Verdade ou Consequência outra vez?

2 Consequências Inesperadas


Harry ainda tinha a mesma feição carrancuda quando Gina e Pansy desceram as escadas gargalhando. Hermione realmente não sabia de onde havia vindo aquela intimidade toda das duas. Elas nunca foram amigas, pelo contrário, sempre trocaram farpas. Talvez isso tivesse começado a mudar recentemente, mas ainda assim, ver as duas tão próximas deixava Hermione intrigada. Ela se perguntava quando isso aconteceu, tentando se lembrar de algum momento específico que justificasse essa aproximação.

— O que aconteceu lá? — Blasie Zabini foi o primeiro a se pronunciar, curioso.

— Ele tentou beijar ela... — contou Pansy aos risos, mas antes que Harry pudesse expressar qualquer reação, continuou: — Mas ela acabou por bater nele. — Deu de ombros, sentando-se novamente na roda, fazendo a expressão de Harry mudar.

Gina foi até o namorado antes de voltar para o seu lugar e lhe deu um beijo, sussurrando algo em seu ouvido, fazendo-o sorrir em seguida. Quando se sentou ao lado de Hermione novamente, deu um sorriso para a amiga e girou a varinha em sua frente. A sala estava silenciosa, mas o ambiente parecia carregado de tensões não ditas, como se todos ali estivessem esperando algo acontecer.

Viu quando a varinha parou com uma ponta em Draco e, para o desgosto do sonserino, com a outra em Rony, que sorriu satisfeito.

— Verdade ou consequência?

— Verdade.

Ronald Weasley pareceu pensar em algo para perguntar ao outro, mas Hermione tinha a impressão que ele já tinha a pergunta em sua mente desde o começo daquele jogo idiota. Ele sempre parecia ter algo entalado na garganta quando se tratava de Draco, algo que Hermione não conseguia decifrar completamente.

— Com quem...

— Inapropriado, Weasley. — Draco Malfoy o cortou antes que o outro pudesse concluir a frase, deixando todos curiosos, exceto por Blasie, que também pareceu entender.

— Você nem me deixou concluir, Malfoy...

— Não foi preciso. Vamos dizer que você é bem... previsível. — O sonserino provocou, mas havia algo na voz de Draco que não era apenas provocação. Hermione sentiu um frio na espinha ao perceber a tensão crescente entre os dois. Havia algo mais por trás daquela pergunta, algo que ela não conseguia entender.

— Tá legal! — Gina Weasley os interrompeu antes que Rony pudesse retrucar. — Vocês podem explicar às demais pessoas na sala sobre o que estão falando?

Malfoy encarou Hermione com os olhos tempestuosos sem responder à pergunta da ruiva, fazendo com que os pelos do braço da menina se arrepiassem. Sentiu seu estômago embrulhar e seu rosto se avermelhar quando Blasie Zabini se pronunciou, quebrando o silêncio que se instalara.

— O Weasley quis perguntar com quem o Draco perdeu o cabaço.

Malfoy encarou o outro no mesmo instante, tirando os olhos da menina à sua frente. Blasie pareceu compreender o que o olhar do amigo dizia e, com uma rápida passada de olhos em Hermione, desculpou-se.

— Rony! — Gina exclamou, irritada com o irmão.

Hermione sentiu suas entranhas se contorcerem e os olhares sobre si apenas fizeram a sensação piorar. Mexeu-se desconfortável, com a cabeça baixa e encarando as mãos, tentando ignorar a onda de calor que subia pelo seu pescoço. Imaginava que Rony havia feito aquela pergunta para provocá-los.

Odiava Rony Weasley por ter pensado em fazer aquela pergunta e odiava ainda mais Draco Malfoy por fazê-la sentir-se daquele jeito, como se tivesse sido exposta de alguma forma.

— Mude essa pergunta agora mesmo, Ronald Weasley! — A irmã mais nova ralhou, em uma imitação perfeita da mãe.

— Quê? — Ronald se opôs com as orelhas vermelhas. — Eu não vou mudar nada! Por que defende ele? Quando essa doninha idiota me fez aquela pergunta meses atrás...

— Vocês estão brigando por quê? — Hermione questionou, vencendo todas as sensações que a preenchiam. Tentou soar o mais indiferente possível com a situação ao continuar: — Vamos logo, Malfoy, responda a pergunta. É só um jogo idiota.

— Obrigada, Mione — Rony tentou, satisfeito com a atitude da amiga.

— Cale a boca, Ronald — pediu grosseiramente, encarando o loiro à sua frente.

Todos assistiram em silêncio Draco Malfoy deixar seus olhos pousados sobre os dela por minutos antes de responder. Cada segundo parecia se estender, e Hermione sentiu seu coração apertar. Ela já sabia que poderia receber aquela resposta, mas algo dentro dela esperava que não fosse verdade.

— Pansy.

Ninguém disse nada depois disso, e Hermione não ousou olhar para a garota e nem para ninguém que estava ali. Sentiu um nó se formar em sua garganta, e o calor que subia pelo seu corpo fez com que sua visão ficasse turva por alguns segundos. Respirou fundo, tentando manter a compostura.

Então é verdade... Pansy? — pensou, sentindo uma mistura de alívio e decepção. Ela sabia que não deveria se importar, que não tinha o direito de sentir nada em relação a isso, mas o fato de Draco ter estado com Pansy, e ouvir aquilo em bom tom, doía de uma maneira que ela não sabia explicar.

