrancelhas e puxou delicadamente a parte do edredom que cobria a cabeça envolta em fios lisos acastanhados.

Tadashi soltou um muxoxo tristonho, bolou no colchão e rastejou de um jeito que sua cabeça encontrou o colo de Kei. Este, que se dispôs a acariciar os cabelos sedosos.

— Falou que eu não tinha atitude. — infantilmente baixou o tecido até abaixo do queixo. — E depois começou a me tratar muito, muito mal mesmo.

— Hm. — Kei calou-se de repente. Yamaguchi ergueu o campo de visão ao comparsa que veio a desviar os olhos e ajeitar os óculos que escorregavam pelo nariz fino. Yamaguchi vislumbrou o maxilar bem definido e a clavícula que aparecia graças a camisa gola V.

— Tá vendo, você nunca assume a culpa, sempre é eu isso, eu aquilo. Yamaguchi age por impulso e blá, blá, blá!

— Mas você age por impulso — calmamente tornou a mira-lo. Tadashi sentiu um instinto feroz de confrontá-lo e esfregar em sua cara todos os erros e vacilos já cometidos. Ah! Se ele começasse não terminaria tão cedo. — Mas eu assumo que agi errado — pigarreou o loiro. Yamaguchi bateu os cílios escuros numa expressividade surpresa, como quem perguntava o que estava acontecendo — Desta vez. — tornou a fugir dos olhos amendoados.

— Há! — comemorou e tornou a esconder-se em meio as cobertas gordinhas e calorentas. Kei deixou-se sorrir com tamanha infantilidade, mas logo viera a ficar sério. Com os dedos finos, puxou um pouco do tecido para baixo até que encontrou os orbes de Yamaguchi.

— Você é bobo Yams. — deu uma longa pausa para poder observar as expressões contorcidas em desagrado — Mas eu gosto de você.

Saiu quase que sem querer. As palavras haviam escorregado como sabão. Pareciam que tinham vida própria e isso, significava perigo.

Perigo, pois, se Kei não conseguia manter em sigilo uma sensação, o que mais ele deixaria escapar?

Tsukishima apenas deu-se por conta de suas palavras segundos depois. Arregalou os olhos, abriu e fechou a boca, aflito. Como poderia ter cometido tamanha gafe?

Suas bochechas esfoguearam, seu rosto vestia um tremendo espanto. Amaldiçoou-se. Jurou que se torturaria das piores formas possíveis quando chegassem em casa.

— Eu preciso ir — uma subtaneidade de lucidez correu por seu corpo junto a um jorro de adrenalina. Tsukishima queria correr, mas suas pernas estavam fixas naquela cama. Tadashi fora veloz. Antes que Kei pudesse juntar forças para erguer-se, livrou-se das cobertas e se fixou rente ao loiro atônito.

Deu o seu melhor sorriso. Retirou os óculos de armação preta e encostou a ponta do nariz na pálpebra de Kei e a empurrou.

— Também gosto de você, somos amigos, não? — tentou reconfortá-lo ao murmurar sobre a pele morna. Estava feliz, no fundo, fora tudo o que ele precisou ouvir para que a raiva esvaísse.

— Claro. — Kei fechou os olhos e apoiou as palmas no rosto de Tadashi — Amigos. — sorriu amarelo.

[...]

Naquele dia, a tarde caiu depressa.

A mulher de madeixas castanhas atravessou o arco da porta, enfurecida. Estava exausta e com dor na lombar. Bufava e soltava mil e uma lamúrias.

Ambos os garotos que jogavam vídeo-game sobressaltaram assustados. Miraram a adulta que jogava a bolsa numa estante vazia com violência e removia seu casaco molhado pela chuva. O som abafado das pequenas gotas que se chocavam no telhado, por muito tempo, foi a trilha sonora.

— Malditos — praguejou. Tadashi endureceu a coluna e esticou o pescoço, estava curioso para saber o que irritava sua mãe.

— Tudo bem? — murmurou baixinho, ainda incerto se deveria forçar espaço para perguntas.