— Que ótimo, o Weasley estragou tudo. Ninguém avisou ele? — Blasie falou irritado, olhando um por um.

Hermione franziu a testa e o encarou.

— Avisar sobre o quê?

Ninguém respondeu sua pergunta. Ela olhou para Draco, que ainda a encarava com aquele mesmo olhar, e depois para Gina, que virou os olhos e pegou a varinha do meio, a girando novamente. A sala estava tão silenciosa que o som da varinha girando parecia ecoar nas paredes.

— Na verdade, avisamos ao Rony — começou a menina enquanto a varinha girava. — Mas meu irmão é muito egoísta e só se importa com seus próprios sentimentos e vingança.

— Harry! — exclamou o ruivo, gesticulando com as mãos para que o amigo o defendesse.

— Ela tem razão, Rony — concluiu Harry, arrancando uma feição de surpresa do outro.

Hermione tentava entender o que acontecia ali, mas, mesmo assim, não fazia ideia do que eles falavam. Sentia-se cada vez mais deslocada naquela situação, como se estivesse fora de sintonia com todos ao seu redor.

— O que vocês estão falando? — questionou ela mais uma vez, sendo ignorada. — Eu juro que, se não me responderem, vou me levantar daqui e nunca mais voltar.

— Não seja tão dramática, Sabe-Tudo — Blásio Zabini brincou, tentando aliviar a tensão.

Hermione havia percebido há um tempo que os alunos da sonserina pararam misteriosamente de chamá-la de sangue ruim, e não deixava de imaginar se havia sido Draco que os fez parar.

— Tá legal. — Gina se fez soar novamente, apontando para a varinha, que havia parado nela e em Malfoy. — É melhor você saber consertar as merdas do meu irmão, Malfoy, se não você realmente não está preparado para isso.

— Para isso o quê?! — Hermione irritou-se, levantando a voz. Estava cansada de ser deixada de lado, de não entender o que estava acontecendo.

— Cale a boca, Hermione, e escuta. — A ruiva mandou, fazendo a amiga se calar, ainda mais irritada. Hermione sentiu seu peito se encher de frustração e raiva, mas decidiu ouvir o que Malfoy tinha a dizer.

Olhou para as íris cinzas, se perdendo mais uma vez, entre tantas, lá. Havia algo nos olhos de Draco que a desconcertava, algo que fazia seu coração bater mais rápido. Por que ele sempre conseguia a desestabilizar assim?

Ele suspirou, parecendo ponderar sobre o que dizer.

— Eu realmente não sei o que te dizer agora, Granger, então... Verdade ou consequência?

Hermione arqueou uma de suas sobrancelhas, confusa com a situação. Ainda estava irritada, ainda não sabia do que se tratava o assunto anterior, e certamente não queria responder àquela pergunta estúpida. Queria se levantar dali e ir embora. Subir para seu dormitório e dormir a noite inteira e o dia seguinte inteiro. Mas algo nos olhos de Draco a fez hesitar.

Olhando para o cinza, seu peito se encheu mais uma vez, e tudo o que a imensidão a dizia era para confiar nele.

— Consequência.

Draco Malfoy sorriu, aquele seu sorriso de canto sacana que ele dava nos piores momentos para irritá-la. Aquele sorriso que tirava o seu fôlego e a fazia suspirar sem perceber. Ela sabia que havia respondido da maneira que ele gostaria.

Não estava mais irritada, apenas curiosa. O encarava enquanto aguardava a resposta

— Namore comigo, Granger.

Por um segundo, o ar pareceu fugir dos pulmões de Hermione. Ela o encarou, incrédula. Seu coração martelava no peito, e a cabeça girava com mil pensamentos. Ela não sabia se estava ouvindo direito. Draco Malfoy acabara de pedir namorasse com ele?

Riu descrente, olhando ao redor para confirmar que todos estavam observando o loiro. Eles não pareciam surpresos ou pareciam achar aquilo uma piada. Pelo contrário, todos pareciam segurar o ar em expectativa. Exceto Rony que, de braços cruzados, olhava ao redor, evitando olhar para ela. Isso é real. Ele realmente estava pedindo que ela...

— Que tipo de consequência é essa? — perguntou tentando fazer sua voz soar firme, mas falhou. Estava confusa, perdida, e, acima de tudo, apavorada. Por que ele estava fazendo isso?

— Você aceitou a consequência — ele respondeu, agora com um olhar mais sério. — E essa é a consequência. Namore comigo.

Hermione sentiu as mãos começarem a suar, e o calor que subia por sua espinha parecia a sufocar. Ela não sabia como reagir, o que dizer. Tudo dentro dela estava em conflito, uma parte queria sair correndo, outra queria entender o porquê desse pedido. E se ele estivesse brincando com ela? E se isso fosse só mais uma de suas provocações?

Mas o olhar de Draco não deixava transparecer nada disso. Ele estava sério, talvez até mesmo nervoso. E, de alguma forma, isso a fez se acalmar. Respirou fundo, tentando processar tudo.

— Por quê? — perguntou finalmente, sua voz quase um sussurro.

— Porque eu te amo, Hermione. E porque não posso perder você.