— Nada bem! Acredita que um... Uma bichinha simplesmente veio reclamar do atendimento?! Há! — desdenhosa, ergueu a ponta do queixo e fitou o teto. Ela soltou ar por um pequeno bico que formou nos lábios e abanou o rosto com uma das palmas. Alguns botões de sua blusa estavam fora de suas respectivas casas.

Yamaguchi apenas sorriu constrangido e voltou sua atenção a televisão. Kei, que até então observou calado, decidiu manifestar-se.

— Bichinha? — fincou suas sobrancelhas.

— Um gay imundo! Ele realmente acha que é digno ao menos de passar por um médico? A única medicina que ele precisa é pra curar essa doença que faz ele... Grr! — vociferava pelos quatro cantos da casa, até que se instalou na cozinha. Seu salto-alto, aos ouvidos de Tsukishima, fazia um ruído irritante. Kei esperou que Tadashi falasse algo defensor, como já estava habituado. Coisa que não aconteceu. O loiro observou o amigo que agia extremamente natural perante a situação.

Aquilo, de certa forma, chamou-lhe a atenção. Por alguns instantes, correu pela mente do jogador que seu amigo poderia sim ter o mesmo pensamento que a mulher.

— Você... Se importaria se outro garoto gostasse de você? — sussurrou baixo, de modo que mãe embravecida não escutasse.

— Seria estranho — soltou ar pelo nariz com quê de riso — Eu respeito, tenho nada contra. Acho fofo até, mas se acontecesse comigo seria muito estranho.

— Entendi... — Algo no interior de Kei pareceu se partir — Eu achei que... Sei lá, você achasse um pouco mais natural, entende?

— Ah, por isso você ficou todo estranho? — Yamaguchi não se conteve em rir — Relaxa, eu mandei a foto numa boa, ok?

— Ok... — mirou o chão por alguns instantes e ergueu seus olhos instantes depois deu play no jogo. Tsukishima remexia-se inquieto e perdia vários pontos para Tadashi, este, que virou-se rapidamente para o loiro.

— Para disso, joga direito! — fincou suas sobrancelhas. Kei inspirou e deixou o controle sobre a mesinha. Virou-se vagarosamente para o amigo e o mirou com cautela. Tsukishima temia que as palavras caíssem por sua boca que nem da última vez. Não entendia como poderia simplesmente falar para ele que, de certa forma, era gay.

De certa forma porque, por mais estranho que soe, Kei se via atraído por Yamaguchi apenas, embora que em sua mente não passasse de uma fase que iria acabar daqui um dia ou dois.

Talvez em semanas ou meses. Ele não sabia ao certo quando nem onde aquela sensação maluca e dolorida iria morrer, mas o fato de que um dia sua existência seria aniquilada lhe dava conforto.

Ainda que Tadashi tivesse curvas afeminadas e um jeito um pouco dócil, ele não gostava de homens. Consequentemente, se Kei perdesse as rédeas da situação e abrisse mais uma vez a boca, poderia perder um grande amigo.

Céus. Sua cabeça estava um inferno.

Seus dedos não obedeciam, estavam duros. Seu corpo suava e sua mente apenas dizia o quão trouxa havia sido por ter deixado suas barreiras caírem.

“Como?” questionava-se.

Como poderia sentir ciúmes de algo que não o pertencia?

Como poderia querer protege-lo de tudo e de todos?

Como havia criado uma necessidade de estar perto de Yamaguchi, assim, sem mais nem menos?

De onde diabos havia surgido aquela ideia idiota de se apaixonar por seu melhor amigo?

Como? Cacete.

Afligido de pensamentos inoportunos, Kei se enfureceu e ergueu-se. As palavras travaram na garganta e pressionaram. Pressão essa que provocou uma reação no corpo de Tsukishima, a vontade de chorar.

— Tsukki? — em baixo tom, Yamaguchi o requisitou. Fita-lo de pé com as mãos na cintura prestes a surtar foi assustador. — Você está bem?

— Não! — rosnou entredentes — Eu não estou nada bem — suas pálpebras estavam avermelhadas e a ira adornava seu rosto — E a culpa é inteiramente, completamente, inquestionavelmente sua! — acusou e simplesmente saiu pela porta da frente.

Deixou para trás um Yamaguchi ainda mais magoado e confuso.

@Kei Saiu do grupo.